Dom Quixote

Miguel de Cervantes · Capítulo 114 de 137

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Dom Quixote

Capítulo LIII

 

do conturbado fim que teve

o governo de sancho pança

“Pensar que nesta vida as coisas devem durar sempre sem mudança é

pensar em vão. Pelo contrário, a vida parece dar voltas, digo, andar

em círculo: à primavera segue o verão, ao verão o estio, ao estio o

outono, e ao outono o inverno, e ao inverno a primavera1 — e assim o

tempo volta a andar nesse círculo contínuo. Apenas a vida humana

corre para seu fim, mais ligeira que o vento, sem esperar se renovar a

não ser na outra, que não tem fronteiras que a limitem.”

Isso diz Cide Hamete, filósofo maometano, porque isso de entender

a rapidez e a instabilidade da vida presente, e da duração da vida

eterna que se espera, muitos entenderam sem a luz da fé, apenas com a

simples luz da razão. Aqui, porém, nosso autor o diz pela presteza

com que se acabou, consumiu-se, desfez-se, foi-se como sombra ou

fumaça o governo de Sancho.

Na sétima noite de sua semana de governo, ele estava em sua cama,

não farto de pão nem de vinho, mas de julgar e dar pareceres e de

fazer estatutos e regulamentos. Quando o sono, apesar da fome,

começava a lhe fechar as pálpebras, ouviu uma tremenda barulheira

de sinos e de gritos, que não parecia senão que toda a ilha afundava.

Sentou-se na cama e ficou atento, escutando, para ver se entendia o

que podia ser a causa de tamanha confusão, mas não só não o soube

como, ao se somar ao barulho de gritos e sinos o de infinitas

trombetas e tambores, ficou mais confuso e cheio de medo e espanto.

Levantando-se, pôs umas chinelas por causa da umidade do assoalho

e, sem vestir uma bata nem coisa parecida sobre a roupa de dormir, foi

até a porta de seu quarto a tempo de ver surgir por uns corredores mais de vinte pessoas com tochas acesas nas mãos e com as espadas

desembainhadas, gritando todas em altos brados:

— Às armas, às armas, senhor governador! Depressa, que inúmeros

inimigos entraram na ilha! Estaremos perdidos se vossa argúcia e

coragem não nos socorrerem!

Com esse barulho, essa fúria e confusão chegaram aonde estava

Sancho, pasmo e aturdido com o que via e ouvia, e, quando se

aproximaram dele, um disse:

— Arme-se logo, vossa senhoria, se não quiser se perder e que se

perca toda a ilha!

— Por que tenho de me armar? — respondeu Sancho. — Que sei eu

de armas e de socorros? Seria melhor deixar essas coisas para meu

amo dom Quixote, que num piscar de olhos dará um jeito nelas,

porque eu, pobre pecador, não sei o que fazer num aperto desses!

— Ah, senhor governador! — disse outro. — Mas que lerdeza é

essa? Arme-se vossa mercê. Trouxemos aqui armas ofensivas e

defensivas. Vamos, saia à praça e seja nosso guia e nosso capitão, que

por direito lhe toca ser, sendo nosso governador.

— Então me botem a armadura — replicou Sancho.

Como já tinham tudo preparado, num instante trouxeram dois

paveses e os puseram por cima do camisolão, sem deixar Sancho pegar

outra roupa. Com um escudo na frente e outro atrás, os braços puxados por umas concavidades que havia, amarraram-no muito bem

com uns cordões, de modo que ele ficou emparedado e entabuado,

reto como um fuso, sem poder dobrar os joelhos nem dar um passo.

Então lhe puseram nas mãos uma lança, à qual ele se apoiou para

poder se manter de pé. Quando afinal o tinham assim, disseram que

caminhasse e os guiasse e os animasse a todos, pois sendo ele seu

norte, sua lanterna e seu farol, seus negócios teriam uma boa

conclusão.

— Pobre de mim — respondeu Sancho —, como posso caminhar se

nem consigo mexer as dobradiças dos joelhos? Estas tábuas estão

grudadas em mim! O que devem fazer é me levar no colo e me botar

atravessado ou de pé em algum postigo, que eu o protegerei com esta

lança ou com meu próprio corpo.

