Dom Quixote

Miguel de Cervantes · Capítulo 20 de 137

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Dom Quixote

Capítulo XII

 

do que um pastor contou aos que

estavam com dom quixote

Estavam nisso, quando outro rapaz dos que lhes traziam provisões da

aldeia chegou e disse:

— Sabeis o que se passa por lá, companheiros?

— Como podemos saber? — respondeu um deles.

— Pois é — prosseguiu o rapaz —, esta manhã morreu aquele

famoso pastor estudante chamado Grisóstomo, e se cochicha que

morreu de amores por aquela moça endiabrada, Marcela, a filha de

Guillermo, o rico, a que anda em trajes de pastora por esses ermos.

— Por Marcela, dizes? — disse um.

— Ela mesma — respondeu o pastor. — E o melhor é que ordenou

em seu testamento que o enterrassem no campo, como se fosse um

mouro, ao pé do penhasco onde está a fonte do carvalho, porque,

conforme se sabe, e dizem que ele mesmo disse, foi ali que ele a viu

pela primeira vez. Também ordenou outras coisas que os padres da

vila dizem que não vão ser cumpridas, que nem é bom que o sejam,

porque parecem de pagãos. Mas aquele grande amigo seu, Ambrósio,

o estudante, que também se vestiu de pastor como ele, respondeu que

vai se fazer tudo como Grisóstomo deixou ordenado, sem faltar nada,

e por isso a vila anda alvoroçada. Mas, pelo que se diz, no fim se fará

o que Ambrósio e todos os pastores seus amigos querem, e amanhã

mesmo vêm enterrá-lo com grande pompa lá onde falei. Acho que não

é coisa de se perder; eu pelo menos não deixarei de ir vê-la, ainda que

soubesse que amanhã não posso voltar à vila.

— Todos nós iremos — responderam os pastores. — Vamos tirar a

sorte para ver quem vai ficar e cuidar das cabras de todos.

— Falas bem, Pedro — disse um deles —, mas não será preciso tirar

a sorte, eu ficarei por todos, e não penses que por virtude ou falta de

curiosidade: é que não posso andar por causa do graveto que outro

dia me espetou este pé.

— Mesmo assim, nós te agradecemos — respondeu Pedro.

E dom Quixote pediu a Pedro que lhe dissesse que morto era aquele

e que pastora aquela; Pedro respondeu que o que sabia era que o

morto era um fidalgo rico, que morava numa aldeia naquelas serras,

que tinha sido estudante muitos anos em Salamanca, voltando para

casa com fama de muito sábio e muito lido.

— Diziam que sabia principalmente a ciência das estrelas, e do que

fazem lá no céu o sol e a lua, porque pontualmente nos dizia as clipes

do sol e da lua.

— Eclipse, amigo, não clipes, se chama o obscurecimento desses dois

astros maiores — disse dom Quixote.

Mas Pedro, não reparando em ninharias, prosseguiu sua história:

— Também adivinhava quando o ano seria abundante ou estil.

— Quereis dizer estéril, amigo — disse dom Quixote.

— Estéril ou estil — respondeu Pedro —, sai tudo pelo mesmo lugar.

E digo que seu pai e seus amigos, que acreditavam nele, ficaram muito

ricos, porque faziam o que ele lhes aconselhava: “Semeai cevada este

ano, não trigo; neste podeis semear grãos-de-bico e não cevada; o ano que vem vai abarrotar de azeitona; nos três seguintes não se colherá

um fiapo”.

— Essa ciência se chama astrologia — disse dom Quixote.

— Não sei como se chama — replicou Pedro —, mas sei que sabia

disso tudo e de muito mais ainda. Enfim, não se passaram muitos

meses depois que veio de Salamanca, quando um dia surgiu vestido de

pastor, com seu cajado e pelico, tendo tirado a beca comprida que

usava como estudante. Também vestido de pastor, apareceu com ele

outro grande amigo seu, chamado Ambrósio, que havia sido seu

companheiro nos estudos. Ia esquecendo de dizer que o defunto,

Grisóstomo, gostava muito de compor coplas, tanto que ele fazia os

cânticos para a noite de Natal e os autos para o dia de Corpus Christi,

que os rapazes de nossa vila representavam, e todos diziam que eram

extraordinários. Quando as pessoas viram os dois estudantes assim de

repente vestidos de pastores, ficaram admiradas, e não podiam

adivinhar a causa daquela mudança tão estranha. Nesse tempo o pai

de nosso Grisóstomo já morrera, deixando-lhe de herança muitos

bens, tanto móveis como imóveis, grande quantidade de gado grosso e

miúdo, além de muito dinheiro. De tudo ficou o rapaz dono absoluto. Na verdade o merecia, porque era bom companheiro, caritativo,

