Dom Quixote

Miguel de Cervantes · Capítulo 6 de 137

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Dom Quixote

Introdução

john rutherford

— Então tenho de dizer — disse dom Quixote — que o autor de

minha história não foi um sábio, mas algum camponês ignorante,

que às cegas e sem nenhum critério se pôs a escrevê-la, saia o que

sair, como fazia Orbaneja, o pintor de Úbeda, que respondeu quando

lhe perguntaram o que pintava: “O que sair”.

Dom Quixote, ii, iii

No prólogo à primeira parte de Dom Quixote, Cervantes conta que

a ideia do livro lhe ocorreu na prisão. É provável que se refira a sua

reclusão em Sevilha (1597-8) por imperícia na função de coletor de impostos. Não se sabe se começou a escrever ainda no cárcere ou

depois. Mas está claro que a obra que tinha em mente era muito

diferente da que acabou produzindo. Ele pensava numa ficção breve

parecida com as Novelas exemplares, publicadas em 1613. Indicam-no

o ritmo acelerado e a curta duração da primeira incursão do cavaleiro,

que a empreende sozinho e não vai além dos primeiros cinco

capítulos, assim como o fato de, na sétima frase do texto, o narrador

se referir à obra como cuento, um conto, coisa que volta a fazer só

mais uma vez. Quando a ficção deslancha plenamente, Cervantes

passa a chamar o texto de libro e historia, reservando cuento para os

contos nele contidos. Ao chegar ao fim da primeira incursão, começa a

perceber que precisa explorar mais o mundo ficcional fascinante em

que tropeçou. De modo que, aquela que talvez tenha se iniciado como

uma fábula mais ou menos moral, recorrendo à paródia para atacar os

livros de cavalaria devido ao efeito pernicioso que tinham sobre os

leitores, se transformou, à medida que ia sendo escrita, no primeiro

romance moderno. Recorrendo à anedota de Orbaneja, Cervantes, com característica autoironia, conta como criou sua grande obra.

No entanto, o conteúdo moral mesmo da primeira concepção de

Dom Quixote é duvidoso. O herói se mostra tão obcecado pelas

baladas espanholas tradicionais e seus protagonistas quanto pelos

livros de cavalaria: histórias de cavaleiros enamorados, todos de

armadura reluzente, a percorrerem países exóticos, matando gigantes e o dragão ocasional e salvando donzelas em perigo a fim de provar sua

grande habilidade de guerreiros e sua perfeição de amantes, apesar das

terríveis maquinações dos magos. Os livros de cavalaria gozaram de

grande popularidade e foram criticados pelos moralistas por desviar

da religião o pensamento dos leitores, principalmente das jovens

leitoras, voltando-o para as coisas mundanas. Mas tudo isso tinha

acontecido nos primeiros setenta anos do século xvi. Daí em diante, os livros de cavalaria foram superados pelo florescimento da literatura

que ficou conhecido como a Idade de Ouro espanhola, e, no tempo de

Cervantes, ninguém mais os considerava uma ameaça. A nova ameaça

moral literária era o teatro. Mas, numa época em que, conforme o

figurino clássico, a literatura ficcional devia não só agradar como

instruir e na qual as autoridades podiam censurar ou proibir livros,

nada era mais sensato que atribuir um propósito moral ortodoxo ao

que se escrevia, particularmente quando a ironia irreverente do texto

sugeria ideias críticas com relação a certos aspectos da prática

católica, como o julgamento e a queima de hereges, o uso do rosário e a repetição dos credos e ave-marias. Mas tudo indica que Cervantes se

interessava mais pelo prazer que pela instrução. O que o entusiasmava

era a alegria da narração, a graça da paródia, o humor como algo

bom em si em virtude de seu valor terapêutico. A alegação de um

propósito moral inconvincente e anacrônico talvez faça parte da graça:

uma paródia a mais. E a piada provoca riso até hoje, porque a obra

que afirma destruir os livros de cavalaria é justamente o que manteve

viva sua lembrança.

Ler este romance adorável é acompanhar o autor numa aventura

excitante à medida que ele improvisa a história e a vê crescer entre

suas mãos. Naturalmente, seria um erro esperar que o livro fosse

rigorosamente estruturado. Apesar do grande esforço dos críticos

acadêmicos, Dom Quixote é uma obra episódica, tanto quanto os

livros de cavalaria, que consistem numa sucessão de encontros

fortuitos.