— Vamos, senhor governador — disse alguém. — É mais o medo

que as tábuas o que tolhe seus passos. Acabe logo com isso e mexa-se,

pois é tarde: os inimigos se aproximam, os gritos aumentam, o perigo

é iminente.

Com esses argumentos e vitupérios, o pobre governador tentou se

mexer e foi parar no chão com uma pancada tão grande que pensou que tinha se desfeito em pedaços. Ficou como tartaruga, encerrado e

coberto com seus cascos, ou como torresmo na prensa, ou como um

barco de borco na areia. Mas nem o vendo caído aquela corja

brincalhona teve alguma compaixão. Pelo contrário, apagando as

tochas, os homens voltaram a reforçar os gritos e a reiterar o “às

armas!” com tanta pressa, passando por cima do coitado do Sancho,

dando-lhe inúmeras cutiladas sobre os escudos, que, se não se

recolhesse e encolhesse metendo a cabeça entre as tábuas, teria

passado muito mal o pobre governador. Entalado ali, ele suava e

transudava e se encomendava a Deus de todo coração à espera de que

o tirasse daquele perigo.

Uns tropeçavam nele, outros caíam, e um ficou em cima por um bom

tempo, e dali, como de uma atalaia, comandava os exércitos e dizia,

em altos brados:

— Aqui, pessoal, há mais inimigos atacando! Protejam aquele

postigo, fechem aquela porta, empurrem aquelas escadas das

muralhas! Tragam alcanzias! E caldeirões de piche e resina e azeite fervendo! Rápido, barricadas de colchões nas ruas!

Enfim, com todo empenho ele desfiava todas as bugigangas e

instrumentos e apetrechos de guerra com que se costuma defender

uma cidade atacada, e o moído Sancho, que o escutava e a tudo

aguentava, dizia a si mesmo:

— Oh, quisera Deus que eu perdesse esta ilha de uma vez e me visse

morto ou longe de tamanha agonia!

O céu ouviu seus rogos — quando menos esperava, ouviu brados

que diziam:

— Vitória, vitória! Os inimigos foram batidos! Eia, senhor

governador, levante-se! Venha vossa mercê desfrutar da vitória e

dividir os despojos que tomamos do inimigo pelo valor desse braço

invencível!

— Levantem-me — disse o dolorido Sancho com voz queixosa.

Ajudaram-no a se levantar. Enfim de pé, disse:

— Quero que me botem aqui embaixo do nariz o inimigo que eu

tiver vencido. Não quero dividir despojos de inimigos nem nada. Só

peço e suplico a algum amigo, se é que o tenho, que me dê um trago de vinho, pois estou seco, e que me enxugue o suor, pois estou

molhado.

Limparam-no, trouxeram-lhe vinho, desamarraram os escudos — ele

se sentou em sua cama e desmaiou de medo, susto e cansaço. Já

pesava aos trapaceiros terem feito brincadeira tão pesada, mas, logo

que Sancho voltou a si, amornou a pena que sentiram. Sancho

perguntou que horas eram, responderam que já amanhecia. Calou-se

e, sem dizer mais nada, todo sepultado em silêncio, começou a se

vestir, e todos o olhavam esperando no que ia dar a pressa com que se

vestia. Por fim vestido, foi até a estrebaria, bem devagarinho, porque

estava alquebrado e não podia se mover com rapidez. Todos os que ali

estavam o seguiram. Aproximando-se do burro ruço, Sancho o

abraçou, deu um beijo de paz na testa dele e disse, não sem lágrimas:

— Vinde cá, meu amigo e companheiro! Vinde, meu parceiro de

labutas e misérias: quando andávamos juntos, e eu não tinha outros

pensamentos que os que me davam os cuidados de remendar vossos

arreios e de sustentar vosso corpo, eram felizes minhas horas, meus dias e meus anos. Mas, depois que vos deixei e subi as torres da

ambição e da soberba, entraram-me pela alma mil misérias, mil

agonias e quatro mil aflições.

