Dom Quixote

Miguel de Cervantes · Capítulo 109 de 137

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Dom Quixote

Capítulo XLVIII

 

do que aconteceu a dom quixote com

dona rodríguez, a ama da duquesa,

com outras coisas dignas de registro

e de memória eterna

O malferido dom Quixote estava muito amuado e melancólico, com

curativos no rosto marcado, não pela mão de Deus, mas pelas unhas

de um gato — desgraças inerentes à cavalaria andante. Esteve seis dias

sem aparecer em público. Numa noite desses dias, estando desperto e

preocupado, pensando em suas infelicidades e na perseguição de

Altisidora, percebeu que abriam a porta do quarto com uma chave —

e logo pensou que a donzela apaixonada vinha para assaltar sua

castidade e pô-lo em condição de faltar à fidelidade que devia guardar

a sua senhora Dulcineia del Toboso.

— Não — disse, acreditando na própria imaginação, e com voz que

poderia ser ouvida —, a maior formosura da terra não pode ser

motivo para que eu deixe de adorar aquela que tenho gravada e

estampada no centro do coração e no mais fundo de minhas

entranhas, esteja minha senhora transformada em camponesa

grosseirona, ou numa ninfa do Tejo dourado, tecendo com fios de

ouro e seda, ou presa por Merlin ou Montesinos vá saber em que

caverna: onde quer que estejas, és minha, e onde quer que eu esteja,

sou e hei de ser teu.

A porta se abriu justo ao fim dessas palavras. O cavaleiro ficou de pé

sobre a cama, envolto de cima a baixo por uma colcha de cetim

amarelo, uma touca enterrada até as orelhas, o rosto com curativos e

os bigodes com papelotes — o rosto, pelos arranhões; os bigodes, para

que não amolecessem e caíssem. Num traje como esse, parecia o mais extraordinário fantasma que se poderia imaginar.

Cravou os olhos na porta e, quando esperava ver entrar a cativa e

queixosa Altisidora, viu entrar uma ama reverendíssima com uma

touca branca com bainha de franjas tão longas que a cobriam e

abrigavam da cabeça aos pés. Entre os dedos da mão esquerda trazia

uma meia vela acesa, protegendo a chama com a direita para que a luz não lhe desse nos olhos, que estavam cobertos por grandes óculos.

Vinha pisando de mansinho, movendo os pés suavemente.

Observando-a de sua atalaia, dom Quixote viu seus modos, notou

seu silêncio e pensou que alguma bruxa ou maga vinha naquele traje

fazer algum feitiço maligno com ele e começou a se benzer a toda

pressa. A visão foi se aproximando e, quando chegou ao meio do

quarto, levantou os olhos e viu a pressa com que dom Quixote fazia o

sinal da cruz — e, se ele ficou amedrontado ao ver tal figura, ela ficou

espantada por ver a dele, porque mal o viu, tão alto e tão amarelo,

com a colcha e com os curativos que o desfiguravam, disse com um

grande brado:

— Jesus! O que é que vejo?

E, com o susto, deixou a vela cair e, vendo-se no escuro, virou as

costas para ir embora, mas de medo tropeçou nas próprias saias e

levou um grande tombo. Dom Quixote, amedrontado, começou a

dizer:

— Esconjuro-te, fantasma, ou seja lá o que for, para que me digas quem és e o que queres de mim. Se és alma penada, diga-me, que eu

farei por ti tudo o que minhas forças alcançarem, porque sou católico

e amigo de fazer o bem a todo mundo: por isso entrei para a ordem da

cavalaria andante, cujo exercício se estende até fazer o bem às almas

no purgatório.

A ama atormentada, ao ouvir o esconjuro, por seu medo percebeu o

de dom Quixote, e com voz aflita e baixa respondeu:

— Senhor dom Quixote (se por acaso vossa mercê é realmente dom

Quixote), eu não sou um fantasma, nem uma visão, nem alma do

purgatório, como vossa mercê deve ter pensado, mas sim dona

Rodríguez, a dama de honra de minha senhora a duquesa, e venho por

causa de uma dessas adversidades que vossa mercê costuma remediar.

— Não vá me dizer, dona Rodríguez — disse dom Quixote —, que

vossa mercê veio como alcoviteira? Porque garanto à senhora que não

sou de proveito para ninguém, graças à beleza sem-par de minha

senhora Dulcineia del Toboso. Em suma, dona Rodríguez, digo que,

desde que vossa mercê evite e deixe de lado todo recado amoroso,

pode acender de novo a vela e voltar, que discutiremos qualquer outra coisa que quiser ou mais lhe interessar, exceto, como já disse, qualquer

mimo para me provocar.

