Dom Quixote

Miguel de Cervantes · Capítulo 86 de 137

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Dom Quixote

Capítulo XXV

onde se inicia a aventura do zurro e o caso

engraçado do titereiro, com as memoráveis

adivinhações do macaco vidente

Dom Quixote não se aguentava, como se costuma dizer, para ouvir as

maravilhas prometidas pelo homem que carregava as armas. Foi

procurá-lo onde o estalajadeiro disse que estava e, ao encontrá-lo,

pediu que dissesse de uma vez o que pretendia dizer depois acerca do

que tinha perguntado no caminho. O homem respondeu:

— Mais devagar e não em pé, meu bom senhor, vai se ouvir a

história de minhas maravilhas: deixe-me vossa mercê acabar de dar a

ração ao meu mulo, que eu lhe direi coisas que vão deixá-lo pasmo.

— Não seja por isso — respondeu dom Quixote —, que eu vos

ajudarei em tudo.

E assim o fez, peneirando a cevada e limpando a baia, humildade

que obrigou o homem a lhe contar com boa vontade o que lhe pedia;

e, sentando-se num banco, com dom Quixote perto dele, tendo por

assembleia e auditório o primo, o pajem, Sancho Pança e o

estalajadeiro, começou a falar desta maneira:

— Saibam vossas mercês que numa aldeia que fica a quatro léguas e

meia desta estalagem sumiu um burro de um vereador, devido à

astúcia e trapaça de uma moça criada dele, mas isto é uma história

muito comprida para se contar. Embora o tal vereador tenha feito as

diligências possíveis, não o achou. Deviam ter se passado uns quinze

dias que o burro tinha sumido, coisa que era pública e notória,

quando outro vereador da mesma aldeia topou na praça com o

vereador lesado e lhe disse: “Dai-me alvíssaras, compadre, que vosso

jumento apareceu”.

“‘Eu as prometo, e boas, compadre’, respondeu o outro, ‘mas vamos

saber onde ele apareceu.’

“‘Eu o vi no mato esta manhã’, disse o que achara o jumento, ‘sem

albarda ou apetrecho algum, e tão magro que dava pena de olhar.

Quis tocá-lo para cá, mas já está tão arisco e intratável que, quando

me aproximei dele, fugiu e se embrenhou mato adentro. Se quereis que eu vá convosco procurá-lo, deixai-me levar esta burrinha em casa, que

já volto.’

“‘Grande favor me fareis’, disse o do jumento, ‘e eu tentarei vos

pagar na mesma moeda.’

“Com todas essas circunstâncias e da mesma maneira que eu as vou

contando, contam-nas todos aqueles que estão inteirados da verdade

deste caso. Em suma, lá se foram os dois vereadores para o mato, lado

a lado e a pé; chegando ao lugar onde pensavam encontrar o burro,

não o acharam, nem ele apareceu em toda aquela vizinhança, por mais

que o procurassem. Vendo, então, que não aparecia, o vereador que o

tinha visto disse ao outro: ‘Vede, compadre: tive uma ideia com que

sem dúvida alguma poderemos descobrir esse animal, mesmo que não

esteja mais metido no mato, mas nas entranhas da terra. É que eu sei

zurrar maravilhosamente, e, se sabeis um pouco, considerai o negócio

concluído’.

“‘Se sei um pouco, compadre?’, disse o outro. ‘Por Deus, nisso

ninguém me ganha, nem os próprios burros.’

“‘Agora veremos’, respondeu o segundo vereador. ‘Façamos assim:

ide por um lado do mato e eu irei por outro, de modo que o rodeemos

e percorramos todo, e de tanto em tanto vós zurrais e eu também. Não

pode acontecer nada exceto o burro nos ouvir e nos responder, se é

que ainda está por aqui.’

“‘Tenho de vos dizer, compadre’, respondeu o dono do jumento,

‘que o plano é excelente e digno de vosso grande engenho.’

“Conforme o combinado, eles se separaram e aconteceu que

zurraram quase ao mesmo tempo e, cada um enganado com o zurro

do outro, se procuraram às pressas, pensando que o jumento já tinha

aparecido. Ao se verem, disse o lesado: ‘Será possível, compadre, que

não tenha sido o burro que zurrou?’.

“‘Não, não, fui eu’, respondeu o outro.

