Dom Quixote

Miguel de Cervantes · Capítulo 133 de 137

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Dom Quixote

Capítulo LXXII

de como dom quixote e sancho

chegaram a sua aldeia

Dom Quixote e Sancho estiveram todo o dia naquela aldeia, sem sair

da hospedaria, à espera da noite, um para acabar em campo aberto a

sova de sua penitência, e o outro para ver o fim dela, que seria

também o de seu desejo. Nisso chegou à hospedaria um viajante a

cavalo, com três ou quatro criados, um dos quais disse ao que parecia

senhor deles:

— Aqui, senhor dom Álvaro Tarfe, vossa mercê pode passar hoje a

sesta: a pousada parece limpa e fresca.

Ouvindo isso, dom Quixote disse a Sancho:

— Olha, Sancho: quando folheei aquele livro da segunda parte de

minha história, parece-me que de passagem topei ali com este nome:

dom Álvaro Tarfe.1

— Sim, pode ser — respondeu Sancho. — Vamos deixar que apeie e

depois lhe perguntaremos.

O cavaleiro apeou, e a dona da pousada lhe deu o quarto diante do

de dom Quixote, enfeitado com outras sarjas pintadas como as

descritas antes. O cavaleiro recém-chegado vestiu roupas mais leves e,

saindo para a varanda da hospedaria, que era espaçosa e fresca,

perguntou a dom Quixote, que passeava por lá:

— Para onde vai vossa mercê, senhor gentil-homem?

E dom Quixote respondeu:

— Para uma aldeia perto daqui, onde nasci. E qual o destino de

vossa mercê?

— Eu, senhor — respondeu o cavaleiro —, vou a Granada, que é

minha pátria.

— Bela pátria! — replicou dom Quixote. — Mas, por favor, queira

vossa mercê me dizer seu nome, porque é muito importante para mim

sabê-lo, coisa que não posso lhe explicar facilmente.

— Meu nome é dom Álvaro Tarfe — respondeu o hóspede.

Ao que dom Quixote respondeu:

— Sem dúvida alguma penso que vossa mercê deve ser aquele dom

Álvaro Tarfe que anda impresso na segunda parte da história de dom

Quixote de la Mancha, recém-publicada e dada à luz do mundo por

um autor moderno.

— Sou eu mesmo — respondeu o cavaleiro —, e o tal dom Quixote,

personagem principal de tal história, foi grandíssimo amigo meu. Fui

eu que o tirei de sua terra, ou pelo menos o encorajei a ir a um torneio

que faziam em Zaragoza, para onde eu ia. Na verdade, eu lhe dei

muitas mostras de amizade e impedi que o verdugo lhe medisse as

costas por ser atrevido demais.2

— Então me diga, senhor dom Álvaro, eu tenho alguma semelhança

com esse tal dom Quixote de que vossa mercê fala?

— Não, com certeza — respondeu o hóspede —, de jeito nenhum.

— E esse dom Quixote — disse o nosso — levava consigo um

escudeiro chamado Sancho Pança?

— Levava sim — respondeu dom Álvaro. — E, embora tivesse fama

de muito engraçado, nunca lhe ouvi dizer nada que tivesse graça.

— Acredito piamente — disse Sancho nessas alturas —, porque dizer

coisas engraçadas não é para qualquer um, e esse Sancho de que vossa

mercê fala, meu caro senhor, deve ser algum grandessíssimo velhaco,

enfadonho e ladrão ao mesmo tempo, pois o verdadeiro Sancho Pança

sou eu, que digo graças a três por quarto como se tivessem chovido

sobre mim. Se não acredita, faça vossa mercê a experiência e me

acompanhe por um ano, pelo menos, e verá que elas me caem a cada

passo, tantas e tão boas que, sem saber o que digo, na maioria das

vezes faço rir a quantos me escutam. E o verdadeiro dom Quixote de

la Mancha, o famoso, o valente e o sábio, o apaixonado, o reparador

de injúrias, o protetor de pupilos e órfãos, o amparo das viúvas, o

matador das donzelas, aquele que tem por única senhora a sem-par

Dulcineia del Toboso, é este senhor que aqui está, que é meu amo:

todo e qualquer outro dom Quixote e qualquer outro Sancho Pança

são embustes ou sonhos.

— Por Deus, acredito! — respondeu dom Álvaro. — Porque vós,

meu amigo, dissestes mais coisas engraçadas em quatro frases que

falastes do que o outro Sancho Pança em todas as que o ouvi falar,

que foram muitas! Era mais comilão que bem-falante e mais bobo que engraçado. Penso que sem dúvida os magos, que perseguem dom

Quixote, o bom, quiseram me perseguir também com dom Quixote, o

mau. Mas não sei o que dizer, pois sou capaz de jurar que o deixei

metido naquele manicômio de Toledo, a Casa do Núncio,3 para que o

curassem, e agora brota aqui outro dom Quixote, embora bem

diferente do meu.