— Eu, com recado de alguém? — respondeu a ama. — Ora, ora,

meu senhor, muito mal me conhece vossa mercê: ainda não estou em

idade tão avançada para me meter em semelhantes criancices, pois,

Deus seja louvado, ainda estou na ponta dos cascos, como se diz, e

tenho todos os meus dentes e molares, menos uns poucos que me

usurparam uns catarros, que nesta terra de Aragão são muito comuns.

Mas me espere um instante; vou acender minha vela e voltarei agora

mesmo para contar minhas penas ao reparador de todos os problemas

do mundo.

E sem esperar resposta saiu do quarto, onde dom Quixote ficou

calmo e pensativo, esperando-a. Mas em seguida lhe ocorreram mil

pensamentos sobre aquela nova aventura, e lhe parecia indevido e

imprudente correr o risco de quebrar a promessa feita a sua senhora, e

dizia a si mesmo:

— Quem sabe se o diabo, que é sutil e manhoso, não quer me enganar agora com uma ama onde não pôde com imperatrizes,

rainhas, duquesas, marquesas nem condessas? Pois ouvi dizer muitas

vezes, e por muitos sábios, que, se ele puder nos dar um pé torto, não

nos dá um direito. E quem sabe se esta solidão, esta oportunidade e

este silêncio não despertarão meus desejos que dormem e não me

façam, ao cabo de meus anos, cair onde nunca tropecei? Em casos

semelhantes, é melhor fugir que esperar a batalha. Mas eu não devo

estar em meu juízo perfeito, se penso e digo tais disparates, porque

não é possível que essa senhora, um varapau de touca e de óculos

ainda por cima, possa encorajar e inflamar pensamentos lascivos no

mais desalmado coração do mundo. Por acaso há em toda terra velhas

amas que tenham belos corpos? Porventura há no orbe amas que

deixem de ser impertinentes, carrancudas e melindrosas? Então, fora,

corja amesca, inútil para qualquer prazer humano! Oh, muito bem

fazia aquela senhora de quem se diz que tinha duas estátuas de amas

com seus óculos e almofadinhas no fundo da sala, como se estivessem

bordando: elas serviam para dar respeitabilidade ao ambiente tanto

quanto as amas verdadeiras!

E, dizendo isso, pulou da cama com a intenção de fechar a porta e

não deixar a senhora Rodríguez entrar; mas, quando ia fechá-la, a

senhora Rodríguez já estava de volta, com uma vela de cera branca

acesa. Então, quando ela viu dom Quixote mais de perto, enrolado na

colcha, com os curativos, a touca ou barrete, ficou com medo de novo

e, recuando uns dois passos, disse:

— Estamos seguras, senhor cavaleiro? Porque não me parece um

sinal muito santo que vossa mercê tenha saído da cama.

— A mesma coisa pergunto eu, senhora — respondeu dom Quixote.

— Então, posso ficar certo de que não serei atacado e forçado?

— A quem e de quem pedis essa garantia, senhor cavaleiro? —

respondeu a ama.

— Peço a vós e de vós — respondeu dom Quixote —, porque nem eu

sou de mármore, nem vós de bronze, nem agora são dez horas da

manhã, mas meia-noite, ou um pouco mais, pelo que imagino, e num

lugar mais fechado e secreto do que deve ter sido a caverna onde o

traidor e atrevido Eneias desfrutou da bela e piedosa Dido. Mas dai-me a mão, senhora, que eu não quero outra segurança maior que a de

minha continência e recato e a que oferece essa reverendíssima touca.

Dizendo isso, beijou a própria mão direita e segurou a dela, que a

ama lhe deu com as mesmas cerimônias.

Aqui Cide Hamete faz um parêntese e diz que, por Maomé, daria o

melhor cafetã dos dois que tinha para ver a ama e o cavaleiro assim de

mãos dadas ir da porta até a cama.

Por fim, dom Quixote se deitou em sua cama e dona Rodríguez ficou

sentada numa cadeira, um tanto afastada, sem tirar os óculos nem

largar a vela. Dom Quixote se encolheu e se cobriu todo, não

deixando mais que o rosto à vista. Tendo os dois se acalmando, o

primeiro que rompeu o silêncio foi dom Quixote, que disse:

— Dona Rodríguez, agora vossa mercê pode soltar a língua e

desembuchar tudo aquilo que tem dentro de seu sofrido e machucado

coração, que será escutada por mim com ouvidos castos e socorrida

com ações piedosas.

