Dom Quixote

Miguel de Cervantes · Capítulo 128 de 137

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Dom Quixote

Capítulo LXVII

da decisão que dom quixote tomou

de se tornar pastor e seguir a vida do campo enquanto durasse o ano

de sua promessa,

com outros acontecimentos verdadeiramente excelentes e saborosos Se muitos pensamentos incomodavam dom Quixote antes de ser

derrotado, muitos mais o incomodavam depois. Estava à sombra de

uma árvore, como se disse, e ali os pensamentos caíam sobre ele como

moscas no mel: uns picavam pelo desencantamento de Dulcineia e

outros pela vida que devia levar em seu retiro forçado. Sancho chegou

e elogiou a índole generosa do lacaio Tosilos.

— Não é possível, Sancho, que ainda penses que aquele seja lacaio

de verdade! — disse dom Quixote. — Parece que varreste da memória

que tu mesmo viste Dulcineia transformada em camponesa e o

Cavaleiro dos Espelhos, no bacharel Carrasco, tudo isso obra dos

magos que me perseguem. Mas agora me diz: perguntaste a esse tal de

Tosilos o que foi feito de Altisidora, se chorou minha ausência ou se já

deixou nas mãos da indiferença os pensamentos amorosos que a

fustigavam em minha presença?

— Ora, senhor — respondeu Sancho —, os que me fustigavam não

me deixaram perguntar tolices. Com os diabos, então vossa mercê

chegou ao ponto de bisbilhotar os pensamentos dos outros,

principalmente os amorosos?

— Olha, Sancho — disse dom Quixote —, há muita diferença entre

as coisas que se fazem por amor das que se fazem por gratidão. Um

cavaleiro pode muito bem não estar apaixonado, mas não pode,

estritamente falando, ser mal-agradecido. Pelo visto, Altisidora me

amou: deu-me aquelas três toucas, chorou em minha partida, amaldiçoou-me, insultou-me, queixou-se (apesar da vergonha)

publicamente, amostras todas de que me adorava, pois as iras dos

amantes costumam acabar em pragas. Eu não tinha esperanças para

dar a ela nem tesouros para lhe oferecer, porque entreguei as minhas a

Dulcineia e os tesouros de cavaleiros andantes são como os dos

duendes, somem quando tocados, são falsos, pura aparência, e posso dar a Altisidora apenas essas lembranças que tenho dela, sem prejuízo,

no entanto, das que tenho de Dulcineia, a quem tu prejudicas com a

preguiça que tens em açoitar e castigar esse corpo que já vejo comido

pelos lobos, que quer se guardar antes para os vermes que para a

salvação daquela pobre senhora.

— Se vamos falar a verdade, senhor — respondeu Sancho —, não

posso me convencer de que açoitar meu traseiro tenha como ajudar o

desencantamento dos encantados, pois é como se disséssemos: “Se vos

dói a cabeça, botai um cataplasma no joelho”. Pelo menos eu me

atrevo a jurar que, em todas as histórias que tratam da cavalaria

andante que vossa mercê leu, não viu nenhum desencantado por

açoites; mas, pelo sim e pelo não, vou me açoitar, quando tiver

vontade e tempo suficiente.

— Queira Deus — respondeu dom Quixote —, e que os céus te

iluminem para que te dês conta da obrigação que te cabe de socorrer

minha senhora, que também é tua, pois tu és meu.

Em conversas assim, seguiram viagem, até que chegaram ao mesmo lugar onde tinham sido atropelados pelos touros. Reconhecendo-o,

dom Quixote disse a Sancho:

— Este é o campo onde topamos com aquelas pastorinhas

encantadoras e aqueles pastores galantes que queriam imitar e

reconstruir a Arcádia pastoral, ideia tão original como sábia, que eu

gostaria de seguir, Sancho, se te agradar, transformando-nos em

pastores, ao menos pelo tempo de meu retiro. Sim, comprarei algumas

ovelhas e todas as demais coisas que são necessárias ao ofício pastoril.

Eu me chamarei “pastor Quixótis”, tu “pastor Pancino”, e andaremos

pelas montanhas, pelas selvas e pelos campos, cantando aqui,

declamando ali, bebendo nas fontes cristalinas ou nos riachos

límpidos ou nos rios caudalosos. Com mão farta, as azinheiras nos

darão seus doces frutos e assentos, os troncos dos fortíssimos

sobreiros; sombras, os salgueiros; perfume, as rosas; tapetes de mil

cores matizadas, os campos imensos; alento, o ar fresco e puro; luz, a

lua e as estrelas, apesar da escuridão da noite; prazer, o canto; alegria,

o pranto; Apolo, versos; o Amor, conceitos, com que poderemos nos

tornar eternos e famosos, não apenas no presente século, mas nos

seguintes.

— Por Deus — disse Sancho —, esse tipo de vida sim me quadra e

me enquadra. E olha, logo que o bacharel Sansão Carrasco e mestre

Nicolás, o barbeiro, o virem, vão querer nos seguir e se tornar

pastores também. Mas queira Deus que o padre não tenha vontade de

entrar no rebanho, sendo tão alegre e amigo de uma diversão.

