Dom Quixote

Miguel de Cervantes · Capítulo 4 de 137

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Dom Quixote

Reflexões de um escudeiro de Cervantes

Reflexões de um escudeiro

 

de Cervantes

ernani ssó

[…] me parece que traduzir de uma língua para outra, desde que não

seja das rainhas das línguas, a grega e a latina, é como olhar os

tapetes flamengos pelo avesso: embora se vejam as figuras, estão

cheias de fios que as obscurecem, não se podendo ver com a clareza e

a cor do lado direito; e traduzir de línguas fáceis nem prova talento

nem bom estilo, como não o prova quem transcreve ou copia um

texto de um papel para outro. Mas disso não quero inferir que o

exercício da tradução não seja louvável, porque o homem poderia se

ocupar de coisas piores, que lhe trouxessem menos proveito. Deixo

fora dessa conta dois tradutores famosos: o doutor Cristóbal de

Figueroa, em seu Pastor Fido, e dom Juan de Jáuregui, em seu

Aminta, que, com felicidade, nos deixam em dúvida sobre qual é a

tradução e qual é o original.

Dom Quixote, ii, lxii

Ao contrário de muitos tradutores, não sofri a tentação de ser Pierre

Menard, deixando Cervantes igual a Cervantes até a última vírgula.

Nem sofri a tentação oposta, ser Jorge Luis Borges e reescrever tudo.

Depois de anos de ofício, eu sabia que me tocava ser Sancho Pança

apenas, quer dizer, um escudeiro de Cervantes, ajudando-o a travar

suas batalhas em português. Como Sancho Pança, fui um criado

submisso e fiel, sem deixar de ser ladino quando precisei escapar de

algum aperto. Vamos ver se me explico.

A tentação menardiana é compreensível, mas não se aguenta em pé:

as palavras não têm a consistência dos números. O número sete vale

sete numa conta tanto em Trombudo do Norte como em Cuernavaca ou na Cochinchina. Mas sete não vale sete num texto. A palavra

“sete”, para nós, evoca sorte, mentira, esoterismo. Vá saber o que

evoca na Cochinchina. A cultura e o lugar alteram, ou colorem, o

significado de uma palavra. O tempo, então, nem se fala. No caso do

Quixote o tempo talvez seja o fator mais hostil.

Outra coisa: cada língua tem seus ritmos e seus modos de dizer. Daí

que uma tradução literal pode ser o avesso da fidelidade, tornando o

texto todo desconjuntado e cheio de ecos incômodos. Claro que isso

que digo é óbvio — talvez não ululante, mas assim mesmo bastante

constrangedor. O problema é que grande parte das traduções

brasileiras de livros em espanhol não parece se dar conta dessa

obviedade e cai direto no portunhol, língua muito usada por turistas e

nas fronteiras do sul. Um exemplo banal é o yo creo traduzido por “eu

creio”, quando o yo creo é o “eu acho” dos latinos, porque entre nós

a palavra “crer” não se descolou inteiramente da religião. A

semelhança entre o espanhol e o português tem causado enganos

divertidos, para não dizer estúpidos, como a tradução de oso (urso)

por osso (hueso), como vi num conto de Julio Cortázar.

A tentação borgeana também é compreensível. Talvez mais

compreensível ainda diante de Cervantes, famoso pelo estilo

desleixado. Ao contrário de muitos amantes de Cervantes, não vejo

seus defeitos como virtudes, numa transformação digna dos magos que Quixote pensava que o perseguiam. Como Borges, penso que

Francisco de Quevedo poderia corrigir qualquer página de Cervantes.

Mas isso não salva Quevedo nem condena Cervantes: trata-se apenas

de uma constatação. Quevedo, grande estilista, foi incapaz de criar o

Cavaleiro da Triste Figura. O cavaleiro e sua história valem muito

mais que as belas palavras de Quevedo.

Paul Groussac, na Segunda conferência sobre Cervantes e o Quixote,

fez uma observação que se tornou famosa: “esse admirável primeiro

capítulo, o melhor do livro, e cujo esmero nos traz involuntariamente

à memória (apenas a lembrança parece uma crueldade) o tempo e o

vagar de que gozava o preso para cuidar seu estilo”. Acho isso ótimo,

mas é preciso dizer que Cervantes, apesar do desleixo, é fluente. Mais:

é cheio de energia e de graça.

