Dom Quixote

Miguel de Cervantes · Capítulo 95 de 137

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Dom Quixote

Capítulo XXXIV

em que se dá notícia de como haveria

de se desencantar a inigualável

dulcineia del toboso, que é uma

das aventuras mais famosas deste livro

Era grande a satisfação do duque e da duquesa com a conversa de

dom Quixote e Sancho Pança, o que confirmaram com a intenção que

tinham de fazer com eles algumas brincadeiras que tivessem traços ou

aparência de aventura, aproveitando como motivo o que dom Quixote

havia lhes contado sobre a caverna de Montesinos para lhe pregar

uma peça que ficasse famosa. Mas o que mais surpreendia a duquesa

era que a tolice de Sancho fosse tanta que tivesse acabado por

acreditar ser verdade completa que Dulcineia del Toboso estava

encantada, tendo sido ele mesmo o mago e embusteiro daquele

negócio. Então, dando ordens a seus criados sobre tudo o que deviam

fazer, dali a seis dias o duque e a duquesa levaram dom Quixote a

uma caça de montaria, com tanto aparato de batedores e caçadores

como poderia levar um rei coroado. Deram a dom Quixote uma roupa

de caça e outra a Sancho, de fino tecido verde, mas dom Quixote não

quis vesti-la, dizendo que no outro dia havia de voltar ao duro

exercício das armas e que não podia levar enxovais nem bagagens.

Sancho sim ficou com a que lhe deram, com a intenção de vendê-la na

primeira ocasião que se apresentasse.

No dia marcado, dom Quixote botou a armadura, Sancho se vestiu

e, sobre seu burro, que não quis deixar embora tivessem lhe oferecido

um cavalo, meteu-se no meio da tropa dos batedores. A duquesa

apareceu trajada elegantemente, e dom Quixote, por pura cortesia e

boa educação, segurou a rédea de seu palafrém, embora o duque não quisesse permitir. Por fim chegaram a uma mata que ficava entre duas

montanhas muito altas, onde tomaram seus postos, paradeiros e

trilhas, e, com todos distribuídos em seus diferentes lugares, começou

a caçada com grande barulheira e gritaria, de maneira que uns não

podiam ouvir os outros, tanto pelo latido dos cães como pelo som das

trompas.

A duquesa apeou e, com um dardo afiado nas mãos, ocupou seu

posto por onde ela sabia que alguns javalis costumavam vir. O duque

e dom Quixote também apearam, ladeando-a; Sancho ficou atrás de

todos, sem apear do burro, a quem não ousava abandonar, com medo

de que lhe acontecesse alguma desgraça. E, mal haviam posto o pé no

chão e ficado em fila com muitos criados, quando, acossado pelos cães

e seguido pelos caçadores, viram que vinha na direção deles um

desmesurado javali, rangendo dentes e presas e espumando pela boca;

e, ao vê-lo, dom Quixote meteu o braço no escudo, empunhou a

espada e se adiantou para recebê-lo. O mesmo fez o duque com sua

lança, mas a duquesa teria sido mais rápida que todos se ele não a

tivesse atrapalhado. Sancho, apenas viu o valente animal, abandonou

o burro e desatou a correr o quanto pôde, e, ao tentar trepar numa

alta azinheira, se deu mal: quando estava pela metade dela, agarrado

num galho, lutando para alcançar a copa, teve tão pouca sorte que o

dito galho se partiu e Sancho, ao cair, ficou no ar, sem poder chegar ao

chão, preso numa forquilha. E vendo-se assim, e que o traje verde se rasgava, e pensando que se aquele animal feroz chegasse até ali podia

alcançá-lo, começou a dar tantos gritos e a pedir socorro com tanto

afinco que todos os que o ouviam, sem vê-lo, acreditaram que estava

entre os dentes de alguma fera.

