Dom Quixote

Miguel de Cervantes · Capítulo 127 de 137

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Dom Quixote

Capítulo LXVI

 

que trata do que verá aquele que o ler

ou ouvirá aquele que escutar a leitura

Ao sair de Barcelona, dom Quixote olhou de novo o lugar onde havia

caído e disse:

— Aqui foi Troia! Aqui minha desgraça, não minha covardia, levou

minhas glórias conquistadas! Aqui fui joguete das voltas e reviravoltas

do destino, aqui minhas façanhas se apagaram! Enfim, aqui caiu

minha ventura para jamais se levantar!

Ouvindo isso, Sancho disse:

— Os corações valentes, meu senhor, tanto resistem na desgraça

como se alegram na prosperidade. Julgo isso por mim mesmo: estava

alegre quando era governador e agora, que sou escudeiro a pé, não

estou triste. Ouvi dizer que essa que chamam de Fortuna é uma

mulher bêbada e cheia de caprichos, mas principalmente cega, quer

dizer, não vê o que faz, nem sabe a quem derruba nem a quem aclama.

— Estás muito filosófico, Sancho — respondeu dom Quixote. —

Falas com muito tino. Não sei quem te ensina. Mas o que posso te

dizer é que não há fortuna no mundo, nem as coisas que acontecem

nele, sejam boas ou más, vêm por acaso e sim por determinação

especial dos céus. É por isso que se costuma dizer que cada um é

artífice de seu destino. Eu fui do meu, mas não com a prudência

necessária, e assim lá se foram por água abaixo minhas presunções. Eu

devia ter imaginado que, diante do tamanho enorme do cavalo do

Cavaleiro da Lua Branca, a magreza de Rocinante não poderia resistir.

Arrisquei-me, então: fiz o que pude, derrubaram-me e, embora tenha

perdido a honra, não perdi nem posso perder a virtude de cumprir

minha palavra. Quando era cavaleiro andante, audacioso e valente, garantia meus feitos com minhas ações e com minhas mãos; e agora,

quando sou um simples pedestre, garantirei minhas palavras

cumprindo a que empenhei em minha promessa. Caminha, pois, meu

amigo Sancho, e vamos a nossa terra enfrentar o ano de provação, em

cujo retiro ganharemos virtude nova para voltar ao exercício das

armas por mim nunca esquecido.

— Olha, senhor — respondeu Sancho —, andar a pé não é coisa tão

agradável que me leve e incite a fazer grandes jornadas. Deixemos

essas armas e armadura penduradas em alguma árvore, no lugar de

um enforcado, e, ocupando eu as costas do burro, sem os pés no chão,

viajaremos ao bel-prazer de vossa mercê. Porque pensar que vou fazer

a pé uma viagem tão longa é o mesmo que pensar que a lua é um

queijo.

— Muito bem, Sancho — respondeu dom Quixote. — Pendure

minhas armas e minha armadura como troféu, e abaixo delas ou em

torno delas gravaremos nas árvores o que estava escrito no troféu das

armas e armadura de Roland:

Ninguém as mova

se com Roland não possa

se pôr à prova.

— Eis aí uma ideia de ouro! — respondeu Sancho. — E, se não fosse

a falta que Rocinante nos faria, também seria bom deixá-lo

pendurado.

— Não! Nem Rocinante nem as armas — replicou dom Quixote. —

Não quero que se enforquem, para que não se diga que cuspo no

prato em que como!

— Muito bem falado — respondeu Sancho —, porque, conforme a

opinião dos sábios, quem tem culpa paga a custa. E, como vossa

mercê tem a culpa do que aconteceu, castigue-se a si mesmo, e não

caia sua ira sobre a armadura escangalhada e suja de sangue, nem na

mansidão de Rocinante, nem na delicadeza de meus pés, esperando

que caminhem além do razoável.

Em conversas e discussões como essas, passaram todo aquele dia e

mais quatro, sem lhes acontecer coisa que atrapalhasse sua viagem.

No quinto dia, à entrada de uma aldeia, à porta de uma hospedaria,

encontraram muita gente se divertindo porque era dia de festa.

Quando dom Quixote se aproximou, um camponês disse, elevando a

voz:

— Um destes senhores que chegam, que não conhecem nenhum dos

envolvidos, dirá como devemos resolver a aposta.

— Claro que digo — respondeu dom Quixote —, com toda lisura, se

conseguir entender o caso.

— O caso é o seguinte, meu bom senhor: um morador desta aldeia,

tão gordo que pesa onze arrobas — disse o camponês —, apostou uma

corrida com um vizinho que não pesa mais que cinco. A condição foi

que deviam correr cem passos com pesos iguais; e, tendo perguntado

ao desafiante como se faria para igualar o peso, ele respondeu que o

desafiado, que pesa cinco arrobas, botasse seis de ferro nas costas, e

assim o gordo e o magro ficariam com onze arrobas.

— Esperem aí — disse Sancho nessas alturas, antes que dom Quixote

respondesse. — A mim toca averiguar essas dúvidas e julgar todo

pleito, porque, como todo mundo sabe, há poucos dias deixei de ser

governador e juiz.

— Responde em boa hora, Sancho, meu amigo — disse dom

Quixote —, porque não sei nem onde tenho a ponta do nariz, tão

agitadas e confusas trago as ideias.

