Dom Quixote

Miguel de Cervantes · Capítulo 58 de 137

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Dom Quixote

Capítulo L

da sagaz discussão que dom quixote

e o cônego tiveram,

com outros acontecimentos

— Essa é boa! — respondeu dom Quixote. — Seriam mentirosos os

livros que foram impressos com a licença dos reis e com a aprovação

daqueles a quem foram submetidos, e que com prazer geral são lidos e

celebrados pelos grandes e pelas crianças, pelos pobres e pelos ricos,

pelos letrados e pelos ignorantes, pelos plebeus e cavaleiros… enfim,

por todo tipo de gente de qualquer estado e condição que seja? Seriam

mentirosos mesmo tendo toda a aparência de verdade? Pois veja, eles

nos falam do pai, da mãe, da pátria, dos parentes, da idade e

descrevem o lugar e contam tintim por tintim, dia após dia, as

façanhas que o tal cavaleiro fez, ou tais cavaleiros fizeram. Cale-se

vossa mercê, não diga uma blasfêmia dessas, e acredite que o conselho

que lhe dou é o único possível para uma pessoa sensata: leia-os e verá

o prazer que sentirá com sua leitura. Se não, diga-me: há maior alegria

que ver aqui, digamos assim, surgir agora diante de nós um grande

lago de piche fervendo aos borbotões, com muitas serpentes, cobras e

lagartos e muitos outros tipos de animais ferozes e espantosos

nadando ou andando? E aí, do meio dele, sai uma voz tristíssima que

diz:

“‘Tu, cavaleiro, quem quer que sejas, que estás olhando este lago

ameaçador, se queres alcançar o bem que se esconde sob estas águas

negras, mostra o valor de teu peito forte e te atira no meio de seu

líquido ardente, porque, se não fizeres isso, não serás digno de ver as

imensas maravilhas que se encerram nos sete castelos das sete fadas

que jazem embaixo desta negrura.’

“E o cavaleiro, mal tendo acabado de ouvir a voz terrível (sem

pensar em si mesmo, sem tratar de considerar o perigo a que se expõe

e até sem se despojar do peso de sua armadura), encomendando-se a

Deus e a sua senhora, atira-se no meio do lago borbulhante e, quando

não tem nem ideia de onde vai parar, se encontra nuns campos

floridos, que não podem ser comparados nem mesmo com os Campos Elíseos. Lá parece a ele que o céu é mais transparente e que o sol

brilha com uma luz mais vital; seus olhos se alegram com uma floresta

deliciosa, com árvores muito verdes e frondosas; seus ouvidos se

entregam ao doce e desconhecido canto dos pequenos, inúmeros e

coloridos pássaros que cruzam pelos ramos intrincados. Aqui descobre

um regato, cujas águas frescas correm como cristais líquidos sobre

areia fina e pedrinhas brancas, que parecem ouro em pó e pérolas

perfeitas; ali vê uma fonte construída engenhosamente com mármore

liso e jaspe matizado; mais adiante, vê outra feita como uma gruta,

adornada com pequenas conchas de amêijoas e cascas brancas,

amarelas e retorcidas dos caracóis dispostas com ordem irregular, com

pedaços de cristal brilhante e de esmeraldas falsas misturadas entre

elas, formando uma composição variada, de maneira que a arte,

imitando a natureza, parece que ali a vence. Então, de repente, depara-

se com um castelo imponente ou uma fortaleza maravilhosa, cujas

muralhas são de ouro maciço, as ameias de diamantes, as portas de

jacintos. Enfim, é de arquitetura tão admirável que, mesmo que o material com que é feito seja nada menos que diamantes, granadas,

rubis, pérolas, ouro e esmeraldas, sua construção é mais valiosa.

“E que há mais para se ver, depois de ter visto isso, do que ver sair

pela porta do castelo um bom número de donzelas, cujos galantes e

vistosos trajes, se eu me pusesse agora a descrevê-los como nas

histórias, seria um nunca acabar? E ver a que parecia a mais distinta

de todas pegar pela mão o cavaleiro audacioso que se atirou no lago

fervente e levá-lo, sem lhe dizer uma palavra, para dentro da fortaleza

suntuosa ou castelo, e fazê-lo se despir até ficar como sua mãe o pariu,

e banhá-lo em águas tépidas, e depois untá-lo todo com unguentos

aromáticos e lhe vestir uma camisa de seda finíssima, toda cheirosa e

perfumada, e aparecer então outra donzela que lhe lança um manto

cerimonial sobre os ombros, que vale uma cidade, pelo que dizem, ou

mais ainda? E não é magnífico quando nos contam que depois disso

tudo o levam para outra sala, onde encontra as mesas postas com

tanta elegância que fica surpreso e admirado? E que lava as mãos em

essência de âmbar e flores perfumadas? E que o sentam numa cadeira

de marfim? E que todas as donzelas o servem, mantendo um silêncio

maravilhoso? E que trazem tantos manjares diferentes, preparados saborosamente, que seu apetite não sabe qual deve provar? E que

