Dom Quixote

Miguel de Cervantes · Capítulo 68 de 137

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Dom Quixote

Capítulo VII

do que houve entre dom quixote

e seu escudeiro, com

outros acontecimentos famosos

Mal a criada viu que Sancho Pança se trancava com seu senhor, deu-se

conta do que eles tramavam. Imaginando que com aquela conversa

deviam decidir a terceira saída, pegou seu manto e, cheia de tristeza e

aflição, foi procurar o bacharel Sansão Carrasco, pois achava que ele,

por ser bem-falante e amigo recente de seu senhor, poderia persuadi-lo

a abandonar propósito tão desvairado.

Encontrou-o passeando no pátio de sua casa e, assim que o viu, se

deixou cair a seus pés, transpirando de agonia. Quando Carrasco a

viu tão ansiosa e assustada, lhe disse:

— O que foi, minha senhora? O que lhe aconteceu? Parece que vai

botar o coração pela boca.

— Não é nada comigo, senhor Sansão, é meu amo que está se indo.

Sem dúvida nenhuma ele está se indo!

— Indo para onde, senhora? — perguntou Sansão. — Desta para a

vida eterna?

— Não, está se indo pela porta de sua loucura — respondeu ela. —

Quero dizer, senhor bacharel de minha alma, que sai de novo mundo

afora, pela terceira vez, em busca do que chama de venturas, e não

posso entender como as chama assim. Na primeira vez, trouxeram-no

atravessado sobre um jumento, moído a pauladas. Na segunda veio

num carro de bois, metido numa jaula, onde ele pensava que estava

encantado; e vinha de um jeito tão miserável que não seria

reconhecido pela mãe que o pariu, magro, amarelo, os olhos

afundados nos últimos desvãos da cabeça, que para fazê-lo voltar a ser o que era gastei mais de seiscentos ovos, como sabe Deus e todo o

mundo, e minhas galinhas também, que não me deixarão mentir.

— Acredito, acredito piamente — respondeu o bacharel — que elas

são tão boas, tão gordas e tão bem-criadas que não diriam uma

mentira, mesmo que arrebentassem. Em suma, minha senhora, não há mais nada, nem aconteceu outro desmando exceto pelo que se teme

que o senhor dom Quixote pretende fazer?

— Não, senhor — respondeu ela.

— Então não se amole — respondeu o bacharel —, vá para casa e

me prepare alguma coisa quente para almoçar, e no caminho reze a

oração de santa Apolônia, se é que sabe, que logo vou lá e vossa

mercê verá maravilhas.

— Pobre de mim! — replicou a criada. — Diz vossa mercê que reze a

oração de santa Apolônia? Isso seria bom se meu amo tivesse dor de

dentes, mas o problema dele é na cachola.

— Eu sei o que digo, minha senhora: vá e não discuta comigo, pois

sabe que sou bacharel por Salamanca, e que não preciso mais que

tagarelar — respondeu Carrasco.

Depois disso, a criada saiu, e o bacharel foi logo procurar o padre,

para combinar com ele o que se dirá a seu tempo.

Enquanto estiveram trancados, dom Quixote e Sancho mantiveram a

conversa que com muita precisão e veracidade conta a história.

Sancho disse a seu amo:

— Senhor, já persuei minha mulher a me deixar ir com vossa mercê

aonde quer me levar.

— Quer dizer persuadi, Sancho — disse dom Quixote —, não

persuei.

— Uma ou duas vezes — respondeu Sancho —, se bem me lembro,

supliquei a vossa mercê que não me corrija as palavras, se entender o

que quero dizer com elas e, quando não as entender, diga: “Sancho,

não te entendo” ou “Desgraçado, não te entendo”; e, se eu não me

explicar, então poderá me corrigir, pois sou tão fócil…

— Não te entendo, Sancho — disse dom Quixote na hora —, pois

não sei o que quer dizer “sou tão fócil”.

— “Tão fócil” quer dizer “sou tão assim”.

— Entendo menos agora — replicou dom Quixote.

— Bem, se não pode me entender — respondeu Sancho —, não sei o

que falar. Não sei mais nada, que Deus me ajude.

— Ora, ora, agora pesquei a coisa — respondeu dom Quixote. — Tu

queres dizer que és tão dócil, brando e afável que acatarás o que te

disser e aprenderás o que te ensinar.

— Aposto que desde o começo vossa mercê me entendeu — disse

Sancho —, mas quis me confundir, para me ouvir dizer outras

duzentas patacoadas.

— Pode ser — replicou dom Quixote. — Mas o que foi mesmo que

Teresa disse?

— Teresa disse — respondeu Sancho — que acerte tudo preto no

branco com vossa mercê, de papel passado, não na palavra, porque

quem corta não embaralha, pois mais vale um “toma” que dois “te

darei”. E eu digo que conselho de mulher é pouco, mas quem não o

segue é louco.

— Também digo isso — respondeu dom Quixote. — Mas vamos

adiante, meu amigo Sancho, que hoje só falais pérolas.

