Dom Quixote

Miguel de Cervantes · Capítulo 18 de 137

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Dom Quixote

Capítulo X

do que mais aconteceu a dom quixote

com o basco e do perigo em que se viu

com um bando de galegos1

Nesse meio-tempo, Sancho Pança já se levantara, um tanto maltratado

pelos rapazes dos frades, e estivera atento à batalha de seu senhor

dom Quixote, rogando a Deus de todo o coração que tivesse a

bondade de lhe dar a vitória e que nela ganhasse alguma ilha onde o

fizesse governador, conforme o prometido. Então, vendo a contenda

acabada e que seu amo voltava para montar em Rocinante, foi lhe

segurar o estribo mas, antes que montasse, se prostrou de joelhos

diante dele e, segurando-lhe a mão, beijou-a e disse:

— Meu senhor dom Quixote, faça vossa mercê o favor de me dar o

governo da ilha que ganhou nesta dura contenda, pois, por grande que

seja, me sinto com forças para administrá-la, e tão bem como

qualquer outro que tenha governado ilhas no mundo.

Ao que dom Quixote respondeu:

— Reparai, meu amigo Sancho, que as aventuras desse tipo não são

aventuras de ilhas, mas de encruzilhadas, em que não se ganha outra

coisa que sair de cabeça quebrada ou com uma orelha a menos. Tende

paciência, que outras aventuras virão, em que não somente vos possa

fazer governador como algo de maior importância.

Sancho agradeceu-lhe muito e, beijando-lhe outra vez a mão e a

barra da cota, ajudou-o a montar em Rocinante. Depois montou no

burro e acompanhou seu senhor, que, a passos largos, sem se despedir

das senhoras do coche nem lhes falar mais, se meteu por um mato que

havia perto dali. Sancho o seguiu a todo o trote do jumento, mas

Rocinante andava tanto que, vendo-se ficar para trás, teve de gritar para que seu amo o esperasse. Assim fez dom Quixote, puxando as

rédeas de Rocinante, até que chegasse seu cansado escudeiro, que lhe

disse:

— Senhor, acho que o melhor seria nos refugiarmos em alguma

igreja, porque, estropiado do jeito que ficou aquele com quem

combatestes, não admira que levem o caso à Santa Irmandade2 e nos prendam. Por Deus, se nos prenderem, antes de nos deixarem sair da

cadeia, vamos suar em bicas.

— Cala-te — disse dom Quixote. — Onde viste ou leste alguma vez

que cavaleiro andante tenha sido levado à justiça, por mais homicídios

que cometesse?

— Nada sei de subsídios — respondeu Sancho —, nem nunca ganhei

algum na vida; só sei que a Santa Irmandade tem seus negócios com os

que brigam pelos campos, e nisso não me meto.

— Pois não te preocupes, meu amigo — respondeu dom Quixote —,

que eu te livrarei até das garras dos gigantes, quanto mais das da

Irmandade. Mas diz-me, por tua vida: já viste cavaleiro mais valente

do que eu em todo o mundo conhecido? Leste em histórias sobre

outro que tenha ou haja tido mais brio no investir, mais fôlego no

perseverar, mais destreza no ferir ou mais manha no derrubar?

— A verdade é que eu jamais li uma história — respondeu Sancho

—, porque não sei ler nem escrever. Mas o que ousarei apostar é que

nunca servi em todos os dias de minha vida a amo mais atrevido que vossa mercê, e queira Deus que esses atrevimentos não sejam pagos

naquele lugar de que falei. O que peço a vossa mercê é que se trate,

porque perde muito sangue dessa orelha. Trago ataduras e um pouco

de pomada nos alforjes.

— Isso tudo seria dispensável — respondeu dom Quixote — se

tivesse me lembrado de fazer uma garrafa do bálsamo de Ferrabrás,3

pois com apenas uma gota se poupariam tempo e curativos.

— Que garrafa? E que bálsamo é esse? — disse Sancho.

— É um bálsamo — respondeu dom Quixote — de que sei a receita

de cor; com ele não é preciso temer ferida alguma nem pensar na

morte. Assim, depois que eu o fizer e entregá-lo a ti, quando vires que

me partiram o corpo pelo meio em alguma batalha, como muitas vezes

costuma acontecer, só terás de rapidamente pegar a parte do corpo

que tiver caído no chão e com jeito, antes que o sangue esfrie, juntá-la

à outra metade que tiver ficado na sela, tratando de encaixá-las com

exatidão. Depois me darás de beber só dois goles do bálsamo e me

verás ficar novo em folha.

— Se isso existe — disse Pança —, eu renuncio desde já ao governo

da ilha prometida, e não quero outra coisa em pagamento por meus muitos e bons serviços senão que vossa mercê me dê a receita dessa

bebida extraordinária. Acho que em qualquer lugar um gole dela

valerá mais de dois reais, e eu não preciso de mais que isso para passar

esta vida honrada e descansadamente. Mas falta saber se custa muito

caro fazê-la.

— Com menos de três reais podem-se fazer uns seis litros —

respondeu dom Quixote.

— Minha nossa — respondeu Sancho —, o que vossa mercê espera

para fazê-la e me ensinar a receita?!

— Cala-te, meu amigo — respondeu dom Quixote —, pois penso te

ensinar maiores segredos e te fazer maiores favores. Por ora, tratemo-

nos, porque a orelha me dói mais do que eu gostaria.