Enfim, mesmo que eu tivesse o cacife de Borges, não me meteria a

copidescar Cervantes. Não copidesco nem romances populares. Não é

por ser bonzinho ou muito humilde. É mais simples: uma tradução é

meio como andar na corda bamba. Pode-se fazer uma ou outra

pirueta, mas saltar da corda, mesmo para cair de pé com a elegância

devida, é outro espetáculo. Se me passei numa ou noutra frase ou palavra, foi em nome da clareza e do vigor. Na hora do aperto, prefiro

ser mais fiel ao Quixote que a Cervantes. Se essa distinção parece

obscura, paciência, logo chegaremos aos exemplos.

Diante disso tudo, minha primeira preocupação foi com os fiapos,

digamos, para ficarmos com a metáfora de dom Quixote. Preocupação

que todo tradutor remoeu: não basta dar uma noção da figura e de

sua cor, ou, para sermos diretos, não basta dar somente o sentido.

Manter o sentido, com todas as ambiguidades do original, não é tarefa

fácil, sabe-se, mas o resto é mais difícil. O resto é canto e dança. Se

Cervantes não cantar nem dançar em português, melhor seguir o

exemplo de Freud: aprender espanhol e ler no original.

Cabe então a perguntinha: como recuperar em português a fluência,

a energia e a graça do texto de Cervantes? É provável que eu não

saiba responder muito bem. Mas acho que a resposta, ou uma das

respostas possíveis, está embutida na recusa da tentação de ser Pierre

Menard. Se vamos pôr Cervantes em português, em algum momento

temos de pensar no texto como se fosse escrito em português, com as exigências e as manias do português. Cervantes não pode desafinar em

português nem tropeçar nos próprios calcanhares. Se, para termos em

português a eficácia que ele tem em espanhol, é preciso alterar a

ordem da frase, cortar uma palavra ou acrescentar outra, altere-se,

corte-se, acrescente-se, com pulso firme e coração leve. Em minha

opinião, se a frase não ficou bem em português, tem fiapos

obscurecendo-a. Se podemos ver o original sob o português, ela não

está em português, como não está em português a fala que se ouve

com frequência nas dublagens: “Maldito, dê o seu melhor!”.

Como uma discussão sem exemplos práticos não serve para grande

coisa, vamos a um, pego ao acaso. No capítulo xxvi da segunda parte, depois que dom Quixote destroça a espadadas o teatro de marionetes,

mestre Pedro diz: “Con que me pagase el señor don Quijote alguna

parte de las hechuras que me ha deshecho, quedaría contento y su

merced aseguraría su conciencia”. Atenção ao grifo. Segundo os

dicionários, o equivalente em português é “as feituras que me desfez”.

Quantos de nós entendemos a piada sem consultá-los?

Como a tradução dos viscondes de Castilho e Azevedo é a mais

reeditada no Brasil — sem que se dê o crédito a M. Pinheiro Chagas,

que traduziu a maior parte depois da morte dos nobres portugueses

—, vejamos como ficou a frase: “Se o senhor dom Quixote me pagasse

uma parte das coisas que me desfez, já eu ficaria satisfeito e Sua Mercê

sossegaria a sua consciência”. Bem, até para os viscondes, que não

esmorecem diante da maior parte dos arcaísmos, quando não os

substituem por outros mais arcaicos ainda, traduzir hechuras por

“feituras” pareceu demais, mas optaram por ficar apenas no sentido,

ignorando o jogo de palavras.

