Dom Quixote

Miguel de Cervantes · Capítulo 67 de 137

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Dom Quixote

Capítulo VI

do que aconteceu a dom quixote

com sua sobrinha e sua criada —

um dos capítulos mais importantes

de toda a história

Enquanto Sancho Pança e sua mulher Teresa Cascalho estavam

naquela conversa descabida de que falamos, não andavam ociosas a

sobrinha e a criada de dom Quixote, que por mil sinais iam

concluindo que seu tio e senhor queria se escapar pela terceira vez e

voltar ao exercício da sua, para elas, mal andante cavalaria:

procuravam por todos os meios possíveis afastá-lo desse péssimo

pensamento, mas era pregar no deserto e malhar em ferro frio. Apesar

disso, entre muitos argumentos que lhe apresentaram, a criada disse:

— Na verdade, meu senhor, se vossa mercê não assentar a cabeça e

ficar quieto em casa e deixar de andar pelas montanhas e vales como

alma penada, buscando isso que chamam de aventuras, a que eu

chamo de desgraças, tenho de me queixar aos gritos a Deus e ao rei,

para que deem um jeito nisso.

Ao que dom Quixote respondeu:

— O que Deus responderá a tuas queixas eu não sei, nem também o

que responderá Sua Majestade; sei apenas que eu, se fosse rei, me

recusaria a responder a essa infinidade de petições impertinentes que

lhe entregam todo dia, pois um dos maiores trabalhos que os reis têm,

entre muitos outros, é estar obrigados a ouvir a todos e responder a

todos. Por isso não gostaria de incomodá-lo com minhas coisas.

— Diga-nos, senhor — disse a criada —, não há cavaleiros na corte

de Sua Majestade?

— Sim — respondeu dom Quixote —, e muitos, e há motivo para isso: adorno da grandeza dos príncipes e ostentação da majestade real.

— Então, vossa mercê não poderia ser — replicou ela — um dos que

sem mexer uma palha servem a seu rei e senhor ficando na corte?

— Olha, minha amiga — respondeu dom Quixote —, nem todos os

cavaleiros podem ser cortesãos, nem todos os cortesãos podem nem

devem ser cavaleiros andantes: deve haver de tudo no mundo, e, embora todos sejamos cavaleiros, vai grande diferença entre uns e

outros, porque os cortesãos, sem sair de seus aposentos nem dos

umbrais da corte, passeiam por todo o mundo olhando um mapa, sem

que lhes custe uma moeda e sem padecer calor nem frio, fome e sede.

Mas nós, os cavaleiros andantes verdadeiros, ao sol, ao frio, ao vento,

às intempéries do céu, de noite e de dia, a pé e a cavalo, medimos toda

a terra com nossos próprios passos e não conhecemos os inimigos

apenas em figura, mas em carne e osso, e em todo aperto e em toda

ocasião nós os atacamos sem reparar em ninharias, nem nas leis dos

desafios: se leva ou não leva mais curta a lança ou a espada, se traz

sobre si relíquias ou prepara alguma trapaça, se vão se posicionar sem

o sol nos olhos ou não, com outras cerimônias desse tipo que se usam

nos desafios particulares de pessoa a pessoa, que tu não conheces e eu

sim.

“E deves saber mais: o bom cavaleiro andante, mesmo que veja dez

gigantes que não só tocam as nuvens com a cabeça, mas as

ultrapassam, e que a cada um servem de pernas duas enormes torres, e que os braços parecem mastros grossos de poderosos navios, e cada

olho é como uma grande roda de moinho e ardendo mais que um

forno de vidro, não vai se espantar de maneira nenhuma, ao contrário,

com porte galante e com coração intrépido vai atacá-los e, se for

possível, vencê-los e desbaratá-los num instante, mesmo que venham

com armaduras de conchas de certas criaturas marinhas que, dizem,

são mais duras que se fossem de diamante, e em vez de espadas

trouxessem facões afiados de aço de Damasco, ou correntes com bolas

também de aço cheias de pontas, como eu vi mais de duas vezes. Disse

tudo isso, minha cara, para que vejas a diferença que há entre uns e

outros cavaleiros; e por isso não seria justo que houvesse príncipes que

não preferissem mais a segunda ou, digamos melhor, a primeira

espécie de cavaleiros andantes, pois, conforme lemos em suas

histórias, houve alguns entre eles que foram a salvação não apenas de

um reino, mas de muitos.”