— Falaste muito bem — disse dom Quixote. — E o bacharel Sansão

Carrasco, se entrar em nosso grêmio pastoril, como entrará com

certeza, se chamará “pastor Sansonino”, ou talvez “pastor

Carrascão”; o barbeiro Nicolás poderá se chamar “Niculoso”, como o

já antigo Boscán se chamou “Nemoroso”;1 não sei que nome podemos

dar ao padre, se não for algum derivativo de sua profissão, chamando-

o, por exemplo, de “pastor Rosarião”. E as pastoras por quem

estaremos apaixonados? Escolher o nome delas será como escolher

entre pérolas, pois o de minha senhora tanto serve a uma pastora

como a uma princesa: não há por que se cansar em procurar um nome

mais conveniente. E tu, Sancho, chamarás a tua como quiseres.

— Não penso dar outro nome a não ser Teresona — respondeu Sancho —, pois lhe cairá bem com sua gordura e com o que já tem:

Teresa. Depois, celebrando-a em meus versos, revelo a castidade de

meus desejos, pois não ando procurando nas casas alheias o que deixei

na minha. Quanto ao padre, não fica bem que tenha pastora, para dar

bom exemplo; e o bacharel, se quiser ter uma, sua alma, sua palma.

— Santo Deus — disse dom Quixote —, que vida vamos levar,

Sancho, meu amigo! Quantas charamelas vão ressoar em nossos

ouvidos, quantas gaitas de Zamora, quantos tamborins e guizos e

rabecas! E imagina se entre tantas músicas ressoa a dos alboques! Aí

sim se verá quase todos os instrumentos pastoris.

— O que são alboques? — perguntou Sancho. — Nunca vi nenhum,

nem nunca ouvi falar neles.

— Alboques são uns pratinhos de latão, meio como castiçais —

respondeu dom Quixote. — Como são ocos, batendo um no outro

fazem um som que, apesar de não ser muito agradável nem

harmônico, não descontenta e combina bem com a rusticidade da

gaita e do tamborim. Essa palavra, alboques, é mourisca, como todas

aquelas em nossa língua castelhana que começam com al, como por

exemplo: almofada, almoçar, alfombra, almofariz, alfazema, almoxarife, alcanfor e outras semelhantes, que não devem ser muitas

mais; e nossa língua tem apenas três que são mouriscas e acabam em i:

borceguí, zauizamí e maravedí; alhelí e alfaquí, tanto pelo al do

começo como pelo i do final, são conhecidas como árabes.2 Eu me

desviei nessa conversa porque a palavra alboques me trouxe essas

coisas à memória. Enfim, pelo visto vai nos ajudar muito a aperfeiçoar

esse ofício o fato de eu ser um poeta razoável, como tu sabes, e por ser

excelente o bacharel Sansão Carrasco. Do padre não digo nada, mas

posso apostar que é chegado a rimas e métricas; e que também o seja

mestre Nicolás, eu não ficaria surpreso, porque todos ou a maioria

dos barbeiros são violeiros e trovadores. Eu me queixarei de ausência;

tu te gabarás de amante fiel; o pastor Carrascão, de rejeitado, e o

padre Rosarião, do que mais lhe convir, e assim a coisa correrá melhor

do que se imagina.

Ao que Sancho respondeu:

— Senhor, eu tenho tão pouca sorte que tenho medo que não chegue

o dia em que me veja nesse ofício. Oh, quando eu for pastor, quantas colheres vou entalhar e polir! Quantos refogados vou fazer! Quantas

natas, quantas grinaldas! E todas aquelas bugigangas pastoris que,

mesmo que não me tragam fama de sábio, me trarão de habilidoso!

Sanchinha, minha filha, nos levará a comida ao campo. Mas, cuidado!

Ela é jeitosa, e há por aí mais pastores canalhas que inocentes, e eu

não gostaria que ela fosse em busca de lã e saísse tosquiada, porque os

amores e as más intenções costumam andar tanto pelos campos como

pelas cidades, pelas choças pastoris como pelos palácios reais, e tirada

a causa, foi-se o pecado, e o que os olhos não veem o coração não

sente, e mais vale outra volta na chave que conselho de frade.

— Chega de ditados, Sancho — disse dom Quixote. — Basta um dos

que disseste para se entender o que pensas. Muitas vezes te aconselhei

a não ser tão pródigo em ditados, a puxar a rédea ao dizê-los, mas é o

mesmo que pregar no deserto e malhar em ferro frio.

— Parece-me — respondeu Sancho — que vossa mercê é como o

burro que disse ao asno: “Fora daqui, orelhudo!”. Está me

repreendendo e me aconselhando a não dizer ditados, mas vai

desfiando-os de dois em dois.

— Olha, Sancho — respondeu dom Quixote —, eu uso ditados a

propósito: quando os digo, eles servem como anel no dedo. Mas tu os

arrastas pelos cabelos, em vez de guiá-los. E, se me lembro bem, eu te

disse outra vez que os ditados são sentenças breves, nascidas da

experiência e da especulação de nossos sábios antigos, mas, se o

ditado não vem a propósito, é antes um disparate que uma sentença.

Enfim, deixemos isso para lá. Já anoitece, vamos nos afastar um pouco

da estrada real e achar onde passar a noite, que amanhã só Deus sabe

o que será.

Afastaram-se e jantaram tarde e mal, bem contra a vontade de

Sancho, que se lembrou das misérias da cavalaria andante,

principalmente nas selvas e nas montanhas, porque às vezes a fartura

se mostrava nos castelos ou nas casas, como na de dom Diego de

Miranda e na de dom Antônio Moreno, ou na festa de casamento do

rico Camacho. Mas, como não considerava possível ser sempre de dia

nem sempre de noite, passou aquela dormindo, e seu amo, velando.

 

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