Dom Quixote

Miguel de Cervantes · Capítulo 105 de 137

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Dom Quixote

Capítulo XLIV

como sancho pança foi levado ao governo,

e da estranha aventura que

aconteceu a dom quixote no castelo

Dizem que no manuscrito original desta história se lê que Cide

Hamete, chegando a este capítulo, escreveu que seu intérprete não o

traduziu como ele o havia escrito, uma espécie de queixa que o mouro

fez de si mesmo por ter tomado entre as mãos uma história tão seca e

tão limitada como esta de dom Quixote, por lhe parecer que sempre

havia de falar dele e de Sancho, sem ousar se estender a outras

digressões e episódios mais sérios e mais divertidos. Acrescentou que

ter sempre o espírito, a mão e a pluma restritos a escrever sobre um só

assunto e falar pelas bocas de poucos personagens era um trabalho

insuportável, cujo fruto não redundava em favor de seu autor, e que

para fugir desse inconveniente havia usado na primeira parte o

artifício de algumas narrativas, como a do Curioso impertinente e a

do Capitão cativo, que estão como que separadas da trama, porque as

demais que ali se contam são casos acontecidos ao próprio dom

Quixote, que ele não poderia deixar de escrever. Também pensou,

como disse, que muitos, levados pela atenção que pedem as façanhas

de dom Quixote, não a dariam às narrativas, e passariam por elas ou

com pressa ou com exasperação, sem perceber a elegância e a

habilidade que contêm em si, coisa que seria bem evidente se saíssem à

luz separadamente, sem ser comparadas às loucuras de dom Quixote

nem às tolices de Sancho. Então, nesta segunda parte não quis

enxertar narrativas soltas nem postiças, mas alguns episódios que

assim parecessem, nascidos porém dos próprios acontecimentos que a

verdade oferece, e mesmo estes em número limitado e apenas com as palavras que bastam para contá-los. Assim, visto que Cide Hamete se

contém e se encerra nos estreitos limites da narração, tendo a aptidão,

a capacidade e o entendimento para tratar do universo todo, pede que

não se despreze seu trabalho, e o elogiem não pelo que escreve, mas

pelo que deixou de escrever.

Em seguida, prossegue a história dizendo que logo que acabou de

almoçar, no dia que deu os conselhos a Sancho, à tarde dom Quixote

os entregou escritos para que o escudeiro procurasse quem os pudesse

ler para ele. Mas, apenas os deu, caíram no chão e foram parar nas

mãos do duque, que os mostrou à duquesa, e os dois se admiraram de

novo da loucura e da capacidade de dom Quixote. Assim, levando

adiante suas brincadeiras, naquela tarde enviaram Sancho com grande

séquito ao lugar que para ele haveria de ser a ilha.

Aconteceu que o homem encarregado da situação era um

administrador do duque, muito inteligente e muito engraçado — pois

não pode haver graça onde não há inteligência —, que tinha feito o

papel da condessa Trifaldi com a elegância com que foi registrado; por

isso e por ter sido instruído por seus senhores sobre como devia agir

com Sancho, saiu-se maravilhosamente em sua empresa. Então, assim

que Sancho topou com o tal administrador, viu em seu rosto o mesmo

da Trifaldi e, virando-se para seu amo, disse:

— Senhor, que o diabo me carregue daqui agora mesmo, sem choro nem vela, ou vossa mercê há de me confessar que o rosto deste

administrador do duque, que está ali, é o mesmo da Dolorida.

Dom Quixote olhou atentamente o administrador e depois disse a

Sancho:

— O diabo não tem motivo nenhum para te carregar, Sancho, nem

com choro e vela, nem agora nem daqui a pouco, pois não sei o que

queres dizer: o rosto da Dolorida é o do administrador, mas nem por

isso o administrador é a Dolorida, pois, se fosse, implicaria uma

contradição muito grande, e agora não é hora de fazer essas

averiguações, pois seria entrarmos em labirintos dos mais intrincados.

Acredite-me, amigo, é preciso suplicar a Nosso Senhor, suplicar para

valer que nos livre de feiticeiros e de magos perversos.

— Não é brincadeira, senhor — replicou Sancho. — Antes, quando

ouvi o administrador falar, me pareceu que a voz da Trifaldi ressoava

em meus ouvidos. Muito bem, vou me calar, mas não deixarei de

andar prevenido daqui por diante, para ver se revela outro sinal que

confirme ou desfaça minha suspeita.

