Dom Quixote

Miguel de Cervantes · Capítulo 27 de 137

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Dom Quixote

Capítulo XIX

da inteligente conversa que sancho

manteve com seu amo e da aventura

que lhe sucedeu com um defunto,

com outros acontecimentos famosos

— Eu acho, meu senhor, que todas essas desventuras que nos

aconteceram esses dias foram, sem dúvida, castigo pelo pecado

cometido por vossa mercê contra a ordem da cavalaria, ao não

cumprir o juramento que fez de não comer pão à mesa nem se divertir

com a rainha e todo o resto da promessa, até tirar aquele casquete de

Malandrino, ou como se chama o mouro, que não me lembro bem.

— Tens toda razão, Sancho — disse dom Quixote. — Mas, para te

dizer a verdade, isso tinha me escapado da memória, e também podes

ter certeza de que te aconteceu aquilo da manta por culpa de não teres

me lembrado a tempo. Mas eu farei a emenda, porque em tudo na

ordem da cavalaria pode-se dar um jeito.

— Por acaso jurei alguma coisa? — respondeu Sancho.

— Não importa que não tenhas jurado: pelo que entendo, basta tua

simpatia por minha causa para que não estejas muito seguro, como

quem anda com excomungados — disse dom Quixote. — Então, pelo

sim ou pelo não, será melhor remediarmos esse negócio.

— Pois se é assim — disse Sancho —, veja vossa mercê se não

esquece de novo o juramento: talvez os fantasmas resolvam se divertir

outra vez comigo e até mesmo com vossa mercê, se o virem tão

impenitente.

Em conversas assim a noite os alcançou no meio do caminho, sem

terem nem descobrirem onde se recolher; e o pior é que morriam de

fome, pois, com o sumiço dos alforjes, se foram todas as provisões e demais bugigangas. E, para completar essa desgraça, aconteceu com

eles uma aventura que, sem artifício algum, parecia um artifício de

verdade. A noite se fechou um tanto escura, mas apesar disso eles

continuaram, Sancho acreditando que, visto aquela ser a estrada real,

com certeza se encontraria alguma estalagem a uma ou duas léguas.

Indo então dessa maneira, a noite escura, o escudeiro faminto e o

amo louco para comer, viram que pela mesma estrada que iam se

aproximava deles uma miríade de luzes que pareciam estrelas errantes.

Sancho ficou pasmo ao avistá-las e dom Quixote sentiu um tanto

apagadas as de sua mente: um puxou o cabresto do burro, o outro as

rédeas do pangaré — e parados, olhando atentamente o que podia ser

aquilo, notaram que as luzes iam se aproximando e, quanto mais

perto, maiores pareciam. Com isso Sancho começou a tremer como

vara verde, e os cabelos de dom Quixote se eriçaram. Mas, animando-

se um pouco, o fidalgo disse:

— Esta, sem dúvida, Sancho, deve ser uma grande e perigosíssima

aventura, onde será necessário que eu mostre toda a minha audácia e

valentia.

— Ai de mim! — respondeu Sancho. — Se por acaso esta aventura

for de fantasmas, como está me parecendo, onde haverá costelas que

aguentem?!

— Por mais fantasmas que sejam — disse dom Quixote —, não consentirei que toquem num fio de teus cabelos. Se na outra vez

zombaram de ti, foi porque não pude saltar o muro do pátio, mas

agora estamos em campo aberto, onde poderei esgrimir minha espada

como quiser.

— E se o encantarem e o paralisarem, como da outra vez — disse

Sancho —, de que adiantará estar em campo aberto ou não?

— Mesmo assim, Sancho — replicou dom Quixote —, peço que

tenhas coragem, que a experiência vai te mostrar a que tenho.

— Terei, sim, se Deus quiser — respondeu Sancho.