— O caso, como vossa mercê bem sabe — replicou Sancho —, é que

nós todos estamos sujeitos à morte, que para morrer basta estar vivo,

e tão rápido vai o cordeiro como o carneiro, e que ninguém neste

mundo pode viver mais horas do que as que Deus quiser lhe dar,

porque a morte é surda e, quando bate nas portas de nossa vida, vem sempre apressada, e nada a detém, nem súplica, nem força, nem

cetros, nem mitras, como é voz corrente e conforme nos dizem dos

púlpitos.

— Tudo isso é verdade — disse dom Quixote —, mas não sei aonde

queres chegar.

— Quero chegar aqui: que vossa mercê estabeleça um salário

determinado — disse Sancho —, que deve me pagar todo mês pelo

tempo que eu o servir, e que o salário seja pago em dinheiro, pois não

quero viver de favores, que chegam tarde ou mal ou nunca; e que

Deus me ajude, não quero dever nada a ninguém. Enfim, quero saber

o que ganho, pouco ou muito que seja, pois a galinha bota um ovo de

cada vez, mas de grão em grão enche o papo, e quem ganha alguma

coisa não perde nada. Não acredito nem espero, mas se acontecesse de

vossa mercê me dar a ilha que me prometeu, não sou tão ingrato, nem

levo as coisas tão à risca, que não queira que se avalie o montante da

renda da tal ilha e se faça um gateio para descontar meu salário.

— Sancho, meu amigo — respondeu dom Quixote —, às vezes tanto

faz um gateio como um rateio.

— Já entendi — disse Sancho. — Aposto que tinha de dizer rateio,

não gateio; mas isso não importa, pois vossa mercê me entendeu

direitinho.

— Tão direitinho — respondeu dom Quixote — que penetrei o

último de teus pensamentos e sei que alvo miras com as inumeráveis

setas de teus provérbios. Olha, Sancho, eu bem que estabeleceria um

salário, se tivesse achado em alguma das histórias dos cavaleiros

andantes exemplo que me revelasse e apontasse por algum pequeno

resquício o que é que os escudeiros costumavam ganhar por mês ou

por ano; mas eu li todas ou a maioria dessas histórias e não me

lembro de ter visto que algum cavaleiro andante tenha dado salário a

seu escudeiro. Sei apenas que todos serviam por mercês e que, quando

menos esperavam, se a seus senhores havia corrido bem a sorte, eram

premiados com uma ilha ou com outra coisa equivalente, ou pelo

menos ficavam com título e senhoria. Se com essas esperanças e

gratificações, Sancho, vos interessardes em voltar ao meu serviço, sede

bem-vindo, mas pensar que eu vou tirar a cavalaria dos eixos e abalar os fundamentos dos antigos costumes é pensar que água não molha.

Então, meu caro Sancho, voltai para casa e dizei a vossa Teresa qual é

minha intenção; se ela concordar e vós também em me servir por

mercês, bene quidem;1 se não, seguimos tão amigos quanto antes: se

no pombal não faltou alpiste, muitos pombos viste. E reparai, meu

filho, que mais vale uma boa esperança que uma posse ruim, e boa

queixa que mau pagamento. Falo dessa maneira, Sancho, para que

saibais que como vós também sei lançar provérbios a torto e a direito.

E, por fim, gostaria de vos dizer que, se não quiserdes vir por mercês

comigo e correr o risco que eu correr, que Deus fique convosco e vos

torne santo, que a mim não faltarão escudeiros mais obedientes, mais

solícitos, e menos maçantes e faladores como vós.

Quando Sancho ouviu a firme decisão do amo, sentiu que o céu

nublava e se partiam as asas de seu coração, porque tinha acreditado

que dom Quixote não iria sem ele nem por todo o ouro do mundo.

Então, enquanto Sancho estava confuso e pensativo, entrou Sansão

Carrasco com a criada e a sobrinha, ansiosas para ouvir com que

palavras persuadiria seu senhor a não voltar a sair em busca de aventuras. Sansão, conhecido debochado, abraçou dom Quixote como

da primeira vez e, em voz alta, disse:

— Oh, flor da cavalaria andante! Oh, luz resplandecente das armas!

Oh, honra e espelho da nação espanhola! Praza a Deus, em que

repousa todo poder e sabedoria, que a pessoa ou pessoas que tentarem

atrapalhar e impedir tua terceira saída não encontrem a delas no

labirinto de suas vontades, nem jamais se cumpra o mal que

desejarem.

E, virando-se para a criada, disse:

— A senhora bem pode parar de rezar a oração de santa Apolônia,

pois eu já sei que é determinação precisa das esferas celestes que o

senhor dom Quixote volte a executar seus nobres e novos

pensamentos, e me pesaria muito a consciência se não intimasse e

exortasse este cavaleiro a que não tenha por mais tempo retraída e

presa a força de seu valoroso braço e a bondade de seu bravo coração,

porque frustra com sua demora o conserto das injustiças, o amparo

dos órfãos, a honra das donzelas, a ajuda das viúvas e o arrimo das casadas, e outras coisas deste jaez, que tocam, tangem, dependem e

são inerentes à ordem da cavalaria andante. Eia, senhor dom Quixote,

formoso e valente, antes hoje que amanhã ponha-se vossa mercê e sua

nobreza a caminho; e, se faltar alguma coisa para a execução de

tamanha obra, aqui estou eu para supri-la com minha pessoa e meus

bens; e, se for necessário servir tua magnificência como escudeiro, eu o

considerarei uma feliz ventura.