— É o que deves fazer, Sancho — disse dom Quixote —, e me avisar

de tudo o que descobrires neste caso e de tudo aquilo que te acontecer no governo.

Por fim, Sancho saiu acompanhado por muita gente. Estava vestido

como um letrado, e tinha por cima um gabão muito largo de

chamalote ondulado, cor de leão, e um gorro do mesmo tecido. Ia

montado à gineta num mulo, e atrás dele, por ordem do duque, ia o

burro ruço com arreios e ornamentos burricais de seda flamante.

Sancho virava a cabeça de tanto em tanto para olhar o burro, em cuja

companhia ia tão alegre que não trocaria de lugar com o imperador

da Alemanha.

Ao se despedir dos duques, beijou as mãos deles, e tomou a bênção

de seu senhor, que a deu com lágrimas, e Sancho a recebeu fazendo

beicinho.

Deixa, leitor amável, o bom Sancho ir em paz e em boa hora e

espera dois bocados de riso que irão te causar ao saber como se

portou no cargo. Enquanto isso, presta atenção ao que aconteceu a

seu amo naquela noite, que, se não rires com isso, pelo menos abrirás

os lábios com uma risada de macaca, porque as façanhas de dom Quixote devem ser celebradas ou com admiração ou com riso.

Enfim, conta-se que, mal Sancho tinha partido, dom Quixote sentiu

saudade dele e, se fosse possível revogar a nomeação e tomar o

governo dele, era o que teria feito. A duquesa percebeu sua melancolia

e lhe perguntou por que estava triste, se era pela ausência de Sancho,

pois havia em sua casa escudeiros, damas e aias que lhe serviriam

conforme seu desejo.

— É verdade, minha senhora — respondeu dom Quixote —, que

sinto a ausência de Sancho, mas essa não é a causa principal que me

faz parecer triste. E das muitas gentilezas que vossa excelência me faz

somente aceito e escolho a de vossa boa vontade; quanto ao resto,

suplico a vossa excelência que dentro de meu aposento consinta e

permita que apenas eu sirva a mim mesmo.

— Na verdade, senhor dom Quixote — disse a duquesa —, não há

de ser assim, pois quatro de minhas aias, formosas como flores, irão

servi-lo.

— Para mim elas não serão como flores — respondeu dom Quixote

—, mas como espinhos que me ferem a alma. Elas só entrarão em meu

aposento, ou coisa parecida, se vierem voando. Se é que vossa grandeza quer levar adiante o fazer-me mercê sem eu merecê-la, deixe

que eu me arrume sozinho e que sirva a mim mesmo na intimidade,

que eu ponha uma muralha entre meus desejos e minha virtude. E não

quero perder esse costume por força da generosidade que vossa alteza

quer mostrar comigo. Em suma, prefiro dormir vestido que consentir

que alguém me dispa.

— Chega, senhor dom Quixote, chega — replicou a duquesa. —

Garanto que darei ordem para que nem uma mosca entre em seu

quarto, nem falemos de uma aia: não sou eu a pessoa que vai

desbaratar a decência do senhor dom Quixote, pois, conforme

percebi, entre suas muitas virtudes a mais saliente é o recato. Dispa-se

e vista-se vossa mercê a sós e a seu modo como e quando quiser, que

não haverá quem o impeça, pois dentro de seu aposento encontrará os

utensílios necessários a quem dorme a portas fechadas, para que

nenhuma necessidade natural o obrigue a abri-las. Viva mil séculos a

grande Dulcineia del Toboso, e que seu nome se espalhe por toda a

esfericidade da terra, pois mereceu ser amada por tão valente e tão virtuoso cavaleiro, e os céus benignos infundam no coração de Sancho

Pança, nosso governador, o desejo de acabar de uma vez com seus

açoites, para que o mundo volte a desfrutar da beleza de tão nobre

senhora.

A isso, dom Quixote disse:

— Vossa altitude falou como quem é, pois na boca das boas

senhoras não deve haver nenhuma outra senhora que seja má; e mais

venturosa e mais conhecida será no mundo Dulcineia por vossa

grandeza tê-la elogiado que por todos os elogios que podem lhe dar os

mais eloquentes da terra.

— Muito bem, senhor dom Quixote — replicou a duquesa —, a

hora do jantar se aproxima e o duque deve estar esperando: venha

vossa mercê e jantemos, e vamos dormir cedo, pois a viagem que fez

ontem de Candaia não foi tão curta que não o tenha deixado meio

moído.

