Dom Quixote
Reflexões de um escudeiro de Cervantes
Reflexões de um escudeiro
de Cervantes
ernani ssó
[…] me parece que traduzir de uma língua para outra, desde que não
seja das rainhas das línguas, a grega e a latina, é como olhar os
tapetes flamengos pelo avesso: embora se vejam as figuras, estão
cheias de fios que as obscurecem, não se podendo ver com a clareza e
a cor do lado direito; e traduzir de línguas fáceis nem prova talento
nem bom estilo, como não o prova quem transcreve ou copia um
texto de um papel para outro. Mas disso não quero inferir que o
exercício da tradução não seja louvável, porque o homem poderia se
ocupar de coisas piores, que lhe trouxessem menos proveito. Deixo
fora dessa conta dois tradutores famosos: o doutor Cristóbal de
Figueroa, em seu Pastor Fido, e dom Juan de Jáuregui, em seu
Aminta, que, com felicidade, nos deixam em dúvida sobre qual é a
tradução e qual é o original.
Dom Quixote, ii, lxii
Ao contrário de muitos tradutores, não sofri a tentação de ser Pierre
Menard, deixando Cervantes igual a Cervantes até a última vírgula.
Nem sofri a tentação oposta, ser Jorge Luis Borges e reescrever tudo.
Depois de anos de ofício, eu sabia que me tocava ser Sancho Pança
apenas, quer dizer, um escudeiro de Cervantes, ajudando-o a travar
suas batalhas em português. Como Sancho Pança, fui um criado
submisso e fiel, sem deixar de ser ladino quando precisei escapar de
algum aperto. Vamos ver se me explico.
A tentação menardiana é compreensível, mas não se aguenta em pé:
as palavras não têm a consistência dos números. O número sete vale
sete numa conta tanto em Trombudo do Norte como em Cuernavaca ou na Cochinchina. Mas sete não vale sete num texto. A palavra
“sete”, para nós, evoca sorte, mentira, esoterismo. Vá saber o que
evoca na Cochinchina. A cultura e o lugar alteram, ou colorem, o
significado de uma palavra. O tempo, então, nem se fala. No caso do
Quixote o tempo talvez seja o fator mais hostil.
Outra coisa: cada língua tem seus ritmos e seus modos de dizer. Daí
que uma tradução literal pode ser o avesso da fidelidade, tornando o
texto todo desconjuntado e cheio de ecos incômodos. Claro que isso
que digo é óbvio — talvez não ululante, mas assim mesmo bastante
constrangedor. O problema é que grande parte das traduções
brasileiras de livros em espanhol não parece se dar conta dessa
obviedade e cai direto no portunhol, língua muito usada por turistas e
nas fronteiras do sul. Um exemplo banal é o yo creo traduzido por “eu
creio”, quando o yo creo é o “eu acho” dos latinos, porque entre nós
a palavra “crer” não se descolou inteiramente da religião. A
semelhança entre o espanhol e o português tem causado enganos
divertidos, para não dizer estúpidos, como a tradução de oso (urso)
por osso (hueso), como vi num conto de Julio Cortázar.
A tentação borgeana também é compreensível. Talvez mais
compreensível ainda diante de Cervantes, famoso pelo estilo
desleixado. Ao contrário de muitos amantes de Cervantes, não vejo
seus defeitos como virtudes, numa transformação digna dos magos que Quixote pensava que o perseguiam. Como Borges, penso que
Francisco de Quevedo poderia corrigir qualquer página de Cervantes.
Mas isso não salva Quevedo nem condena Cervantes: trata-se apenas
de uma constatação. Quevedo, grande estilista, foi incapaz de criar o
Cavaleiro da Triste Figura. O cavaleiro e sua história valem muito
mais que as belas palavras de Quevedo.
Paul Groussac, na Segunda conferência sobre Cervantes e o Quixote,
fez uma observação que se tornou famosa: “esse admirável primeiro
capítulo, o melhor do livro, e cujo esmero nos traz involuntariamente
à memória (apenas a lembrança parece uma crueldade) o tempo e o
vagar de que gozava o preso para cuidar seu estilo”. Acho isso ótimo,
mas é preciso dizer que Cervantes, apesar do desleixo, é fluente. Mais:
é cheio de energia e de graça.
