Dom Quixote

Miguel de Cervantes · Capítulo 8 de 137

Páginas do PDF

Dom Quixote

Versos preliminares

 

ao livro de dom quixote de la mancha,

urganda,1 a desconhecida

Se ao te aproximares dos bons,

livro, fores com cuida[do],2

não te dirá o boquirro[to]

que metes os pés pelas mãos.

Mas se o pão não te abatu[mas]

por ir às mãos de idio[tas],

verás, num piscar de o[lhos],

que não acertam uma no al[vo],

embora roam as u[nhas]

para mostrar que são sá[bios].

Pois a experiência ensi[na]

que, o que à boa árvore se che[ga],

boa sombra o abri[ga].

Em Béjar tua boa estre[la]

uma árvore real te ofere[ce],

que dá príncipes por fru[tas],

na qual floresceu um du[que]

que é novo Alexandre Ma[gno]:

chega a sua sombra, que a ousa[dos]

favorece a fortu[na].

De um nobre fidalgo manche[go]

contarás as aventu[ras],

a quem ociosas leitu[ras]

transtornaram a cabe[ça];

damas, armas, cavalei[ros],

lhe provocaram de mo[do]

que, como Orlando furio[so],

afinado pelo amor,

alcançou à força de bra[ço]

Dulcineia del Tobo[so].

Impertinentes hieró[glifos]

não estampes no escu[do],

pois quando tudo é figu[ra],

com más cartas se apos[ta].

Se na dedicatória és humil[de],

não dirá trocista algum:

— Como dom Álvaro de Lu[na],

como Aníbal, o de Carta[go],

como rei Francisco na Espa[nha]

se queixa da fortu[na]!

Pois ao céu não agradou

que saísses tão ladi[no]

como o negro Juan Lati[no],

falar latins recu[sa].

Não te faças de argu[to],

nem me venhas com filó[sofos];

porque, torcendo a bo[ca],

dirá quem entende o tru[que],

te puxando as ore[lhas]:

— Para que comigo trapacear?

Não te metas em confusão,

nem em saber vidas alhei[as];

se o que vem não te to[ca],

passar ao largo é prudên[cia],

pois costumam dar o tro[co]

aos que grace[jam];

mas tu queimas as pesta[nas]

só para ganhar boa fa[ma];

pois quem publica toli[ces]

as dá para todo o sem[pre].

Vejas que é desati[no],

sendo de vidro o telha[do],

apanhar pedras nas mãos

para atirar no vizi[nho].

Deixa que o homem de juí[zo],

nas obras que compõe

vá com pés de chum[bo],

pois quem dá à luz seus tex[tos]

para entreter donze[las]

escreve às tontas e às lou[cas].a

amadis de gaula

a dom quixote de la mancha

soneto

Tu, que imitaste a chorosa vida

que tive, ausente e desdenhado, sobre

a grande ribanceira da Peña Pobre,

de alegre a penitência reduzida;

tu, a quem os olhos deram de beber

do abundante licor, embora salobre,

e tirando-te os serviços de prata, estanho ou cobre,

te deu a comida em pratos de barro,

vive certo de que eternamente,

enquanto, ao menos, pela quarta esfera

o louro Apolo esporeie seus cavalos,

terás brilhante renome de valente;

tua pátria será entre todas a primeira;

teu sábio autor, neste mundo único e só.b

dom belianis da grécia

a dom quixote de la mancha

soneto

Quebrei, cortei, amassei e disse e fiz

mais que qualquer cavaleiro andante;

fui destro, fui valente, fui arrogante;

mil agravos vinguei, cem mil desfiz.

Façanhas dei à Fama que eternize;

fui cortês e agradável amante;

foi anão para mim todo gigante

e em duelo todos os pontos satisfiz.

Tive a meus pés prostrada a Fortuna

e minha prudência trouxe pelo topete

a calva Oportunidade sem dó nem pena.

Mas, ainda que sobre os cornos da lua

sempre se viu posta minha ventura,

tuas proezas invejo, oh, grande Quixote!c

a senhora oriana3

a dulcineia del toboso

soneto

Oh, quem tivesse, formosa Dulcineia,

para mais comodidade e mais repouso,

posto Miraflores em Toboso,

e trocasse sua Londres por tua aldeia!