— Acredito, meu senhor — respondeu a ama —, pois da galante e

agradável atitude de vossa mercê não se podia esperar uma resposta

menos cristã. O caso, senhor dom Quixote, é que, embora vossa mercê me veja sentada nesta cadeira, em pleno reino de Aragão e com roupas

de ama arruinada e aflita, sou natural das Astúrias de Oviedo,1 e de

linhagem que inclui muitas das melhores famílias daquela província.

Mas minha pouca sorte e o descuido de meus pais, que empobreceram

antes do tempo, sem saber como nem por quê, me levaram à corte em

Madri, onde, em nome da paz e para evitar maiores desventuras, me

destinaram como bordadeira de uma senhora muito distinta. Por falar

nisso, quero que vossa mercê saiba que ninguém nunca me passou

para trás em matéria de bordados de crivo e bordados simples. Meus

pais me deixaram trabalhando e voltaram para sua terra, e poucos

anos depois devem ter ido para o céu, porque eram muito bons e

católicos cristãos. Fiquei órfã e presa ao salário miserável e aos

angustiantes favores que se costuma dar nos palácios a tais criadas; e

nesse tempo, sem que eu desse motivo para isso, se apaixonou por

mim um escudeiro da casa, homem já vivido, barbudo e bem-

apessoado, mas, acima de tudo, fidalgo como o rei, porque era da

região da Montanha. Não levamos nossos amores tão secretamente que o falatório não chegasse aos ouvidos de minha senhora, que, para

acabar com os diz que diz, nos casou no preto e no branco na santa

madre Igreja Católica Romana. Desse casamento nasceu uma filha

para liquidar com minha felicidade, se é que tinha alguma, não porque

eu tenha saído estropiada do parto, que correu bem e na época certa,

mas porque dali a pouco morreu meu esposo de um espasmo, que,

tivesse eu tempo para lhe contar agora, sei que vossa mercê ficaria

admirado.

Então começou a chorar suavemente e disse:

— Perdoe-me vossa mercê, senhor dom Quixote: não depende de

minhas forças, porque, todas as vezes que me lembro de meu

desgraçado marido, meus olhos ficam rasos de lágrimas. Santo Deus,

com que imponência ele levava minha senhora na garupa de uma mula

poderosa, preta como o próprio azeviche! Pois naquela época não se

usavam cadeirinhas nem liteiras, como dizem que se usam agora, e as

senhoras iam na garupa de seus escudeiros. Pelo menos isso não posso

deixar de contar, para que se note como meu bom marido era bem-

educado e escrupuloso. Ao entrar na rua de Santiago em Madri, que é

um tanto estreita, saía dali um alcaide da corte com dois aguazis por diante, e, mal os viu, meu bom escudeiro virou as rédeas da mula,

dando mostras de que ia acompanhá-lo, como manda o respeito e o

uso. Minha senhora, que ia na garupa, em voz baixa lhe disse: “Que

fazeis, desgraçado? Não vedes que estou aqui?”. O alcaide, por

cortesia, puxou a rédea do cavalo e disse: “Segui vosso caminho,

senhor, que sou eu quem deve acompanhar minha senhora dona

Cacilda”. Assim se chamava minha ama. Enquanto isso, meu marido

insistia, com o gorro na mão, em acompanhar o alcaide. Vendo isso,

minha senhora, cheia de raiva e desgosto, puxou do estojo um alfinete

grosso, ou talvez um estilete, e o cravou no lombo de meu marido, que

deu um berro e torceu o corpo de modo que atirou sua senhora no

chão. Dois lacaios dela correram para levantá-la, e o próprio alcaide e

os aguazis. Foi aquele alvoroço na Porta de Guadalajara, digo, entre

os desocupados que estavam por ali. Minha senhora foi embora a pé e

meu marido correu à casa de um barbeiro, dizendo que tinha as

entranhas atravessadas de lado a lado. Espalhou-se de tal modo a

cortesia de meu esposo que os meninos implicavam com ele pelas ruas; e por isso, e porque ele era meio curto de vista, minha senhora o

despediu. Sem dúvida alguma, acho que a tristeza disso foi a causa do

mal que o matou.

“Fiquei viúva e desamparada, com uma filha nas costas, que ia

crescendo em formosura como a espuma do mar. Finalmente, como eu

tivesse fama de grande bordadeira, minha senhora a duquesa, que

tinha recém-casado com o duque meu senhor, quis me trazer consigo

para este reino de Aragão, e minha filha também, onde, entra dia, sai

dia, cresceu e com ela toda a graça do mundo. Canta como um sabiá,

dança como o pensamento, cabriola como uma possessa, lê e escreve

como um mestre-escola e faz contas como um avarento. De seu asseio

não digo nada, que a água corrente não é mais limpa; e agora deve ter,

se me lembro bem, dezesseis anos, cinco meses e três dias, mais ou

menos. Em suma, dessa minha moça se apaixonou um filho de um

camponês riquíssimo que vive numa aldeia do duque meu senhor, não

muito longe daqui. Realmente, não sei como nem por quê, eles se

encontraram e ele, dando a palavra de que ia ser seu esposo, se deitou

com minha filha, e agora não quer cumprir a promessa. E, embora o

duque meu senhor saiba de tudo, porque eu me queixei a ele, não uma, mas muitas vezes, e lhe pedi que mande o camponês se casar

