Dom Quixote

Miguel de Cervantes · Capítulo 26 de 137

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Dom Quixote

Capítulo XVIII

onde se conta a conversa de sancho pança

com seu senhor dom quixote, com outras aventuras dignas de ser

narradas

Sancho alcançou seu amo, mas tão murcho e desanimado que não

podia nem apressar o jumento. Quando o viu assim, dom Quixote

disse a ele:

— Agora sim me convenci, meu bom Sancho, de que aquele castelo

ou estalagem é encantado, pois o que poderiam ser aqueles que tão

atrozmente se divertiram contigo senão fantasmas e gente do outro

mundo? A prova disso é que, quando eu estava assistindo aos atos de

tua triste tragédia por cima do muro do pátio, não pude subir nele,

nem mesmo apear de Rocinante, porque deviam ter me encantado. Se

eu pudesse subir, ou apear-me, juro que teria te vingado e de tal

maneira que aqueles patifes e canalhas se lembrariam da travessura

para sempre, mesmo sabendo que nisso contrariava as leis da

cavalaria, que, como já te disse muitas vezes, não consentem que um

cavaleiro levante a mão contra quem não o seja, exceto em defesa da

própria vida e pessoa, em caso de urgente e grande necessidade.

— Eu também me vingaria se pudesse, fosse ou não fosse armado

cavaleiro; mas não pude, mesmo achando que aqueles que se

divertiram comigo não eram fantasmas nem homens encantados,

como diz vossa mercê, e sim homens de carne e osso como nós. Todos

tinham nome, porque ouvi se chamarem, quando me faziam de

joguete: um era Pedro Martínez, outro Tenório Hernández, e o

estalajadeiro Juan Palomeque, o Canhoto. Então, senhor, não poder

pular o muro do pátio nem apear do cavalo foi por outra coisa, não

por encantamentos. E o que tiro a limpo de tudo isso é que essas aventuras que andamos buscando vão nos trazer tantas desventuras

que no fim das contas não saberemos nem qual é nosso pé direito. E o

melhor e mais acertado, segundo meu pouco entendimento, seria

voltarmos para casa, agora que é tempo de colheita, e trabalhar na

fazenda, deixando de andar de um lado para outro como mosca tonta

e pulando da frigideira para o fogo, como se diz.

— Como sabes pouco, Sancho, dos percalços da cavalaria! —

respondeu dom Quixote. — Cala e tem paciência, que dia virá em que

verás com teus próprios olhos que coisa honrosa é andar neste

exercício. Senão, diz-me: que maior contentamento pode haver no

mundo, ou que prazer pode se igualar ao de vencer uma batalha e

triunfar sobre o inimigo? Nenhum, sem dúvida alguma.

— Deve ser assim — respondeu Sancho —, embora eu não o saiba.

Só sei que depois que somos cavaleiros andantes, ou vossa mercê é

(pois não há por que eu me incluir em relação tão honrosa), jamais

vencemos batalha alguma, a não ser a do basco, e mesmo naquela

vossa mercê saiu com meia orelha e meio elmo de menos. De lá para

cá tudo foram bordoadas e mais bordoadas, murros e mais murros, de

quebra eu servindo de joguete nas mãos de pessoas encantadas, de

quem não posso me vingar para saber até onde chega o gosto de

vencer o inimigo, como vossa mercê diz.

— Essa é minha mágoa e deve ser a tua, Sancho — respondeu dom

Quixote. — Mas daqui por diante vou procurar ter nas mãos uma espada, feita com tal maestria que não se possa fazer nenhum gênero

de encantamento àquele que a levar consigo. E até podia ser que a

sorte me deparasse com aquela de Amadis,1 quando se chamava

Cavaleiro da Espada Ardente, que foi uma das melhores espadas que

algum cavaleiro teve no mundo, porque, além de ter a virtude de que

falei, cortava como uma navalha e não havia armadura, por mais forte

e encantada que fosse, que aguentasse à sua frente.

— Eu tenho tanta sorte que — disse Sancho —, se isso acontecesse e

vossa mercê viesse a achar semelhante espada, só seria de proveito

para os armados cavaleiros, como o bálsamo. Quanto aos escudeiros,

que o diabo os carregue!

— Não tenhas medo, Sancho — disse dom Quixote —, que Deus é

grande.