“‘Depois dessa’, disse o dono, ‘juro que entre vós e um burro não há

diferença alguma, no que toca a zurrar, porque nunca vi nem ouvi na

vida coisa mais parecida.’

“‘Esses elogios e louvações’, respondeu o do plano, ‘cabem melhor a

vós que a mim, compadre, pois, pelo Deus que me criou, podeis dar

dois zurros de vantagem ao maior e mais perito zurrador do mundo: porque o som que emitis é alto; sustentais a voz no tempo e ritmo

corretos; e as inflexões são variadas e rápidas. Em suma, dou-me por

vencido e vos entrego o troféu e a coroa dessa rara habilidade.’

“‘Pois vos garanto que, daqui por diante’, respondeu o dono, ‘me

terei em maior conta e pensarei que sei alguma coisa, porque tenho

algum dom. Apesar de pensar que zurrava bem, nunca percebi que

chegava ao extremo que dizeis.’

“‘Também vos garanto’, respondeu o segundo, ‘que há raras

habilidades perdidas no mundo e que são mal empregadas por aqueles

que não sabem se aproveitar delas.’

“‘As nossas’, respondeu o dono, ‘se não for em casos semelhantes

como o que temos em mãos, não podem nos servir em outros, e,

mesmo neste, que Deus nos ajude que seja de proveito.’

“Depois disso, eles se separaram de novo e de novo zurraram, e a

toda hora se enganavam e se reuniam de novo, até que combinaram

um sinal: para entender que eram eles, não o burro, zurrariam duas

vezes, uma depois da outra. Com isso, zurrando duas vezes de tanto em tanto, percorreram todo o mato sem que o jumento respondesse,

nem mesmo por gestos. Mas como poderia responder o pobre e

malfadado jumento se o encontraram comido pelos lobos no mais

fechado da floresta? E, ao vê-lo, seu dono disse: ‘Eu já estava achando

estranho que não respondesse, pois, a menos que estivesse morto, ele

zurraria se nos ouvisse, ou não seria burro. Mas em troca de vos ter

ouvido zurrar com tanta graça, compadre, dou por bem empregado o

trabalho que tive ao procurar o bicho, mesmo tendo-o achado morto’.

“‘Obrigado, compadre, mas o primeiro lugar está em boas mãos’,

respondeu o outro, ‘pois, se o abade canta bem, o noviço não fica

atrás.’

“Com isso, desconsolados e roucos, voltaram para a aldeia, onde

contaram a seus amigos, vizinhos e conhecidos tudo o que havia

acontecido a eles na busca do burro, um exagerando o dom que o

outro tinha para zurrar. Assim se soube tudo e assim se espalhou pelas

aldeias dos arredores. Mas o diabo, que é amigo de rixas e de semear

discórdias, e que quando descansa amola as moscas com o rabo, fez

com que as pessoas dos outros povoados, ao encontrar algumas de

nossa aldeia, zurrassem, como se nos jogassem na cara o zurro de nossos vereadores. Então os meninos descobriram a brincadeira, que

foi como botar nas mãos e nas bocas de todos os demônios do

inferno, e o zurro se espalhou de um povoado para outro de tal

maneira que os nativos do povoado do zurro são conhecidos da

mesma forma que os negros são conhecidos e diferenciados dos

brancos. A desgraça dessa zombaria chegou a tanto que muitas vezes,

em pelotões bem formados e armados, os zombados saíram para

atacar os zombadores, sem que os detivesse nem rei nem roque, nem

temor ou vergonha. Eu acho que amanhã ou depois de amanhã vão

sair em campanha os de minha aldeia, que são os dos zurros, contra

outra aldeia que está a duas léguas da nossa, que é uma das que mais

nos perseguem; e, para saírem bem prevenidos, fui comprar estas

lanças e alabardas que vistes. E estas são as maravilhas que disse que

vos contaria, e, se não apreciaram estas, sinto muito, não sei outras.”

E assim deu fim à conversa o bom homem, e nisso entrou pela porta

da estalagem um homem todo vestido de camurça, meias, bombachas

e gibão, e com voz elevada disse:

— Senhor hospedeiro, há quarto? Pois vem aqui o macaco vidente e

o teatro de marionetes com A liberdade de Melisendra.1

— Santo Cristo — disse o estalajadeiro —, aqui está o senhor, mestre

Pedro! Boa noite nos espera.