Por fim, o dentuço javali foi atravessado pelas pontas de muitos

dardos que cortaram seu caminho. E dom Quixote, virando a cabeça

para o lado dos gritos de Sancho, que havia reconhecido, viu o

escudeiro pendurado na azinheira, de cabeça para baixo, com o burro

perto dele, pois não o abandonara em sua desgraça. Cide Hamete

acrescenta que poucas vezes viu Sancho Pança sem ver o burro nem o

burro sem ver Sancho, tamanha era a amizade e a boa-fé que havia

entre os dois.

Dom Quixote se aproximou e soltou Sancho, que, vendo-se livre e

no chão, olhou o saio de caça esfarrapado, e isso pesou em sua alma,

pois pensou que tinha naquele traje uma fortuna para deixar de

herança. Nisso, atravessaram o enorme javali sobre um burro de carga

e o levaram, coberto com ramos de alecrim e mirto, como despojo da

vitória, para umas grandes tendas de campanha armadas no meio da

mata, onde encontraram as mesas em ordem e o almoço preparado, tão suntuoso e grande que podia se ver por ele a grandeza e a

magnificência de quem o dava. Sancho, mostrando os rasgões de seu

traje à duquesa, disse:

— Se esta caçada fosse de lebres ou de passarinhos, com certeza meu

saio não se veria neste estado. Não sei que gosto pode se ter em

esperar um animal que, se vos alcançar com uma presa, pode vos tirar

a vida. Eu me lembro de ter ouvido cantarem um romance antigo que

diz:

Pelos ursos sejas comido

como o famoso Fávila.1

— Esse foi um rei godo — disse dom Quixote — que foi comido por

um urso numa caçada.

— É disso que estou falando — respondeu Sancho —, pois eu não

gostaria que os nobres e os reis se expusessem a semelhantes perigos,

por um prazer que não parece ser prazer nenhum, porque consiste em

matar um animal que não cometeu delito algum.

— Pelo contrário, enganai-vos, Sancho — respondeu o duque —, porque o exercício da caça de montaria é o mais conveniente e

necessário para os reis e os nobres que qualquer outro. A caça é uma

imagem da guerra: há nela estratagemas, astúcias, insídias, para vencer

sem perigo o oponente; nela se padecem frios de rachar e calores

intoleráveis; desdenha-se do ócio e do sono, provam-se as forças e

deixam-se os membros ágeis. Em suma, é um exercício que se pode

fazer sem prejudicar ninguém e com o prazer de muitos; e o melhor é

que não é para todos, como os demais tipos de caça, exceto o da

falcoaria, que também é só para reis e grandes senhores. Então, meu

caro Sancho, mudai de opinião e, quando fordes governador, ocupai-

vos na caça e vereis como lucrais muito com tão pouco.

— Essa não — respondeu Sancho. — O bom governador é como

mulher honrada e perna quebrada: deve ficar em casa. Seria bonito

que demandantes preocupados viessem procurá-lo e ele estivesse se

divertindo no mato! Bem arrumado estaria o governo! Por Deus, meu

senhor, a caça e os passatempos devem ser mais para os vadios que

para os governadores. No que eu penso me distrair é com um bom

jogo de burro, uma vez hoje, outra na morte, e com o boliche nos domingos e feriados, que esse negócio de caça não é para mim nem

para minha consciência.

— Queira Deus, Sancho, que assim seja, porque entre o digo e faço

há um bom pedaço.

— Haja o que houver — replicou Sancho —, ao bom pagador as

penhoras não doem, e mais vale quem Deus ajuda que quem cedo

madruga, e saco vazio não para em pé; quero dizer que, se Deus me

ajudar, e eu fizer o que devo com boa intenção, sem dúvida governarei

melhor que o diabo. Não, não, botem o dedo em minha boca para ver

se não mordo!

— Maldito sejas, por Deus e todos os santos, seu desgraçado! —

disse dom Quixote. — Quando, como já te disse mil vezes, eu te verei

falar sem ditados, de modo simples e coerente?! Não deem ouvidos

vossas grandezas a este tolo, meus senhores, que vos esmagará a alma,

não entre dois ditados, mas entre dois mil, lembrados tão a propósito

quanto lhe dê Deus em saúde, ou a mim, se os quisesse escutar.