Nessa conversa iam dom Quixote e seu escudeiro, quando o fidalgo

viu que, pela estrada que trilhavam, se aproximava uma grande e

espessa nuvem de poeira; e então se virou para Sancho e disse:

— Este é o dia, Sancho, em que há de se ver o bem que o destino tem

me reservado. Este é o dia, repito, em que se há de mostrar como em

nenhum outro o valor de meu braço: dia em que empreenderei façanhas que ficarão escritas no livro da fama por todos os séculos

futuros. Vês aquela poeirada que se levanta ali, Sancho? Pois toda ela

está coalhada de um tremendo exército de diversas e inumeráveis

tropas que vêm marchando.

— Por essa conta, devem ser dois — disse Sancho —, porque deste

outro lado também se levanta uma poeirada semelhante.

Dom Quixote se virou para olhar, viu que era verdade e se alegrou

muito, pois sem dúvida nenhuma pensou que eram dois exércitos que

investiam para bater-se no meio da amplidão daquela planície —

porque a toda hora e momento ele tinha a imaginação cheia daquelas

batalhas, encantamentos, aventuras, desatinos, amores e desafios que

se contam nos livros de cavalaria, e tudo o que falava, pensava ou

fazia tendia a coisas semelhantes. E a poeira era de dois grandes

rebanhos de ovelhas e carneiros que vinham de pontos diferentes por

aquela estrada e só se tornaram visíveis quando chegaram bem perto.

Mas com tanto afinco dom Quixote afirmava que eram exércitos, que

Sancho acabou por acreditar e dizer:

— Então, senhor, o que vamos fazer?

— O quê?! — disse dom Quixote. — Favorecer e ajudar os

necessitados e desvalidos. E deves saber, Sancho, que esse que vem por

nossa frente é conduzido e guiado pelo grande imperador

Alifanfarrão, senhor da grande ilha Taprobana;2 esse outro que

marcha às minhas costas é seu inimigo, o rei dos garamantes,3

Pentapolia do Braço Arremangado, porque sempre entra nas batalhas

com o braço direito nu.

— Mas por que se querem mal esses dois senhores? — perguntou

Sancho.

— Querem-se mal — respondeu dom Quixote — porque

Alifanfarrão é um pagão furibundo e está apaixonado pela filha de

Pentapolia, uma linda e graciosa senhora que é cristã, e seu pai não a

quer entregar ao rei pagão, a menos que ele abandone a lei de seu

falso profeta Maomé e adote a sua.

— Por minhas barbas! — disse Sancho. — Pentapolia faz muito bem,

e tenho de ajudá-lo no que puder.

— Assim farás o que deves, Sancho — disse dom Quixote —, porque

para entrar numa batalha dessas não é preciso ser armado cavaleiro.

— Até aí vejo bem — respondeu Sancho. — Mas onde poremos este

burro, para termos certeza de achá-lo depois da refrega? Porque me

parece que até hoje não se usa entrar em combate em semelhante

montaria.

— É verdade — disse dom Quixote. — O que podes fazer é deixá-lo

à própria sorte, quer se perca ou não, porque serão tantos os cavalos

que teremos depois da vitória que até Rocinante corre perigo de que o

troque por outro. Mas presta atenção e olha, que quero te mostrar os

cavaleiros mais importantes que vêm nesses exércitos. E, para que os

vejas melhor, retiremo-nos para aquele morrinho ali, de onde devem se

distinguir os dois exércitos.

Foi o que fizeram e se posicionaram em cima do morro, de onde

avistariam melhor os dois rebanhos, que para dom Quixote se fizeram

exércitos, se as nuvens de pó que levantavam não lhes turvassem e

cegassem a visão. Mesmo assim, vendo em sua imaginação o que não

enxergava nem existia, o fidalgo começou a dizer em voz elevada:

— Aquele cavaleiro que vês ali, com armadura amarela, que traz no escudo um leão coroado, submisso aos pés de uma donzela, é o

valente Laurcalco, senhor da Ponte de Prata; o outro, com a armadura

das flores de ouro, que traz no escudo três coroas de prata em campo

azul, é o temido Micocolembo, grão-duque de Quirócia; o dos

membros gigantescos, que está a sua direita, é o nunca medroso

Brandabarbarão de Boliche, senhor das três Arábias, que tem por

armadura aquela pele de serpente e por escudo uma porta, que, como

se sabe, é uma das portas do templo que Sansão derrubou, quando se

vingou de seus inimigos com a própria morte. Mas vira os olhos para

este lado e verás, diante do outro exército, o sempre vencedor e jamais

vencido Timonel de Carcassona, príncipe da Nova Biscaia, que tem a

armadura dividida em quatro partes azuis, verdes, brancas e amarelas,

e traz no escudo um gato de ouro em campo cor de leão, com um

dístico que diz: “Miau”, que é o começo do nome de sua dama, que,

conforme se comenta, é a incomparável Miulina, filha do duque

Almofadinha do Algarve; o outro, que sobrecarrega o lombo daquele

poderoso bucéfalo, que traz a armadura branca como neve e o escudo

branco e sem divisa alguma, é um cavaleiro estreante, francês,

chamado Pierre Dois de Paus,4 senhor das baronias de Utrique; o outro, que com esporas nos calcanhares cutuca as ilhargas daquele

cavalo malhado, selvagem e ligeiro, é o poderoso duque de Nérbia,

Espartafilardo da Floresta, que traz o escudo dos veiros azuis e por

divisa um aspargo, com um dístico em castelhano que diz assim:

“Rastreia minha sorte”.