E, afastando-se os dois para um lado da estrada, voltaram a olhar

atentamente as luzes que andavam, sem atinar com o que poderia ser,

e dali a pouco avistaram muitos homens de branco,1 cuja terrível visão

acabou com a coragem de Sancho Pança, que começou a bater os

dentes como quem tem frio de febre; e cresceu mais ainda a bateção de

dentes quando viram distintamente o que era: umas vinte figuras de

túnica, todas a cavalo, com grandes círios acesos nas mãos, seguidas

por uma liteira coberta de luto e por outros seis cavaleiros enlutados

até as patas das mulas, pois viram muito bem que não eram cavalos

pela calma com que caminhavam. Os cavaleiros de branco murmuravam entre si, em voz compassiva. Essa estranha visão,

naquelas horas e naquele descampado, era mais que suficiente para

botar medo no coração de Sancho e até mesmo no de seu amo, ou só

no de dom Quixote, já que havia muito Sancho mandara sua coragem

ao diabo. Mas o que aconteceu com o amo foi o contrário, porque

naquele ponto sua imaginação pintou com total clareza uma das

aventuras de seus livros.

Pensou que a liteira era uma padiola onde devia ir algum cavaleiro

morto ou gravemente ferido, cuja vingança estava reservada apenas a

ele. Assim, sem pensar mais, o chuço em riste, firmou-se bem na sela e

com graça e garbo se postou no meio da estrada por onde

forçosamente os cavaleiros de branco haveriam de passar. Quando os

viu perto, levantou a voz:

— Detende-vos, cavaleiros, ou quem quer que sejais, e prestai-me

conta de quem sois, de onde vindes, para onde ides e o que é que

levais naquela padiola, pois pelo visto haveis feito ou outros vos

fizeram alguma afronta, e convém e é necessário que eu o saiba, ou para castigar-vos pelo mal que cometestes, ou para vingar-vos da

injúria que vos fizeram.

— Estamos com pressa — respondeu um dos homens de branco —, e

a estalagem está longe: não podemos parar para responder a tudo que

perguntais.

E, esporeando a mula, seguiu adiante. Dom Quixote se ressentiu

muito com essa resposta e, agarrando-lhe as rédeas, disse:

— Detende-vos, sede mais bem-educado e prestai-me conta do que

perguntei; se não, tereis todos de se haver em combate comigo.

Como a mula era assustadiça, ao lhe agarrarem as rédeas se

espantou de tal modo que, empinando-se nas patas, atirou seu dono

ao chão pelas ancas. Um rapaz que ia a pé, vendo cair o homem de

branco, começou a descompor dom Quixote; e ele, já encolerizado,

sem esperar mais, o chuço em riste, investiu contra um dos enlutados,

pondo-o ferido por terra; e, voltando-se para os demais, era coisa de

se ver a rapidez com que os acometia e desbaratava, pois parecia que

naquele instante haviam nascido asas em Rocinante, tão ligeiro e

orgulhoso andava.

Todos os homens de branco eram pessoas medrosas e desarmadas;

assim, num instante abandonaram a refrega e começaram a correr

pelo campo, com os círios acesos, não parecendo mais do que os

mascarados que andam por aí em noite de festa e folia. Os enlutados

não podiam se mexer, revoltos e envoltos em suas batinas e sotainas,

de modo que dom Quixote também espancou a todos sem problema,

fazendo-os debandar apavorados, porque todos pensaram que aquele

não era homem, mas o diabo em pessoa que vinha do inferno lhes

roubar o morto que levavam na liteira.

Sancho olhava tudo, maravilhado com o atrevimento de seu senhor,

e dizia a si mesmo:

— Sem dúvida, este meu amo é tão valente e audacioso como diz.

Um círio ardia no chão, perto do primeiro que caíra da mula, e à sua

luz dom Quixote pôde vê-lo. Aproximando-se, pôs a ponta do chuço

no rosto dele, dizendo-lhe que se rendesse, do contrário o mataria. O

caído respondeu:

— Mais do que rendido estou, pois não posso me mexer: tenho uma perna quebrada. Suplico a vossa mercê, se é cavaleiro cristão, que não

me mate, pois cometerá um grande sacrilégio: sou licenciado, já recebi

as primeiras ordens.

— Mas que diabo vos trouxe aqui — disse dom Quixote —, sendo

homem da Igreja?

