Dom Quixote

Miguel de Cervantes · Capítulo 52 de 137

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Dom Quixote

Capítulo XLIV

onde prosseguem os acontecimentos

inauditos da estalagem

Foram tantos os gritos que dom Quixote deu que, abrindo as portas

da estalagem às pressas, o estalajadeiro saiu espavorido para ver quem

berrava e os que tinham chegado, que não berravam menos.

Maritornes, que também tinha acordado com os mesmos gritos,

imaginando muito bem o que devia ser, foi ao palheiro e, sem que

ninguém visse, desatou o cabresto que prendia dom Quixote, e ele

logo foi parar no chão, à vista do estalajadeiro e dos viajantes, que,

aproximando-se dele, perguntaram o que tinha que berrava daquele

jeito. Ele, sem responder uma palavra, tirou a corda do pulso e,

erguendo-se, montou em Rocinante, enfiou o braço na adarga, botou

o chuço em riste, tomou uma boa distância no campo e voltou a meio-

galope, dizendo:

— Se alguém disser que fui encantado por motivos justos, logo que

minha senhora a princesa Micomicona me der licença para isso, eu o

desminto, desafio e enfrento em combate singular.

Os viajantes ficaram surpresos com essas palavras, mas o

estalajadeiro os tirou daquela surpresa dizendo que aquele era dom

Quixote e que não deviam fazer caso dele, porque tinha perdido o

juízo.

Perguntaram ao estalajadeiro se por acaso chegara àquela estalagem

um rapaz de uns quinze anos, que vinha vestido como moço de mulas,

que era assim e assim, dando as características do apaixonado por

dona Clara. O estalajadeiro respondeu que havia tanta gente na

estalagem que não tinha reparado nesse por quem perguntavam. Mas,

tendo um deles visto a carruagem em que vinha o ouvidor, disse:

— Deve estar aqui, sem dúvida, porque essa é a carruagem que

dizem que ele segue. Um de nós fica na porta e os outros entram para

procurá-lo; e seria bom que um também rodeasse toda a estalagem,

para que ele não fugisse pela cerca do pátio.

— Então vamos lá — respondeu um deles.

E dois deles entraram, um ficou à porta e o outro foi dar a volta à

estalagem, sob o olhar do estalajadeiro, que não atinava por que

faziam aquelas manobras, embora tivesse entendido muito bem que

procuravam o rapaz que haviam descrito.

A essas alturas o dia clareava, e tanto por isso como pelo barulho

que dom Quixote tinha feito, estavam todos acordados e se

levantavam, sendo as primeiras dona Clara e Doroteia, que haviam

dormido muito mal aquela noite, uma preocupada por ter o

apaixonado tão perto e a outra ansiosa para conhecê-lo. Dom

Quixote, ao ver que nenhum dos quatro viajantes ligava para ele nem

aceitava seu desafio, morria de raiva e despeito; e, se ele encontrasse

nos estatutos de sua cavalaria que o cavaleiro andante podia

licitamente se meter em outra aventura tendo empenhado sua palavra

de não aceitar nenhuma até ter cumprido a promessa, atacaria a todos

e os faria responder contra a vontade. Mas, por não lhe parecer

conveniente nem ficar bem começar uma nova aventura até pôr

Micomicona em seu trono, teve de calar e ficar quieto, esperando para ver no que iam dar as manobras daqueles viajantes. Nisso, um deles

encontrou o rapaz que procurava dormindo ao lado de um moço das

mulas, sem preocupações de que alguém o procurasse e muito menos

de que o achasse. O homem o agarrou pelo braço e disse:

— Sem dúvida, senhor dom Luís, o traje que usais é bem adequando

a quem sois, e a cama onde vos acho está de acordo com os mimos

com que vossa mãe vos criou.

O rapaz esfregou os olhos sonolentos e olhou demoradamente para

o homem que o tinha segurado, mas em seguida reconheceu o criado

de seu pai — ficou tão assustado que não atinou ou não pôde falar

palavra nenhuma por um bom tempo. O criado prosseguiu:

— Não há mais o que fazer aqui, senhor dom Luís, além de aguentar

firme e partir para casa, se é que vossa mercê não deseja que seu pai e

meu senhor parta para o outro mundo, pois não se pode esperar outra

coisa da tristeza com que ficou por vosso sumiço.

— Mas como meu pai soube — disse dom Luís — que eu seguia este

caminho e com esta roupa?

— Um estudante — respondeu o criado — a quem confiastes vossos

segredos foi quem contou, de dó de ver o sofrimento de vosso pai quando deu por vossa falta. Então vosso pai despachou a nós quatro

para encontrá-lo, e todos estamos aqui a vosso serviço, mais alegres

do que se pode imaginar, pelas boas notícias com que voltaremos,

levando-vos aos olhos que tanto vos querem.

