Dom Quixote

Miguel de Cervantes · Capítulo 66 de 137

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Dom Quixote

Capítulo V

 

da sábia e divertida conversa

que aconteceu entre sancho pança

e sua mulher, teresa pança,

e outros fatos dignos de feliz lembrança

Chegando ao quinto capítulo desta história, o tradutor diz que o

considera apócrifo, porque nele Sancho Pança fala com um estilo bem

diferente do que podia se esperar de seu espírito tacanho e diz coisas

tão sutis que não considera possível que ele as soubesse, mas que não

quis deixar de traduzi-lo por dever de ofício. Então prosseguiu como

se segue.

Sancho chegou em casa tão contente que sua mulher viu sua alegria

a tiro de balestra; tanto que ela se viu obrigada a lhe perguntar:

— O que houve, meu amigo Sancho, para virdes tão alegre?

Ao que ele respondeu:

— Minha velha, se Deus quisesse, eu estaria feliz de não estar tão

contente como demonstro.

— Não vos entendo, marido — replicou ela. — Não sei o que

quereis dizer com isso, pois, embora boba, não sei quem fica contente

por não estar contente.

— Olha, Teresa — respondeu Sancho —, estou alegre porque decidi

voltar a servir meu amo dom Quixote, que quer sair pela terceira vez

em busca de aventuras. Eu vou sair com ele de novo porque assim o

quer minha necessidade, junto com a esperança que me alegra de

pensar se poderei achar outros cem escudos como os que já gastamos,

mas me entristece ter de me separar de ti e de meus filhos. Se Deus

quisesse me dar de comer sem que eu precisasse mexer uma palha e em

minha casa, sem me levar por veredas e encruzilhadas, pois podia fazer com pouco custo e nada mais que querendo, é claro que minha

alegria seria mais firme e mais viva, pois a que tenho vem misturada

com a tristeza de te deixar. Por isso disse que, se Deus quisesse, eu

estaria feliz de não estar contente.

— Reparai, Sancho — replicou Teresa —, depois que vos tornastes

perna ou braço de cavaleiro andante, falais de modo tão enrolado que não há quem vos entenda.

— Basta que Deus me entenda, mulher — respondeu Sancho —, pois

Ele é o entendedor de todas as coisas, e vamos ficar por aqui. E

reparai, irmã, que é bom cuidar bem do burro nesses três dias, de

modo que esteja pronto para pegar em armas: dobrai a ração dele,

examinai a albarda e demais apetrechos, porque não vamos a uma

festa e sim correr mundo, entrar em toma lá dá cá com gigantes, com

ogros e dragões, e ouvir silvos, rugidos, brados e uivos. Mas isso tudo

seriam flores se não tivéssemos de nos entender com galegos e com

mouros encantados.

— Bem sei, marido — replicou Teresa —, que os escudeiros não

comem o pão de mão beijada, então ficarei rogando a Nosso Senhor

que vos livre logo de tantos perigos.

— Eu vos digo, mulher — respondeu Sancho —, que, se não

pensasse em me ver governador de uma ilha em pouco tempo, cairia

morto aqui.

— Isso não, meu querido — disse Teresa. — Viva o sabujo, mesmo sem faro: vivei vós e que o diabo carregue todos os governos do

mundo. Sem governo saístes do ventre de vossa mãe, sem governo

vivestes até agora e sem governo ireis, ou vos levarão, à sepultura

quando Deus assim desejar. Há muitos que vivem sem governo e nem

por isso deixam de viver e de ser contados entre as pessoas. O melhor

tempero do mundo é a fome; e, como ela não falta aos pobres, eles

sempre comem com prazer. Mas olhai, Sancho, se por acaso vos verdes

com algum governo, não vos esqueceis de mim e de vossos filhos.

Lembrai que Sanchinho já tem quinze anos feitos e precisa ir à escola,

se é que seu tio o padre vai fazê-lo entrar na Igreja. Olhai também que

Mari Sancha, vossa filha, não morrerá se a casarmos, pois ando

desconfiada de que deseja tanto ter marido como vós desejais ser

governador. E depois, no fim das contas, é melhor uma filha

malcasada que bem amigada.

— Juro que, se Deus me der um tiquinho de governo — respondeu

Sancho —, devo casar Mari Sancha tão nobremente que não a

chamarão menos que “senhoria”.

— Isso não, Sancho — respondeu Teresa. — Casai-a com um igual,

que é o mais acertado, pois, se a tirardes dos tamancos para sapatos finos e da saia parda de burel para sedas e veludos, de “Maricota” e

de “tu” para “dona fulana” e “senhoria”, a menina não vai se

acostumar e vai cometer mil erros a cada passo, mostrando o que há

por baixo do verniz.