E dessa maneira foi nomeando muitos cavaleiros dos dois exércitos

que ele imaginava e descreveu de improviso as armaduras, cores,

divisas e dísticos de todos, levado pela fantasia de sua nunca vista

loucura. Sem parar, prosseguiu dizendo:

— Aquele esquadrão ali em frente é formado por pessoas de diversas

nações: aqui estão os que bebem as doces águas do famoso Xanto; os

montanheses que pisam os campos de Masila; os que garimpam o

finíssimo e miúdo ouro na Arábia feliz; os que desfrutam das famosas

e frescas margens do cristalino Termodonte; os que sangram por

muitos e diversos meios o dourado Pactolo; e os númidas, duvidosos

em suas promessas; os persas, de arcos e flechas famosos; os partos, os

medas, que lutam fugindo; os árabes, de casas móveis; os citas, tão cruéis quanto alvos; os etíopes, de lábios perfurados… e outras

inumeráveis nações, cujos rostos vejo e reconheço, embora não me

lembre dos nomes. Nesse outro esquadrão vêm os que bebem nas

correntes cristalinas do olivífero Bétis; os que lavam e embelezam seus

rostos com o licor do sempre rico e dourado Tejo; os que desfrutam

das proveitosas águas do divino Genil; os que pisam os campos

tartésios, de pastagens abundantes; os que se alegram nos campos

elísios do Xerez; os manchegos, ricos e coroados de louras espigas; os

vestidos de ferro, relíquias antigas do sangue godo; os que se banham

no Pisuerga, famoso pela mansidão de sua corrente; os que

apascentam seu gado nas extensas pastagens do tortuoso Guadiana,

celebrado por seu curso subterrâneo; os que tremem com o frio nas

florestas do Pirineu e com os brancos flocos do elevado Apenino; em

suma, quantos toda a Europa contém e encerra em seu continente.

Valha-me Deus, quantas províncias citou, quantas nações

mencionou, dando a cada uma os atributos que lhe pertenciam com

extraordinária presteza, totalmente absorto e empapado com o que

havia lido em seus livros mentirosos!

Sancho Pança estava pendente de suas palavras, sem falar nenhuma,

e de quando em quando virava a cabeça para ver se via os cavaleiros e

gigantes que seu amo nomeava; mas por fim, como não divisava

nenhum, disse:

— Senhor, que o diabo carregue tudo quanto é homem, gigante e

cavaleiro que vossa mercê diz que vê. Eu pelo menos não vejo nada.

Talvez tudo seja encantamento, como os fantasmas da noite passada.

— Como dizes isso?! — respondeu dom Quixote. — Não ouves os

relinchos dos cavalos, os toques dos clarins, o rufar dos tambores?

— Só ouço — respondeu Sancho — muitos balidos de ovelhas e

carneiros.

Era a pura verdade, porque os dois rebanhos já estavam perto.

— O medo que tens, Sancho, faz com que nem vejas nem ouças

direito — disse dom Quixote —, porque um dos efeitos do medo é

perturbar os sentidos e fazer com que as coisas não pareçam o que

são. Agora, se temes tanto, afasta-te para algum lugar e deixa-me só,

pois sozinho basto para dar a vitória ao lado que eu ajudar.

E, dizendo isso, esporeou Rocinante e desceu a encosta como um

raio, com a lança em riste.

Sancho gritou:

— Volte, senhor dom Quixote! Juro por Deus, vossa mercê vai

atacar ovelhas e carneiros. Volte, desgraçado do pai que me gerou!

Que loucura é essa? Veja bem que não há gigante nem cavaleiro

algum, nem gatos, nem armaduras, nem escudos divididos ou inteiros,

nem veiros azuis nem endiabrados. O que está fazendo?! Que Deus me

ajude!

Nem assim dom Quixote voltou; pelo contrário, foi em frente

dizendo aos gritos:

— Eia, cavaleiros! Vós que militais sob as bandeiras do valoroso

imperador Pentapolia do Braço Arremangado, segui-me todos e vereis

como facilmente eu o vingo de seu inimigo Alifanfarrão da

Taprobana.