— Quem, senhor? — replicou o caído. — Minha desventura.

— Pois outra maior vos ameaça — disse dom Quixote —, se não me

responderdes tudo o que perguntei antes.

— Vossa mercê será satisfeito facilmente — respondeu o licenciado.

— Saiba vossa mercê que, embora eu tenha dito antes que era

licenciado, sou apenas bacharel e me chamo Alonso López; sou

natural de Alcobendas; venho da cidade de Baeza, com outros onze

sacerdotes, que são os que fugiram com os círios; vamos à cidade de

Segóvia acompanhando um morto, que está naquela liteira. É o corpo

de um cavalheiro que morreu em Baeza, onde esteve enterrado

provisoriamente, e agora, como disse, levávamos seus ossos para sua

sepultura, que é em Segóvia, de onde é natural.

— E quem o matou? — perguntou dom Quixote.

— Deus, por meio de umas febres pestilentas — respondeu o

bacharel.

— Desse modo — disse dom Quixote —, livrou-me Nosso Senhor do

trabalho que eu teria ao vingar sua morte, se outro o tivesse matado;

mas, tendo-o matado quem o matou, devo calar e encolher os ombros,

porque assim o faria se matasse a mim mesmo. E quero que saiba

vossa reverência que eu sou um cavaleiro da Mancha, chamado dom

Quixote, e é meu ofício e exercício andar pelo mundo reparando

afrontas e desfazendo agravos.

— Não entendi isso de reparar e desfazer — disse o noviço —, pois

eu era feito e me desfizestes, deixando-me uma perna quebrada, perna

que nunca mais se verá reparada na vida; e o agravo que desfizestes

em mim foi me deixar agravado de tal maneira que agravado ficarei

para sempre. Grande desventura foi topar com vós, que ides buscando

aventuras.

— Nem todas as coisas acontecem de um mesmo modo — disse dom

Quixote. — O mal, senhor bacharel Alonso López, foi terdes vindo como viestes, de noite, vestido com aquelas sobrepelizes, com os círios

acesos, rezando, coberto de luto, que parecíeis realmente coisa ruim e

do outro mundo; assim, não pude deixar de cumprir com minha

obrigação, atacando-vos, e vos atacaria mesmo que soubesse que éreis

os próprios satanases do inferno, que por isso vos julguei e considerei

sempre.

— Já que assim quis minha sorte — disse o bacharel —, suplico a

vossa mercê, senhor cavaleiro andante que em tão má andança me

meteu, que me ajude a sair de debaixo da mula, porque tenho presa

uma perna entre o estribo e a sela.

— Diacho, por que não falastes antes?! — disse dom Quixote. —

Por que tardastes tanto para me comunicar vosso apuro?

Em seguida gritou para que Sancho Pança viesse, mas ele nem

pensou nisso, porque andava ocupado saqueando uma mula de carga,

bem abastecida de coisas de comer, que aqueles bons senhores traziam.

Sancho fez um saco com seu gabão e, recolhendo tudo o que pôde e

coube ali, carregou seu jumento; depois acudiu aos gritos de seu amo e

ajudou a tirar o senhor bacharel de debaixo da mula, montando-o

nela e lhe entregando o círio. Dom Quixote disse-lhe que seguisse o caminho de seus companheiros e lhes pedisse perdão de sua parte pelo

agravo, que não esteve em sua mão deixar de cometer. Sancho também

lhe disse:

— Se por acaso esses senhores quiserem saber quem foi o valente que

os pôs a correr, diga-lhes vossa mercê que é o famoso dom Quixote,

também conhecido pelo nome de Cavaleiro da Triste Figura.

Com essa se foi o bacharel, e dom Quixote perguntou a Sancho o

que o tinha levado a chamá-lo “Cavaleiro da Triste Figura”,

justamente agora.

— Foi porque — respondeu Sancho — estive olhando-o um instante,

à luz do círio daquele pobre coitado, e realmente vossa mercê tem a

pior figura que vi nos últimos tempos. Deve ser por causa do cansaço

deste combate, ou pela falta dos molares.