amigo dos bons e tinha um rosto de abençoado. Depois se

compreendeu que a mudança de traje tinha sido para andar por esses

descampados atrás daquela pastora Marcela de que nosso pastor falou

antes, por quem havia se apaixonado o coitado do defunto

Grisóstomo. E agora quero vos dizer, para que o saibais bem, quem é

esta moça: talvez, ou mesmo sem talvez, não tenhais ouvido

semelhante coisa em todos os dias de vossa vida, mesmo que vivais

mais anos que a sarna.

— Dizei Sara1 — replicou dom Quixote, não podendo aguentar a

troca de palavras do pastor.

— A sarna vive até dizer chega — respondeu Pedro. — Agora,

senhor, se haveis de andar me corrigindo a cada passo as palavras, não

acabaremos nem num ano.

— Perdoai, meu amigo — disse dom Quixote. — Por haver tanta

diferença de sarna para Sara vos falei; mas vós respondestes muito

bem, porque a sarna vive mais do que viveu Sara. Prossegui vossa história, que não vos interromperei mais.

— Bem, senhor de minha alma — disse o pastor —, em nossa aldeia

houve um camponês ainda mais rico que o pai de Grisóstomo, que se

chamava Guillermo, a quem Deus deu, além das muitas e grandes

riquezas, uma filha de cujo parto morreu a mãe, que foi a mais

honrada mulher que já viveu nestas bandas. Parece que ainda a vejo

agora, com aquele rosto que numa face tinha o sol e na outra a lua;

mas, acima de tudo, trabalhadeira e amiga dos pobres, o que me leva a

pensar que neste momento sua alma deve estar desfrutando da

companhia de Deus no outro mundo. De dor pela morte de tão boa

mulher morreu seu marido Guillermo, deixando sua filha Marcela,

pequena e rica, em poder de um tio, padre em nosso povoado. A

menina cresceu com tanta beleza que nos lembrava a de sua mãe, que

foi muito grande; mas mesmo assim se pensava que a da filha haveria

de ultrapassá-la.

“E por isso, quando chegou aos catorze, quinze anos, ninguém a

olhava sem agradecer a Deus, que a tinha criado tão linda, e quase

todos ficavam apaixonados e perdidos por ela. Seu tio a guardava com

muito recato e a portas fechadas, mas, apesar de tudo, a fama de sua extrema formosura se espalhou de tal maneira que, tanto por ela como

por suas grandes riquezas, não apenas os melhores de nosso povoado,

como os de muitas léguas ao redor, pediam, imploravam e

importunavam seu tio para que a desse como esposa. Mas ele, bom

cristão para valer, ainda que quisesse casá-la logo, visto que já tinha

idade, não quis fazê-lo sem o consentimento dela, sem se importar

com os ganhos e vantagens que as posses da moça dariam a ele

retardando o casamento. E juro que se disse isso em mais de uma roda

no povoado, em elogio ao padre; porque, senhor andante, quero que

saibais que nesses lugares pequenos se fala de tudo e de tudo se

cochicha; pensai então, como eu, que o clérigo devia ser muito bom

para seus paroquianos falarem tão bem dele, especialmente numa vila

dessas.”

— Isso é verdade — disse dom Quixote. — Segui adiante, que a

história é muito boa e vós, meu bom Pedro, a contais com muita

graça.

— Que a de Cristo não me falte, que é a que importa. Enfim, deveis saber que, ainda que o tio falasse com a sobrinha sobre as qualidades

de cada um dos muitos que a queriam como esposa, pedindo-lhe que

escolhesse e se casasse a seu gosto, ela jamais respondeu outra coisa

senão que por enquanto não queria se casar e que, por ser tão moça,

não se sentia com forças para a carga do matrimônio. Diante dessas

desculpas, pelo visto razoáveis, o tio deixava de importuná-la e

esperava que tivesse um pouco mais de idade e soubesse escolher sua

companhia conforme seu desejo. Porque, dizia ele, e dizia muito bem,

os pais não deviam casar seus filhos contra a vontade. Mas eis que,

quando menos se esperava, de repente a mimosa Marcela aparece feita

pastora; e, sem o consentimento do tio nem a aprovação de ninguém

da aldeia, deu para ir ao campo com as outras pastoras cuidar de seu

próprio rebanho. E, logo que ela saiu em público e sua beleza se viu à

mostra, não saberei vos dizer ao certo quantos rapazes ricos, fidalgos e

camponeses adotaram o traje de Grisóstomo e andam cortejando-a

por esses campos. Um deles, como já se disse, foi o nosso defunto, de

quem diziam que não a queria, adorava-a.

