Dom Quixote

Miguel de Cervantes · Capítulo 59 de 137

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Dom Quixote

Capítulo LI

que trata do que o pastor

contou a todos os que levavam

o valente dom quixote

— A três léguas deste vale fica uma aldeia que, embora pequena, é das

mais ricas destas bandas, onde havia um camponês muito estimado,

mas o era mais pela virtude que tinha que pela riqueza que possuía,

embora ser rico e ser estimado sejam coisas que andam juntas. Agora,

o que o fazia mais feliz, segundo ele dizia, era ter uma filha de enorme

formosura, rara inteligência, graça e virtude, tanto que os que a

conheciam e a olhavam se surpreendiam com as extraordinárias

qualidades com que o céu e a natureza a dotaram. Foi formosa desde

menina, e sua beleza foi aumentando sempre, e quando fez dezesseis

anos estava lindíssima. A fama de sua beleza começou a se espalhar

por todas as aldeias vizinhas. Que digo eu?! Não só pelas aldeias

vizinhas, chegou às mais distantes cidades e até entrou pelos salões

dos reis e pelos ouvidos de todo tipo de gente, que vinha vê-la de tudo

quanto era canto, como uma coisa rara ou como uma imagem

milagrosa. Seu pai a guardava e ela mesma se guardava, pois não há

cadeados, guardas nem fechaduras que protejam melhor uma donzela

que as do próprio recato.

“A riqueza do pai e a formosura da filha levaram muitos homens,

tanto da aldeia como forasteiros, a pedi-la em casamento; mas ele, que

dispunha de tão rica joia, andava confuso, sem conseguir se decidir a

quem dos inumeráveis pretendentes que o importunavam a entregaria.

Eu fui um, entre os muitos que tiveram essas boas intenções, mas me

deram muitas e grandes esperanças de êxito saber que o pai me

conhecia, ser natural do mesmo povoado, ter sangue cristão, estar na flor da idade, ser rico de posses e não menos destituído de inteligência.

Outro homem do mesmo povoado, com essas mesmas qualidades,

também pediu a mão dela, o que surpreendeu o pai e o fez vacilar: ele

achava que com qualquer um de nós sua filha estaria bem arranjada;

e, para sair da confusão, resolveu falar com Leandra (que assim se

chama a rica dama que me levou à miséria), compreendendo ser melhor, como nós dois éramos iguais, deixar a escolha à vontade de

sua querida filha, coisas digna de ser imitada por todos os pais que

querem casar seus filhos: não digo que os deixem escolher entre coisas

ruins e más, mas que lhes proponham coisas boas para que, entre elas,

escolham a seu gosto. Não sei qual foi a escolha de Leandra, só sei

que o pai desconversou a ambos com a pouca idade de sua filha e um

palavrório que nem o obrigava nem nos desobrigava tampouco. Meu

rival se chama Anselmo, e eu Eugênio, para que saibais os nomes das

pessoas que fazem parte dessa tragédia, cujo fim ainda está pendente,

mas pelo que se percebe vai ser desastrado.

“Por esse tempo apareceu em nossa aldeia um tal Vicente de la Roca,

filho de um camponês pobre dali mesmo, que vinha das Itálias e de

diversos outros lugares onde serviu como soldado. Levou-o de nossa

terra, quando tinha uns doze anos, um capitão que por acaso passou

com sua companhia. Doze anos depois, o rapaz voltou vestido à moda

militar, roupas de mil cores,1 cheio de mil penduricalhos de vidro e

correntinhas de aço. Hoje punha um enfeite, amanhã outro, mas todos ínfimos, falsos, de pouco peso e valor. As pessoas do campo, que são

maliciosas por natureza e que são a própria malícia se tiverem tempo

de sobra, repararam nele e contaram, uma por uma, suas roupas e

berloques, e concluíram que as roupas eram três, de cores diferentes,

com suas ligas e meias, mas ele fazia tantos arranjos e invenções com

elas, que se não tivessem sido contadas alguém juraria que ele havia

exibido mais de dez pares de roupas e mais de vinte penachos. E não

pareça impertinência e exagero isso que estou contando das roupas,

porque elas têm um papel importante nesta história.