Enfim, mesmo que eu tivesse o cacife de Borges, não me meteria a
copidescar Cervantes. Não copidesco nem romances populares. Não é
por ser bonzinho ou muito humilde. É mais simples: uma tradução é
meio como andar na corda bamba. Pode-se fazer uma ou outra
pirueta, mas saltar da corda, mesmo para cair de pé com a elegância
devida, é outro espetáculo. Se me passei numa ou noutra frase ou palavra, foi em nome da clareza e do vigor. Na hora do aperto, prefiro
ser mais fiel ao Quixote que a Cervantes. Se essa distinção parece
obscura, paciência, logo chegaremos aos exemplos.
Diante disso tudo, minha primeira preocupação foi com os fiapos,
digamos, para ficarmos com a metáfora de dom Quixote. Preocupação
que todo tradutor remoeu: não basta dar uma noção da figura e de
sua cor, ou, para sermos diretos, não basta dar somente o sentido.
Manter o sentido, com todas as ambiguidades do original, não é tarefa
fácil, sabe-se, mas o resto é mais difícil. O resto é canto e dança. Se
Cervantes não cantar nem dançar em português, melhor seguir o
exemplo de Freud: aprender espanhol e ler no original.
Cabe então a perguntinha: como recuperar em português a fluência,
a energia e a graça do texto de Cervantes? É provável que eu não
saiba responder muito bem. Mas acho que a resposta, ou uma das
respostas possíveis, está embutida na recusa da tentação de ser Pierre
Menard. Se vamos pôr Cervantes em português, em algum momento
temos de pensar no texto como se fosse escrito em português, com as exigências e as manias do português. Cervantes não pode desafinar em
português nem tropeçar nos próprios calcanhares. Se, para termos em
português a eficácia que ele tem em espanhol, é preciso alterar a
ordem da frase, cortar uma palavra ou acrescentar outra, altere-se,
corte-se, acrescente-se, com pulso firme e coração leve. Em minha
opinião, se a frase não ficou bem em português, tem fiapos
obscurecendo-a. Se podemos ver o original sob o português, ela não
está em português, como não está em português a fala que se ouve
com frequência nas dublagens: “Maldito, dê o seu melhor!”.
Como uma discussão sem exemplos práticos não serve para grande
coisa, vamos a um, pego ao acaso. No capítulo xxvi da segunda parte, depois que dom Quixote destroça a espadadas o teatro de marionetes,
mestre Pedro diz: “Con que me pagase el señor don Quijote alguna
parte de las hechuras que me ha deshecho, quedaría contento y su
merced aseguraría su conciencia”. Atenção ao grifo. Segundo os
dicionários, o equivalente em português é “as feituras que me desfez”.
Quantos de nós entendemos a piada sem consultá-los?
Como a tradução dos viscondes de Castilho e Azevedo é a mais
reeditada no Brasil — sem que se dê o crédito a M. Pinheiro Chagas,
que traduziu a maior parte depois da morte dos nobres portugueses
—, vejamos como ficou a frase: “Se o senhor dom Quixote me pagasse
uma parte das coisas que me desfez, já eu ficaria satisfeito e Sua Mercê
sossegaria a sua consciência”. Bem, até para os viscondes, que não
esmorecem diante da maior parte dos arcaísmos, quando não os
substituem por outros mais arcaicos ainda, traduzir hechuras por
“feituras” pareceu demais, mas optaram por ficar apenas no sentido,
ignorando o jogo de palavras.