— Não deixou nem um pouco, senhora — respondeu dom Quixote

—, porque ousarei jurar a vossa excelência que nunca em minha vida

montei animal mais calmo nem de melhor trote que Cravelenho, e não sei o que pode ter levado Malambruno a se desfazer de tão rápida e

tão gentil cavalgadura, incendiando-a assim sem mais nem menos.

— Bem — respondeu a duquesa —, pode-se imaginar que,

arrependido pelo mal que havia feito à Trifaldi e companhia, e a

outras pessoas, e das maldades que deve ter cometido como mago e

feiticeiro, quis acabar com todos os instrumentos de seu ofício. Como

Cravelenho era o principal deles e o que mais o atormentava, vagando

de terra em terra, queimou-o. Mas, com suas cinzas ardentes e com o

troféu do cartaz, permanece eterna a coragem do grande dom Quixote

de la Mancha.

Dom Quixote agradeceu de novo à duquesa e, depois do jantar, se

retirou sozinho para seu quarto, sem consentir que ninguém entrasse

com ele para servi-lo, tanto temia se deparar com ocasiões que o

levassem ou o forçassem a perder o virtuoso decoro que devia a sua

senhora Dulcineia, tendo sempre presente na imaginação a

honestidade de Amadis, flor e espelho dos cavaleiros andantes. Fechou

a porta atrás de si e, à luz de duas velas de cera, se despiu, mas, ao se descalçar — oh, desgraça indigna de sua pessoa! —, deixou escapar

não suspiros nem outros sopros que difamassem sua educação, mas

umas duas dúzias de pontos de uma das meias, que ficou feita uma

gelosia. O bom senhor se afligiu ao extremo e teria dado uma onça de

prata por um pouco de seda verde (digo seda verde porque as meias

eram verdes).

Aqui Benengeli exclamou e, escrevendo, disse: “Oh, pobreza,

pobreza! Não sei que razão levou aquele grande poeta cordovês1 a te

chamar ‘dádiva santa mal-agradecida’! Eu, embora mouro, bem sei,

pelo contato que tive com cristãos, que a santidade consiste na

caridade, humildade, fé, obediência e pobreza; mas, apesar disso, digo

que deve ter muito de Deus aquele que vier a se contentar com ser

pobre, se não for daquele tipo de pobreza de que fala um de seus

maiores santos: ‘Tende todas as coisas como se não as tivesses’;2 e a

isso chamam pobreza de espírito. Mas tu, pobreza material, que é de

quem falo, por que queres afrontar os fidalgos bem-nascidos mais que

ao resto das pessoas? Por que os obrigas a remendar os calçados e a

que os botões de suas capas sejam uns de seda, outros de crina e outros de vidro? Por que na maioria das vezes seus colarinhos devem

ser sempre amassados e não engomados?”.

Nisso se pode ver como é antigo o uso da goma e dos colarinhos

modelados em onda. E prosseguiu ele: “Coitado do bem-nascido que

sustenta sua honra a duras penas, comendo mal e às escondidas,

tornando hipócrita o palito com que sai à rua depois de não ter

comido coisa que o obrigue a limpar os dentes! Coitado daquele,

repito, que tem a honra assustadiça e pensa que de uma légua se

enxerga o remendo no sapato, a mancha de suor no chapéu, a capa

puída e a fome no estômago!”.

Tudo isso dom Quixote lembrou com os pontos soltos, mas se

consolou ao ver que Sancho havia deixado umas botas de cano alto,

que pensou calçar no outro dia. Finalmente, ele se recostou, pensativo

e pesaroso, tanto pela falta que Sancho lhe fazia como pela irreparável

desgraça de suas meias, que poderia remendar mesmo com fio de seda

de outra cor, que é um dos maiores sinais de miséria que um fidalgo

pode dar em meio a suas inumeráveis penúrias. Apagou as velas; fazia calor e não conseguia dormir; então se levantou da cama e abriu um

pouco a janela de grade que dava para um belo jardim, e ao abri-la

percebeu e ouviu umas pessoas que andavam e falavam lá embaixo.