“Sentava-se num banco de pedra embaixo de um grande álamo que

está em nossa praça e ali nos deixava a todos de boca aberta, pendente

das façanhas que nos ia contando. Não havia lugar em todo o mundo

que não tivesse visto, nem batalha em que não houvesse participado;

matara mais mouros do que há no Marrocos e em Túnis, e entrara em

mais duelos, conforme contava, que Gante e Luna, Diego García de

Paredes e outros mil que citava, e de todos havia saído vitorioso, sem

que lhe derramassem uma só gota de sangue. Por outro lado, mostrava

cicatrizes de ferimentos que, embora não se visse direito, insinuava

que eram de tiros de arcabuz que levara em diferentes combates e entreveros. Por fim, com uma incrível arrogância chamava de vós a

seus iguais e aos próprios conhecidos,2 e dizia que seu pai era seu

braço; sua linhagem, suas ações; e que não devia nada nem ao rei, por

ser soldado. Além dessas fanfarronices, era metido a músico e a se

acompanhar com um violão, de modo que alguns diziam que o fazia

falar; mas seus talentos não paravam por aqui, pois também era poeta,

e assim, de cada ninharia que acontecia na vila, compunha uma

balada de légua e meia de escrita.

“Esse soldado que descrevi, esse Vicente de la Roca, esse bravo, esse

galã, esse músico, esse poeta, foi muitas vezes visto e observado por

Leandra da janela de sua casa que dava para a praça. Ela se

apaixonou pelo ouropel de suas roupas vistosas; ela se encantou com

suas baladas, que de cada uma que compunha fazia vinte cópias para

distribuir; e chegaram a seus ouvidos as façanhas que ele contara

sobre si mesmo: então, pois assim o diabo devia ter planejado, ela

acabou se apaixonando por ele, antes que nascesse nele a pretensão de

cortejá-la. E, como nos casos de amor não há nenhum que se realize mais facilmente que aquele em que faça parte o desejo da dama,

Leandra e Vicente se acertaram com rapidez, tanto que, antes que

alguns de seus muitos pretendentes se dessem conta de seu desejo, ela

já o tinha realizado: foi embora da casa de seu querido e amado pai,

pois mãe não tem, e fugiu da aldeia com o soldado, que saiu mais

triunfante dessa façanha que de todas as outras que se atribuía.

“O acontecimento surpreendeu toda a aldeia e todos os que tiveram

notícia dele. Eu fiquei surpreso, Anselmo perplexo, o pai triste, seus

parentes humilhados, a justiça comunicada, os quadrilheiros alertas:

patrulharam as estradas, esquadrinharam as matas e tudo mais, e ao

fim de três dias acharam a caprichosa Leandra numa caverna de uma

montanha, só de camisa, sem o bom dinheiro e as joias preciosas que

levara. Devolveram-na à presença do pai mortificado e lhe

perguntaram sobre sua desgraça: confessou sem constrangimento que

Vicente de la Roca a tinha enganado, que a convencera a ir embora da

casa de seu pai prometendo se casar com ela e levá-la à mais rica e

luxuosa cidade que havia em todo o mundo conhecido, que era

Nápoles. E ela, mal prevenida e bem enganada, disse que havia

acreditado nele e, roubando seu pai, entregara tudo na mesma noite da fuga, e que ele a levara a uma montanha escarpada, trancando-a

naquela caverna onde a encontraram. Contou também como o

soldado roubara tudo o que tinha, exceto a honra dela, e a tinha

deixado na caverna e sumido, coisa que de novo pasmou a todos. Foi

duro para nós acreditar na castidade do rapaz, mas ela insistiu tantas

vezes nisso que foi suficiente para que o pai desconsolado se

consolasse, sem se importar com as riquezas roubadas, pois haviam

deixado sua filha com a joia que jamais se tem esperança de recuperar,

se for perdida.