Minha versão: “Se o senhor dom Quixote me pagasse uma parte do
que seu feito desfez, eu ficaria contente e sua mercê resguardaria sua
consciência”. Traí Cervantes? Eu avisei: como Sancho na hora do
aperto ou quando vislumbra alguma vantagem, não fui nada
cerimonioso, mas me parece que por uma boa causa, porque não
deixei a frase achatada como os nobres portugueses. Ernesto Sábato,
numa conversa com Borges, diz que talvez seja melhor que os tradutores sejam escritores de estilo mais apagado, para não
interferirem no estilo do original. Está aí, parece-me, mais um desvão
da tentação de ser Pierre Menard. Basta folhearmos a maior parte das
traduções em português para ver no que dá o estilo apagado: textos
num português que se encontra apenas em tradução, sem açúcar e sem
afeto. Ou muito me engano, ou um escritor com estilo mais vivo tem
mais recursos para tentar reproduzir texturas, sabores, perfumes,
ritmos. Não usei “feituras” porque, em primeiro lugar, seu sentido é
um tanto misterioso hoje e, em segundo, porque a palavra se tornou
ridícula. A mim pareceu melhor recriar a piada dentro do mesmo
clima do original. Quanto ao fato de ter optado por traduzir
“assegurar” por “resguardar” foi por me parecer que assim ficava um
tiquinho mais claro. A opção dos viscondes, “sossegar”, soa bem, soa
corrente, mas está dizendo outra coisa, não? Uma consciência
sossegada não é o mesmo que uma consciência garantida.
Como estamos num romance de mais de mil páginas, eu poderia dar
dezenas e dezenas de exemplos semelhantes. Mas fiquemos com mais
um (ou dois ou três), em que o humor depende de uma palavrinha. No capítulo iv da primeira parte, dom Quixote encontra um camponês espancando um criado. Depois das ameaças do cavaleiro, o camponês
convida o criado a ir com ele e diz que pagará sua dívida: “hacedme
placer de veniros conmigo, que yo juro por todas las órdenes que de
caballerías hay en el mundo de pagaros, como tengo dicho, un real
sobre otro, y aun sahumados”.
As edições comentadas trazem notas explicando que sahumado quer
dizer perfumado com a fumaça de ervas aromáticas, mas aqui significa
que o camponês paga de boa vontade, ou que assim os reais foram
melhorados. Muito bem, os viscondes e M. Pinheiro Chagas
traduziram assim: “dá-me o gosto de vir comigo, que eu juro por
quantas castas de cavalaria haja no mundo, de pagar, como tenho
dito, até a última, e em moedinha defumada”. Antes de mais nada, é
preciso notar que foram introduzidas modificações dificilmente
justificáveis e que lemos como se estivéssemos com soluço, por causa
da pontuação. E los reales sahumados? É provável que o leitor do
século xix matasse num segundo a charada da fumigação da grana, como os leitores do tempo de Cervantes.
Mas hoje? Talvez um leitor, em quinhentos ou em mil, em vez de
pensar num arenque, como eu, se desse conta de que também se
defuma para afugentar os maus espíritos, purificar e dar boa sorte,
que é justamente o que o camponês propõe. Como passar esse sentido
de modo que até gente lerda como eu entenda de estalo? O gozado é
que na hora de driblar minha lerdeza fui rápido: “Dai-me o prazer de
vir comigo que eu juro, por todas as ordens de cavalaria que há no
mundo, de vos pagar, como já disse, um real sobre o outro, benzidos
ainda por cima”.
Minha solução não é a única, claro. Todos os tradutores brasileiros
acharam outras. Isso é interessante. Se cotejarmos as traduções,
veremos muitas coincidências, coisa que me parece natural dada a
semelhança entre as línguas. Mas veremos muito mais diferenças,
mesmo em situações em que, como diria Sancho, poderíamos jurar de
pés juntos que não havia espaço para grandes manobras. Como uma
parte enorme de nossas decisões depende de fatores subjetivos, fica fácil criticar qualquer tradução, por melhor que seja. Sem falar que os
tradutores são capazes de se matar por causa de detalhes.
Voltando à frase e à fumaça, note-se que não mexi em quase nada,
que mantive a mesma estrutura, dando apenas um toque de mão em
alguns pontos, para que entrasse no ritmo e no tom do português
brasileiro. Foi quase sempre assim. Se há uma expressão no original,
tratei de achar uma expressão equivalente em português, não
transcrever a explicação ou, o que seria meio esquisito, manter a
expressão e botar a explicação em nota de rodapé.
