Dom Quixote

Miguel de Cervantes · Capítulo 39 de 137

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Dom Quixote

Capítulo XXXI

das saborosas conversas entre

dom quixote e sancho pança, seu escudeiro,

e outros acontecimentos

— Nada disso me desagrada; continua — disse dom Quixote. —

Chegaste, e então, que fazia aquela rainha da formosura? Aposto que

a encontraste ensartando pérolas num cordão ou bordando com ouro

uma divisa para este seu cavaleiro cativo.

— Nada disso — respondeu Sancho. — Estava peneirando duas

sacas de trigo num terreiro da casa.

— Pois faz de conta — disse dom Quixote — que os grãos de trigo

eram pérolas, quando tocados pelas mãos dela. E reparaste, meu

amigo, se o trigo era candial ou tremês?

— Era só trigo-mourisco — respondeu Sancho.

— Pois eu te garanto — disse dom Quixote — que, peneirado por

suas mãos, deu pão branco do melhor, sem dúvida nenhuma. Mas

vamos em frente: quando deste minha carta, ela a beijou? Levou-a ao

coração? Fez alguma cerimônia digna de tal carta, ou o quê?

— Quando eu a ia dar — respondeu Sancho —, ela estava

peneirando firme uma boa porção de trigo, e me disse: “Bota a carta

em cima daquele saco, amigo, que não posso ler até que acabe de

peneirar isso tudo”.

— Que tino! — disse dom Quixote. — Com certeza fez isso para ler

com calma e se regozijar com ela. Adiante, Sancho. E, enquanto estava

trabalhando, que falou contigo? O que te perguntou de mim? E tu, o

que respondeste? Vamos, conta-me tudo, não deixes de lado a menor

bagatela.

— Ela não me perguntou nada — disse Sancho —, mas eu lhe disse de que maneira vossa mercê tinha ficado, por causa dela, fazendo

penitência, nu da cintura para baixo, metido nessas serras como um

selvagem, dormindo no chão, sem comer seu pão à mesa nem pentear

as barbas, chorando e amaldiçoando sua sorte.

— Erraste ao dizer que amaldiçoava minha sorte — disse dom

Quixote —, porque antes a abençoo e abençoarei todos os dias de minha vida, por me fazer digno de merecer amar tão elevada senhora

como Dulcineia del Toboso.

— Com certeza — respondeu Sancho —, tão elevada que me passa

em mais de meio palmo.

— O quê, Sancho? — disse dom Quixote. — Tu te mediste com ela?

— Foi assim: aproximando-me para ajudar a botar um saco de trigo

sobre um jumento — disse Sancho —, ficamos tão perto que deu para

ver que me passava mais de um bom palmo.

— E não é verdade — disse dom Quixote — que acompanha e

adorna essa grandeza com mil milhões de graças do espírito? Mas não

me negarás uma coisa, Sancho: quando chegaste perto dela, não

sentiste um perfume de Sabá, uma fragrância aromática e um não sei

quê de bom, que não atino como chamar? Digo, uma emanação ou

eflúvio como se estivesse numa loja requintada de luvas

acondicionadas com âmbar e almíscar?

— O que eu sei — disse Sancho — é que senti um cheirinho um

tanto másculo, mas devia de ser porque ela, com tanto exercício, estava suada e meio sebosa.

— Não, isso não — respondeu dom Quixote. — Devias estar

resfriado ou então deves ter cheirado a ti mesmo, porque sei muito

bem ao que aquela rosa entre espinhos cheira, aquele lírio do campo,

aquele âmbar líquido.

— Pode ser — respondeu Sancho —, porque muitas vezes eu tenho

aquele cheiro que me pareceu então vir de sua mercê, a senhora

Dulcineia, mas não há do que se admirar, pois um diabo se parece

com outro.

— Muito bem — prosseguiu dom Quixote —, então ela acabou de

limpar seu trigo e de enviá-lo ao moinho. O que fez quando leu a

carta?

