Dom Quixote

Miguel de Cervantes · Capítulo 61 de 137

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Dom Quixote

Segunda parte do engenhoso cavaleiro dom Quixote de la Mancha

finis

 

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Segunda parte

 

do engenhoso

 

cavaleiro dom Quixote

 

de la Mancha

 

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Prólogo ao leitor

Valha-me Deus, com quanta gana deves estar esperando agora este

prólogo, leitor ilustre ou mesmo plebeu, pensando encontrar nele

vinganças, reprimendas e vitupérios contra o autor do segundo Dom

Quixote, digo, contra aquele que dizem que foi concebido em

Tordesilhas e nasceu em Tarragona!1 Na verdade não vou te dar esta

alegria, pois, ainda que os agravos despertem a cólera nos corações

mais humildes, no meu esta regra há de padecer exceção. Tu gostarias

que eu o chamasse de burro, de mentecapto e de insolente, mas isso

não me passa pelo pensamento: que o pecado dele seja seu castigo,

que coma o pão que amassou e faça bom proveito.

O que não pude deixar de sentir é que me taxasse de velho e maneta,

como se estivesse ao meu alcance ter detido o tempo, para que não

passasse por mim, ou se eu tivesse perdido a mão em alguma rixa de

taberna, não na mais alta ocasião que viram os séculos passados, nem

os próximos esperam ver.2 Se meus ferimentos não resplandecem aos

olhos de quem os vê, são pelo menos considerados pela estima dos que

sabem onde foram ganhos, porque o soldado parece melhor morto na

batalha que livre na fuga — tanto penso assim que, se me propusessem

e facilitassem o impossível, preferiria antes ter participado daquela

empresa prodigiosa a me ver agora sem meus ferimentos sem ter

participado dela. As cicatrizes que o soldado mostra no rosto e no

peito são estrelas que guiam os demais ao céu da honra e ao desejo do

justo louvor; e deve-se notar que não se escreve com os cabelos

brancos, mas com o entendimento, que costuma melhorar com os

anos.

Também senti que me chamasse de invejoso e como a um ignorante

me descrevesse o que é a inveja; na verdade, das duas que há, eu só conheço a santa, nobre e bem-intencionada. E assim sendo, como de

fato é, não tenho por que perseguir a nenhum sacerdote, ainda mais se

de quebra for colaborador do Santo Ofício; e, se ele se refere a quem

parece se referir, enganou-se de cabo a rabo, pois adoro o engenho

dele, admiro sua obra e sua ocupação contínua e virtuosa.3 Mas no

fundo agradeço a esse senhor autor dizer que minhas novelas são mais satíricas que exemplares, porém boas; não poderiam ser se não

tivessem de tudo.4

Parece-me que me dizes que ando muito acanhado e me contenho

demais nos limites de minha modéstia, sabendo que não se deve

acrescentar aflição ao aflito — e a que deve ter este senhor sem dúvida

é grande, pois não ousa aparecer em campo aberto e com céu claro,

ocultando seu nome, fingindo sua pátria, como se tivesse cometido

alguma traição de lesa-majestade. Se porventura chegares a conhecê-

lo, diz a ele de minha parte que não me sinto ofendido, pois sei muito

bem o que são tentações do demônio, e que uma das maiores é enfiar

na cabeça de um homem que pode escrever e imprimir um livro com

que ganhe tanta fama como dinheiro e tanto dinheiro como fama; e,

para confirmar isso, quero que tu, com agudeza e graça, conte a ele

esta história:

Havia em Sevilha um louco que deu no mais engraçado disparate e

mania em que já deu um louco no mundo: fez um canudo de uma

cana com uma extremidade pontuda e, ao pegar algum cachorro na rua, ou em qualquer outro canto, prendia uma pata dele com um pé e

levantava a outra com a mão, acomodava o dito canudo naquele lugar

do melhor jeito que podia e, soprando-o, botava o bicho redondo

como uma bola. Então, tendo-o assim, dava duas palmadinhas em sua

barriga e o soltava, dizendo aos curiosos, que sempre eram muitos:

“Vossas mercês pensarão agora que dá pouco trabalho encher um

cachorro?”.