“No mesmo dia em que Leandra apareceu, o pai a desapareceu de

nossos olhos: levou-a para um mosteiro de uma vila aqui perto, onde

a encerrou, à espera de que o tempo gastasse um pouco da má fama

que sua filha granjeou. Os poucos anos de Leandra serviram de

desculpa para sua culpa, pelo menos àqueles que não tinham algum

interesse pessoal em que ela fosse uma boa menina ou não; mas os que

conheciam sua sagacidade e inteligência não atribuíram seu pecado à

ignorância, mas a seu atrevimento e à natural inclinação das mulheres, que costumam ser quase sempre irresponsáveis e sem compostura.

“Com Leandra presa, os olhos de Anselmo ficaram cegos, ou ao

menos sem ter alguma coisa para olhar que os alegrasse; os meus, em

trevas: nenhuma luz me guiava a nada agradável. Com a ausência de

Leandra crescia nossa tristeza, minguava nossa paciência,

amaldiçoávamos os trajes do soldado e detestávamos a falta de cautela

do pai de Leandra. Por fim, Anselmo e eu combinamos deixar a aldeia

e vir para este vale, onde (apascentando nossos grandes rebanhos, o

dele de ovelhas, o meu de cabras) passamos a vida entre árvores,

desafogando nossas paixões ou cantando juntos elogios ou insultos à

formosa Leandra, ou suspirando sozinhos ou sozinhos nos queixando

ao céu.

“Imitando-nos, muitos outros pretendentes de Leandra vieram para

estas montanhas escarpadas, exercendo a mesma profissão, e são

tantos, meus senhores, que este lugar parece ter se transformado na

Arcádia pastoral,3 pois transborda de pastores e currais, e não há um

canto em que não se ouça o nome da formosa Leandra. Este a

amaldiçoa e a chama de caprichosa, volúvel e desonesta; aquele a

acusa de fácil e leviana; alguém a absolve e perdoa, ou a julga e condena; um celebra sua beleza, outro execra sua situação, enfim,

todos caluniam e todos adoram Leandra, e a loucura de todos vai tão

longe que há quem se queixe de desdém sem jamais ter falado com ela,

e há até quem se lamente e sinta a doença raivosa dos ciúmes, que ela

nunca causou a ninguém porque, como já disse, se soube de seu

pecado antes de seu desejo. Não há buraco entre as pedras, nem

margem de riacho, nem sombra de árvore que não esteja ocupado por

algum pastor que conte sua infelicidade aos ares; o eco repete o nome

de Leandra onde quer que se vá: ‘Leandra’ ressoam as montanhas,

‘Leandra’ murmuram as fontes, e Leandra nos mantém a todos

aturdidos e encantados, esperando sem esperança e temendo sem saber

o que tememos.

“Entre esses desatinados, o que mostra menos e ao mesmo tempo

mais juízo é meu rival Anselmo, que, tendo tantas outras coisas de que

se queixar, só se queixa de sua ausência; ao som de um arrabil, que

toca admiravelmente, canta suas penas com versos que provam sua

grande inteligência. Eu sigo outro caminho mais fácil, acho que mais acertado, que é falar mal da insensatez das mulheres, da inconstância

delas, da duplicidade, das promessas mortas, das juras quebradas e,

por fim, da falta de discernimento no emprego dos pensamentos e

desejos que têm. Aí está o motivo, meus senhores, das palavras que eu

disse a esta cabra quando cheguei aqui: como é fêmea, não tenho

muito respeito por ela, embora seja a melhor de todo o meu rebanho.

“Esta é a história que prometi vos contar. Se me alonguei ao contá-

la, serei rápido em vos servir: tenho uma cabana perto daqui, com leite

fresco, queijos saborosos e muitas frutas maduras, não menos

agradáveis à vista que ao paladar.”

 

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