Ficou à escuta, atentamente. As vozes se elevaram, tanto que pôde

ouvir estas palavras:

— Não teimes comigo, Emerência, pois sabes que, desde que esse

forasteiro entrou neste castelo e meus olhos o viram, não sei mais

cantar, apenas chorar. Além do mais, o sono de minha senhora é antes

leve que pesado, e não gostaria que nos achasse aqui nem por todos os

tesouros do mundo. Mas, mesmo que ela dormisse e não acordasse,

meu canto seria em vão se dorme e não acordar para ouvi-lo este novo

Eneias, que chegou a minha terra para me humilhar.

— Não digas isso, querida Altisidora — responderam —, pois sem

dúvida a duquesa e todos os outros nesta casa dormem, menos o

senhor de teu coração, aquele que despertou tua alma, porque percebi

agora que abria a janela de seu quarto, e sem dúvida está acordado.

Canta, minha pobre amiga, em tom baixo e suave, ao som de tua

harpa, e, quando a duquesa perceber, poremos a culpa no calor que

faz.

— Não é essa a questão, Emerência — Altisidora respondeu. — Não

gostaria que meu canto revelasse meu coração e eu fosse julgada, pelos

que não têm notícia das forças poderosas do amor, como uma donzela

caprichosa e leviana. Mas, aconteça o que acontecer, mais vale

vergonha na cara que um ultraje no coração.

E nisso se escutou tocar uma harpa muito suavemente. Ouvindo-a,

dom Quixote ficou pasmo, porque naquele instante lhe vieram à

memória inúmeras aventuras semelhantes àquela, com janelas, grades

e jardins, galanteios e desmaios que havia lido em seus desatinados

livros de cavalaria. Logo imaginou que alguma aia da duquesa estava

apaixonada por ele e que a virtude a forçava a manter seus

sentimentos em segredo. Teve medo de se render a ela, mas resolveu

não se deixar vencer e, encomendando-se com toda a sua alma e toda

a sua força a sua senhora Dulcineia del Toboso, decidiu escutar a

música. Para dar a entender que estava ali, deu um espirro falso, o que

muito alegrou as aias, que só desejavam que dom Quixote as ouvisse.

Dedilhada e afinada a harpa, Altisidora deu início a esta balada:

— Oh, tu, que estás em teu leito,

entre lençóis de linho,

dormindo a sono solto

da noite até a manhã,

cavaleiro o mais valente

que produziu a Mancha,

mais honesto e mais bendito

que o ouro fino da Arábia!

Ouve a uma triste donzela

bem-nascida e malograda,

que na luz de teus dois sóis

sente a alma se abrasar.

Tu buscas tuas aventuras

e desgraças alheias achas;

causas feridas e negas

o remédio para curá-las.

Diz-me, jovem corajoso

— que Deus realize teus desejos —,

se te criaste na Líbia

ou nas montanhas de Jaca,

se serpentes te deram leite,

se acaso foram tuas amas

a aspereza das selvas

e o horror das montanhas.

Pode muito bem Dulcineia,

donzela sã e gorducha,

orgulhar-se de que domou

um tigre, uma fera brava.

Por isso será famosa

desde Henares a Jarama,

do Tejo a Manzanares,

desde Pisuerga até Arlanza.

Eu trocaria de lugar com ela

e ainda daria uma saia

das mais adornadas que tenho,

a barra com franjas de ouro.

Oh, quem se visse em teus braços

ou, então, ao lado de tua cama,

coçando-te a cabeça

e te tirando a caspa!

Peço muito e não sou digna

de favor tão elevado:

os pés gostaria de massagear-te,

pois a uma humilde isto basta.

Oh, quantas toucas te daria,

quantos escarpins bordados de prata,

quantas calças de damasco,

quantas capas de linho!

Quantas pérolas finíssimas,

cada qual como uma pinha,

que, por não ter companheiras,

“as solitárias”3 se chamariam!

Não olhes de tua Tarpeia4

este incêndio que me consome,

Nero manchego do mundo,

não o avives com tua sanha.

Sou menina, donzela inocente;

minha idade de quinze não passa:

tenho catorze e três meses,

te juro por Deus e minha alma.

Não sou renga, nem sou coxa,

nem tenho nada de manca;

em pé, meus cabelos,

como lírios, pelo chão se arrastam;

embora minha boca seja aquilina

e o nariz um pouco chato,

por ser meus dentes de topázios,

minha beleza o céu exalta.

Minha voz, já vês, se me escutas,

à que é mais doce iguala,

e sou de compleição

um tanto menos que mediana.

