Dom Quixote

Miguel de Cervantes · Capítulo 56 de 137

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Dom Quixote

Capítulo XLVIII

onde o cônego continua o assunto

dos livros de cavalaria, com outras

coisas dignas de seu engenho

— É como vossa mercê diz, senhor cônego — disse o padre. — Por

isso são mais dignos de censura os autores que até aqui escreveram

semelhantes livros sem considerar o uso da razão nem a arte e as

regras que poderiam guiá-los e torná-los famosos em prosa, como o

são em verso os dois príncipes da poesia grega e latina.1

— Eu, pelo menos — replicou o cônego —, me vi tentado a escrever

um livro de cavalaria, observando todos os pontos que levantei. E

admito, se devo confessar a verdade, que tenho mais de cem páginas

escritas e, para comprovar se correspondiam à minha avaliação,

mostrei-as a homens apaixonados por essas leituras, cultos e

inteligentes, e a outros ignorantes, que só se interessam pelo prazer de

ouvir asneiras, e em todos encontrei uma agradável aprovação. Mas,

apesar disso, não fui adiante, tanto por me parecer que faço uma coisa

alheia a minha profissão como por ver que é maior o número dos

simplórios que dos inteligentes. Depois, embora seja melhor ser

louvado pelos poucos sábios que zombado pelos muitos estúpidos,

não quero me sujeitar ao julgamento confuso do populacho

presunçoso, que é quem lê esses livros em sua maior parte. Mas o que

mais me tirou das mãos e até do pensamento a vontade de acabá-lo foi

um argumento que apresentei a mim mesmo, inspirado pelas comédias

representadas hoje em dia:

“Se todas essas peças em voga agora, ou a maior parte delas, tanto

as de tema fictício como de tema histórico, são um monte de asneiras e

coisas sem pé nem cabeça, mas o populacho as ouve com prazer, aplaude e considera boas, estando tão longe de sê-lo; se os autores que

as compõem e os atores que as representam dizem que devem ser

assim porque é assim que o público quer, e não de outra maneira; se as

peças que têm estrutura e desenvolvem a trama como a arte pede não

servem para mais de quatro homens inteligentes que as entendem, e

todos os demais se queixam de ficar no escuro com suas sutilezas; se para autores e atores é melhor ganhar o sustento agradando a muitos

que ganhar prestígio agradando a poucos, se vê muito bem o que

acontecerá com meu livro, depois de eu ter queimado as pestanas para

seguir as regras mencionadas, e eu terei jogado pérolas aos porcos.

“Algumas vezes tentei convencer os agenciadores de que estão

enganados, de que iriam atrair mais gente e ganhariam mais fama

apresentando comédias que sigam a arte, não os disparates, mas eles

são tão teimosos e convictos de sua opinião que não há argumento

nem evidência que os faça mudar de ideia. Lembro-me de que um dia

disse a um desses obstinados: ‘Dizei-me, não vos lembrais que há

poucos anos se apresentaram na Espanha três tragédias escritas por

um famoso poeta destes reinos, que causaram admiração, alegraram e

deliciaram a todos quantos as ouviram, tanto simplórios como

ponderados, tanto do populacho como da nata da sociedade, e apenas

as três deram mais dinheiro ao teatro que trinta das melhores peças

feitas aqui depois?’.

“‘Sem dúvida’, respondeu o sujeito de que falei, ‘vossa mercê se

refere a La Isabela, La Filis e La Alejandra.’2

“‘Essas mesmas’, repliquei, ‘e olhai se não obedeciam bem às regras

da arte, e se por obedecer deixaram de parecer o que eram e de

agradar a todo mundo. De modo que a culpa não é do povo, que pede

tolices, mas daqueles que não sabem apresentar outra coisa. Sim, pois

não se achou tolice em La ingratitud vengada, nem em La Numancia,

nem no Mercader amante, muito menos em La enemiga favorable,3

nem em outras que foram compostas por poetas entendidos no

assunto, para fama e renome deles e para lucro dos que as

apresentaram.’