— Não leu a carta — disse Sancho —, porque disse que não sabia ler

nem escrever. Rasgou-a em pedacinhos, dizendo que não a queria dar

para ninguém ler, para que não se soubesse de seus segredos na vila, e

que bastavam as palavras que eu havia lhe dito sobre o amor que

vossa mercê tinha por ela e da penitência extraordinária que por causa

dela estava fazendo. E por fim me disse que dissesse a vossa mercê que

lhe beijava as mãos e que ali ficava com mais desejo de vê-lo que de lhe escrever, e que então, em vista disso tudo, lhe suplicava e ordenava

que saísse daqueles matagais e deixasse de fazer tolices e pegasse de

uma vez a estrada para Toboso, se não lhe acontecesse alguma outra

coisa mais importante, porque tinha grande desejo de ver vossa mercê.

Ela riu muito quando lhe contei como vossa mercê se chamava de

Cavaleiro da Triste Figura. Perguntei se havia aparecido por lá aquele

basco; disse que sim e que era um homem de bem. Perguntei também

pelos galeotes, mas me disse que, até aí, não havia visto nenhum.

— Vai tudo bem até agora — disse dom Quixote. — Mas me diz:

que joia ela te deu, na hora da despedida, pelas notícias que levaste de

mim? Porque é um costume antigo e comum entre cavaleiros e damas

andantes dar aos escudeiros, criadas ou anões que levam notícias (dos

cavaleiros para elas, delas para os cavaleiros) alguma rica joia como

recompensa, em agradecimento pela missão.

— Isso bem pode ter sido assim e me parece um bom costume, mas

deve ter sido em tempos passados, porque agora só se usa dar um

pedaço de pão com queijo, que foi o que me deu minha senhora Dulcineia, pela cerca de um pátio, quando me despedi dela. Se

quiseres os detalhes, o queijo era feito de leite de ovelha.

— É generosa ao extremo — disse dom Quixote —, se não te deu

uma joia de ouro sem dúvida deve ter sido porque não a tinha à mão;

mas antes tarde do que nunca: eu a verei, e tudo se ajeitará. Sabes o

que mais me admira, Sancho? Parece que andaste pelos ares, pois

levou pouco mais de três dias para ir e vir daqui a El Toboso, que fica

a mais de trinta léguas. Por isso me parece que aquele mago

necromante meu amigo, que se encarrega de minhas coisas (porque

forçosamente deve e deverá existir, senão eu não seria um bom

cavaleiro andante), te ajudou a caminhar sem que tu o percebesses.

Pois há magos desses que pegam um cavaleiro andante dormindo em

sua cama e o sujeito, sem saber de que maneira, no outro dia

amanhece a mais de mil léguas de onde anoiteceu. E, se não fosse por

isso, os cavaleiros andantes não poderiam se socorrer uns aos outros

em seus perigos, como se socorrem a cada passo. Às vezes acontece de

um estar lutando nas serras da Armênia com algum dragão ou ogro

feroz, ou com outro cavaleiro, onde enfrenta o pior momento da

batalha e está a ponto de morrer, aí, quando menos se espera, aparece lá, em cima de uma nuvem ou sobre um carro de fogo, outro cavaleiro

amigo seu, que pouco antes se achava na Inglaterra, que o ajuda e o

livra da morte, e à noite se encontra numa pousada, jantando muito à

vontade; e um lugar costuma ficar a duas ou três mil léguas do outro,

e tudo isso se faz por astúcia e encantamentos desses magos que

cuidam desses valorosos cavaleiros. Então, amigo Sancho, não é difícil

para mim acreditar que em tempo tão curto tenhas ido e vindo daqui a

El Toboso, pois, como já disse, algum mago amigo deve ter te levado

flutuando sem que tu o sentisses.