Eu me esquecia de dizer como o tal mestre Pedro trazia tapados o

olho esquerdo e quase meia bochecha com uma venda de tafetá verde,

sinal de que todo aquele lado devia estar doente. E o estalajadeiro

continuou, dizendo:

— Seja bem-vindo, mestre Pedro. Onde estão o macaco e o teatro,

que não os vejo?

— Já estão perto — respondeu o homem todo de camurça. — Eu

vim na frente, para saber se havia quarto.

— Eu tiraria o próprio duque de Alba dele para dá-lo ao senhor,

mestre Pedro — respondeu o estalajadeiro. — Que cheguem logo o

macaco e o teatro, que esta noite tem gente na estalagem que pagará

para ver a peça e as habilidades do macaco.

— Para mim está bem — disse o da venda —, vou baixar o preço, e

se cobrir os custos me darei por satisfeito. Volto lá para apressar a

carreta em que vêm o macaco e os títeres.

E em seguida saiu de novo da estalagem.

Então dom Quixote perguntou ao estalajadeiro quem era esse mestre

Pedro e que teatro e que macaco trazia. O estalajadeiro respondeu:

— Ele é um famoso titereiro, que há muitos dias anda por estas

bandas da Mancha de Aragão2 com uma peça sobre a libertação de

Melisendra, feita pelo célebre dom Gaifeiros, que é uma das melhores

e mais bem representadas histórias que já se viu neste reino em muito

tempo. Também traz consigo um macaco com a mais estranha

habilidade que se viu entre macacos nem se imaginou entre homens,

porque, quando lhe perguntam alguma coisa, fica atento ao que dizem

e depois salta para os ombros de seu amo e, aproximando-se do

ouvido, diz a resposta ao que foi perguntado, e mestre Pedro a declara

em seguida. Diz muito mais coisas sobre o passado que sobre o futuro

e, embora nem sempre acerte todas, não erra na maioria, de modo que

nos leva a acreditar que tem o diabo no corpo. Cobra dois reais por

pergunta, quando o macaco responde, quero dizer, quando o amo

responde por ele, depois de lhe ter falado ao ouvido. Por isso se pensa que o tal mestre Pedro está riquíssimo, e que é um galante home e

bono companho,3 como dizem na Itália, e leva a melhor vida do

mundo: fala mais que seis e bebe mais que doze, tudo à custa de sua

língua, de seu macaco e de seus títeres.

Nisso, voltou mestre Pedro, e numa carreta vinham o palco e o

macaco, grande e sem rabo, com a bunda pelada, mas não mal-

encarado. Dom Quixote, mal o viu, perguntou a ele:

— Diga-me vossa mercê, senhor adivinho: que pesce pigliamo?4 O

que será de nós? E veja aí meus dois reais.

E mandou que Sancho os desse ao mestre Pedro, que, respondendo

pelo macaco, disse:

— Senhor, este animal não responde nem dá notícias das coisas que

estão por acontecer; das passadas sabe um pouco, e das presentes

outro tanto.

— Raios me partam — disse Sancho — se eu der um tostão para que

me digam o que aconteceu comigo! Quem pode saber melhor que eu

mesmo? Ora, pagar para que me digam o que sei seria uma grande

asneira, mas, se souber das coisas presentes, eis aqui meus dois reais, e diga-me o senhor macaquíssimo por onde anda agora minha mulher

Teresa Pança e de que se ocupa.

Mestre Pedro não quis pegar o dinheiro, dizendo:

— Não quero receber o pagamento antes de meus serviços.

E deu duas batidas com a mão direita sobre o ombro esquerdo; num

pulo o macaco estava lá, aproximando a boca do ouvido do dono e

batendo os dentes muito depressa. Depois de fazer isso pelo tempo de

uma oração, com outro pulo foi para o chão, e no mesmo instante,

com uma pressa tremenda, mestre Pedro foi se ajoelhar diante de dom

Quixote e, abraçando-o pelas pernas, disse:

— Abraço estas pernas como se abraçasse as duas colunas de

Hércules, oh, ressuscitador insigne da já esquecida cavalaria andante,

oh, o nunca louvado como se deve dom Quixote de la Mancha,

esperança dos desamparados, arrimo dos que vão cair, braço dos

caídos, báculo e consolo de todos os infelizes!