“E disse outras coisas além dessas, que o deixaram meio confuso,

parece-me, mas não convencido nem disposto a abandonar seu

pensamento errado.”

— Vossa mercê tocou num assunto, senhor cônego — disse o padre

nessa altura —, que me despertou um rancor antigo que tenho contra

as comédias hoje em voga, um rancor que iguala ao que tenho pelos

livros de cavalaria; porque, segundo Túlio, tendo a comédia de ser um

espelho da vida humana, exemplo dos costumes e imagem da verdade,

as que se apresentam agora são espelhos de absurdos, exemplos de tolices e imagens de lascívia. Pois que maior absurdo pode haver, no

tema que tratamos, do que mostrar uma criança de fraldas na primeira

cena do primeiro ato e na segunda aparecer como um homem

barbado? Ou do que nos apresentar um velho valente e um rapaz

covarde, um lacaio grande orador, um pajem conselheiro, um rei

serviçal e uma princesa faxineira? E o que direi, então, da forma como

observam os tempos em que podem ou poderiam acontecer as ações

que representam? Vi comédias em que o primeiro ato começa na

Europa, o segundo na Ásia e o terceiro termina na África, quer dizer,

se fossem quatro atos, o último terminaria na América, e assim se

percorreria neles os quatro cantos do mundo. E, se a imitação é a

principal coisa que a comédia deve ter, como é possível que satisfaça

uma inteligência mediana que, fingindo uma ação que se passa no

tempo do rei Pepino e Carlos Magno, o protagonista seja o imperador

Heráclito, que entrou em Jerusalém com a Cruz e conquistou o Santo

Sepulcro, como Godofredo de Bolonha, havendo inúmeros anos entre

um e outro? Como é possível ainda, se a comédia se baseia em ações fictícias, atribuir verdades históricas a ela e misturar pedaços de

acontecimentos que envolvem pessoas e épocas diferentes, e nada disso

de um modo verossímil, mas com erros óbvios, indesculpáveis de

qualquer ponto de vista? E o pior é que há ignorantes que dizem que

isso é que é a perfeição e o resto, perfumaria.

“E as comédias com temas religiosos, então? Quantos milagres falsos

se inventam nelas, quantas coisas apócrifas e mal compreendidas,

atribuindo a um santo os milagres de outro! E até nas profanas se

atrevem a fazer milagres, sem mais respeito nem consideração que

acharem que ali fica bem o tal milagre ou truque, como chamam, para

que gente ignorante se admire e venha assistir. E tudo isso em prejuízo

da verdade e do desprezo pela história, e até em descrédito dos

talentos espanhóis, porque os estrangeiros, que com toda

meticulosidade observam as leis da comédia, nos consideram bárbaros

e ignorantes, vendo os absurdos e as tolices que fazemos com elas.

“E não seria desculpa suficiente para isso dizer que a principal

intenção que as repúblicas bem organizadas têm, permitindo que se

apresentem comédias, é entreter o povo com alguma recreação

honesta e distraí-lo às vezes dos baixos instintos que a ociosidade costuma atiçar, pois, se isso se consegue com qualquer comédia, boa

ou ruim, não há por que estabelecer leis, nem obrigar os que as

escrevem e representam a fazê-las conforme deviam, porque, como

disse, com qualquer uma delas se consegue o que se pretende. Eu

responderia a isso que com certeza alcançaríamos esse fim muito mais

facilmente com as comédias boas que com as ruins, porque depois de

ouvir uma comédia bem estruturada, feita com habilidade, o ouvinte

sairia alegre com os gracejos e instruído com as verdades, surpreso

com a ação, atilado com as argumentações, cauteloso com os

embustes, sagaz com os exemplos, precavido contra o vício e

apaixonado pela virtude: pois a boa comédia deve provocar todas

essas reações no ânimo de quem a escutar, por mais bronco e obtuso

que seja. E é certamente impossível que a comédia que tiver todas

essas qualidades deixe de alegrar e entreter, entusiasmar e satisfazer

muito mais que as que carecerem delas, como carece a maior parte

dessas que comumente se apresentam hoje em dia.