Estas e outras graças minhas

são troféus das setas de tua aljava;

desta casa sou aia

e Altisidora me chamam.a

Aqui acabou o canto da mortalmente ferida Altisidora e começou o

espanto do cortejado dom Quixote, que, dando um grande suspiro,

disse a si mesmo:

— E dizer que tenho de ser um cavaleiro tão desgraçado que não há

donzela que me olhe sem me amar! E dizer que tenha de ser tão curta

a ventura da sem-par Dulcineia del Toboso que não irão deixá-la

desfrutar sozinha de minha incomparável constância! O que quereis

dela, rainhas? Por que a perseguis, imperatrizes? Por que a acossais,

donzelas de catorze a quinze anos? Deixai, deixai que a pobre triunfe,

regozije-se e se ufane com a sorte que o Amor quis lhe dar ao lhe

render meu coração e lhe entregar minha alma. Reparai, corja

apaixonada: apenas para Dulcineia sou de merengue e açúcar, para as

outras sou de rocha viva; para ela sou mel, para vós, fel. Para mim,

apenas Dulcineia é a formosa, a inteligente, a virtuosa, a galharda e a

bem-nascida, as demais, as feias, as tolas, as levianas e as de pior linhagem. Para ser dela, e não de alguma outra, a natureza me botou

no mundo. Chore ou cante Altisidora, desespere-se a grande senhora

Maritornes, por quem me moeram no castelo do mouro encantado,

pois eu tenho de ser de Dulcineia de qualquer jeito, assim ou assado,

limpo, educado e casto, apesar de todas as potestades feiticeiras da

terra.

Com isso fechou a janela com uma pancada e, ressentido e pesaroso

como se tivesse lhe acontecido alguma enorme desgraça, se deitou em

sua cama, onde o deixaremos por ora, porque está nos chamando o

grande Sancho Pança, que quer dar início a seu famoso governo.

a — ¡Oh tú, que estás en tu lecho,/ entre sábanas de holanda,/ durmiendo a pierna tendida/ de la noche a la mañana,// caballero el más valiente/ que ha producido la Mancha,/ más honesto y más bendito/ que el oro fino de Arabia!// Oye a una triste doncella/ bien crecida y mal lograda,/ que en la luz de tus dos soles/ se siente abrasar el alma.// Tú buscas tus aventuras/ y ajenas desdichas hallas;/ das las feridas, y niegas/ el remedio de sanarlas.// Dime, valeroso joven,/ que Dios prospere tus ansias,/ si te criaste en la Libia,/ o en las montañas de Jaca;// si sierpes te dieron leche;// si a dicha fueron tus amas/ la aspereza de las selvas/ y el horror de las montañas.// Muy bien puede Dulcinea,/ doncella rolliza y sana,/ preciarse de que ha rendido/ a una tigre y fiera brava.// Por esto será famosa/ desde Henares a Jarama,/ desde el Tajo a Manzanares,/ desde Pisuerga hasta Arlanza.// Trocárame yo por ella/ y diera encima una saya/ de las más gayadas mías,/ que de oro le adornan franjas.// ¡Oh, quién se viera en tus brazos,/ o, si no, junto a tu cama,/ rascándote la cabeza/ y matándote la caspa!// Mucho pido y no soy digna/ de merced tan señalada:/ los pies quisiera traerte,/ que a una humilde esto le basta.// ¡Oh, qué de cofias te diera,/ qué de escarpines de plata,/ qué de calzas de damasco,/ qué de herreruelos de Holanda!// ¡Qué de finísimas perlas,/ cada cual como una agalla,/ que a no tener compañeras/ “las solas” fueran llamadas!// No mires de tu Tarpeya/ este incendio que me abrasa,/ Nerón manchego del mundo,/ ni le avives con tu saña.// Niña soy, pulcela tierna;/ mi edad de quince no pasa:/ catorce tengo y tres meses,/ te juro en Dios y en mi ánima.// No soy renca, ni soy coja,/ ni tengo nada de manca;/ los cabellos, como lirios,/ que, en pie, por el suelo arrastran;// y aunque es mi boca aguileña/ y la nariz algo chata,/ ser mis dientes de topacios/ mi belleza al cielo ensalza.// Mi voz, ya ves, si me escuchas,/ que a la que es más dulce iguala,/ y soy de disposición/ algo menos que mediana.// Estas y otras gracias mías,/ son despojos de tu aljaba;/ de esta casa soy doncella,/ y Altisidora me llaman.

 

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