Dizendo isso, enfiou-se pelo meio do exército de ovelhas e começou

a lanceá-las, com tanta coragem e intrepidez como se realmente ferisse

seus mortais inimigos. Os pastores e criadores que vinham com o

rebanho gritavam para que não fizesse aquilo; mas, vendo que perdiam tempo, desataram as fundas e começaram a saudar as orelhas

dele com pedras do tamanho de um punho. Dom Quixote não dava

atenção às pedras; ao contrário, corria de um lado para outro,

dizendo:

— Onde estás, soberbo Alifanfarrão? Vem a mim, que sou apenas

um cavaleiro que deseja, de igual para igual, testar tuas forças e tirar-

te a vida, como penalidade pelas penas que causas ao valente

Pentapolia Garamanta.

Bem aí chegou uma dessas pedras redondas de riacho que o acertou

num lado e lhe sepultou duas costelas no corpo. Vendo-se tão

maltratado, pensou sem dúvida que estava morto ou gravemente

ferido e, lembrando-se de seu bálsamo, puxou da azeiteira, levou-a à

boca e começou a mandar o líquido para o estômago. Mas, antes que

acabasse de embutir o que lhe parecia suficiente, chegou outra pedra

que lhe pegou em cheio na azeiteira, fazendo-a em pedaços e levando

de passagem três ou quatro dentes e machucando-lhe feiamente dois

dedos da mão.

Tal foi o primeiro golpe e tal o segundo que o pobre cavaleiro foi

forçado a vir abaixo do cavalo. Os pastores se aproximaram dele e

acharam que o tinham matado; e então com muita pressa recolheram

o rebanho, carregaram os animais mortos (passavam de sete) e se

foram, sem averiguar mais nada.

Todo esse tempo Sancho estava no alto do morro, olhando as

loucuras que seu amo fazia, arrancando as barbas e maldizendo a

hora e o lugar que o destino o fizera conhecê-lo. Mas, vendo que o

fidalgo caíra e que os pastores já tinham ido embora, desceu a encosta

e se aproximou dele, encontrando-o em péssimo estado, embora não

tivesse perdido o sentido, e então lhe disse:

— Eu não lhe dizia, senhor dom Quixote, que voltasse, que não

atacava um exército, mas um rebanho de carneiros?

— Tudo isso aquele patife do mago meu inimigo pode transformar

ou fazer sumir. Olha, Sancho, é coisa muito fácil para esses tipos nos

fazer ver o que bem quiserem, e esse maligno que me persegue,

invejoso da glória que viu que eu havia de alcançar nesta batalha,

transformou os esquadrões de inimigos em rebanhos de ovelhas.

Senão, faz uma coisa, Sancho, por minha vida, para que te desenganes e vejas como é verdade o que te digo: monta teu burro e segue-os

disfarçadamente, e verás como, ao se afastarem um pouco daqui,

voltam a ser o que eram, deixando de ser carneiros: homens-feitos e

direitos, como eu te descrevi antes. Mas não vás agora, que preciso de

teu favor e ajuda; vem cá e olha quantos dentes me faltam, pois parece

que não me restou nenhum.

Sancho chegou tão perto que quase lhe meteu os olhos na boca, bem

na hora em que o bálsamo agia no estômago de dom Quixote,

mandando para fora, mais rápido que um tiro de escopeta, tudo o que

tinha dentro direto nas barbas do compassivo escudeiro.

— Santa Maria — disse Sancho —, o que me aconteceu?! Sem

dúvida este pecador está ferido de morte, pois vomita sangue.

Mas, ao reparar um pouco mais, verificou pela cor, sabor e cheiro

que não era sangue mas o bálsamo da azeiteira, que ele o tinha visto

beber; e foi tanto o nojo que sentiu que, o estômago revirando-se,

vomitou até as tripas sobre seu próprio senhor — ambos ficando

como duas joias raras. Sancho correu para seu burro para pegar nos alforjes com que se limpar e tratar seu amo, mas, como não os achou,

esteve a ponto de perder o juízo: amaldiçoou-se outra vez e prometeu,

no fundo do coração, largar seu amo e voltar a sua terra, ainda que

perdesse o salário do serviço e as esperanças do governo da ilha

prometida.

Nisso dom Quixote se levantou e, com a mão esquerda enfiada na

boca, para não perder de vez todos os dentes, segurou com a outra as

rédeas de Rocinante, que não tinha se mexido de junto do amo — tão

leal e manso era —, e foi até onde estava o escudeiro, debruçado sobre

seu burro, com a mão na face, na postura de homem muito pensativo.