— Eu não sei se sou bom — disse dom Quixote —, mas sei que não

sou mau. Como prova disso, quero que vossa mercê saiba, meu caro

senhor Álvaro Tarfe, que nunca, em todos os dias de minha vida,

estive em Zaragoza. Por terem me dito que esse dom Quixote

fantástico havia comparecido ao torneio dessa cidade, não quis ir lá,

para esfregar nas barbas do mundo a mentira dele. Assim, fui

diretamente para Barcelona, repositório da cortesia, refúgio dos

estrangeiros, hospital dos pobres, pátria dos valentes, vingança dos

ofendidos e ninho de firmes amizades correspondidas, e em beleza e

localização, única. Embora as coisas que tenham me acontecido em

Barcelona não sejam nada agradáveis, mas sim de muito pesar, carrego-as sem mágoa, só por tê-la visto. Enfim, senhor dom Álvaro

Tarfe, eu sou dom Quixote, o mesmo de que a fama fala, e não esse

infeliz que quis usurpar meu nome e se enobrecer com minhas

intenções. Suplico a vossa mercê, pelo que deve como cavaleiro, tenha

a bondade de fazer uma declaração diante do alcaide desta aldeia de

que vossa mercê não me viu em todos os dias de sua vida até agora, e

de que eu não sou o dom Quixote impresso na segunda parte da

história, nem este Sancho Pança, meu escudeiro, é aquele que vossa

mercê conheceu.

— Farei isso com toda a boa vontade — respondeu dom Álvaro —,

ainda que cause espanto ver dois dons Quixotes e dois Sanchos ao

mesmo tempo, com nomes tão idênticos como diferentes nas ações; e

repito e confirmo que não vi o que vi, nem aconteceu comigo o que me

aconteceu.

— Sem dúvida vossa mercê deve estar encantado — disse Sancho —,

como minha senhora Dulcineia del Toboso. Quisera o céu que o

desencantamento de vossa mercê dependesse de eu me dar outros três

mil e tantos açoites, como me dou por ela, que eu os daria sem cobrar

nada.

Á

— Não entendi esse negócio de açoites — disse dom Álvaro.

E Sancho respondeu que era uma longa história, mas que ele a

contaria, se por acaso seguissem o mesmo caminho.

Então chegou a hora do almoço; dom Quixote e dom Álvaro

comeram juntos. Por acaso entrou na hospedaria o alcaide da aldeia,

com um escrivão. Diante do alcaide, dom Quixote apresentou uma

petição em que solicitava, por lhe convir e estar em seu direito, que

dom Álvaro, aquele cavaleiro ali presente, declarasse a sua mercê que

não conhecia dom Quixote de la Mancha, que também se encontrava

presente, e que não era aquele que andava impresso numa história

intitulada Segunda parte de dom Quixote de la Mancha, escrita por

um tal de Avellaneda, natural de Tordesilhas. Por fim, o alcaide tomou

as medidas jurídicas cabíveis, e a declaração foi feita com todos os

requisitos exigidos nesses casos, com o que dom Quixote e Sancho

ficaram muito alegres, como se lhes importasse muito semelhante

declaração e suas ações e suas palavras não mostrassem com clareza a

diferença entre os dois dons Quixotes e os dois Sanchos. Dom Álvaro e dom Quixote trocaram muitas cortesias e oferecimentos, em que o

grande manchego mostrou seu bom senso, de modo que acabou por

tirar dom Álvaro Tarfe do erro em que incorrera, concluindo então o

cavaleiro que estava encantado, pois tinha visto com os próprios olhos

dois dons Quixotes tão contrários.

Chegou a tarde, partiram da aldeia e, dali a uma meia légua,

chegaram a duas estradas que se afastavam — uma levava à aldeia de

dom Quixote e a outra era a que dom Álvaro devia seguir. Nesse

pequeno percurso, dom Quixote lhe contou a desgraça de sua derrota

e o encantamento de Dulcineia e a solução, o que renovou o espanto

de dom Álvaro. Depois de abraçar a dom Quixote e a Sancho, o

cavaleiro seguiu seu caminho, e dom Quixote o seu.

Passaram aquela noite entre outras árvores, para que Sancho pudesse

concluir sua penitência, que executou do mesmo modo que da outra

vez, à custa das cascas das faias, bem mais que de suas costas, que

protegeu tanto que não poderia espantar uma mosca, mesmo que a

tivesse em cima.

O enganado dom Quixote não perdeu um só golpe da conta e achou

que, com os da noite anterior, eram três mil e vinte e nove. O sol parecia ter madrugado para ver o sacrifício, e, com a luz dele,

prosseguiram viagem, comentando entre si o engano de dom Álvaro e

de como tinha sido bem pensado tomar sua declaração diante da

justiça, e com todas as formalidades.

Andaram aquele dia e aquela noite sem que lhes acontecesse coisa

digna de se contar, a não ser que nela Sancho acabou sua tarefa, com

o que dom Quixote ficou muito contente. Ele mal esperava o dia para

ver se topava pelo caminho com a já desencantada Dulcineia, sua

senhora. Seguindo viagem, não deixava de examinar cada mulher que

encontrava, para ver se não era Dulcineia del Toboso, tendo por

infalível não poderem mentir as promessas de Merlin.

Com esses pensamentos e esperanças, subiram uma encosta, de onde

avistaram sua aldeia. Mal a viu, Sancho se atirou de joelhos e disse:

— Abre os olhos, pátria desejada, e olha que volta a ti Sancho

Pança, teu filho, não muito rico, mas bem açoitado. Abre os braços e

recebe também teu filho dom Quixote, que, embora vencido pelo

braço de outro, vem vencedor de si mesmo, que, conforme ele me disse, é a maior vitória que se pode desejar. Trago dinheiro, porque, se

bons açoites me davam, bem montado eu ia, como disse o ladrão ao

carrasco.

— Chega dessas asneiras — disse dom Quixote —, e tratemos de

entrar com o pé direito em nossa vila, onde daremos rédea solta a

nossas fantasias, e planejaremos nossa vida de pastores.

Com isso, desceram a encosta e foram para seu povoado.

 

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