“Mas não têm culpa disso os poetas que as escrevem, porque alguns deles conhecem muito bem em que erram e sabem exatamente o que

devem fazer; agora, como as comédias se tornaram mercadoria

vendável, dizem, e dizem a verdade, os agenciadores não as

comprariam se não fossem daquele tipo; assim o poeta procura se

ajustar ao que pede o agenciador que vai pagar a obra. Veja-se, como

prova dessa verdade, as inumeráveis comédias que escreveu um

felicíssimo gênio destes reinos com tanto ímpeto, com tanta graça,

com verso tão elegante, com tanto discernimento, com sentenças tão

profundas e, enfim, num estilo tão nobre e eloquente que sua fama

ganhou o mundo; e, por querer se ajustar ao gosto dos agenciadores,

nem todas as suas peças chegaram, como algumas, ao ponto da

perfeição que requerem.4 Outros as escrevem sem nem olhar o que

fazem, tanto que depois de representadas os atores precisam fugir, com

medo de ser castigados, como muitas vezes foram, por ter apresentado

cenas que insultavam reis e desonravam algumas linhagens.

“Veja, todos esses inconvenientes acabariam e até muitos outros que

nem menciono, se houvesse na corte uma pessoa inteligente e sensata

que examinasse todas as comédias antes que fossem apresentadas (não

só as feitas na corte, mas todas as que se desejasse representar na Espanha). Assim, sem a aprovação, selo e assinatura dessa pessoa,

nenhuma autoridade local deixaria representar comédia alguma, e

dessa maneira os comediantes teriam o cuidado de enviar as comédias

à corte, podendo representá-las com segurança, e aqueles que as

escrevem encarariam com mais atenção e seriedade seu trabalho,

temerosos de ter de passar suas obras pelo rigoroso exame de um

entendido. Assim se fariam boas comédias e se conseguiria

esplendidamente o que nelas se pretende: tanto o entretenimento do

povo como a aprovação das melhores inteligências da Espanha, o

lucro e a segurança dos atores, evitando-se ainda o trabalho de

castigá-los.

“E, caso se encarregasse outra pessoa, ou essa mesma, de examinar

os livros de cavalaria publicados pela primeira vez, sem dúvida

poderiam sair alguns com a perfeição que vossa mercê mencionou,

enriquecendo nossa língua com o tesouro agradável e precioso da

eloquência, eclipsando-se os livros antigos diante da luz dos novos que

saíssem para honesto passatempo, não somente dos ociosos, como dos mais ocupados, pois não é possível estar sempre com o arco retesado,

nem a condição e debilidade humana pode se sustentar sem alguma

lícita recreação.”

Nessas alturas da conversa do cônego e do padre, o barbeiro se

aproximou e disse ao padre:

— É aqui, senhor licenciado, o lugar de que falei. Aqui podemos

dormir uma boa sesta e os bois pastar à vontade.

— É o que me parece — disse o padre.

E falou ao cônego o que pensava fazer, e este decidiu ficar também,

atraído pela paisagem do lindo vale que se oferecia à vista deles. E

assim, para desfrutar tanto do local como da conversa com o padre,

com quem já simpatizara, e para conhecer em detalhes as façanhas de

dom Quixote, mandou alguns de seus criados até a estalagem, que não

ficava longe dali, trazerem o que houvesse para comer, para todos,

porque ele resolvera sestear no vale aquela tarde. Um de seus criados

respondeu que a mula de carga, que já devia estar na estalagem, levava

provisões suficientes para não precisarem comprar mais que cevada.

— Então — disse o cônego —, levai para lá todos os animais e

mandai a mula de volta.