— Deve ter sido assim — disse Sancho —, porque, juro por minha

alma, Rocinante andava como se fosse burro de cigano, com azougue

nos ouvidos.1

— E como! — disse dom Quixote. — Levava azougue e mais uma

legião de demônios, que é gente que caminha e faz caminhar sem

cansaço tudo o que lhes der na veneta. Mas, deixando isso de lado,

que achas que devo fazer agora acerca do que me ordena minha

senhora: que a vá ver? Pois, embora eu me veja obrigado a obedecer as ordens dela, também me vejo impossibilitado por causa da mercê

prometida à princesa que vem conosco, e a lei da cavalaria me força a

cumprir a palavra antes que minha vontade. Por um lado, o desejo de

ver minha senhora me persegue e me aflige; por outro, incita-me e

chama-me à palavra empenhada e à glória que alcançarei nessa

empresa. Mas o que penso fazer será andar mais depressa e chegar

logo onde está esse gigante. Chegando lá, cortarei a cabeça dele e

porei a princesa pacificamente em seu trono, e num instante voltarei

para ver a luz que ilumina meus sentimentos, a quem darei tais

desculpas que ela irá considerar boa minha demora, porque verá que

tudo resulta em aumento de sua glória e reputação, pois tudo o que

alcancei, alcanço e alcançarei pelas armas nesta vida me vem do favor

que ela me concede e de eu a ela pertencer.

— Ai, como vossa mercê anda com os miolos moles! — disse

Sancho. — Diga-me, senhor, vossa mercê pensa fazer todo esse

caminho em vão e deixar passar e perder um casamento tão rico e

importante como esse, que lhe dará um reino de dote? Olhe que ouvi

de fonte segura que tem mais de vinte mil léguas de contorno e que

tem em abundância todas as coisas necessárias para o sustento da vida humana e que é maior que Portugal e Castela juntos. Cale-se, pelo

amor de Deus, e tenha vergonha do que disse, ouça meu conselho e me

perdoe: case-se na primeira vila em que houver padre. Se não, aí está

nosso licenciado, que o fará a capricho. E note que já tenho idade

para dar conselhos, e que este que lhe dou vem sob medida, e que

mais vale um pássaro na mão que dois voando, porque o bem é mal

conhecido, enquanto não é perdido.

— Olha, Sancho — respondeu dom Quixote —, se o conselho que

me dás de que me case é para que, depois de matar o gigante, seja logo

rei e tenha como te fazer mercês e te dar o prometido, faço-te saber

que sem me casar poderei realizar teu desejo muito facilmente, porque

antes de entrar na batalha pedirei como benefício uma parte do reino

para dar a quem eu quiser, se sair vencedor, já que não me caso. Se eu

a ganhar, a quem queres tu que a dê senão a ti?

— Isso está claro — respondeu Sancho —, mas tenha vossa mercê o

cuidado de escolhê-la na costa, para que, se não me agradar a morada,

eu possa embarcar meus vassalos negros e fazer deles o que já disse. E vossa mercê nem pense em ir agora ver minha senhora Dulcineia: vá

matar o gigante, para fecharmos logo esse negócio. Porque, por Deus,

me parece que vai ser muito honrado e proveitoso.

— Digo-te, Sancho — disse dom Quixote —, que estás certo e que

ouvirei teu conselho sobre ir com a princesa em vez de ver Dulcineia

antes. E te recomendo, não digas nada a ninguém, nem aos que vêm

conosco, sobre o que discutimos e tratamos aqui; como Dulcineia é

tão recatada que não quer que se conheçam seus pensamentos, não

fica bem que eu ou outro por mim os revele.

— Mas, se é assim — disse Sancho —, por que vossa mercê manda

que todos aqueles que vence com seu braço se apresentem diante de

minha senhora Dulcineia, se isto é como assinar seu nome numa

declaração de que a quer bem e que é seu amado? E, se é forçoso que

os que forem lá devem cair de joelhos em sua presença e dizer que vão

de parte de vossa mercê lhe prestar obediência, como podem se

esconder os pensamentos de ambos?

— Ah, como és tolo e ignorante! — disse dom Quixote. — Não vês,

Sancho, que tudo isso é para maior glória dela? Deves saber que no

modo de vida cavaleiresca é grande honra uma dama ter muitos cavaleiros andantes que a sirvam, sem que os pensamentos deles vão

além de servi-la apenas por ela ser quem é, sem esperar outro prêmio

de seus muitos e bons desejos a não ser que a dama se contente em

aceitá-los como cavaleiros seus.