E, enquanto dizia essas palavras, ia encilhando o burro, sem que

ninguém lhe dissesse nada. Enfim, encilhado o ruço, com grande

tristeza e pesar montou nele, e, dirigindo suas palavras e alegações ao

administrador, ao secretário, ao mordomo e a Pedro Recio, o doutor, e

a muitos outros que estavam presentes, disse:

— Abri alas, meus senhores, e deixai-me voltar a minha antiga

liberdade: deixai-me que vá procurar a vida passada, para que me

ressuscite desta morte presente. Não nasci para ser governador nem

para defender ilhas nem cidades dos inimigos que quiserem tomá-las.

Entendo mais de arar e capinar, podar e limpar o mato dos vinhedos

que de fazer leis ou defender províncias ou reinos. Bem está são Pedro

em Roma: quero dizer, cada macaco no seu galho, cada um no ofício

para que nasceu. Em minha mão fica melhor uma foice que um cetro:

prefiro me embuchar de sopa com pão que estar sujeito à miséria de

um médico impertinente que me mate de fome; e quero mais me

recostar à sombra de uma azinheira no verão e me abrigar com um casaco de lã no inverno, em minha liberdade, que me deitar com a

sujeição do governo entre lençóis de linho e me vestir com peles de

marta-cebolinha, ou sei lá eu. Vossas mercês fiquem com Deus e digam

ao duque, meu senhor, que nasci nu e nu me encontro: nada perdi nem

ganhei; quero dizer que entrei sem prata neste governo e saio sem ela,

ao contrário do que costumam sair os governadores de outras ilhas. E

afastem-se, deixem-me ir, que vou botar uns emplastros, pois tenho as

costelas machucadas, por causa dos inimigos que esta noite passearam

sobre mim.

— Não precisa ser assim, senhor governador — disse o doutor Recio

—, porque eu darei a vossa mercê uma bebida contra quedas e sovas

que num instante vai lhe devolver sua antiga saúde e vigor. Quanto à

comida, eu prometo a vossa mercê me emendar, dando-lhe de comer

abundantemente de tudo aquilo que quiser.

— Piaste tarde! — respondeu Sancho. — Deixarei de ir tanto quanto

vou me tornar turco. Só o tolo cai duas vezes no mesmo buraco. Por

Deus, tanto fico neste governo ou aceito outro, mesmo que me deem de bandeja, quanto voar ao céu sem asas. Eu sou da família dos

Panças: são todos cabeçudos, se uma vez dizem pedra, será sempre

pedra, mesmo que seja pau, mesmo que lhes esfreguem no nariz. Deus

dá asas à formiga para que morra mais depressa; pois fiquem aí na

estrebaria as asas de formiga que me elevaram no ar para que as

andorinhas e outros pássaros me comessem, e voltemos a andar no

chão com pés descalços, pois, se não os enfeitarmos com sapatos finos

de camurça, não lhes faltarão alpargatas toscas de corda. Cada

macaco no seu galho, e ninguém dê passos maiores que as pernas, e

deixem-me passar, que já é tarde.

A isso, o administrador disse:

— Senhor governador, com toda boa vontade deixaremos vossa

mercê ir, apesar de nos pesar muito perdê-lo, pois sua sabedoria e seu

comportamento cristão nos obrigam a desejar que fique. Mas já se

sabe que todo governador tem obrigação, antes de se ausentar de seus

domínios, de prestar contas de sua gestão: preste-a dos dez dias que

governou e pode ir embora na paz de Deus.

— Ninguém pode me pedir nada — respondeu Sancho —, se não

tiver ordens do duque, meu senhor. Eu vou vê-lo, e a ele prestarei contas tintim por tintim, ainda mais que, saindo eu nu, como saio,

não preciso de outra prova para mostrar que governei como um anjo.

— Por Deus, tem razão o grande Sancho — disse o doutor Recio. —

Eu sou da opinião de que devemos deixá-lo ir, porque o duque vai

gostar muito de vê-lo.

Todos concordaram com isso e o deixaram ir, oferecendo-lhe antes

companhia e tudo aquilo que quisesse para conforto de sua pessoa e

que facilitasse a viagem. Sancho disse que não queria mais que um

pouco de cevada para o burro e meio queijo e meio pão para ele,

porque o caminho era muito curto, não havia maior necessidade nem

melhor manjar. Todos o abraçaram e ele, chorando, abraçou a todos, e

os deixou admirados, tanto por suas palavras como por sua decisão

tão firme e tão sagaz.

 

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