Os inumeráveis ditados de Sancho deram um trabalho à parte.
Gastei horas e horas atrás de ditados equivalentes, quando eles
perdiam agilidade e harmonia em português, ou eram de compreensão
duvidosa, ou tinham sua graça ameaçada. Os rimados foram os
piores. Por exemplo, o que fazer com “não importa com quem nasces,
mas com quem pasces”? Uma piada evidente no tempo de Cervantes,
mas você tem de ser um leitor inveterado de dicionários para saber o
que é “pasces”. Então? Então parti para o tudo ou nada: reinventei o ditado. “Não importa a casta, mas com quem se pasta.”
Isso nos leva a minha outra grande preocupação. Numa cena da
segunda parte, dom Quixote acha que a história que escreveram sobre
ele, quer dizer, a primeira parte do romance, deve ser muito ruim, que
“para ser entendida vai precisar de comentários”. O bacharel Sansão
Carrasco responde com veemência: “Isso não, porque a clareza dela é
tanta que não há coisa que não se entenda: as crianças a manuseiam,
os moços a leem, os homens a entendem e os velhos a celebram, enfim,
é tão folheada e tão lida e tão conhecida por todo tipo de gente que,
mal se vê um pangaré magro, se diz: ‘Ali vai Rocinante’”. Sabe-se que
o bacharel não está exagerando. Cervantes foi best-seller em seu
tempo.
Mas hoje? Parece-me que traduzir Cervantes apenas para
especialistas não faz muito sentido, porque se você entende de
português arcaico terá pouca dificuldade para ler o original. Vamos
deixar os leigos fora da festa, achando, ainda por cima, como já me
disseram, que o Quixote é uma chatice? Uma chatice, o maior livro de
humor de todos os tempos, ao lado de Gargântua, de Rabelais? Puxa,
que pecado!
Uma solução seria modernizar a linguagem. Mas eu resisto a uma
modernização, pelo menos uma modernização a ferro e fogo, porque
fiquei traumatizado numa cena extremamente dramática do Império
da paixão, de Nagisa Oshima. Para quem não lembra, o filme conta
uma história de adultério e assassinato no Japão de 1895. Lá pelas tantas o amante grita para a viúva — apavorada com o fantasma que
aparece no poço —, nas legendas brasileiras: “Deixe de ser Amélia!”.
Como manter a atmosfera de antiguidade e ao mesmo tempo ser
legível? Aí está uma boa dor de cabeça, que John Rutherford driblou
em sua tradução para a Penguin. Mas nem tudo o que fica bem em
inglês fica bem em português. Não tenho coragem de pôr Sancho
chamando dom Quixote de “você”, em vez de “vossa mercê”. De
modo que fui bem mais conservador que Rutherford.
Usei preferencialmente palavras da época de Cervantes ou anteriores,
mas há também algumas do século xviii e uma pequena porção do
século xix. Do século xx? Nenhuma (espero), mesmo que eu tenha
sofrido por abrir mão de “encrenca”, datada de 1913. Mas, para falar a verdade, não confio nas datas que constam nos dicionários. As
palavras circulam muito de boca em boca antes de ir parar no papel.
Por exemplo, voleo é usada por Cervantes com a maior naturalidade,
mas, segundo o Houaiss, a palavra aparece escrita em português
apenas no século xx. Não dá para acreditar que os portugueses não a tivessem usado. Convenhamos, trezentos anos é tempo pra chuchu.