— Isso vai ser como eu quiser ou o céu ordenar — respondeu dom

Luís.

— Que haveis de querer ou o que o céu poderá ordenar, exceto

consentir que volteis? Porque outra coisa não será possível.

Todas essas palavras trocadas pelos dois foram ouvidas pelo moço

das mulas que estava junto com dom Luís. Então, levantando-se, foi

contar o que acontecia a dom Fernando, a Cardênio e aos outros, que

já haviam se vestido: o que falavam, como aquele homem chamava o

rapaz de “dom” e insistia em levá-lo para a casa de seu pai, e como ele

se negava. Por isso e pelo que sabiam dele pela bela voz que o céu lhe

concedera, ficaram muito curiosos para saber quem era realmente e

dispostos a ajudá-lo se quisessem forçá-lo a fazer alguma coisa, e

assim foram para onde ainda estava falando e teimando com seu criado.

Nisso, Doroteia saiu do quarto, e atrás dela dona Clara toda

preocupada. Doroteia chamou Cardênio à parte e contou a ele em

poucas palavras a história do músico e de dona Clara; Cardênio

também contou o que se passava com a chegada dos criados do pai

para levar o rapaz, mas não falou tão baixo que Clara deixasse de

ouvir, ficando tão fora de si que teria caído no chão, se Doroteia não a

segurasse. Cardênio disse a Doroteia que voltassem para o quarto, que

ele procuraria dar um jeito em tudo, e elas assim fizeram.

Todos os quatro criados que tinham vindo buscar dom Luís estavam

na estalagem em volta dele, tratando de persuadi-lo a que voltasse

logo sem se deter, para consolar seu pai. Ele respondia que de maneira

nenhuma podia fazer isso até terminar um negócio em que empenhara

a vida, a honra e a alma. Então os criados o encurralaram, dizendo

que não voltariam sem ele e que o levariam quisesse ou não quisesse.

— Só fareis isso se me levardes morto — replicou dom Luís. — Na

verdade, de qualquer modo que me levardes, ireis me levar sem vida.

Nessas alturas da discussão, haviam aparecido quase todos os que

estavam na estalagem, isto é, Cardênio, dom Fernando e seus companheiros, o ouvidor, o padre, o barbeiro e dom Quixote, que

tinha pensado que não havia mais necessidade de montar guarda ao

castelo. Cardênio, que já conhecia a história do rapaz, perguntou aos

criados por que queriam levá-lo contra a vontade.

— Porque queremos salvar a vida do pai dele — respondeu um dos

quatro —, pois, com a ausência deste cavaleiro, corre o risco de perdê-

la.

A isso dom Luís disse:

— Não há motivo para que se discutam aqui minhas coisas: eu sou

livre e só voltarei se tiver vontade, do contrário nenhum de vós me

forçará a fazê-lo.

— A razão vos forçará a fazê-lo — respondeu o homem —, e, se ela

não for suficiente, nós seremos suficientes para o que viemos e somos

obrigados a fazer.

— Vejamos essa história desde o começo — disse o ouvidor nesse

ponto.

Mas o homem, que o reconheceu como o vizinho de sua casa, respondeu:

— Vossa mercê, senhor ouvidor, não reconhece este cavaleiro? É o

filho de seu vizinho, que fugiu da casa do pai com essa roupa tão

indecente para sua posição, como vossa mercê bem pode ver.

O ouvidor olhou-o mais atentamente e, reconhecendo-o, abraçou-o e

disse:

— Que criancices ou que causas tão poderosas, dom Luís, o levaram

a vir dessa maneira, e nesse traje, que cai tão mal com vossa posição?

As lágrimas vieram aos olhos do rapaz, que não pôde responder uma

palavra. O ouvidor disse aos quatro que se acalmassem, que tudo

acabaria bem; e, pegando dom Luís pela mão, puxou-o para um lado

e perguntou por que fugira daquele jeito.

Enquanto o ouvidor fazia essa e outras perguntas, ouviram uma

gritaria à porta da estalagem, por causa de dois hóspedes que haviam

passado a noite ali: vendo aquela gente toda ocupada em saber o que

os quatro homens queriam, haviam tentado ir embora sem pagar o

que deviam; mas o estalajadeiro, que cuidava mais de seus negócios

que dos alheios, pegou-os ao cruzarem a porta, pediu seu pagamento e

insultou as más intenções deles com tais palavras que os levou a responderem com os punhos, dando tantos murros no estalajadeiro

que o coitado precisou gritar pedindo socorro. A estalajadeira e sua

filha não viram outro mais desocupado para poder socorrê-lo que

dom Quixote, a quem a moça disse:

— Socorrei meu pobre pai, senhor cavaleiro, pela graça que Deus

vos deu, pois dois homens maus estão batendo o pó dele como se fosse

um tapete.