O primeiro desenvolvimento depois da breve incursão inicial é

prover dom Quixote de um escudeiro, Sancho Pança, que abre

caminho para as conversas que se alternam com a ação. A possibilidade de recrutar um escudeiro foi sugerida, mas não posta em

prática, durante a primeira incursão. As longas conversas entre

cavaleiro e escudeiro não são uma característica dos livros de

cavalaria, mas sua contribuição para Dom Quixote é vital, permitindo

que este romance de aventuras cômicas também seja uma comédia de

caráter. Primeiro, dom Quixote e Sancho aparecem como figuras

bidimensionais da diversão burlesca, ambas derivadas da literatura

espanhola recente. Dom Quixote é um velho maluco que se julga um

cavaleiro andante e sofre risíveis desastres provocados por ele mesmo;

e Sancho, o bufão rústico, egoísta e materialista, um personagem

típico das comédias espanholas do século xvi. Os dois são absurdamente inadequados a seus papéis: nos livros de cavalaria, os

cavaleiros e os escudeiros eram jovens de berço nobre, sendo que os

últimos estavam fazendo o aprendizado para depois também vir a ser

cavaleiros.

Mas estes dois palhaços logo passam a se desenvolver, tal como se

desenvolve a relação entre eles. Cada qual começa a mostrar características contraditórias: dom Quixote tem direito a intervalos

lúcidos, derivados das teorias médicas contemporâneas acerca da

natureza da loucura, e Sancho obtém a astúcia e certa sagacidade da

figura do camponês dos contos populares. Os dois ganham

profundidade e complexidade — um louco lúcido e um bobo sábio —

e o humor se torna mais sutil, embora nunca se afaste do burlesco.

Acima de tudo, tanto dom Quixote quanto Sancho adquirem a

capacidade de nos pasmar, se bem que sempre de modo convincente.

Aqui são relevantes dois princípios da teoria literária da Idade de

Ouro: a crença em que admiratio (admiração) e verossimilhança são

qualidades essenciais à literatura ficcional subjaz à maravilhosa

combinação de imprevisibilidade e credibilidade de nossos dois heróis.

Dom Quixote é uma obra experimental muito adiante de seu tempo,

no entanto está profundamente enraizada em seu tempo. A

determinação do protagonista de transformar a vida numa obra de

arte, que chegará ao clímax em sua penitência na Sierra Morena, é a

consequência da aplicação insana de outro princípio literário do Renascimento, o da imitatio, a importância da imitação dos modelos

literários.

A julgar pelo que Cervantes diz no fim do prólogo, ele se orgulhava

muito de haver criado Sancho Pança. E, logo que este aparece,

Cervantes relata o incidente que viria a ser o mais famoso do livro, a

aventura dos moinhos de vento. Os leitores se perguntam por que ele é

narrado tão sucintamente, mas o motivo é bem claro: a história mal

estava começando a se expandir, ainda não evoluíra de cuento para

historia. É possível que os leitores também indaguem por que se

tornou o episódio mais famoso: simplesmente por ser a primeira

aventura que cavaleiro e escudeiro vivem juntos?

A segunda etapa desse desenvolvimento espontâneo para um

romance é a invenção dos narradores. Durante toda a primeira

incursão, a história é contada por um narrador anônimo ao qual não

se dá a menor importância. Uma vez mais, vemos indícios do que está

por vir quando somos informados das opiniões divergentes sobre

questões factuais entre os diversos autores que escreveram a respeito de dom Quixote, e à medida que ele próprio prenuncia como o sábio

que fará a crônica de suas aventuras há de descrever essa primeira.

Dom Quixote acaba de sair de casa novamente quando Cervantes

começa a pensar num modo de explorar essa ideia de diversos

narradores para que o chiste continue: num ponto altamente

inconveniente, afirma que é ali que o material da fonte, e portanto a

própria história, chega subitamente ao fim. O enigmático segundo

autor, agora apresentado como o mentiroso historiador mouro Cide

Hamete Benengeli, e seu nada confiável tradutor mourisco, juntos,

conseguem resolver o problema, fazer com que a história prossiga e

criar oportunidades de jogar jogos literários no transcorrer do

romance. Tudo isso é mais uma paródia dos livros de cavalaria,

geralmente apresentados como traduções espanholas de documentos

antigos.