Vossa mercê pensará agora que dá pouco trabalho fazer um livro?

E se essa história não lhe cair bem, conta-lhe esta, leitor amigo, que

também é de louco e de cachorro:

Havia em Córdoba outro louco, que tinha o costume de levar em

cima da cabeça um pedaço de uma laje de mármore ou um pedregulho

não muito leve e, quando topava com algum cachorro descuidado, se

aproximava e deixava cair a prumo o peso sobre ele. O cachorro se

desgostava e, latindo e uivando, não parava antes de três ruas. Mas

aconteceu que, entre os cachorros que maltratou, um era de um

chapeleiro, que gostava muito dele. Largou o pedregulho e acertou a

cabeça do cachorro, que desatou a ganir; o dono viu tudo e, furioso,

pegou uma vara de medir e foi até o louco e não lhe deixou um osso inteiro. A cada pancada que lhe dava, dizia: “Seu cachorro

desgraçado, bateu em meu galgo! Não viste, bandido, que meu

cachorro era galgo?!”. E, repetindo a palavra galgo muitas vezes,

deixou o louco em pandarecos. Exemplado, o louco se retirou e não

apareceu na praça por mais de um mês; passado esse tempo, voltou

com a mesma invenção e com uma carga maior ainda. Aproximava-se

de um cachorro e, olhando-o fixo, mas sem querer largar a pedra,

dizia: “Este é galgo: cuidado!”. Realmente, a todos os cachorros com

que topava, mesmo que fossem alãos ou vira-latas, dizia que eram

galgos, de modo que não largou mais o pedregulho. Talvez aconteça o

mesmo a esse historiador e não se atreva a soltar mais a presa de seu

engenho em livros que, sendo ruins, são mais duros que as rochas.

Diz a ele também que não dou um tostão pela ameaça que me faz de

que vai me tirar todo o lucro com seu livro e que, apropriando-me das

palavras da famosa farsa La perendenga, respondo que viva meu

senhor, o edil, e que Cristo esteja com todos. Viva o grande conde de

Lemos, cuja religiosidade e generosidade, bem conhecidas, contra todos os golpes de minha pouca sorte me tem em pé, e viva a extrema

caridade do ilustríssimo de Toledo, dom Bernardo de Sandoval y

Rojas,5 mesmo que não haja imprensas no mundo e mesmo que

imprimam contra mim mais livros do que têm letras as coplas de

Mingo Revulgo.6 Estes dois príncipes, sem que os solicite minha

adulação nem outro gênero de aplauso, apenas por sua bondade, se

encarregaram de me fazer mercê e me favorecer, no que me tenho por

mais feliz e mais rico que se a fortuna por caminhos comuns me

tivessem posto no topo dela. O pobre pode ter a honra, mas o vicioso

não; a pobreza pode empanar a fidalguia, mas não obscurecê-la de

todo; desde que a virtude dê alguma luz de si, mesmo que seja pelos

inconvenientes e interstícios da escassez, vem a ser estimada pelos

altos e nobres espíritos, e, portanto, favorecida.

E não digas mais nada a ele, nem eu quero te dizer, apenas avisar que

consideres que esta segunda parte do Dom Quixote que te ofereço é

cortada pelo mesmo artífice e no mesmo tecido que a primeira, e que

nela te dou dom Quixote expandido e finalmente morto e sepultado,

para que ninguém se atreva a levantar novos testemunhos, pois

bastam os passados e basta também que um homem honrado tenha dado notícia destas engenhosas loucuras, sem querer entrar nelas de

novo, pois a abundância das coisas, mesmo que sejam boas, faz com

que sejam menos valorizadas, e a carestia, mesmo das más, faz com

que sejam valorizadas um pouco. Esquecia-me de te dizer que esperes

o Persiles, que já estou acabando, e a segunda parte de A Galateia.7

 

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