— Os ditados de Sancho Pança — disse a duquesa —, embora sejam

mais numerosos que os do comendador Grego,2 nem por isso devem

ser menos considerados, pela brevidade das sentenças. Devo dizer que

a mim dão mais prazer que outros, mesmo que sejam mais oportunos

e apropriados à ocasião.

Com esta e outras conversas divertidas, saíram da tenda para a

mata, onde passaram o dia examinando novos postos e paradeiros, até

que veio a noite, e não tão clara nem tão serena como a estação do

ano pedia, que era pelo meio do verão. Mas um certo lusco-fusco que

trouxe consigo ajudou muito as intenções dos duques. Logo que

começou a escurecer, um pouco depois do crepúsculo, pareceu de

repente que a mata ardia pelos quatro lados, e então se ouviram aqui e

ali, cá e lá, infinitas cornetas e outros instrumentos de guerra, como de

muitas tropas de cavalaria que passassem pela mata. A luz do fogo e o

som dos instrumentos bélicos quase cegaram e ensurdeceram os olhos

e os ouvidos dos presentes, e de quantos andavam por aquelas bandas.

Depois se ouviu uma tremenda algazarra, como dos mouros quando

entram em batalha; soaram trompas e clarins, retumbaram tambores,

ressoaram pífaros, quase todos ao mesmo tempo, de modo tão

contínuo e tão apressado que não teria juízo quem não o perdesse com a confusão de tantos instrumentos. Pasmou-se o duque, surpreendeu-

se a duquesa, admirou-se dom Quixote, tremeu Sancho Pança —

enfim, até os que conheciam a causa desse tumulto se espantaram.

Com o temor, o silêncio os tomou, e surgiu diante deles um arauto a

cavalo, vestido de demônio, tocando, em vez de corneta, um

desmesurado corno oco, que desprendia um som rouco e tenebroso.

— Olá, irmão arauto — disse o duque —, quem sois, aonde ides, e

que soldados são esses que parecem atravessar a mata?

O arauto respondeu com voz aterradora e desenvolta:

— Eu sou o Diabo, vim buscar dom Quixote de la Mancha e os

soldados que vêm aí são seis tropas de magos que, num carro triunfal,

trazem a sem-par Dulcineia del Toboso. Ela vem encantada, com o

galhardo francês Montesinos, que irá explicar a dom Quixote como

ela deve ser desencantada.

— Se fôsseis o Diabo, como dizeis e vossa aparência mostra, já

teríeis reconhecido o dito cavaleiro dom Quixote de la Mancha, pois

que o tendes diante de vós.

— Por Deus e minha consciência — respondeu o Diabo — que não

tinha reparado, porque trago o pensamento distraído com tantas

coisas que havia me esquecido da principal, aquela que me trazia aqui.

— Sem dúvida que este demônio deve ser homem de bem e bom

cristão — disse Sancho —, porque senão não juraria por Deus e por

sua consciência. Isso me leva a pensar que no próprio inferno deve

haver gente boa.

Então o demônio, sem apear, dirigindo a vista a dom Quixote, disse:

— A ti, Cavaleiro dos Leões, que entre as garras deles te veja eu, me

envia o desgraçado mas valente cavaleiro Montesinos para que, de sua

parte, te diga que o esperes no mesmo local em que eu te encontrar,

pois traz consigo a que chamam Dulcineia del Toboso, para te dizer o

que é necessário para desencantá-la. E, como não era por mais minha

vinda, não há de ser mais minha estada: que os demônios como eu

fiquem contigo, e que os anjos bons com estes senhores.

Dizendo isso, tocou o corno gigantesco, deu as costas a todos e foi

embora sem esperar resposta de ninguém.

Isso renovou o espanto de todos, especialmente de Sancho e dom

Quixote: Sancho por ver que, a despeito da verdade, queriam que Dulcineia estivesse encantada; dom Quixote por não ter certeza se era

verdade ou não o que havia acontecido na caverna de Montesinos.