A isso dom Quixote respondeu sem pressa mas com muita pachorra:

— Formosa donzela, por ora não posso atender a vossa súplica,

porque estou impedido de me meter em outra aventura enquanto não

concluir uma em que empenhei minha palavra. Mas o que poderei

fazer para vos servir é o que vos direi agora: correi e dizei a vosso pai

que trave essa batalha da melhor forma que puder e que não se deixe

vencer de jeito nenhum, enquanto eu peço licença à princesa

Micomicona para poder socorrê-lo em seu infortúnio, pois, se ela nos

for favorável, tende certeza de que eu o tirarei dele.

— Com os diabos! — disse então Maritornes, que estava por perto. — Antes que vossa mercê consiga essa licença, meu senhor já estará no

outro mundo.

— Deixai-me pedir a licença, senhora — respondeu dom Quixote —,

porque, logo que a tiver, tanto faz que ele esteja no outro mundo, pois

dali o tirarei mesmo que a própria natureza se oponha, ou pelo menos

vos vingarei de tal maneira dos que o enviaram para lá que ficareis

mais que razoavelmente satisfeita.

E sem dizer mais nada foi se ajoelhar diante de Doroteia, pedindo-

lhe com palavras cavaleirescas e andantescas que, por favor, sua

grandeza lhe concedesse licença de ir socorrer o senhor daquele

castelo, que estava em graves dificuldades. A princesa a deu de bom

grado, e ele, metendo o braço em sua adarga e empunhando sua

espada, correu para a porta da estalagem, onde os dois hóspedes ainda

traziam o estalajadeiro num cortado; mas, mal chegou, ficou pasmo e

quieto, embora Maritornes e a estalajadeira perguntassem por que se

detinha, que socorresse seu senhor e marido.

— Detenho-me — disse dom Quixote — porque não me é lícito

levantar a espada contra pajens; mas chamai aqui meu escudeiro

Sancho, que cabe a ele esta defesa e vingança.

Isso acontecia à porta da estalagem, onde os murros e bofetões

chegavam ao auge, tudo em prejuízo do estalajadeiro e raiva de sua

mulher, sua filha e Maritornes, que se desesperavam ao ver a covardia

de dom Quixote e o mau pedaço que passava seu marido, pai e amo.

Mas deixemos o estalajadeiro, que não faltará quem o socorra ou, se

não, que sofra e cale quem se atreve a mais do que suas forças

permitem, e voltemos atrás cinquenta passos para ver o que foi que

dom Luís respondeu ao ouvidor, que deixamos de lado, perguntando a

causa de sua vinda a pé e com roupas tão desprezíveis; a isso o rapaz

disse, segurando-lhe as mãos fortemente como se uma grande dor lhe

apertasse o coração e derramando lágrimas em abundância:

— Meu senhor, não sei o que vos dizer além de que, desde o instante

em que quis o céu e nossa vizinhança facilitou que eu visse vossa filha,

dona Clara é senhora de minha vontade, e, se a vossa não se opuser,

meu senhor e verdadeiro pai, neste mesmo dia ela deve ser minha

esposa. Por dona Clara deixei a casa de meu pai, por ela botei essas

roupas, para segui-la onde quer que fosse, como a seta ao alvo ou como o marinheiro ao norte. Ela não sabe de meus desejos mais do

que pôde entender pelas lágrimas que viu de longe algumas vezes meus

olhos chorarem. Já conheceis, senhor, a fortuna e a nobreza de meus

pais, e que sou seu único herdeiro: se vos parece que essas condições

são suficientes para que vos aventureis a me fazer em tudo venturoso,

recebei-me logo como vosso filho, pois se meu pai, levado por outros

desígnios, não aprovar a felicidade que eu soube encontrar, mais força

tem o tempo para desfazer e mudar as coisas que as vontades

humanas.

Então o rapaz apaixonado se calou, e o ouvidor ficou surpreso,

confuso e admirado ao ouvi-lo, tanto pelo modo e pela inteligência

com que dom Luís lhe revelara seu pensamento como por não saber

que decisão tomar em negócio tão repentino e inesperado. Por isso,

respondeu apenas que se acalmasse e convencesse seus criados a não

levá-lo naquele dia, para ter tempo de avaliar o que seria melhor para

todos. Dom Luís beijou as mãos dele à força e ainda as banhou com

lágrimas, coisa que poderia amolecer um coração de mármore, não só

o do ouvidor, que, como homem perspicaz, já havia entendido como

seria bom aquele casamento para sua filha. Mas, se fosse possível, gostaria de realizá-lo com o consentimento do pai de dom Luís, de

quem sabia que pretendia dar um título de nobreza ao filho.