Dom Quixote ficou pasmo e Sancho, estupefato; o primo, perplexo,

e o pajem, atônito; o do zurro, abobalhado, e o estalajadeiro, confuso. Enfim, todos ouviram com espanto as palavras do titereiro, que

prosseguiu:

— E tu, meu bom Sancho Pança, o melhor escudeiro do melhor

cavaleiro do mundo, alegra-te, que tua boa mulher Teresa está bem, e

justo agora está limpando um meio quilo de linho. Se quiseres mais

detalhes, bem, do lado esquerdo dela há um jarro desbeiçado em que

cabe uma boa quantidade de vinho, com que ela se distrai no

trabalho.

— Nisso eu acredito, sim — respondeu Sancho —, porque ela é uma

boa alma e, se não fosse ciumenta, não a trocaria nem pela giganta

Andandona,5 que, segundo meu amo, foi uma mulher e tanto; e minha

Teresa é daquelas que não passam mal, nem que seja à custa de seus

herdeiros.

— Pois eu digo agora — disse dom Quixote nessas alturas — que

quem lê muito e viaja muito vê muito e sabe muito. Digo isso porque

não havia argumento bastante bom para me persuadir de que há no

mundo macacos videntes, mas o vi agora com meus próprios olhos.

Porque eu sou mesmo dom Quixote de la Mancha, como disse este

bom animal, embora ele tenha exagerado um pouco em meus elogios; mas, tenha eu as qualidades que tiver, dou graças ao céu, que me deu

um temperamento brando e compassivo, sempre inclinado a fazer o

bem a todos e mal a ninguém.

— Se eu tivesse dinheiro — disse o pajem —, perguntaria ao senhor

macaco o que vai me acontecer na peregrinação que iniciei.

Ao que respondeu mestre Pedro, que já havia se levantado dos pés de

dom Quixote:

— Já disse que este bichinho não responde sobre o futuro. Se

respondesse, o dinheiro não importaria, pois para servir o senhor dom

Quixote, aqui presente, eu abandonaria todos os lucros do mundo. E

agora, porque devo isso a ele e para lhe dar um pouco de distração,

quero armar meu palco e divertir quantos estão na estalagem, sem

cobrar nada.

Ouvindo isso o estalajadeiro, por demais alegre, mostrou o lugar

onde se podia montar o palco, que num instante foi armado.

Dom Quixote não estava muito satisfeito com as adivinhações do

macaco, por achar que não era natural que um macaco adivinhasse, nem as coisas futuras nem as passadas, e assim, enquanto mestre

Pedro arranjava o palco, afastou-se com Sancho para um canto da

estrebaria, onde não poderia ser ouvido por ninguém:

— Olha, Sancho, eu examinei bem a estranha habilidade deste

macaco, e acho que sem dúvida o amo dele, mestre Pedro, deve ter

feito um pacto sujo com o demônio, tácito ou expresso.

— Se o pátio é do demônio — disse Sancho —, sem dúvida deve ser

muito sujo; mas o que mestre Pedro ganha com esses pátios?

— Não me entendes, Sancho: só quero dizer que ele deve ter feito

algum acerto com o demônio para dar ao macaco essa habilidade,

para ganhar o pão, e depois que estiver rico lhe entregará sua alma,

que é o que esse universal inimigo pretende. E penso isso porque o

macaco não responde nada além das coisas passadas ou presentes,

porque a sabedoria do diabo não pode ir mais longe, pois não conhece

as futuras a não ser por conjecturas, e nem sempre, porque o futuro a

Deus pertence, só a Ele está reservado conhecer os tempos e os

momentos:6 para ele não há passado nem futuro, tudo é presente.