ouve, enquanto come, uma música que não sabe de onde vem nem

quem é o cantor? E que, finda a refeição e tiradas as mesas, o cavaleiro

fica recostado na cadeira, talvez palitando os dentes, como é costume,

quando de repente entra pela porta da sala outra donzela mais

formosa que as primeiras, senta ao lado do cavaleiro e começa a lhe

contar que castelo é aquele e como está encantada nele, com outras

coisas que surpreendem o cavaleiro e deixam os leitores de sua

história admirados?

“Não quero me alongar mais no assunto, porque do que falei pode

se deduzir que qualquer parte que se leia de qualquer história de

cavaleiro andante deve causar prazer e arrebatar qualquer leitor. E,

como já disse a vossa mercê, acredite em mim: leia esses livros e verá

como lhe afugentam a melancolia e o deixam animado, se por acaso

andar indisposto.

“Agora, falando em meu caso, sei que depois que me tornei cavaleiro

andante tenho sido valente, comedido, generoso, educado, magnânimo, cortês, audaz, gentil, paciente, mas passei trabalho, sofri

prisões e encantamentos. Embora há pouco tenha me visto trancado

numa jaula como louco, pretendo (com o valor de meu braço, e me

amparando o céu e não sendo o destino contrário) em poucos dias ser

rei de algum domínio, onde possa mostrar a gratidão e a generosidade

que meu peito encerra. Pois lhe garanto, meu senhor, o pobre está

impossibilitado de mostrar a qualquer um a virtude da generosidade,

mesmo que a possua em alto grau, e a gratidão que consiste apenas de

desejo é coisa morta, como é morta a fé sem ações. Por isso gostaria

que o destino me oferecesse logo uma oportunidade de me tornar

imperador, para mostrar meu coração fazendo o bem a meus amigos,

especialmente a esse pobre Sancho Pança, meu escudeiro, que é o

melhor homem do mundo, e gostaria de lhe dar um condado que lhe

prometi há muitos dias, embora eu tema que não deve ter habilidade

para governar seu Estado.”

Sancho ouviu quase que apenas estas últimas palavras de seu amo, a

quem disse:

— Trabalhe, senhor dom Quixote, para me dar esse condado tão

prometido por vossa mercê como esperado por mim, que eu lhe garanto que não me faltará habilidade para governá-lo; e, se me

faltar… ouvi dizer que há homens que arrendam os Estados dos

senhores, pagam um tanto por ano e cuidam do governo, enquanto o

senhor fica de papo para o ar, gozando da renda que recebe, sem se

preocupar com coisa alguma. Assim farei eu, não regatearei nada,

largarei tudo de mão e desfrutarei de minha renda como um duque, e

eles lá que se arranjem.

— Isso sobre a renda pode ser, irmão Sancho — disse o cônego —,

mas o senhor de Estado deve cuidar da administração da justiça, e

aqui entram a habilidade e o bom senso, e principalmente a vontade

de acertar, porque, se ela falta no princípio, sempre estarão errados o

meio e o fim. E dessa forma Deus costuma ajudar as boas intenções do

simplório e desfavorecer as más do arguto.

— Nada sei dessas filosofias — respondeu Sancho —, mas sei que

saberia governar esse condado tão logo botasse as mãos nele, pois

tenho tanta alma como qualquer um e tanto corpo como os maiores, e

eu seria tão rei de meu Estado como cada um é do seu: sendo rei, faria o que bem entendesse; fazendo o que bem entendesse, faria minha

vontade; fazendo minha vontade, ficaria alegre; e quando a gente está

alegre, não tem mais o que desejar; não tendo mais o que desejar,

pronto, acabou-se, e que venha o Estado, e que Deus me ajude, e até a

vista, como disse um cego ao outro.

— Não são más filosofias essas, como dizes, Sancho, mas mesmo

assim há muito que dizer sobre esse assunto de condados.

Então dom Quixote interveio:

— Não sei mais o que há para dizer: eu me guio apenas pelo

exemplo que me dá o grande Amadis de Gaula, que fez seu escudeiro

conde da Ilha Firme. Assim, sem pesos na consciência posso fazer

Sancho Pança conde, pois é um dos melhores escudeiros que um

cavaleiro andante jamais teve.

O cônego se admirou com os afinados disparates que dom Quixote

havia dito, com o modo como pintara a aventura do Cavaleiro do

Lago, com a impressão que haviam causado nele as mentiras

premeditadas dos livros que tinha lido e, por fim, com a espantosa

tolice de Sancho, que com tanta ânsia desejava ganhar o condado que

seu amo havia prometido.