Nessa altura, dom Quixote disse, virando-se para Sancho:

— Eu não te disse, Sancho, que haveriam de me sobrar escudeiros?

Olha quem se oferece: nada menos que o inaudito bacharel Sansão

Carrasco, perpétua diversão e alegria dos pátios das escolas

salmanticenses, saudável, ágil, calado, que suporta tanto o frio como o

calor, tanto a fome como a sede, com todas aquelas qualidades que se

requerem para ser escudeiro de um cavaleiro andante. Mas não

permita o céu que por seguir meu destino ele parta a coluna das letras

e quebre a taça das ciências, e troque a palma eminente das boas e

liberais artes. Permaneça o novo Sansão em sua pátria e, honrando-a,

honre justamente os cabelos brancos de seus pais anciãos, que eu estarei satisfeito com qualquer escudeiro, já que Sancho não se digna

de vir comigo.

— Sim, eu me digno — respondeu Sancho, enternecido, com os

olhos cheios de lágrimas. — Não se dirá de mim, meu senhor, que

cuspo no prato em que comi, mas que não venho de família mal-

agradecida, pois todo mundo, especialmente em minha terra, sabe

quem foram os Panças, de quem eu descendo. Mais ainda, percebi e

compreendi, graças a muitos bons atos e melhores palavras, o desejo

que vossa mercê tem de me favorecer. Agora, se me pus a regatear meu

salário, foi para agradar minha mulher, que, quando cisma com uma

coisa, não há torniquete que aperte mais do que ela me aperta para

que faça o que quer. Mas, enfim, o homem deve ser homem, e a

mulher, mulher, e se eu sou homem em todo lugar, o que não posso

negar, também quero ser em minha casa, doa a quem doer. Assim, não

há mais que fazer fora o que vossa mercê ordene em seu testamento,

com seu codicilo, de modo que não possa ser refogado, e botemos

logo o pé na estrada, para que não padeça a alma do senhor Sansão, que diz que sua consciência lhe dita que persuada vossa mercê a sair

pela terceira vez mundo afora; e eu me ofereço de novo para servir

vossa mercê fiel e lealmente, tão bem ou melhor que quantos

escudeiros já serviram a cavaleiros andantes nos tempos passados e

presentes.

O bacharel ficou surpreso com o teor e a forma da fala de Sancho

Pança, pois, apesar de ter lido a primeira história de seu amo, nunca

acreditou que era tão divertido como lá o pintavam; mas, ouvindo-o

dizer agora que o testamento e o codicilo não podiam ser refogados,

em vez de revogados, acreditou em tudo o que tinha lido e o

reconheceu como um dos mais solenes mentecaptos de nossa época, e

disse a si mesmo que loucos assim como amo e criado ainda não

tinham sido vistos.

Por fim, dom Quixote e Sancho se abraçaram e ficaram amigos de

novo, e, com a aprovação e beneplácito do grande Carrasco, que por

ora era seu oráculo, ficou marcada a partida para dali a três dias,

tempo suficiente para providenciar o necessário para a viagem e para

se achar um elmo com viseira, que dom Quixote disse que tinha de

levar de qualquer jeito. Sansão ofereceu-o, porque sabia que um amigo tinha um e não o negaria, mesmo que estivesse escuro pela

ferrugem e pelo mofo, sem o brilho do aço polido.

Foram incontáveis as pragas que as duas, criada e sobrinha, rogaram

ao bacharel — arrancaram os cabelos, arranharam os rostos e, como

as carpideiras que se usavam naquele tempo, lamentavam a partida

como se fosse a morte de seu senhor. O propósito que Sansão teve ao

persuadir dom Quixote a sair outra vez foi para fazer o que a história

conta mais adiante, tudo por conselho do padre e do barbeiro, com

quem ele havia falado antes.

Em suma, naqueles três dias dom Quixote e Sancho providenciaram

o que lhes pareceu conveniente. Então, tendo Sancho aplacado sua

mulher e dom Quixote sua sobrinha e a criada, ao anoitecer, sem que

ninguém os visse — exceto o bacharel, que quis acompanhá-los até

meia légua da aldeia —, puseram-se a caminho de El Toboso. Dom

Quixote montava seu Rocinante e Sancho, seu burro de sempre, com

os alforjes forrados de coisas para forrar o estômago e a bolsa forrada

de dinheiro que dom Quixote lhe deu para o que desse e viesse. Sansão abraçou o cavaleiro e pediu que o avisasse de sua boa ou má

sorte, para se alegrar com esta ou se entristecer com aquela, como as

leis de sua amizade pediam. Dom Quixote prometeu que sim, Sansão

voltou para sua aldeia, e o cavaleiro e o escudeiro tomaram o caminho

para a grande cidade de El Toboso.

 

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