Sancho tirou as ataduras e a pomada dos alforjes. Mas, quando dom

Quixote viu seu elmo escangalhado, pensou que ia perder o juízo e,

com a mão na espada e os olhos no céu, disse:

— Eu juro, pelo Criador de todas as coisas e pelos quatro

Evangelhos sagrados, falar a verdade, nada mais que a verdade: enquanto não me vingar totalmente de quem me fez tamanho estrago,

vou levar a vida que levou o grande marquês de Mântua quando jurou

vingar a morte de seu sobrinho Valdovinos, que foi não comer pão à

mesa nem se divertir com sua mulher, e outras coisas que dou aqui por

ditas, embora não me lembre delas.

Ouvindo isso, Sancho disse:

— Lembre-se vossa mercê, senhor dom Quixote, que se o cavaleiro

cumpriu o que lhe foi ordenado, ir se apresentar diante de minha

senhora Dulcineia del Toboso, já terá cumprido com o que devia e não

merece outra pena se não cometer novo delito.

— Observaste e falaste muito bem — respondeu dom Quixote —, de

modo que anulo o juramento no que se refere à nova vingança; mas

refaço e confirmo o voto de levar a vida de que falei, até que tire à

força de algum cavaleiro outro elmo tão bom como este. E não penses,

Sancho, que faço isso como fogo de palha, porque tenho bem a quem

imitar: a mesma coisa aconteceu ao pé da letra com o elmo de

Mambrino,4 que tão caro custou a Sacripante.5

— Que o diabo carregue esses juramentos, meu senhor — respondeu

Sancho —, pois fazem mal à saúde e prejudicam a consciência. Se não, diga-me agora: o que faremos se por acaso não toparmos em muitos

dias com um homem de elmo? Vai cumprir o juramento, apesar de

tantas dificuldades e desconfortos, como dormir vestido, não dormir

nos povoados e outras mil penitências que continha a promessa

daquele velho doido do marquês de Mântua, que agora vossa mercê

quer reviver? Veja bem vossa mercê que por todas essas estradas não

andam homens de armadura, apenas tropeiros e carreteiros, que não

só não usam elmos, como talvez nunca na vida tenham ouvido falar

deles.

— Enganas-te nisso — disse dom Quixote —, porque antes de duas

horas por essas encruzilhadas veremos mais homens de armadura do

que os que foram para Albraca, na conquista de Angélica, a Bela.

— Está bem, então, que assim seja — disse Sancho —, e que graças a

Deus tudo nos corra bem e chegue logo a hora de ganhar essa ilha que

tão cara me custa, e que aí eu morra logo.

— Já te disse, Sancho, não te preocupes com isso, porque, se faltar

ilha, aí está o reino da Dinamarca ou o de Sobradisa,6 que te servirão como anel no dedo e, por estarem em terra firme, mais deves te

alegrar. Mas deixemos isso a seu tempo, e olha se trazes nesses alforjes

alguma coisa para comermos, para irmos em seguida em busca de um

castelo onde possamos passar a noite e fazer o bálsamo de que te falei;

porque eu te juro por Deus que a orelha me dói como o diabo.

— Trago uma cebola, um pouco de queijo e nem sei quantos pedaços

de pão velho — disse Sancho. — Mas não são manjares para tão

valente cavaleiro como vossa mercê.

— Entendeste tudo errado! — respondeu dom Quixote. — Pois

saibas, Sancho, que é uma honra para os cavaleiros andantes não

comer por um mês, mas, se comerem, que seja aquilo que estiver mais

à mão. Saberias disso se tivesses lido tantas histórias como eu. Porém,

embora tenham sido muitas, em nenhuma delas achei relatado que os

cavaleiros comessem, a não ser às vezes e em suntuosos banquetes que

lhes ofereciam. No resto dos dias viviam de brisa. E, ainda que se

saiba que não podiam passar sem comer e sem fazer todas as demais

necessidades, porque realmente eram homens como nós, deve se

pensar também que, andando a maior parte do tempo pelas florestas e

descampados, e sem cozinheiro, sua alimentação mais comum seria de comidas rústicas, como essas que tu agora me ofereces. Portanto, meu

caro Sancho, não te mortifiques pelo que me dá prazer: nem queiras

reformar o mundo nem tirar a cavalaria dos eixos.

— Perdoe-me vossa mercê — disse Sancho. — Como eu não sei ler

nem escrever, como já lhe disse, não conheço nem compreendo as

regras da profissão cavaleiresca. De hoje em diante abastecerei os

alforjes de todo tipo de fruta seca para vossa mercê, que é cavaleiro, e

para mim, que não o sou, de outras coisas empenadas mas sem penas

e de mais sustância.

— Eu não digo, Sancho — replicou dom Quixote —, que os

cavaleiros andantes sejam obrigados a não comer nada senão essas

frutas de que falaste, mas que seu sustento mais comum devia ser delas

e de algumas ervas que se encontram pelos campos, que eles

conheciam, e que eu também conheço.

— É bom conhecer essas ervas — respondeu Sancho —, porque, pelo

que vejo, algum dia será necessário usar esse conhecimento.

Tirou então dos alforjes o que disse que trazia, e os dois comeram em boa paz e companhia. Mas, desejosos de achar onde passar aquela

noite, acabaram logo sua pobre e seca refeição. Depois montaram a

cavalo e se apressaram para chegar a um povoado antes que

anoitecesse, mas, faltando-lhes o sol e a esperança de alcançar o que

desejavam, quando se achavam perto das choças de uns pastores de

cabras, resolveram ficar por ali. Se para Sancho Pança foi um castigo

não chegar a um povoado, para seu amo foi uma alegria dormir ao

relento, por achar que toda vez que isso acontecia ele fazia um ato de

posse que facilitava a prova de sua cavalaria.

 

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