Minha versão: “Se o senhor dom Quixote me pagasse uma parte do

que seu feito desfez, eu ficaria contente e sua mercê resguardaria sua

consciência”. Traí Cervantes? Eu avisei: como Sancho na hora do

aperto ou quando vislumbra alguma vantagem, não fui nada

cerimonioso, mas me parece que por uma boa causa, porque não

deixei a frase achatada como os nobres portugueses. Ernesto Sábato,

numa conversa com Borges, diz que talvez seja melhor que os tradutores sejam escritores de estilo mais apagado, para não

interferirem no estilo do original. Está aí, parece-me, mais um desvão

da tentação de ser Pierre Menard. Basta folhearmos a maior parte das

traduções em português para ver no que dá o estilo apagado: textos

num português que se encontra apenas em tradução, sem açúcar e sem

afeto. Ou muito me engano, ou um escritor com estilo mais vivo tem

mais recursos para tentar reproduzir texturas, sabores, perfumes,

ritmos. Não usei “feituras” porque, em primeiro lugar, seu sentido é

um tanto misterioso hoje e, em segundo, porque a palavra se tornou

ridícula. A mim pareceu melhor recriar a piada dentro do mesmo

clima do original. Quanto ao fato de ter optado por traduzir

“assegurar” por “resguardar” foi por me parecer que assim ficava um

tiquinho mais claro. A opção dos viscondes, “sossegar”, soa bem, soa

corrente, mas está dizendo outra coisa, não? Uma consciência

sossegada não é o mesmo que uma consciência garantida.

Como estamos num romance de mais de mil páginas, eu poderia dar

dezenas e dezenas de exemplos semelhantes. Mas fiquemos com mais

um (ou dois ou três), em que o humor depende de uma palavrinha. No capítulo iv da primeira parte, dom Quixote encontra um camponês espancando um criado. Depois das ameaças do cavaleiro, o camponês

convida o criado a ir com ele e diz que pagará sua dívida: “hacedme

placer de veniros conmigo, que yo juro por todas las órdenes que de

caballerías hay en el mundo de pagaros, como tengo dicho, un real

sobre otro, y aun sahumados”.

As edições comentadas trazem notas explicando que sahumado quer

dizer perfumado com a fumaça de ervas aromáticas, mas aqui significa

que o camponês paga de boa vontade, ou que assim os reais foram

melhorados. Muito bem, os viscondes e M. Pinheiro Chagas

traduziram assim: “dá-me o gosto de vir comigo, que eu juro por

quantas castas de cavalaria haja no mundo, de pagar, como tenho

dito, até a última, e em moedinha defumada”. Antes de mais nada, é

preciso notar que foram introduzidas modificações dificilmente

justificáveis e que lemos como se estivéssemos com soluço, por causa

da pontuação. E los reales sahumados? É provável que o leitor do

século xix matasse num segundo a charada da fumigação da grana, como os leitores do tempo de Cervantes.

Mas hoje? Talvez um leitor, em quinhentos ou em mil, em vez de

pensar num arenque, como eu, se desse conta de que também se

defuma para afugentar os maus espíritos, purificar e dar boa sorte,

que é justamente o que o camponês propõe. Como passar esse sentido

de modo que até gente lerda como eu entenda de estalo? O gozado é

que na hora de driblar minha lerdeza fui rápido: “Dai-me o prazer de

vir comigo que eu juro, por todas as ordens de cavalaria que há no

mundo, de vos pagar, como já disse, um real sobre o outro, benzidos

ainda por cima”.

Minha solução não é a única, claro. Todos os tradutores brasileiros

acharam outras. Isso é interessante. Se cotejarmos as traduções,

veremos muitas coincidências, coisa que me parece natural dada a

semelhança entre as línguas. Mas veremos muito mais diferenças,

mesmo em situações em que, como diria Sancho, poderíamos jurar de

pés juntos que não havia espaço para grandes manobras. Como uma

parte enorme de nossas decisões depende de fatores subjetivos, fica fácil criticar qualquer tradução, por melhor que seja. Sem falar que os

tradutores são capazes de se matar por causa de detalhes.

Voltando à frase e à fumaça, note-se que não mexi em quase nada,

que mantive a mesma estrutura, dando apenas um toque de mão em

alguns pontos, para que entrasse no ritmo e no tom do português

brasileiro. Foi quase sempre assim. Se há uma expressão no original,

tratei de achar uma expressão equivalente em português, não

transcrever a explicação ou, o que seria meio esquisito, manter a

expressão e botar a explicação em nota de rodapé.