— Calada, boba — disse Sancho. — Basta uns dois ou três anos de

prática e os modos nobres e graves virão como sob medida. Se não,

que importa? Seja ela senhoria e aconteça o que acontecer.

— Contentai-vos, Sancho, com vossa condição — respondeu Teresa

—, não queirais vos meter entre os grandes e lembrai-vos do ditado:

“Cada ovelha com sua parelha”. Claro que seria bonito casar nossa

Maria com um condezão ou um cavalheirote que a insultasse, quando

lhe desse na veneta, chamando-a de camponesa, filha do grosso e da

pé-rapada! Só por cima de meu cadáver, marido! Com certeza não

criei minha filha para isso! Trazei dinheiro, Sancho, e deixai comigo

esse negócio de casá-la, que aí está Lope Tosco, o filho do João Tosco,

moço gordo e saudável, que conhecemos, e sei que não olha com maus

olhos a moça. Com esse, que é nosso igual, estará bem casada, e a teremos sempre sob nossos olhos, e seremos todos um só, pais e filhos,

netos e genros, e andará entre nós a paz e a bênção de Deus. Não,

nada de casá-la agora nessas cortes e nesses palácios grandes, onde

não a entendam nem ela se entenda.

— Vem cá, sua besta, mulher de Barrabás — replicou Sancho —, por

que queres agora, sem mais nem menos, dificultar que eu case minha

filha com quem me dê netos que se chamem “senhoria”? Olha, Teresa,

sempre vi meus avós dizerem que quem não sabe aproveitar a sorte

quando ela aparece não deve se queixar quando ela passa; e não seria

direito virar as costas para ela agora que está batendo em nossa porta:

vamos nos deixar levar por esse vento favorável que nos sopra.

Por esse jeito de falar e pelo que Sancho diz mais abaixo, o tradutor

desta história considerava este capítulo apócrifo.

— Não te parece bom, sua burra — prosseguiu Sancho —, eu dar

com os costados em algum governo proveitoso que nos leve a tirar o

pé do barro? Se Mari Sancha casar com quem eu quiser, verás como te

chamarão de “dona Teresa Pança” e na igreja te sentarás em

tapetinhos de seda, almofadas e colchas, a despeito das fidalgas do

povoado. Mas não, queres ser sempre a mesma, sem crescer nem diminuir, como figura de tapeçaria! E não falemos mais disso, que

Sanchinha vai ser condessa, por mais que tu me amoles.

— Vede o que dizeis, meu velho? — respondeu Teresa. — Pois,

apesar de tudo, temo que este condado de minha filha vai ser a

perdição dela. Fazei o que quiserdes de Mari, duquesa ou princesa,

mas vos garanto que isso será contra minha vontade e sem meu

consentimento. Sempre, meu irmão, fui amiga de meus iguais, e não

posso ver presunções sem fundamento. Fui batizada como “Teresa”,

nome curto e grosso, sem acréscimos nem babados, nem enfeites de

“dons” e “donas”; “Cascalho” se chamou meu pai; e a mim, por ser

vossa mulher, chamam “Teresa Pança”, mesmo que devessem me

chamar “Teresa Cascalho”, mas lá vão os reis onde querem as leis, e

com esse nome me contento, sem que me ponham um “dom” em cima

que pese tanto que não possa carregar, e não quero dar o que falar aos

que me virem andar vestida à moda de condessas ou de governadoras,

que logo dirão: “Vede como vai emproada a bruaca! Ontem não se

fartava de fiar estopa e ia à missa com a cabeça coberta com a barra da saia, em vez de mantilha, e hoje vai de vestido rodado, com broches

e toda metida, como se não soubéssemos quem é”. Se Deus me

guardar meus sete, ou meus cinco sentidos,1 ou seja lá quantos eu

tenha, não penso dar oportunidade de me ver nesse aperto. Vós, meu

irmão, ide ser governo ou ilhado, e emproai-vos à vontade, que nem

minha filha nem eu, pela salvação eterna de minha mãe, arredaremos

um passo de nossa aldeia: para mulher honrada e a perna quebrada:

casa; para donzela honesta o trabalho é sua festa. Ide com vosso dom

Quixote a vossas aventuras e deixai-nos com nossas más venturas, que

Deus nos ajudará se formos boas. E eu com certeza não sei quem o

chamou de “dom”, pois assim não se chamaram seus pais nem seus

avós.