Dom Quixote, vendo-o assim, com mostras de tanta tristeza, disse:

— Olha, Sancho, um homem não é mais que outro se não faz mais

que outro. Todas essas tempestades que nos acontecem são sinais de

que logo o tempo vai acalmar e vão nos acontecer coisas boas, porque

não é possível que o mal ou o bem durem sempre, do que se conclui

que, havendo o mal durado muito, o bem já está perto. Então não

deves te impressionar com as desgraças que me acontecem, pois a ti

não te cabe parte delas.

— Como não? — respondeu Sancho. — Por acaso quem foi

manteado ontem não era o filho de meu pai? E os alforjes que

sumiram com todas as minhas coisas, são dele ou do vizinho?

— Sumiram os alforjes, Sancho? — disse dom Quixote.

— Claro que sumiram — respondeu Sancho.

— Quer dizer que não temos o que comer hoje — replicou dom

Quixote.

— Isso — respondeu Sancho — se faltarem por estes campos as

ervas que vossa mercê disse que conhece, aquelas com que costumam

contornar semelhantes tropeços os cavaleiros andantes desventurados

como vossa mercê.

— Mesmo assim — respondeu dom Quixote —, agora eu pegaria

mais que depressa um pedaço de pão ou uma fogaça e duas cabeças de

sardinhas defumadas do que todas as ervas que Dioscórides descreve,

mesmo que fossem as do livro ilustrado pelo doutor Laguna.5 Mas,

enfim, monta no jumento, meu bom Sancho, e vem comigo: Deus, que

é o provedor de todas as coisas, não há de nos faltar, ainda mais que andamos a seu serviço, pois Ele não falta aos mosquitos no ar, nem às

minhoquinhas na terra, nem aos sapinhos na água, e é tão piedoso que

faz o sol nascer para os bons e os maus e manda chuva sobre os justos

e injustos.

— Vossa mercê tem mais queda para pregador que para cavaleiro

andante — disse Sancho.

— De tudo sabiam e saberão os cavaleiros andantes, Sancho — disse

dom Quixote. — Nos séculos passados, houve cavaleiro andante que

se plantava no meio de um acampamento para dar um sermão ou

palestra como se fosse formado pela Universidade de Paris, do que se

deduz que nunca a lança embotou a pena, nem a pena a lança.

— Muito bem, seja como vossa mercê quiser — respondeu Sancho.

— Mas agora vamos embora e procuremos onde passar esta noite, e

queira Deus que seja num lugar em que não haja mantas nem

manteadores, nem fantasmas nem mouros encantados, porque, se

houver, mando tudo para os quintos dos infernos.

— Roga a Deus, meu filho — disse dom Quixote —, e guia-nos por

onde quiseres, pois desta vez deixo a teu critério a escolha do

alojamento. Mas me dá cá a mão, apalpa com o dedo e olha bem quantos dentes me faltam no lado direito, na parte de cima, porque é

aí que sinto a dor.

Sancho meteu os dedos e, depois de tatear, disse:

— Quantos molares vossa mercê costumava ter por aqui?

— Quatro — respondeu dom Quixote —, fora o do siso, todos sãos

e inteiros.

— Veja bem vossa mercê o que diz, senhor — respondeu Sancho.

— Digo quatro, se não eram cinco — respondeu dom Quixote —,

porque nunca me arrancaram dente algum em minha vida, nem me

caiu de podre ou cariado.

— Pois na parte de baixo — disse Sancho — vossa mercê não tem

mais que dois molares e meio; e na de cima, nem meio nem nada: está

lisa como a palma da mão.

— Desgraçado de mim! — disse dom Quixote, ouvindo as tristes

notícias que seu escudeiro dava. — Eu preferia que tivessem me

arrancado um braço, desde que não fosse o da espada. Porque te

garanto, Sancho, que a boca sem dentes é como moinho sem mó, e deve-se estimar muito mais um dente que um diamante. Mas a tudo

isso estamos sujeitos nós que professamos a rigorosa ordem da

cavalaria. Monta, amigo, e guia, que eu te seguirei no passo que

quiseres.

Assim fez Sancho, encaminhando-se para onde lhe pareceu que

podiam ser acolhidos, sem sair da estrada real, que por ali passava

sem interrupção.

Seguindo então passo a passo, porque a dor nas mandíbulas de dom

Quixote não o deixava sossegar nem se apressar, Sancho quis entretê-

lo e diverti-lo lhe dizendo alguma coisa. Entre algumas das que disse,

estão as que se narrarão no próximo capítulo.

 

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