Nessas alturas os hóspedes estavam em paz com o estalajadeiro, pois

dom Quixote, mais com bons argumentos que com ameaças, os tinha

persuadido a pagar tudo o que ele pedia, e os criados de dom Luís

esperavam o fim da conversa do ouvidor e a decisão de seu amo,

quando o demônio, que não dorme, ordenou que exatamente naquele

ponto chegasse à estalagem o barbeiro de quem dom Quixote havia

tirado o elmo de Mambrino, e Sancho Pança, os arreios do burro, que

trocara pelos seus. O tal barbeiro, levando seu jumento à estrebaria,

topou com Sancho Pança, que estava arrumando não sei quê da

albarda, e o reconheceu no mesmo instante em que o viu e se atreveu a

atacar Sancho, dizendo:

— Ah, dom ladrão, agora vos peguei! Passai para cá minha bacia e

minha albarda, com todos os apetrechos que me roubastes.

Sancho, que se viu atacado tão repentinamente e ouviu os insultos

que lhe dizia, com uma das mãos segurou a albarda e com a outra deu um bofetão no barbeiro, que lhe banhou os dentes em sangue. Mas

nem por isso o barbeiro largou a presa, isto é, a albarda; pelo

contrário, levantou a voz de tal maneira que todos os que estavam na

estalagem correram para ver a balbúrdia ou briga. Ele dizia:

— Socorro, meu rei! Justiça, por favor! Além de roubar minhas

coisas este ladrão quer me matar! Salteador de estrada!

— Mentis! — respondeu Sancho. — Não sou salteador de estrada

coisa nenhuma: estes despojos meu senhor dom Quixote ganhou em

boa guerra.

Dom Quixote correu lá, muito contente de ver como seu escudeiro se

defendia bem e contra-atacava. Dali por diante o considerou um

homem de verdade e decidiu, no fundo de seu coração, armá-lo

cavaleiro na primeira oportunidade que surgisse, por lhe parecer que

seria bem empregada nele a ordem da cavalaria.

Entre outras coisas que o barbeiro dizia em meio à briga, veio a dizer

esta:

— Senhores, esta albarda é minha como as contas que tenho de

prestar a Deus e a conheço como se a tivesse parido! E aí está meu

burro no estábulo, que não vai me deixar mentir: se duvidam, experimentem-na nele e, se não lhe servir como uma luva, eu passarei

por velhaco. E tem mais: no mesmo dia em que a roubaram,

roubaram-me também uma bacia novinha de latão, que valia um

escudo e eu nem tinha estreado.

Aqui dom Quixote não pôde conter uma resposta e, pondo-se entre

os dois e apartando-os, depositou a albarda no chão, como em juízo

até que a verdade fosse esclarecida:

— Para que vejam vossas mercês com clareza indiscutível o erro em

que está este bom escudeiro, pois chama de bacia ao que foi, é e será o

elmo de Mambrino, que tirei dele em leal combate, tornando-me assim

legítima e licitamente seu dono! No negócio da albarda não me meto,

mas o que posso dizer é que meu escudeiro Sancho me pediu licença

para pegar os jaezes do cavalo deste covarde derrotado e com eles

adornar o seu; eu a dei, e ele os pegou, mas como os jaezes se

transformaram em albarda só pode se explicar pela razão mais

comum: essas transformações acontecem nas aventuras de cavalaria.

Para confirmar isso, corre, Sancho, meu filho, e traz aqui o elmo que este bom homem diz ser bacia.

— Por Deus, senhor — disse Sancho —, se não temos outra prova de

nossas intenções além dessa que o senhor diz, o elmo do Malino é tão

bacia como o jaez desse bom homem é albarda!

— Faz o que te mando — replicou dom Quixote. — Nem todas as

coisas neste castelo devem ser obra de encantamentos.

Sancho foi buscar a bacia; e, mal dom Quixote a viu, tomou-a nas

mãos e disse:

— Vejam vossas mercês com que cara pode este escudeiro dizer que

isto é uma bacia e não o elmo de que falei. Juro pela ordem de

cavalaria que professo que este elmo é o mesmo que eu peguei, sem ter

acrescentado nem tirado coisa alguma dele.

— Disso não há dúvida — disse Sancho nessa altura —, porque

desde que o senhor o ganhou até agora só travou uma batalha com

ele, quando libertou aqueles infelizes acorrentados; e, se não fosse por

esse bacielmo, não teria se saído muito bem, porque houve um bocado

de pedradas naquela aventura.

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