Os inumeráveis ditados de Sancho deram um trabalho à parte.

Gastei horas e horas atrás de ditados equivalentes, quando eles

perdiam agilidade e harmonia em português, ou eram de compreensão

duvidosa, ou tinham sua graça ameaçada. Os rimados foram os

piores. Por exemplo, o que fazer com “não importa com quem nasces,

mas com quem pasces”? Uma piada evidente no tempo de Cervantes,

mas você tem de ser um leitor inveterado de dicionários para saber o

que é “pasces”. Então? Então parti para o tudo ou nada: reinventei o ditado. “Não importa a casta, mas com quem se pasta.”

Isso nos leva a minha outra grande preocupação. Numa cena da

segunda parte, dom Quixote acha que a história que escreveram sobre

ele, quer dizer, a primeira parte do romance, deve ser muito ruim, que

“para ser entendida vai precisar de comentários”. O bacharel Sansão

Carrasco responde com veemência: “Isso não, porque a clareza dela é

tanta que não há coisa que não se entenda: as crianças a manuseiam,

os moços a leem, os homens a entendem e os velhos a celebram, enfim,

é tão folheada e tão lida e tão conhecida por todo tipo de gente que,

mal se vê um pangaré magro, se diz: ‘Ali vai Rocinante’”. Sabe-se que

o bacharel não está exagerando. Cervantes foi best-seller em seu

tempo.

Mas hoje? Parece-me que traduzir Cervantes apenas para

especialistas não faz muito sentido, porque se você entende de

português arcaico terá pouca dificuldade para ler o original. Vamos

deixar os leigos fora da festa, achando, ainda por cima, como já me

disseram, que o Quixote é uma chatice? Uma chatice, o maior livro de

humor de todos os tempos, ao lado de Gargântua, de Rabelais? Puxa,

que pecado!

Uma solução seria modernizar a linguagem. Mas eu resisto a uma

modernização, pelo menos uma modernização a ferro e fogo, porque

fiquei traumatizado numa cena extremamente dramática do Império

da paixão, de Nagisa Oshima. Para quem não lembra, o filme conta

uma história de adultério e assassinato no Japão de 1895. Lá pelas tantas o amante grita para a viúva — apavorada com o fantasma que

aparece no poço —, nas legendas brasileiras: “Deixe de ser Amélia!”.

Como manter a atmosfera de antiguidade e ao mesmo tempo ser

legível? Aí está uma boa dor de cabeça, que John Rutherford driblou

em sua tradução para a Penguin. Mas nem tudo o que fica bem em

inglês fica bem em português. Não tenho coragem de pôr Sancho

chamando dom Quixote de “você”, em vez de “vossa mercê”. De

modo que fui bem mais conservador que Rutherford.

Usei preferencialmente palavras da época de Cervantes ou anteriores,

mas há também algumas do século xviii e uma pequena porção do

século xix. Do século xx? Nenhuma (espero), mesmo que eu tenha

sofrido por abrir mão de “encrenca”, datada de 1913. Mas, para falar a verdade, não confio nas datas que constam nos dicionários. As

palavras circulam muito de boca em boca antes de ir parar no papel.

Por exemplo, voleo é usada por Cervantes com a maior naturalidade,

mas, segundo o Houaiss, a palavra aparece escrita em português

apenas no século xx. Não dá para acreditar que os portugueses não a tivessem usado. Convenhamos, trezentos anos é tempo pra chuchu.

Enfim, embora eu tenha prestado atenção às datas, foi meio como o

supersticioso que não passa embaixo de uma escada. Minhas escolhas

dependeram, na maioria dos casos, da ambiguidade da palavra e um

tanto — que Deus me ajude — do meu ouvido. Ambiguidade: o que

Cervantes diz quando descreve dom Quixote se armando e pegando a

lança? Sei, ele é pródigo em redundâncias, mas uma espiada no

dicionário me diz que “se armar” também é vestir a armadura, pois

ela é parte das armas de um cavaleiro. Mesmo com os coletes à prova

de bala na moda, quantos de nós pensamos que vestir um deles é se

armar? Pode-se considerar que um detalhe desses não faz muita

diferença, na conta geral. O diabo é que detalhes desses aparecem

quase em todos os parágrafos, quando não dois ou três por parágrafo. Somando-os, é bem provável que a média dos leitores se sinta