“E não se pense que, por Marcela viver em tamanha liberdade e com

tão pouco ou nenhum recolhimento, deu algum indício, nem em sombras, que venha pôr em dúvida sua honestidade e recato; pelo

contrário, é tanta a vigilância com que olha por sua honra que de

quantos a cortejam e pretendem nenhum se gabou, nem na verdade

poderá se gabar, de que lhe tenha dado alguma pequena esperança de

alcançar seus desejos. Não foge nem se esquiva da companhia e da

conversa dos pastores, trata-os cortês e amigavelmente, mas, se chega

a descobrir em qualquer um deles sua intenção, mesmo que seja tão

justa e santa como a do casamento, afasta-os de si como com uma

catapulta. E dessa maneira causa mais dano nesta terra que a própria

peste, porque sua afabilidade e formosura atraem os corações dos que

convivem com ela para cortejá-la e amá-la, mas seu desdém e

franqueza os levam aos limites do suicídio; e assim não sabem o que

lhe dizer, senão chamá-la aos gritos de cruel e desgraçada, com outros

títulos semelhantes, que mostram muito bem seu temperamento. E, se

aqui estivésseis, senhor, em certos dias, ouviríeis estas serras e estes

vales ressoarem com os lamentos dos desenganados que a seguem.

“Não fica muito longe daqui um lugar onde há quase duas dúzias de faias altas, e não há uma que não tenha gravado o nome de Marcela

na casca lisa, com uma coroa por cima em algumas, como se mais

claramente seu apaixonado dissesse que Marcela a leva e a merece por

toda a formosura humana. Aqui suspira um pastor, ali se queixa

outro, lá se ouvem canções amorosas, aqui cânticos desesperados. Há

quem passe todas as horas da noite sentado ao pé de alguma azinheira

ou penhasco e ali, sem pregar os olhos chorosos, embevecido e

enlevado em seus pensamentos, encontra-o o sol pela manhã; e há

quem, sem dar folga nem trégua a seus suspiros, no meio do calor da

mais tediosa sesta do verão, estendido sobre a areia ardente, envie

suas queixas ao céu piedoso. Deste e daquele, daqueles e destes, livre e

tranquilamente triunfa a linda Marcela. Todos nós que a conhecemos

estamos esperando para ver onde vai parar sua altivez e quem será o

afortunado que domará caráter tão terrível e desfrutará dessa

formosura extraordinária. Por ser verdade mais que sabida tudo o que

contei, acho que também é verdade o que nosso pastor ouviu sobre a

causa da morte de Grisóstomo. Assim, senhor, vos aconselho que

amanhã não deixeis de assistir ao enterro, que será algo digno de se ver, porque Grisóstomo tem muitos amigos, e o lugar onde mandou

que o enterrassem não fica a meia légua daqui.”

— Levarei isso em conta — disse dom Quixote — e vos agradeço o

prazer que me haveis dado com a narração de história tão saborosa.

— Oh! — replicou o pastor —, isso que não sei a metade dos casos

acontecidos aos apaixonados de Marcela. Mas pode ser que amanhã

topemos no caminho com algum pastor que os conte. Por ora seria

bom que fôsseis dormir sob o telhado, porque o sereno poderia vos

prejudicar a ferida, embora, com o remédio que vos apliquei, não haja

acidente que temer.

Sancho Pança, que já mandava ao diabo a conversa sem fim do

pastor, insistiu que seu amo fosse dormir na choça de Pedro. Assim fez

dom Quixote, passando o resto da noite em lembranças de sua

senhora Dulcineia, à imitação dos apaixonados de Marcela. Sancho

Pança acomodou-se entre Rocinante e seu jumento, e dormiu, não

como um apaixonado desiludido, mas como um homem moído de

pancadas.

 

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