com minha filha, faz ouvidos de mercador e mal me dá atenção,

porque, como o pai do enganador é muito rico e lhe empresta dinheiro

e muitas vezes é fiador de suas dívidas, não quer descontentá-lo nem o

incomodar de jeito nenhum. Então, meu senhor, gostaria que vossa

mercê se encarregasse de desfazer esse agravo ou por palavras ou pelas

armas, pois, conforme todo mundo diz, vossa mercê nasceu para

desfazê-los e para reparar injúrias e amparar os miseráveis. E pense

bem vossa mercê na orfandade de minha filha, sua graça, sua

mocidade, com todas as boas qualidades que lhe falei antes, que, por

Deus e por minha alma, de quantas aias tem minha senhora, não há

nenhuma que chegue às solas de seus sapatos. Há uma, que chamam

Altisidora, que é considerada a mais desenvolta e galharda, mas não

pode ser comparada nem de longe com minha filha, porque quero que

vossa mercê saiba, meu senhor, que nem tudo que reluz é ouro: essa

Altisidorinha tem mais de presunção que de formosura e mais de

desenvolta que de recatada, sem falar que não está muito saudável, pois tem um hálito que não há quem aguente ficar perto dela por um

instante. E mesmo minha senhora a duquesa… Prefiro me calar, pois,

como se diz, as paredes têm ouvidos.”

— Por minha vida, dona Rodríguez, o que tem minha senhora a

duquesa? — perguntou dom Quixote.

— Bem, depois de uma súplica dessas — respondeu a ama —, não

posso deixar de responder com toda a verdade ao que me pergunta.

Vossa mercê, senhor dom Quixote, viu a formosura de minha senhora

a duquesa? A pele do rosto, que não parece senão uma espada polida

e brilhante, aquelas bochechas de leite e de carmim, com o sol numa e

a lua na outra, e a elegância com que vai pisando e até mesmo

desprezando o solo, que não parece senão que vai derramando saúde

por onde passa? Pois saiba que ela pode agradecer primeiro a Deus e,

depois, a duas feridas que tem nas pernas, por onde se deságuam

todos os maus humores de que está cheia, segundo dizem os médicos.

— Santa Maria! — disse dom Quixote. — Mas é possível que minha

senhora a duquesa possa ter tais desaguadouros? Eu não acreditaria

nem que frades descalços me contassem; porém, se a senhora o diz,

dona Rodríguez, deve ser verdade. Mas dessas feridas nesses lugares não devem jorrar esses humores e sim âmbar líquido. Realmente,

agora que pensei melhor, isso de abrir essas feridas deve ser coisa

importante para a saúde.

Apenas dom Quixote acabara de dizer essas palavras, as portas se

abriram com um tremendo golpe, e de susto dona Rodríguez derrubou

a vela da mão, e o quarto ficou como a boca do lobo, como se diz.

Logo a pobre senhora sentiu que a agarravam pela garganta com duas

mãos, tão fortemente que não a deixavam nem gemer, e que outra

pessoa com muita rapidez, sem dizer nada, lhe levantava as saias, e

pelo visto com uma chinela começou a lhe dar tantas pancadas que era

de dar pena. Embora dom Quixote tivesse pena, não se mexeu da

cama: não conseguia imaginar o que podia ser aquilo e permanecia

parado e quieto, temendo ainda que chegasse seu turno na tunda

chinelesca. E não foi em vão seu temor, porque os verdugos calados,

depois de deixarem a ama moída, que nem ousava se queixar,

correram para dom Quixote e, puxando a colcha e o lençol, lhe

bateram tanto e tão fortemente que não pôde deixar de se defender a socos, e tudo isso num silêncio admirável.

A batalha durou quase meia hora. Os fantasmas saíram, dona

Rodríguez recolheu suas saias e, gemendo sua desgraça, saiu porta

afora, sem dizer uma palavra a dom Quixote, que, dolorido e

machucado, confuso e pensativo, ficou sozinho, onde o deixaremos

ansioso para saber quem havia sido o mago perverso que o deixara

daquele jeito.

Mas isso se dirá a seu tempo, pois Sancho Pança nos chama e o bom

andamento da história o pede.

 

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