desorientada. Ouvido: “porqueiro” ou “porcariço”? É provável que

muitos leitores entendam num segundo do que estamos falando. Mas

eu prefiro o modesto “guardador de porcos”, porque não soa ridículo,

como “porqueiro” não soava (suponho) nos tempos de Cervantes. E

“lavrador”? Traduzi por “camponês”. É que os lavradores de

Cervantes não plantam apenas — têm vacas, cabras, ovelhas. E

“encantadores”? Como, em muitas frases, a palavra se presta à

confusão, preferi “magos”, termo que por sinal faz parte da tradição.

Se o escudo e o elmo que dom Quixote usa são um escudo e um

elmo específicos — adarga, morrião —, eu digo amém. Mas e as

burlas que fazem ao cavaleiro? Comigo fazem brincadeiras ou pregam

peças. Burla, hoje, quer dizer muito mais logro, trapaça, que gozação,

mesmo que as gozações no caso sejam logros e trapaças. E o

“discreto”? A todo momento aparece alguém discreto, no sentido de

ser sensato e arguto, atilado, inteligente. Para economizar uma ida ao

dicionário, eu poderia inserir uma nota de rodapé avisando: onde se lê “discreto”, leia-se “sensato” ou “inteligente”. Seria meio como pedir

ao leitor que traduzisse minha tradução. Como acho que se deve

apelar para as notas apenas em último caso, economizei todas as que

pude.

Poderia ainda ter traduzido “discreto” por “esperto” em muitas

situações. “Esperto” é uma palavra antiguinha: é do século xiii. Mas o peso que ela tem em português me impediu. Cervantes fala de gente de

inteligência viva, não de estelionatários, digamos.

Talvez fique mais claro o que tento mostrar se dermos um exemplo

um pouco mais longo. Escolhi um trecho do capítulo ix da primeira parte, não para deixar os viscondes e M. Pinheiro Chagas mal na

parada, mas por ser típico da prosa de Cervantes e conter uma

expressão idiomática que foi atropelada (atenção aos grifos), mais

uma vez, devido à semelhança entre o espanhol e o português. Essa

semelhança, somada à falta de desconfiômetro e à preguiça de

consultar o dicionário, ou de ler os verbetes até o fim, tem causado

estragos demoníacos.

Cervantes: “Estaba en el primero cartapacio pintada muy al natural

la batalla de don Quijote con el vizcaíno, puestos en la misma postura

que la historia cuenta, levantadas las espadas, el uno cubierto de su

rodela, el otro de la almohada, y la mula del vizcaíno tan al vivo, que

estaba mostrado ser de alquiler a tiro de ballestra. Tenía a los pies

escrito el vizcaíno un título que decía ‘Don Sancho de Azpetia’, que,

sin duda, debía de ser su nombre, y a los pies de Rocinante estaba otro

que decía ‘Don Quijote’. Estaba Rocinante maravillosamente pintado,

tan largo y tendido, tan atenuado y flaco, con tanto espinazo, tan

hético confirmado, que mostraba bien al descubierto con cuánta

advertencia y propiedad se le había puesto el nombre de ‘Rocinante’”.

A versão portuguesa: “Estava no primeiro cartapácio debuxada mui

ao natural a batalha de dom Quixote com o biscainho, na mesma

postura em que os descreve a história, de espadas altas, um coberto da

sua rodela, o outro da almofada, e a mula do biscainho tão ao vivo,

que a distância de tiro de besta se conhecia ser de aluguer. Tinha o

biscainho por baixo uma inscrição que dizia: ‘Dom Sancho de Azpeitia’, que sem dúvida devia ser seu nome, e aos pés do Rocinante

estava outra que dizia: ‘Dom Quixote’. Vinha Rocinante

maravilhosamente pintado, tão delgado e comprido, tão descarnado e

fraco, com arcabouço tão ressaído, e tão desenganado hético, que bem

mostrava quanto à própria se lhe tinha posto o nome de ‘Rocinante’”.