Enfim, embora eu tenha prestado atenção às datas, foi meio como o
supersticioso que não passa embaixo de uma escada. Minhas escolhas
dependeram, na maioria dos casos, da ambiguidade da palavra e um
tanto — que Deus me ajude — do meu ouvido. Ambiguidade: o que
Cervantes diz quando descreve dom Quixote se armando e pegando a
lança? Sei, ele é pródigo em redundâncias, mas uma espiada no
dicionário me diz que “se armar” também é vestir a armadura, pois
ela é parte das armas de um cavaleiro. Mesmo com os coletes à prova
de bala na moda, quantos de nós pensamos que vestir um deles é se
armar? Pode-se considerar que um detalhe desses não faz muita
diferença, na conta geral. O diabo é que detalhes desses aparecem
quase em todos os parágrafos, quando não dois ou três por parágrafo. Somando-os, é bem provável que a média dos leitores se sinta
desorientada. Ouvido: “porqueiro” ou “porcariço”? É provável que
muitos leitores entendam num segundo do que estamos falando. Mas
eu prefiro o modesto “guardador de porcos”, porque não soa ridículo,
como “porqueiro” não soava (suponho) nos tempos de Cervantes. E
“lavrador”? Traduzi por “camponês”. É que os lavradores de
Cervantes não plantam apenas — têm vacas, cabras, ovelhas. E
“encantadores”? Como, em muitas frases, a palavra se presta à
confusão, preferi “magos”, termo que por sinal faz parte da tradição.
Se o escudo e o elmo que dom Quixote usa são um escudo e um
elmo específicos — adarga, morrião —, eu digo amém. Mas e as
burlas que fazem ao cavaleiro? Comigo fazem brincadeiras ou pregam
peças. Burla, hoje, quer dizer muito mais logro, trapaça, que gozação,
mesmo que as gozações no caso sejam logros e trapaças. E o
“discreto”? A todo momento aparece alguém discreto, no sentido de
ser sensato e arguto, atilado, inteligente. Para economizar uma ida ao
dicionário, eu poderia inserir uma nota de rodapé avisando: onde se lê “discreto”, leia-se “sensato” ou “inteligente”. Seria meio como pedir
ao leitor que traduzisse minha tradução. Como acho que se deve
apelar para as notas apenas em último caso, economizei todas as que
pude.
Poderia ainda ter traduzido “discreto” por “esperto” em muitas
situações. “Esperto” é uma palavra antiguinha: é do século xiii. Mas o peso que ela tem em português me impediu. Cervantes fala de gente de
inteligência viva, não de estelionatários, digamos.
Talvez fique mais claro o que tento mostrar se dermos um exemplo
um pouco mais longo. Escolhi um trecho do capítulo ix da primeira parte, não para deixar os viscondes e M. Pinheiro Chagas mal na
parada, mas por ser típico da prosa de Cervantes e conter uma
expressão idiomática que foi atropelada (atenção aos grifos), mais
uma vez, devido à semelhança entre o espanhol e o português. Essa
semelhança, somada à falta de desconfiômetro e à preguiça de
consultar o dicionário, ou de ler os verbetes até o fim, tem causado
estragos demoníacos.
Cervantes: “Estaba en el primero cartapacio pintada muy al natural
la batalla de don Quijote con el vizcaíno, puestos en la misma postura
que la historia cuenta, levantadas las espadas, el uno cubierto de su
rodela, el otro de la almohada, y la mula del vizcaíno tan al vivo, que
estaba mostrado ser de alquiler a tiro de ballestra. Tenía a los pies
escrito el vizcaíno un título que decía ‘Don Sancho de Azpetia’, que,
sin duda, debía de ser su nombre, y a los pies de Rocinante estaba otro
que decía ‘Don Quijote’. Estaba Rocinante maravillosamente pintado,
tan largo y tendido, tan atenuado y flaco, con tanto espinazo, tan
hético confirmado, que mostraba bien al descubierto con cuánta
advertencia y propiedad se le había puesto el nombre de ‘Rocinante’”.
A versão portuguesa: “Estava no primeiro cartapácio debuxada mui
ao natural a batalha de dom Quixote com o biscainho, na mesma
postura em que os descreve a história, de espadas altas, um coberto da
sua rodela, o outro da almofada, e a mula do biscainho tão ao vivo,
que a distância de tiro de besta se conhecia ser de aluguer. Tinha o
biscainho por baixo uma inscrição que dizia: ‘Dom Sancho de Azpeitia’, que sem dúvida devia ser seu nome, e aos pés do Rocinante
estava outra que dizia: ‘Dom Quixote’. Vinha Rocinante
maravilhosamente pintado, tão delgado e comprido, tão descarnado e
fraco, com arcabouço tão ressaído, e tão desenganado hético, que bem
mostrava quanto à própria se lhe tinha posto o nome de ‘Rocinante’”.