É justamente nesse ponto, o início do capítulo ix, que Dom Quixote é chamado de cuento pela última vez. A história escapa tortuosamente

das mãos de Miguel de Cervantes Saavedra para cair nas de Cide

Hamete Benegeli. Cervantes também marca essa transição avisando que a segunda parte começa ali e referindo-se ao “muito que em

minha opinião faltava de história tão deliciosa”. “Pareceu-me coisa

impossível e fora de todo bom costume que houvesse faltado a esse

excelente cavaleiro algum mago que se encarregasse de escrever suas

façanhas nunca vistas”, prossegue Cervantes ao perceber o potencial

desse cuento e ao incluir na própria história o ato de percebê-lo. A

partir daí, já não se pode conferir a evolução de Dom Quixote de

conto para romance.

De modo que agora Sancho e o bando de narradores são

incorporados, e Cervantes continua escrevendo, depressa, sem parar

para examinar as incoerências internas. Depois de vários outros

capítulos, ocorre-lhe que a jocosidade aumentaria se a linguagem de

Sancho se caracterizasse por um acúmulo de provérbios, e, a partir de

então, é assim que passa a ser a famosa fala do escudeiro. É possível

que a ideia tenha saído da Comedia o tragicomedia de Calisto y

Melibea (1499 e 1502), de Fernando de Rojas, geralmente conhecida como La Celestina, uma narrativa ficcional dramática repleta de provérbios, a maior parte dos quais reutilizada em Dom Quixote.

Não seria difícil revisar os capítulos anteriores e pôr alguns provérbios

na boca de Sancho, em prol da coerência, mas Cervantes não se detém

por conta de semelhante trivialidade. Está escrevendo um romance

cômico efêmero de consumo popular, não uma obra clássica erudita

para o estudo minucioso e a análise das futuras gerações de críticos

doutos. No entanto, ele também começa a se dar conta de toda a

importância desse seu achado e faz com que um dos personagens o

felicite: “não sei se alguém, querendo inventá-la e vivê-la

fantasiosamente, teria imaginação tão afiada que pudesse topar com

ela”, diz Cardênio no capítulo xxx.

Mas, duvidando de sua capacidade de transformar um tema simples

como o relacionamento de dois amigos excêntricos e nômades num

volumoso romance de sucesso, Cervantes trata de interpolar alguns

contos que têm frágeis vínculos com a história principal, não

participam de seu tom cômico, e os quais o leitor pode pular se os

achar enfadonhos, ainda que não lhes faltem interessantes qualidades

próprias. E, tendo escrito suas duzentas mil e tantas palavras, Cervantes leva dom Quixote de volta para casa e termina a história.

Esse fim tanto encerra o romance, aludindo à morte do cavaleiro,

quanto o deixa aberto para uma possível continuação, mencionando

aventuras subsequentes, particularmente sua participação em certas

justas em Zaragoza e incluindo uma citação do Orlando furioso de

Ariosto para sugerir que outra pessoa talvez queira dar seguimento à

história, como costumava acontecer com os livros de cavalaria.

El ingenioso hidalgo Don Quijote de la Mancha foi publicado em

Madri, numa edição açodada, malfeita, entre o fim de dezembro de

1604 e o começo de janeiro de 1605. O livro foi um sucesso popular

imediato. Nascido em 1547, Cervantes já era velho, mas, mesmo assim, instigado pelo florescimento extraordinário da literatura na

Espanha do início do século xvii, estava no auge da produtividade

criativa. Incapaz de resistir ao estímulo dado pela popularidade de

Dom Quixote, ele retoma a versão aberta do fim e decide levar seu

cavaleiro a Zaragoza, como prometeu. Reagindo à crítica, diz que os

contos interpolados na segunda parte serão mais breves e mais integrados à história principal, desenvolvendo-se a partir das

experiências dos dois heróis.

Sua imaginação não tarda a se valer de uma circunstância nova e

repleta de possibilidades de enriquecer ainda mais o romance: a

publicação e a popularidade da primeira parte. Assim, agora dom

Quixote descobre que é o herói que ele tão improvavelmente almejava

ser, e Sancho também goza de uma fama inesperada. Nenhum dos dois

conhece a triste verdade da maneira como foram descritos, de modo

que sua autoconfiança e autoimportância aumentam, assim como sua

complexidade. Dom Quixote atrai nossa simpatia e piedade, assim

como nosso escárnio, já que é alvo de uma série de sofisticadas piadas

práticas: mas rir à sua custa agora é mais desconfortável. A evolução

de Sancho Pança de simplório para um homem de talento se acelera à

medida que ele cria confiança para enganar e manipular seu senhor,

algo que já começou a fazer na primeira parte: as relações entre

superiores e inferiores mostram-se mais complexas do que talvez

pareçam. E agora Cervantes concebe um meio para que Sancho venha

a ser, espantosa mas credivelmente, governador da ilha que lhe é prometida logo em sua primeira aparição; e o escudeiro torna a nos

impressionar com a rara combinação de sabedoria e burrice que

mostra tanto no governo quanto ao se afastar dele.