A minha: “No primeiro caderno estava pintada com todo o realismo

a batalha de dom Quixote com o basco, na mesma postura que a

história conta, as espadas no alto, um protegido pela rodela, o outro

pela almofada, e a mula do basco tão vividamente que a tiro de

balestra se via que era de aluguel. O basco tinha escrito aos pés a

legenda: ‘Dom Sancho de Azpeitia’, que, sem dúvida, devia ser seu

nome, e aos pés de Rocinante estava outra que dizia: ‘Dom Quixote’.

Rocinante estava pintado maravilhosamente, tintim por tintim, tão

fraco e magro, puro espinhaço, tísico confirmado, que mostrava muito

bem com que tino e propriedade fora chamado de Rocinante”.

Há ainda outro problema relacionado à antiguidade. Os personagens

às vezes se atiram a longos discursos, com frases intrincadas e palavras

luxuosas. Facilmente esses discursos podem se tornar pomposos em

português, vide as trocas de cortesia, tão exageradas que beiram o absurdo. A verdade é que Cervantes brinca com a linguagem,

parodiando estilos, mas nem sempre de modo escancarado. Às vezes

ele, autor, parece compartilhar a seriedade do personagem. Mais uma

vez, então, a graça e a ironia dependem de pequenos detalhes.

Dependem também da aceitação do jogo por parte do leitor — se ele

aceita a atmosfera proposta por Cervantes, à medida que a história

avança vai ficando cada vez mais deliciosa.

Em todo caso, não podemos confundir esses discursos com os

elogios ao rei, à Igreja católica e às demais autoridades introduzidos

por Cervantes para deleite dos censores que deviam aprovar o livro.

Esses discursos sobressaem no texto e quase sempre são desmentidos

pela história contada. Sobre eles, Macedonio Fernández tinha uma

tirada que se tornou proverbial na Argentina: “Deve ser assim, mas

isso Cervantes escreveu para ficar de bem com o comissário”.

Outro assunto delicado são os poemas, uns escritos a sério, outros

na gozação. Mas, sérios ou não, lembrei das palavras do padre amigo

de dom Quixote ao comentar a tradução do Orlando furioso, de Ludovico Ariosto, que “lhe tirou muito de seu valor original; e o

mesmo farão todos aqueles que quiserem transpor livros de verso para

outra língua: por mais cuidado que tenham e habilidade que mostrem,

jamais chegarão ao ponto que os versos alcançaram no primeiro

parto”. Além disso, quase todos os poemas têm rima e métrica, para

mim um mistério mais profundo que a Trindade. De modo que não

me arrisquei, optando pela saída mais rasteira: uma tradução apenas

informativa, com o original em nota para benefício dos curiosos.

Foram quase dois anos de trabalho, com pequenos períodos de

descanso. É muito tempo, mas não me queixo porque, como muitos já

notaram, em poucas páginas a gente se sente um velho amigo de

Cervantes e de suas criaturas. Isso tornou a tradução uma espécie de

conspiração, como se eu estivesse tomando uns tragos com Cervantes

numa taberna e combinando a melhor forma de sacanear os cavaleiros

para poder ferir mortalmente os leitores que acreditam neles. O

tempero especial disso é que todos nós, começando por Cervantes,

fomos esses leitores em algum momento e temos uma saudade

desgraçada dele.

Segundo dom Quixote, traduzir de uma língua fácil não prova nem

talento nem bom estilo, “como não o prova quem transcreve ou copia

um texto de um papel para outro”. Para nós, que falamos português,

o espanhol está entre as línguas fáceis, bem mais acessível que o

francês e o italiano. Talvez só perca para o galego. Bem, tenha ou não

tenha razão o velho fidalgo, uma coisa é certa: não tive a felicidade do

doutor Cristóbal de Figueroa nem a de dom Juan de Jáuregui. Assim,

devo me contentar por não ter empregado meu tempo em coisas piores

e torcer para, nos embates com as semelhanças enganosas, não ter

feito uma triste figura, como nosso cavaleiro ao apanhar de um

moinho.

 

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