Enquanto isso, Sancho, vendo que podia falar com seu amo sem a

presença contínua do padre e do barbeiro, que considerava suspeitos,

aproximou-se da jaula e disse:

— Senhor, para descargo de minha consciência, quero dizer o que

acontece sobre seu encantamento: é que esses dois mascarados são o

padre e o barbeiro de nossa vila, e penso que tramaram levá-lo dessa

maneira de pura inveja, porque vossa mercê os ultrapassa em feitos

heroicos. Se eu estiver certo, então se conclui que não vai encantado,

mas iludido como um tolo. Para tirar a teima, quero lhe perguntar

uma coisa; se me responder como acho que vai me responder, porá o

dedo na ferida e verá que não vai encantado, mas sem um pingo de

juízo.

— Pergunta o que quiseres, Sancho, meu filho — respondeu dom

Quixote —, que eu responderei tudo, conforme desejas. Quanto

àqueles ali que vão e vêm conosco serem o padre e o barbeiro, nossos

conterrâneos e conhecidos, realmente pode parecer que são; mas que

sejam mesmo, de verdade, não acredites de jeito nenhum. Tens de acreditar e entender que, se se parecem com eles, como dizes, deve ser

porque os que me encantaram tomaram essa aparência e semelhança,

pois é fácil para os magos incorporar a figura que lhes dá na telha, e

incorporaram as desses nossos amigos para te levar a pensar o que

pensas e te meter num labirinto de fantasias, de modo que não

acharias a saída dele ainda que tivesses o cordão de Teseu. Também

devem ter feito isso para confundir minha inteligência, não me

deixando atinar de onde vem esse ataque. Porque se, por um lado, tu

me dizes que me acompanham o barbeiro e o padre de nossa vila e,

por outro, eu me vejo enjaulado, sabendo que forças somente

humanas, sem nada de sobrenaturais, não são capazes de me prender,

que queres que eu diga ou pense exceto que a maneira de meu

encantamento excede a quantas li em todas as histórias que tratam de

cavaleiros andantes que foram enfeitiçados? Assim, meu caro, acalma-

te e deixa para lá essa tua crença, porque eles são quem dizes tanto

quanto eu sou turco. E, quanto ao que querias perguntar, pergunta,

que eu te responderei, mesmo que me interrogues até de manhã.

— Que Nossa Senhora me ajude! — respondeu Sancho em altos

brados. — Será possível que vossa mercê tenha a cabeça tão dura e tão oca que não consegue ver que falo a pura verdade, e que nesta prisão e

desgraça tem mais parte a malícia que a magia? Então, se é assim,

quero provar a vossa mercê que não vai encantado. Se não, diga-me, e

que Deus o tire dessa enrascada, e o senhor se veja nos braços de

minha senhora Dulcineia quando menos esperar…

— Acaba com esse sermão — disse dom Quixote — e pergunta o

que quiseres, pois já te disse que responderei com toda exatidão.

— É o que peço — replicou Sancho. — Bem, o que quero que me

diga, sem tirar nem pôr, mas apenas a verdade, como se espera que

devem dizer e a dizem todos os que professam as armas, como vossa

mercê professa, sob o título de cavaleiros andantes…

— Garanto que não mentirei em coisa alguma — respondeu dom

Quixote. — Pergunta logo, que na verdade me cansas com tantas

ressalvas, súplicas e rodeios, Sancho.

— Digo que tenho certeza de que meu amo é bom e honesto; assim,

como tem a ver com nossa situação, pergunto, com todo o respeito, se

por acaso depois que vossa mercê foi enjaulado e, em sua opinião, encantado nesta jaula, teve vontade de fazer águas, como se diz, da

grossa e da fina?

— Não entendo esse negócio de “fazer águas”, Sancho; fala claro, se

quiseres que eu responda direito.

— Como é possível que vossa mercê não entenda o que é fazer águas

da grossa e da fina, se na escola desmamam os meninos com essas

lições? Quero saber se teve vontade de fazer o que não se pode deixar

de fazer e mais ninguém pode fazer por vossa mercê.

— Agora te entendi, Sancho! Sim, claro, muitas vezes, como neste

exato momento! Vamos, Sancho, tira-me logo deste aperto, que a

coisa está feia!

 

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