— Ah, meu senhor! — disse a sobrinha nessa altura. — Repare vossa

mercê que tudo isso que diz dos cavaleiros andantes não passa de

fábula e invencionice, e as histórias deles, já que não são queimadas, deviam vir com um sambenito ou algum outro sinal para que fossem

conhecidas como infames e destruidoras dos bons costumes.

— Pelo Deus que me protege — disse dom Quixote —, se não fosses

minha sobrinha em linha direta, filha de minha própria irmã, eu havia

de te infligir tal castigo pela blasfêmia que disseste que ecoaria por

todo o mundo. Como é possível que uma mocinha que mal sabe lidar

com doze bilros na hora de fazer renda se atreva a botar a boca nas

histórias dos cavaleiros andantes e censurá-las? O que diria o senhor

Amadis se ouvisse isso? Com certeza ele te perdoaria, porque foi o

mais humilde e cortês cavaleiro de seu tempo, além de grande defensor

das donzelas. Mas poderia ter te ouvido outro que não aceitasse bem

isso, pois nem todos são corteses nem muito comedidos: alguns são

desordeiros e arrogantes; nem todos os que se chamam cavaleiros o

são inteiramente, pois uns são de ouro, outros de ouro de alquimia, e

todos parecem cavaleiros, mas nem todos podem superar a prova da

verdade. Há homens baixos que se arrebentam para parecer

cavaleiros, e cavaleiros nobres que de propósito se matam para parecer homens baixos: aqueles se erguem ou com a ambição ou com

a virtude, estes se rebaixam ou com a fraqueza ou o vício; devemos

usar nosso melhor discernimento para distinguir estas duas categorias

de cavaleiros, tão semelhantes nos nomes e tão distantes nas ações.

— Valha-me Deus! — disse a sobrinha. — Vossa mercê sabe tanto,

senhor meu tio, que poderia subir num púlpito ou ir pregar pelas ruas

se fosse preciso, numa hora de aperto. Mas mesmo assim deu numa

cegueira tão grande e num desvario tão óbvio que pensa que é valente,

sendo velho; que tem forças, estando doente; que endireita erros,

estando curvado pela idade, e sobretudo que é cavaleiro sem o ser,

porque embora os fidalgos ricos o possam ser, os pobres…

— Tens toda razão no que dizes, minha sobrinha — respondeu dom

Quixote. — Quanto às famílias nobres, eu poderia te dizer coisas que

te espantariam, mas, para não misturar o divino com o humano, me

calo. Olhai, minhas amigas, e prestai atenção: podem se reduzir a

quatro espécies de linhagens todas as que existem no mundo, que são

estas: umas, que tiveram princípio humilde e foram se desenvolvendo e

crescendo até chegar a uma nobreza extrema; outras começaram

nobres e foram conservando e conservam e mantêm a nobreza do início; outras, mesmo tendo começado nobres, acabaram em ponta

como uma pirâmide, tendo diminuído e aniquilado a nobreza do

princípio até ficar sem nada, como é a ponta da pirâmide, que em

relação a sua base não é coisa nenhuma; há outras, e essas são a

maioria, que nem tiveram um começo bom nem razoável nem médio,

e assim terão o fim, sem nome, como a linhagem das pessoas plebeias

e comuns. Das primeiras, que tiveram princípio humilde e galgaram à

nobreza que agora conservam, te sirva de exemplo a casa otomana,

que de um humilde e baixo pastor que lhe deu início está no topo em

que a vemos. Da segunda linhagem, a que teve início na nobreza e a

conserva sem modificá-la, servem de exemplo muitos príncipes que

por herança o são e permanecem nela, sem aumentá-la nem diminuí-

la, contentando-se pacificamente com os limites de sua condição. Das

que começaram nobres e acabaram sem nada há milhares de

exemplos, porque todos os faraós e Ptolomeus do Egito, os Césares de

Roma, com todo o bando (se se pode falar assim) infinito de príncipes,

monarcas, senhores, medos, assírios, persas, gregos e bárbaros, todas essas linhagens e senhorias acabaram em nada, tanto eles como os que

lhes deram origem, pois não será possível achar agora nenhum de seus

descendentes, e se achássemos seria numa condição baixa e humilde.