No outono de 1614, quando o fatigado Cervantes está escrevendo o

capítulo lix, já perto do fim da segunda parte, eis que estoura uma bomba: a publicação, em Tarragona, do Segundo volume do

engenhoso cavaleiro dom Quixote da Mancha, de Alonso Fernández

de Avellaneda, pseudônimo de um escritor não identificado que, tendo

aceitado o convite fajuto do fim da primeira parte, produzira uma

imitação inferior, que narrava a viagem a Zaragoza e os fatos lá

ocorridos. Cervantes expressa sua irritação no prólogo da segunda

parte (naturalmente, a última seção que escreveu). Mas é artista

demais para deixar que a raiva o cegue para as possibilidades cômicas

abertas pelo surgimento inesperado de outro dom Quixote e outro

Sancho Pança; e trata de incluí-los em sua história. E dom Quixote,

ainda a caminho de Zaragoza, muda de planos de uma hora para

outra e decide ir a Barcelona: para demonstrar a espuriedade do relato de Avellaneda. Tudo isso impele Cervantes a conduzi-lo ao fim de sua

história, o qual já vinha se anunciando no crescimento de dúvidas e

desilusão na mente dos dois personagens. Cervantes tem o cuidado de

concluir a segunda parte com um desfecho definitivo e categórico.

Aliás, não lhe restavam muitos meses de vida.

Nesta reconstrução da escrita de Dom Quixote, frisei seu caráter de

livro engraçado porque tudo indica que era essa a intenção do autor. É

possível que o leitor moderno tenha dificuldade para apreciar parte

dessa graça, já que ela nos parece tão cruel. Para enfrentar esse

problema, é útil recordar que, até uma época comparativamente

recente, o riso era a reação autodefensiva contra a descoberta de

flagrantes desvios da beleza e da harmonia da natureza divina. O riso

nos distancia daquilo que é feio e, portanto, potencialmente

angustiante, permitindo-nos, de fato, dele extrair prazer e benefício

terapêutico paradoxais. Nos últimos dois séculos, o espaço de

experiências angustiantes com as quais se podia lidar com o auxílio do

riso encolheu, e, hoje em dia, está em voga preferir o eufemismo

desprovido de humor e politicamente correto, coisa que pode ser menos eficaz ainda; mas, no tempo de Cervantes, a loucura e a

violência figuravam entre as muitas manifestações da feiura que se

podiam enfrentar com o riso.

E, no entanto, é comum as obras de literatura ficcional

desenvolverem, tanto na escrita quanto depois, qualidades diferentes

das pretendidas pelo autor, e em Dom Quixote são muitas as que nos

levam a pensar seriamente. Rimos das palhaçadas de dom Quixote e

Sancho; mas, quando descobrimos que o fazemos em companhia do

tolo duque e da tola duquesa, pode ser que não nos sintamos tão à

vontade com nosso riso; nesse caso, o romance passa a ser não só um

livro engraçado sobre malucos como uma exploração da ética da

graça e da incerta linha divisória entre loucura e lucidez. É claro que,

para tomar outro exemplo, Cervantes fez da própria ficção um tema

central de sua obra de ficção por causa das possibilidades cômicas que

isso lhe oferecia. Mas nada impede os leitores de avançar para uma

consideração de sérias implicações sobre as relações entre fato e ficção

e sobre os paralelos entre a reação de dom Quixote aos livros de cavalaria e as reações atuais às telenovelas ou à violência televisada.

Tudo isso pode até levar à percepção de que a ficção afetada ou

autorreferente não é uma descoberta do século xx, como parecem acreditar certos críticos e teóricos contemporâneos em seu

provincianismo pós-modernista.

Com sua graça e toda a seriedade e todas as surpresas, Dom

Quixote oferece aos leitores uma gloriosa viagem de descoberta na

excelente companhia de Sancho Pança, Dom Quixote de la Mancha e

Miguel de Cervantes Saavedra. ¡Buen viaje a todos!

 

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