Então, sendo isso assim, como é, está claro que esse macaco fala com

o estilo do diabo, e estou admirado de que não o tenham denunciado ao Santo Ofício, interrogando-o e arrancando-lhe pela raiz a verdade

sobre de onde provém seu poder de adivinhação; porque com certeza

esse macaco não é astrólogo, nem seu amo nem ele sabem fazer o

mapa das posições dos planetas e dos signos, coisa tão popular hoje

em dia na Espanha que não há mulherzinha nem pajem nem remendão

que não pense entender de mapa astral, botando a perder com suas

mentiras e ignorâncias a verdade maravilhosa da ciência. Sei de uma

senhora que perguntou a um desses astrólogos se uma cachorrinha

que tinha ia ficar prenhe e pariria, e quantos filhotes e de que cor

seriam se parisse. Ao que o senhor adivinho, depois de ter examinado

a posição dos astros, respondeu que a cachorrinha ficaria prenhe e

pariria três cachorrinhos, um deles verde, outro vermelho e outro

malhado, com a condição de que emprenhasse entre as onze e as doze

horas do dia ou da noite, e que fosse numa segunda-feira ou num

sábado; e o que aconteceu foi que dali a dois dias a cadela morreu de

indigestão, e o senhor astrólogo continuou com a mesma reputação no

povoado, como continuam todos ou a maioria deles.

— Mesmo assim — disse Sancho —, gostaria que vossa mercê

dissesse a mestre Pedro que perguntasse ao macaco se é verdade o que

aconteceu com vossa mercê na caverna de Montesinos, pois me

parece, com perdão de vossa mercê, que tudo foi embuste e mentira,

ou pelo menos coisas sonhadas.

— Nada é impossível — responde dom Quixote —, mas eu farei o

que me aconselhas, embora eu tenha certos escrúpulos sobre isso.

Estavam nessa conversa, quando chegou mestre Pedro em busca de

dom Quixote e lhe disse que o palco já estava montado, que sua mercê

fosse ver a peça, porque valia a pena. Dom Quixote disse então o que

pensava, suplicando que perguntasse logo ao macaco se certas coisas

que haviam acontecido na caverna de Montesinos tinham sido

verdadeiras ou sonhadas, porque a ele parecia que elas tinham um

pouco de tudo. Ao que mestre Pedro, sem responder uma palavra,

trouxe de novo o macaco e, diante de dom Quixote e de Sancho, disse:

— Olhai, senhor macaco, que este cavaleiro quer saber se certas

coisas que lhe aconteceram numa caverna conhecida como de

Montesinos foram falsas ou verdadeiras.

Depois que ele fez o sinal costumeiro, o macaco pulou para seu

ombro esquerdo e pareceu lhe falar ao ouvido; em seguida mestre

Pedro disse:

— O macaco diz que parte das coisas que vossa mercê viu ou viveu

na dita caverna são falsas e parte verídicas. Isso é tudo o que sabe a

respeito dessa questão, mas que, se vossa mercê quiser saber mais, que

na próxima sexta-feira responderá tudo o que lhe perguntar, porque

perdeu por ora o poder de adivinhar, que não voltará até sexta-feira,

como já disse.

— Eu não disse, meu senhor — disse Sancho —, que não podia

engolir a ideia de que tudo ou mesmo a metade do que vossa mercê

falou que aconteceu na caverna era verdade?

— Os fatos falarão por si, Sancho — respondeu dom Quixote —,

pois o tempo, revelador de todas as coisas, não deixa nenhuma sem

ser exposta à luz do sol, mesmo que esteja escondida no seio da terra.

Mas chega, por ora, e vamos ver a peça do bom mestre Pedro. Acho

que ele deve ter alguma novidade.

— Como alguma? — respondeu mestre Pedro. — Sessenta mil este

meu palco encerra. Digo a vossa mercê, meu senhor dom Quixote, que

é uma das melhores coisas que se tem hoje para se ver no mundo, e

operibus credite, et non verbis,7 e mãos à obra, que já é tarde e temos

muito que fazer e que dizer e que mostrar.

Dom Quixote e Sancho obedeceram e foram para onde o palco já

estava armado e descoberto, cheio por todos os lados de candeeirinhos

de cera acesos que o tornavam vistoso e resplandecente. Mestre Pedro

se meteu dentro dele, pois era quem tinha de manejar as marionetes, e

do lado de fora ficou um rapaz, criado de mestre Pedro, para servir de

apresentador e intérprete dos mistérios do palco: tinha uma varinha

na mão com que apontava os personagens que apareciam.

Então, reunidos todos os que estavam na estalagem diante do palco,

alguns de pé, outros sentados nos melhores lugares, como dom

Quixote, Sancho, o pajem e o primo, o apresentador começou a dizer

o que ouvirá e verá quem ouvir ou vir o capítulo seguinte.

 

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