— Agora sei — replicou Sancho — que tens o diabo no corpo. Por

Deus, mulher, que enfiada de asneiras sem pé nem cabeça! O que é que

têm a ver o cascalho, os broches, os ditados e se emproar com o que

eu digo? Vem cá, sua mentecapta ignorante, pois assim posso te

chamar, porque não entendeste minhas palavras e vais fugindo da

sorte: se eu dissesse para minha filha se atirar do alto de uma torre, ou

se fosse por esses mundos como quis ir a infanta dona Urraca,2 terias razão de não concordar comigo. Mas se em duas palavras e num

piscar de olhos pespego em tuas costas um “dom” e uma “senhoria” e

te tiro da lavoura e te ponho sob um dossel e num pedestal e num

estrado com mais almofadas de veludo que tiveram os mouros da

linhagem dos Almofades do Marrocos, por que tu não haverias de

consentir e querer o que eu quero?

— Sabeis por quê, meu velho? — respondeu Teresa. — Por causa do

ditado que diz: “A desgraça do pobre é imitar o rico”. Todos passam

os olhos por alto pelos pobres, mas param nos ricos, de modo que, se

o dito rico foi pobre alguma vez, ali começam os mexericos e as

maledicências, e o pior é que os mexeriqueiros são teimosos, e há

mexeriqueiros aos montes nessas ruas, como enxames de abelhas.

— Olha, Teresa — respondeu Sancho —, e escuta bem, porque

talvez não tenhas ouvido em todos os dias de tua vida o que vou te

dizer agora, mas não penses que tirei de minha própria cabeça, pois

tudo o que penso falar são sentenças do padre que apareceu aqui no

povoado para pregar na última quaresma; ele, se bem me lembro, disse que todas as coisas que nossos olhos estão olhando se

apresentam a nossa mente muito melhor e com muito mais clareza que

as coisas passadas.

Todas essas observações que Sancho faz aqui são a segunda razão

que levou o tradutor a considerar este capítulo apócrifo, pois excedem

a capacidade do escudeiro, que prosseguiu, dizendo:

— Por que, quando vemos alguma pessoa nos trinques, usando

lindas roupas e com pompa de criados, parece que uma força nos

move e nos leva a ter respeito, embora a memória naquele instante nos

apresente alguma baixeza em que vimos essa pessoa? Como a

ignomínia, seja de pobreza ou de linhagem, agora é passado, não

existe mais, e a pessoa só é o que vemos no presente. E se essa pessoa,

a quem a sorte tirou do barro original de sua pobreza (com essas

mesmas palavras o padre disse) e elevou à nobreza de sua

prosperidade, for bem-educada, generosa e polida com todos, e não se

meter a discutir com aqueles que são nobres por antiguidade, podes

crer, Teresa, não haverá quem se lembre do que foi, pelo contrário,

irão reverenciar o que é agora, menos os invejosos, de quem nenhuma

boa sorte está segura.

— Eu não vos entendo, meu velho — replicou Teresa. — Fazei o que

quiserdes e não me quebreis mais a cabeça com vossas arengas e

oratórias. E se estais revolvido em fazer o que dizeis…

— Deves dizer resolvido, mulher — disse Sancho —, não revolvido…

— Basta de discutir comigo, meu velho — respondeu Teresa. — Eu

falo como Deus permite e não arroto tainha se comi sardinha. E digo

que, se estais teimando em ser governador, então levai junto vosso

filho Sancho, para que desde já o ensineis a ter governo, pois é bom

que os filhos herdem e aprendam os ofícios de seus pais.

— Logo que for governador — disse Sancho —, mandarei buscá-lo

às pressas e te enviarei dinheiro, que não me faltará, pois nunca falta

quem empreste aos governadores quando não o têm. Então, veste-o de

modo que dissimule o que é e pareça o que há de ser.

— Enviai o dinheiro — disse Teresa —, que eu o mandarei

endomingado.

— Então estamos de acordo — disse Sancho — em que nossa filha

deve ser condessa.

— No dia em que eu a vir condessa — respondeu Teresa —, farei de

conta que a enterro. Mas outra vez vos digo que façais o que tiverdes

vontade, que nós mulheres nascemos com essa cruz, ser obedientes a

seus maridos, mesmo que sejam uns parvos.

E então começou a chorar para valer, como se já visse Sanchinha

morta e enterrada. Sancho a consolou dizendo que, já que tinha de

fazer a filha condessa, faria tudo o mais tarde possível. Assim acabou

a conversa, e Sancho voltou para ver dom Quixote e tomar as

providências para a partida.

 

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