Nesse momento, voltavam os criados do cônego que tinham ido à

estalagem buscar a mula das provisões; e, improvisando uma mesa

com um tapete e a grama verde do campo, sentaram à sombra de

umas árvores e comeram, para que o carreteiro não perdesse as

vantagens daquele lugar, como foi dito. Então ouviram de repente um

estrondo tremendo e as badaladas de cincerro no meio de umas sarças

e do mato fechado que havia ali perto, e no mesmo instante viram sair

daquele matagal uma bela cabra, a pele toda malhada de preto,

branco e pardo. Atrás dela vinha o pastor aos gritos e dizendo as

palavras costumeiras para que ela parasse ou voltasse ao rebanho. A

cabra fugitiva, medrosa e descontrolada correu para as pessoas, como

em busca de proteção, e ali se deteve. O pastor chegou e, agarrando-a

pelos chifres, como se fosse capaz de discernimento e expressão, disse:

— Ah, sua fujona, fujona, Malhada, Malhada, como andas arisca

esses dias! Os lobos te assustaram, filhinha? Foi ou não foi, minha

linda? Não, não foi nada disso: és fêmea e não podes ficar sossegada!

Que condição miserável a tua e a de todas essas que imitas! Volta, volta, minha amiga: se não ficares alegre, pelo menos ficarás segura no

curral ou com tuas companheiras. Pois se tu, que é a guia e deve

encaminhá-las, anda tão sem rumo e desencaminhada, onde elas irão

parar?

As palavras do pastor divertiram a todos, especialmente ao cônego,

que disse a ele:

— Por favor, meu irmão, acalmai-vos um pouco, não tenhais pressa

de levar a cabra de volta ao rebanho, pois se ela é fêmea, como dizeis,

deve seguir seu instinto natural, por mais que teimeis em atrapalhá-lo.

Comei um pouco e tomai um trago, para assentar a raiva, e enquanto

isso a cabra descansará.

Disse isso dando o lombo de um coelho frio na ponta da faca. O

pastor pegou-o e agradeceu; depois bebeu, acalmou-se e disse:

— Não gostaria que vossas mercês me tomassem por tolo, por ter

falado sério assim com esse bicho, pois na verdade minhas palavras

não carecem de mistério. Sou ignorante, mas não tanto que não saiba

como deve se tratar aos homens e aos animais.

— Acredito piamente — disse o padre —, pois sei por experiência

que as montanhas criam letrados e as cabanas dos pastores abrigam filósofos.

— Pelo menos, senhor, acolhem homens escaldados — replicou o

pastor. — Para que possais comprovar a verdade disso, como se a

tivésseis embaixo do nariz, embora pareça que me apresento sem ser

convidado, vos contarei uma história que também confirma o que esse

senhor disse — apontou para o padre —, se não vos aborrecer e

quiserdes me prestar ouvidos por alguns instantes.

Então dom Quixote respondeu:

— Como sinto nesse caso uma sombra de aventura de cavalaria, eu,

de minha parte, vos ouvirei de boa vontade, irmão, e penso que o

mesmo farão todos esses senhores, porque são muito inteligentes e

amigos de novidades curiosas que surpreendam, alegrem e distraiam

os sentidos, como sem dúvida deve ser vossa história. Começai, então,

meu amigo, que todos escutaremos.

— Eu passo — disse Sancho. — Prefiro ir até aquele regato com esta

empada, onde penso me fartar por três dias, pois ouvi meu senhor

dom Quixote dizer que o escudeiro de cavaleiro andante deve comer quando tem chance, até não poder mais, porque às vezes se metem

numa selva tão fechada que não conseguem sair dela em seis dias, e se

o homem não vai de barriga cheia, ou com os alforjes bem

abastecidos, poderá ficar ali, como muitas vezes fica, magro como

carne de múmia.

— Tens toda razão, Sancho — disse dom Quixote. — Vai aonde

quiseres e come o que puderes, que eu já estou satisfeito. Só me falta

alimentar a alma, o que farei agora ouvindo a história desse bom

homem.

— É o que todos faremos com as nossas — disse o cônego.

E depois pediu ao pastor que começasse o que prometera. O pastor

deu duas palmadas sobre o lombo da cabra, que segurava pelos

chifres, dizendo-lhe:

— Deita ao meu lado, Malhada, pois temos tempo para voltar ao

nosso curral.

Parece que a cabra entendeu, pois, quando seu dono se sentou, ela se

deitou perto dele muito calmamente e, olhando-o no rosto, dava a

impressão de estar atenta ao que o pastor ia contando. Ele começou

sua história desta maneira:

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