— Não é por isso — respondeu dom Quixote —, mas porque o

mago que deve estar encarregado de escrever a história de minhas

façanhas achou que seria bom que eu tivesse algum apelido, como

tinham todos os cavaleiros antigos: um se chamava o da Espada Ardente, outro o do Unicórnio, aquele o das Donzelas, aquele outro o

da Ave Fênix, este o Cavaleiro do Grifo, este outro o da Morte. Por

esses nomes e insígnias eram conhecidos por toda a redondeza da

terra. Por isso digo que o mago de que falei pôs em tua língua e em

teu pensamento que me chamasses o Cavaleiro da Triste Figura,

alcunha que penso adotar de agora em diante; e logo que possível vou

mandar pintar em meu escudo uma figura muito triste, para que esse

nome me caia melhor.

— Não vejo por que gastar tempo e dinheiro fazendo essa figura —

disse Sancho. — Basta que vossa mercê revele a sua e ofereça o rosto

aos que o olham, que, sem mais nem menos, sem outra imagem ou

escudo, o chamarão o da Triste Figura. E acredite que lhe digo a

verdade, porque garanto a vossa mercê, senhor, embora na

brincadeira, que a fome e a falta dos dentes o deixam tão mal-

encarado que muito bem poderá se dispensar a triste pintura, como já

disse.

Dom Quixote riu da graça de Sancho; mas, mesmo assim, resolveu

adotar aquele nome, logo que pudesse pintar seu escudo, ou rodela,

como havia imaginado.

[Nisso voltou o bacharel e disse a dom Quixote]:2

— Havia me esquecido de avisar que vossa mercê está

excomungado, por ter posto as mãos violentamente em coisa sagrada,

iuxta illud, “si quis suadente diabolo”3 etc.

— Não entendo esse latinório — respondeu dom Quixote —, mas sei

muito bem que não pus as mãos, mas este chuço; além do mais, não

pensei que ofendia sacerdotes nem coisas da Igreja, a quem respeito e

adoro como católico e fiel cristão que sou, mas sim a fantasmas e

monstros do outro mundo. E, ainda que assim fosse, tenho na

memória o que aconteceu com Cid Ruy Díaz, quando quebrou a

cadeira do embaixador daquele rei diante de Sua Santidade o papa,

que o excomungou por isso, e naquele dia o bom Rodrigo de Vivar

andou como cavaleiro muito honrado e valente.

Ouvindo isso, o bacharel se foi, como se disse, sem replicar uma

palavra. E dom Quixote ficou com vontade de examinar o corpo que

vinha na liteira, para ver se eram só ossos ou não, mas Sancho não

consentiu, dizendo-lhe:

— Senhor, vossa mercê saiu-se desta perigosa aventura mais ileso do

que em todas as que vi; esses homens, embora batidos e desbaratados,

poderiam se dar conta de que foram vencidos por uma pessoa apenas

e, confusos e envergonhados com isso, voltarem a se reunir e a nos

procurar, e nos darem o que fazer. O burro está como convém, a

montanha, perto, e a fome apertando: o melhor a fazer é uma retirada

num bom ritmo e, como dizem, que vá o morto à sepultura e o vivo à

ventura.

E, tocando o burro, rogou a seu senhor que o acompanhasse; o

fidalgo, achando que Sancho tinha razão, sem reclamar o seguiu. E

pouco depois, andando entre duas montanhas, se acharam num vale

grande e escondido, onde apearam e Sancho aliviou o jumento.

Estendidos sobre a grama verde, com o tempero da fome, almoçaram,

comeram, merendaram e jantaram ao mesmo tempo, satisfazendo os

estômagos com mais de um pedaço de carne que os senhores clérigos

do defunto — que poucas vezes se deixam passar mal — traziam em

sua mula de carga.

Mas aconteceu-lhes outra desgraça, que Sancho considerou a pior de

todas: acossados pela sede, não tinham vinho, nem mesmo água para levar à boca. Mas Sancho, vendo que o campo estava coberto de uma

grama miúda e verdejante, disse o que se contará no próximo

capítulo.

 

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