A minha: “No primeiro caderno estava pintada com todo o realismo
a batalha de dom Quixote com o basco, na mesma postura que a
história conta, as espadas no alto, um protegido pela rodela, o outro
pela almofada, e a mula do basco tão vividamente que a tiro de
balestra se via que era de aluguel. O basco tinha escrito aos pés a
legenda: ‘Dom Sancho de Azpeitia’, que, sem dúvida, devia ser seu
nome, e aos pés de Rocinante estava outra que dizia: ‘Dom Quixote’.
Rocinante estava pintado maravilhosamente, tintim por tintim, tão
fraco e magro, puro espinhaço, tísico confirmado, que mostrava muito
bem com que tino e propriedade fora chamado de Rocinante”.
Há ainda outro problema relacionado à antiguidade. Os personagens
às vezes se atiram a longos discursos, com frases intrincadas e palavras
luxuosas. Facilmente esses discursos podem se tornar pomposos em
português, vide as trocas de cortesia, tão exageradas que beiram o absurdo. A verdade é que Cervantes brinca com a linguagem,
parodiando estilos, mas nem sempre de modo escancarado. Às vezes
ele, autor, parece compartilhar a seriedade do personagem. Mais uma
vez, então, a graça e a ironia dependem de pequenos detalhes.
Dependem também da aceitação do jogo por parte do leitor — se ele
aceita a atmosfera proposta por Cervantes, à medida que a história
avança vai ficando cada vez mais deliciosa.
Em todo caso, não podemos confundir esses discursos com os
elogios ao rei, à Igreja católica e às demais autoridades introduzidos
por Cervantes para deleite dos censores que deviam aprovar o livro.
Esses discursos sobressaem no texto e quase sempre são desmentidos
pela história contada. Sobre eles, Macedonio Fernández tinha uma
tirada que se tornou proverbial na Argentina: “Deve ser assim, mas
isso Cervantes escreveu para ficar de bem com o comissário”.
Outro assunto delicado são os poemas, uns escritos a sério, outros
na gozação. Mas, sérios ou não, lembrei das palavras do padre amigo
de dom Quixote ao comentar a tradução do Orlando furioso, de Ludovico Ariosto, que “lhe tirou muito de seu valor original; e o
mesmo farão todos aqueles que quiserem transpor livros de verso para
outra língua: por mais cuidado que tenham e habilidade que mostrem,
jamais chegarão ao ponto que os versos alcançaram no primeiro
parto”. Além disso, quase todos os poemas têm rima e métrica, para
mim um mistério mais profundo que a Trindade. De modo que não
me arrisquei, optando pela saída mais rasteira: uma tradução apenas
informativa, com o original em nota para benefício dos curiosos.
Foram quase dois anos de trabalho, com pequenos períodos de
descanso. É muito tempo, mas não me queixo porque, como muitos já
notaram, em poucas páginas a gente se sente um velho amigo de
Cervantes e de suas criaturas. Isso tornou a tradução uma espécie de
conspiração, como se eu estivesse tomando uns tragos com Cervantes
numa taberna e combinando a melhor forma de sacanear os cavaleiros
para poder ferir mortalmente os leitores que acreditam neles. O
tempero especial disso é que todos nós, começando por Cervantes,
fomos esses leitores em algum momento e temos uma saudade
desgraçada dele.
Segundo dom Quixote, traduzir de uma língua fácil não prova nem
talento nem bom estilo, “como não o prova quem transcreve ou copia
um texto de um papel para outro”. Para nós, que falamos português,
o espanhol está entre as línguas fáceis, bem mais acessível que o
francês e o italiano. Talvez só perca para o galego. Bem, tenha ou não
tenha razão o velho fidalgo, uma coisa é certa: não tive a felicidade do
doutor Cristóbal de Figueroa nem a de dom Juan de Jáuregui. Assim,
devo me contentar por não ter empregado meu tempo em coisas piores
e torcer para, nos embates com as semelhanças enganosas, não ter
feito uma triste figura, como nosso cavaleiro ao apanhar de um
moinho.
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