Com essa licença, Sancho disse aos camponeses, que se amontoavam

ao redor dele, de boca aberta, esperando sua sentença:

— Meus irmãos, o que o gordo pede não tem jeito nem sombra de justiça alguma. Porque se for verdade o que se diz, que o desafiado

pode escolher as armas, não fica bem que escolha as que o atrapalhem

ou impeçam de sair vencedor. Assim, é minha opinião que o gordo

desafiador se descasque, desbaste, afine, refine, lustre e perca seis

arrobas de suas banhas. Dessa maneira, ficando com cinco arrobas de

peso, se igualará ao adversário, podendo assim correr em idênticas

condições.

— Minha nossa! — disse um camponês que escutou a sentença de

Sancho. — Este senhor falou como um santo e sentenciou como um

cônego! Mas com certeza o gordo não vai querer perder nem um quilo

de banha, quanto mais seis arrobas.

— O melhor é que não corram — respondeu outro —, para que o

magro não se arrebente com o peso nem o gordo com o jejum; e se

invista metade da aposta em vinho, e levemos esses senhores à taberna

do mais caro deles, que eu pago a conta no dia de São Nunca.

— Senhores — respondeu dom Quixote —, eu vos agradeço, mas

não posso parar um instante, porque acontecimentos e pensamentos

tristes me obrigam a partir apressado e parecer descortês.

E então, esporeando Rocinante, seguiu em frente, deixando todos

admirados tanto por sua estranha figura como pela sabedoria de seu

criado, que assim julgaram Sancho. Outro dos camponeses disse:

— Se o criado é tão arguto, como não será o amo?! Aposto que, se

forem estudar em Salamanca, num piscar de olhos serão juízes

criminais. Tudo é conversa fiada, menos estudar e estudar mais, e ter

padrinhos e sorte; e, quando menos se espera, lá está o homem, com a

insígnia de governador na mão ou uma mitra na cabeça.

Aquela noite, amo e criado passaram no meio do campo, ao relento.

No outro dia, seguindo seu caminho, viram que vinha na direção deles

um homem a pé, com uns alforjes no pescoço e uma lança ou chuço

na mão, a própria figura do correio a pé. Quando chegou mais perto

de dom Quixote, apressou o passo e, meio correndo, se aproximou

dele e, abraçando-lhe a coxa direita, pois não alcançava mais nada,

disse com grandes demonstrações de alegria:

— Oh, meu senhor dom Quixote de la Mancha, que grande

satisfação vai encher o coração de meu senhor o duque, ao saber que vossa mercê volta a seu castelo, pois ainda se encontra lá com minha

senhora a duquesa!

— Não vos conheço, meu amigo — respondeu dom Quixote —, nem

sei quem sois, se não me disserdes.

— Senhor dom Quixote — respondeu o correio —, eu sou Tosilos, o

lacaio do duque, que não quis lutar com vossa mercê por causa do

casamento da filha de dona Rodríguez.

— Valha-me Deus! — disse dom Quixote. — É possível que sejais

aquele que os magos meus inimigos transformaram neste lacaio, para

me esbulhar da honra daquela batalha?

— Não diga isso, meu caro senhor — respondeu o carteiro —, pois

não houve encantamento nenhum, nem transformação de rosto: tão

lacaio Tosilos entrei na liça como Tosilos lacaio saí dela. Pensei em me

casar sem lutar porque gostei do porte da moça, mas meus planos

saíram pela culatra pois, logo que vossa mercê partiu de nosso castelo,

o duque meu senhor mandou me dar cem bastonadas por ter

desobedecido às ordens que me dera antes de entrar na batalha, e tudo

acabou em que a moça virou freira, dona Rodríguez voltou a Castela e

eu agora vou a Barcelona levar um maço de cartas de meu amo ao vice-rei. Se vossa mercê quiser um traguinho de vinho, quente, sim,

mas puro, levo aqui uma cabaça cheia do melhor, com não sei quantas

fatias de queijo de Tronchón, que servirão de aperitivo para despertar

a sede, se por acaso estiver dormindo.

— Dobro a aposta — disse Sancho —, e descarte as cortesias: sirva

logo o vinho, meu caro Tosilos, apesar e a despeito de todos os magos

das Índias.

— No fim das contas, Sancho — disse dom Quixote —, tu és mesmo

o maior comilão do mundo e o maior ignorante da terra, pois não te

convences de que se trata de um encantamento, que este Tosilos é uma

imitação. Fica com ele e enche a pança, que eu sigo devagarinho,

esperando por ti.

O lacaio riu, sacou a cabaça e pegou nos alforjes as fatias de queijo,

mais um pãozinho. Sentados na grama verde, na santa paz de Deus,

num instante ele e Sancho deram cabo de todos os mantimentos, com

tanta gana que lamberam o maço de cartas, só porque cheirava a

queijo. Tosilos disse a Sancho:

— Sancho, meu amigo, sem dúvida este teu amo deve ser louco.

— Como deve? — respondeu Sancho. — Não deve nada a ninguém:

paga todas as contas, principalmente quando a moeda é loucura. Sei

disso muito bem e até digo a ele, mas de que adianta? Ainda mais

agora, que está louco varrido, porque foi derrotado pelo Cavaleiro da

Lua Branca.

Tosilos suplicou que lhe contasse o que tinha acontecido, mas

Sancho respondeu que era uma descortesia deixar que seu amo o

esperasse, que outro dia, caso se encontrassem, haveria tempo para

isso. E levantando-se, depois de ter sacudido as migalhas da roupa e

das barbas, pegou o burro pelas rédeas e, dizendo adeus, deixou

Tosilos e alcançou seu amo, que o esperava à sombra de uma árvore.

 

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