— Com essa espécie de amor — disse Sancho — eu ouvi pregar que

se deve amar Nosso Senhor, por si só, sem que nos mova esperança de

glória ou medo de castigo, embora eu preferisse amá-lo e servi-lo pelo

que pode me dar.

— Que o diabo te guarde, desgraçado! — disse dom Quixote. —

Que coisas tu dizes às vezes! Até parece que estudaste.

— Pois juro que não sei ler — respondeu Sancho.

Nisso mestre Nicolás gritou a eles que esperassem um pouco, pois

queriam beber numa fontezinha que havia ali. Dom Quixote se deteve,

para satisfação de Sancho, que já estava cansado de mentir tanto e

temia que seu amo o pegasse pela palavra, porque, embora soubesse

que Dulcineia era uma camponesa de El Toboso, nunca a tinha visto

na vida.

Nesse meio-tempo, Cardênio havia vestido as roupas que Doroteia

usava quando a encontraram, que eram bem melhores que as que

tirara, embora não fossem muito boas. Apearam perto da fonte e, com

o que o padre tinha arranjado na estalagem, mataram um pouco da

grande fome que todos sentiam.

Então, um rapaz que por acaso estava de passagem se pôs a olhar

com muita atenção os que estavam na fonte e dali a pouco correu para

dom Quixote. Abraçando-o pelas pernas, muito apropriadamente

começou a chorar, enquanto dizia:

— Ai, meu senhor! Vossa mercê não me reconhece? Pois me olhe

bem, sou aquele rapaz, Andrés, que vossa mercê desamarrou da

azinheira.

Reconhecendo-o, dom Quixote o pegou pela mão, virou-se para os

presentes e disse:

— Para que vossas mercês vejam como é importante haver cavaleiros

andantes no mundo, que desfaçam injúrias e afrontas cometidas pelos

insolentes e homens maus que vivem nele, saibam que dias atrás,

passando perto de um matagal, ouvi uns gritos e queixas muito

sofridas, como de pessoa aflita e necessitada. Corri logo, levado por minha obrigação, para o lugar de onde me pareceu que vinham as

queixas, e achei amarrado numa azinheira este rapaz aqui, coisa que

me alegra a alma, porque será testemunha que não me deixará mentir

em nada. Digo que estava amarrado à azinheira, nu da cintura para

cima, e um camponês, que depois soube que era o amo dele, estava lhe

curtindo o lombo com as rédeas de uma égua. Mal o vi, perguntei a

causa de flagelo tão atroz; o bronco me respondeu que o surrava

porque era criado dele, e que certos descuidos que tinha eram mais

por ser ladrão que bobo. Mas este menino disse: “Senhor, só me surra

porque lhe peço meu salário”. O amo respondeu não sei que lenga-

lenga e desculpas, que não aceitei, embora as tenha ouvido. Em suma,

fiz o camponês desatá-lo e jurar que o levaria consigo e lhe pagaria um

real sobre outro, e benzidos ainda por cima. Andrés, meu filho, não é

verdade isso tudo? Não notaste com que autoridade dei as ordens, e

com que humildade ele prometeu fazer tudo quanto lhe impus e

notifiquei e quis? Não te perturbes nem hesites em nada: responde, diz

o que aconteceu a esses senhores, para que se veja e se considere como é proveitoso o que digo, haver cavaleiros andantes pelos caminhos.

— Tudo o que vossa mercê disse é a pura verdade — respondeu o

rapaz —, mas o fim do negócio foi justamente o contrário do que

vossa mercê imagina.

— Como o contrário? — replicou dom Quixote. — Então o

camponês não te pagou?