Da linhagem plebeia não tenho o que dizer exceto que serve apenas

para aumentar o número dos que vivem, sem que a nobreza deles

mereça outra reputação nem outros elogios.

“De tudo o que disse, minhas caras tolas, quero que percebais como

é grande a confusão que há entre as linhagens, e que só parecem

grandes e ilustres aquelas que o demonstram na virtude, na riqueza e

na generosidade de seus membros. Disse virtude, riqueza e

generosidade, porque o nobre que for vicioso será nobre vicioso, e o

rico sem generosidade será um mendigo avarento, pois quem possui as

riquezas não é feliz por tê-las, mas por gastá-las, e não gastá-las de

qualquer jeito, mas empregando-as bem. Ao cavaleiro pobre não resta

outro caminho para mostrar que é cavaleiro exceto o da virtude,

sendo afável, educado, cortês, comedido e diligente, não soberbo, nem

arrogante, nem bisbilhoteiro, mas sobretudo deve ser caritativo,

porque com dois tostões que dê de boa vontade ao pobre se mostrará

tão generoso como quem distribui esmolas anunciando aos quatro cantos do mundo, e não haverá quem não o veja adornado das

referidas virtudes que, mesmo sem o conhecer, deixe de julgá-lo e tê-lo

por de boa família, e não o ser seria um milagre. O louvor sempre foi

o prêmio da virtude, e os virtuosos não podem deixar de ser louvados.

“Há dois caminhos, minhas filhas, por onde os homens podem

chegar a ser ricos e honrados: um é o das letras; o outro, o das armas.

Eu tenho mais armas que letras, e nasci, já que me inclino pelas armas,

sob a influência do planeta Marte, de modo que me é quase forçoso

seguir pelo caminho do deus da guerra, e por ele tenho de ir apesar de

todo mundo, e será inútil vos cansar tentando me persuadir a não

querer o que querem os céus, a sorte ordena e a razão pede e,

sobretudo, minha vontade deseja. Pois conhecendo, como conheço, as

incontáveis dificuldades que a cavalaria andante implica, conheço

também os infindáveis bens que se alcançam com ela. Eu sei que a

trilha da virtude é muito estreita e que o caminho do vício é largo e

folgado, mas sei que o fim e objetivo deles é diferente. O caminho do

vício, livre e desimpedido, acaba na morte; a trilha da virtude, difícil e complicada, acaba na vida, não em vida que termina, mas na que não

terá fim; e sei, ainda, como diz nosso grande poeta castelhano, que

Por estas asperezas se caminha

da imortalidade ao alto trono,

aonde nunca chega quem dele declina.”a

— Ai, pobre de mim — disse a sobrinha —, pois meu senhor

também é poeta! Tudo sabe, tudo compreende: eu aposto que, se

quisesse ser pedreiro, saberia fazer uma casa tão bem como uma

gaiola.

— Eu te garanto, sobrinha — respondeu dom Quixote —, que, se

estes pensamentos de cavalarias não me arrastassem atrás de si com

todos os meus sentidos, não haveria coisa que eu não fizesse nem

curiosidades que não saíssem de minhas mãos, especialmente gaiolas e

palitos de dentes.1

Nesse momento, bateram na porta. Ao perguntarem quem chamava,

Sancho Pança respondeu que era ele; e, mal a criada o reconheceu, foi

se esconder correndo para não vê-lo, tamanha antipatia sentia por ele.

A sobrinha abriu a porta, e o senhor dom Quixote saiu de braços abertos para receber o escudeiro; depois os dois se trancaram no

quarto, onde tiveram outra conversa que não fica atrás da anterior.

a Versos da primeira elegia de Garcilaso: “Por estas asperezas se camina/ de la inmortalidad al alto asiento,/ do nunca arriba quien de allí declina”.

 

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