Estava enlevado nesses pensamentos, quando o duque lhe disse:

— Vossa mercê pensa esperar, senhor dom Quixote?

— Como não? — respondeu ele. — Esperarei aqui, intrépido e forte,

mesmo que me ataque todo o inferno.

— Pois eu, se vejo outro diabo e outro corno como aquele, esperarei

aqui tanto como onde o Judas perdeu as botas — disse Sancho.

Nisso, a noite ficou mais fechada, e muitas luzes começaram a correr

pela mata, como correm pelo céu as exalações secas da terra que a nós

parecem estrelas cadentes.3 Ouviu-se também um barulho espantoso,

do tipo daquele que causam as rodas maciças que costumam ter os

carros de bois, de cujo rangido áspero e contínuo se diz que fogem os

lobos e os ursos, se existem por onde passam. Somou-se a toda essa

tempestade outra maior que todas: foi como se realmente, nos quatro

cantos da mata, estivessem ocorrendo quatro ataques ou batalhas,

porque ali soava o duro estrondo da terrível artilharia, lá se disparavam inumeráveis escopetas, perto soavam os gritos dos

combatentes, longe se reiteravam os gritos de guerra árabes.

Em suma, as cornetas, os cornos, as trompas, os clarins, as

trombetas, a artilharia, os arcabuzes e, acima de tudo, o terrível

barulho dos carros formavam juntos um som tão confuso e tão

horrendo que foi necessário que dom Quixote se valesse de toda a sua

coragem para suportá-lo. Mas a de Sancho veio por terra e deu com

ele desmaiado no colo da duquesa, que o acolheu e mandou a toda

pressa que lhe jogassem água no rosto. Assim se fez, e ele voltou a si

quando um carro de rodas rangedoras chegava naquele posto.

Puxavam-no quatro bois preguiçosos, todos cobertos de paramentos

negros; em cada corno havia atado e aceso um grande círio de cera, e

em cima do carro vinha sentado um velho venerável com uma barba

mais branca que a própria neve e tão longa que lhe ultrapassava a

cintura; vestia uma roupa longa de bocassim preto, (pois como o carro

vinha cheio de inúmeras luzes podia-se ver muito bem o que ele

continha). Guiavam-no dois demônios vestidos com o mesmo

bocassim, com rostos tão feios que Sancho, tendo-os visto uma vez,

fechou os olhos para não vê-los outra. Chegando o carro à altura do posto, o velho venerável se levantou de seu assento e, ficando de pé,

em altos brados disse:

— Eu sou o sábio Lirgandeu.4

E o carro seguiu em frente, sem que o sábio dissesse mais uma

palavra. Atrás veio outro carro do mesmo jeito, com outro velho

entronizado, que, fazendo-o parar, disse com voz não menos grave que

a do outro:

— Eu sou o sábio Alquife, o grande amigo de Urganda, a

Desconhecida.5

E foi embora.

Em seguida, da mesma forma, chegou outro carro, mas o homem

que vinha sentado no trono não era velho como os demais e sim um

grandalhão mal-encarado; ao chegar, ficou de pé como os outros e

disse com voz mais rouca e mais endiabrada:

— Eu sou Arcalaus, o mago, inimigo mortal de Amadis de Gaula e

de todos os parentes dele.

E foi embora.

Não muito longe dali, esses três carros fizeram alto, e cessou o ruído

desagradável de suas rodas. Então se ouviu não um ruído, mas uma

música suave e harmoniosa, com que Sancho se alegrou, considerando

um bom sinal, o que disse para a duquesa, de quem não se afastava

nem um palmo:

— Senhora, onde há música não pode haver coisa ruim.

— Também onde há luz e claridade — respondeu a duquesa.

Ao que Sancho replicou:

— O fogo dá luz e as fogueiras, claridade, como vemos nas que nos

cercam, mas podem muito bem nos queimar; mas a música é sempre

indício de alegria e de festas.

— Já veremos — disse dom Quixote, que escutava tudo.

E disse muito bem, como se verá no capítulo seguinte.

 

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