— Não só não me pagou — respondeu o rapaz —, como, assim que

vossa mercê foi embora e ficamos sozinhos, me amarrou de novo na

mesma azinheira e me deu outra sova que fiquei como um são

Bartolomeu esfolado; e, a cada lambada que me dava, me dizia um

gracejo e uma pilhéria para zombar de vossa mercê, coisas que até me

fariam rir, se eu não sentisse tanta dor. Na verdade, ele me deixou em

tal estado que estive até agora me tratando num hospital dos males

que esse bandido desgraçado me causou então. Toda a culpa é de

vossa mercê, porque se tivesse seguido seu caminho e não fosse aonde

não era chamado, se não se metesse nos negócios alheios, meu amo

teria se contentado em me dar uma ou duas dúzias de açoites, e logo

teria me soltado e pagado tudo o que me devia. Mas, como vossa

mercê o desacatou sem necessidade e lhe disse tantas grosserias, atiçou a cólera dele e, como não pôde se vingar em vossa mercê, quando se

viu só descarregou o temporal sobre mim, e de um modo que me

parece que não serei mais homem pelo resto de minha vida.

— O erro foi eu ter ido embora — disse dom Quixote. — Devia ter

ficado até que ele te pagasse, pois devia saber por longa experiência

que não há camponês que mantenha a palavra, se não tirar proveito

disso. Mas te lembras, Andrés, que eu jurei que, se não te pagasse,

havia de ir atrás dele e de achá-lo mesmo que se escondesse no ventre

da baleia.

— É verdade — disse Andrés —, mas não lucrei nada com isso.

— Agora verás se lucra — disse dom Quixote.

E se levantou a toda pressa e mandou que Sancho botasse o freio em

Rocinante, que estava pastando enquanto eles comiam.

Doroteia perguntou a ele o que pretendia fazer. Ele respondeu que ia

procurar o camponês, castigá-lo por tão mau comportamento e fazê-lo

pagar a Andrés até o último centavo, a despeito e apesar de quantos

camponeses houvesse no mundo. Ao que ela respondeu que lembrasse que não podia, conforme tinha prometido, se meter em nenhuma

empresa até acabar a sua, e que isto ele sabia melhor do que ninguém,

que acalmasse o coração até voltar de seu reino.

— É verdade — respondeu dom Quixote. — É preciso que Andrés

tenha paciência até minha volta, como dizeis, senhora, mas eu juro e

prometo de novo não sossegar até que ele seja vingado e pago.

— Não me fio nesses juramentos — disse Andrés. — Agora eu

trocaria todas as vinganças do mundo por ter com que chegar a

Sevilha. Se tem aí alguma coisa para eu comer e levar, dê-me e fique

com Deus sua mercê e todos os cavaleiros andantes, que tão bem-

andantes sejam eles consigo como foram comigo.

Sancho tirou de seu farnel um pedaço de pão e outro de queijo e,

dando-os ao moço, disse:

— Pegai, meu caro Andrés, que parte de vossa desgraça cabe a todos

nós.

— Mas que parte vos cabe? — perguntou Andrés.

— Esta parte de queijo e pão que vos dou — respondeu Sancho. —

Sabe Deus se vai me fazer falta ou não. Porque vos garanto, meu

amigo, que nós escudeiros dos cavaleiros andantes estamos sujeitos a muita fome e má sorte, além de outras coisas que melhor se sentem

que se dizem.

Andrés pegou seu pão e seu queijo e, vendo que ninguém lhe dava

mais nada, baixou a cabeça e botou o pé na estrada, como se diz. Mas

é verdade que disse a dom Quixote, ao partir:

— Pelo amor de Deus, senhor cavaleiro andante, se me encontrar

outra vez, não me socorra, mesmo que alguém esteja me fazendo em

pedaços: deixe-me com minha desgraça, que não será tanta que não

seja maior a que me virá com a ajuda de vossa mercê, que o diabo vos

carregue, e a todos os cavaleiros andantes que tenham nascido no

mundo.

Dom Quixote ia se levantar para castigá-lo, mas ele saiu correndo de

modo que ninguém nem tentou persegui-lo. Dom Quixote ficou muito

envergonhado com a história de Andrés, e os demais precisaram se

esforçar para não rir e encabulá-lo de todo.

 

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