Oh, quem com teus desejos e trajes

alma e corpo adornasse, e do famoso

cavaleiro que fizeste venturoso

assistisse alguma desigual peleja!

Oh, quem tão castamente escapasse

do senhor Amadis como tu fizeste

do comedido fidalgo dom Quixote!

Que assim invejada fosse, e não invejasse,

e fosse alegre o tempo que foi triste,

de graça os prazeres desfrutasse.d

gandalin, escudeiro de amadis de gaula,

a sancho pança, escudeiro de dom quixote

soneto

Salve, varão famoso, a quem a Fortuna,

quando no ofício escudeiril te pôs,

tão branda e pacatamente o dispôs,

que desempenhaste sem desgraça alguma.

Já a enxada ou a foice pouco repugna

ao andante exercício; já está em uso

a singeleza escudeira, com que acuso

ao soberbo que tenta pisar a lua.

Invejo teu jumento e teu nome,

e a teus alforjes igualmente invejo,

pois mostraram tua sensata precaução.

Salve outra vez, oh, Sancho!, tão bom homem,

pois apenas a ti nosso Ovídio espanhol,

com um cascudo, faz reverência.e

do donoso, poeta misturado,4

a sancho pança e rocinante

Sou Sancho Pança, escudei[ro]

do manchego dom Quixo[te];

pus pés em polvoro[sa],

por viver à [toa];

pois o tácito Vila-Dio[go]

toda a sua razão de esta[do]

cifrou numa retira[da],

conforme sente Celesti[na],5

livro, em minha opinião, divi[no],

se encobrisse mais o huma[no].

A Rocinante

Sou Rocinante, o famo[so]

bisneto do grande Babie[ca];

por pecados de magre[za]

fui parar com um dom Quixo[te].

Carreiras corri sem for[ças];

mas por um fio de cabe[lo]

não me escapou a ceva[da],

que isto aprendi de Lazari[lho]6

quando, para furtar o vi[nho]

do cego, lhe dei a pa[lha].f

orlando furioso

a dom quixote de la mancha

soneto

Se não és par, tampouco o tiveste:

que par poderias ser entre mil pares,

nem pode havê-lo onde te achares,

invicto vencedor, jamais vencido.

Quixote, eu sou Orlando, que, perdido

por Angélica, vi remotos mares,

oferecendo à Fama em seus altares

minha coragem, que respeitou o olvido.

Não posso ser teu igual, para ser justo

com tuas proezas e tua fama,

embora como eu perdeste o juízo.

Mas poderás ser de mim, se ao soberbo mouro

e ao cita feroz domares, que hoje nos chama

iguais a má sorte no amor.g

o cavaleiro do febo7

a dom quixote de la mancha

soneto

A vossa espada não igualou a minha,

Febo espanhol, diligente cortesão,

nem à alta glória de coragem minha mão,

que foi raio onde nasce e morre o dia.

Impérios desprezei; a monarquia

que me ofereceu em vão o Oriente vermelho

deixei, para ver o rosto soberano

de Claridiana, minha formosa aurora.

Amei-a por milagre único e raro,

e, ausente em sua desgraça, o próprio inferno

temeu meu braço, que domou sua raiva.

Mas vós, nobre Quixote, ilustre e puro,

por Dulcineia sois para o mundo eterno,

e ela, por vós, famosa, honesta e sábia.h

de solisdán a dom quixote de la mancha

soneto

Senhor Quixote, ainda que loucuras

vos tenham o cérebro derrubado,

nunca sereis por alguém censurado

como homem de obras vis e vulgares.

Serão vossas façanhas os juízes,

pois desfazendo injúrias haveis andado,

sendo mil vezes espancado

por bandidos traidores e vis.

E se a vossa linda Dulcineia

injustiças contra vós comete,

nem de vossas penas se compadece,

em tal desmando vosso consolo seja

que Sancho Pança foi mau alcoviteiro,

néscio ele, dura ela, e vós não amante.i

diálogo entre babieca e rocinante

soneto

B. Como estás, Rocinante, tão delgado?

R. Porque nunca se come, e se trabalha.

B. Mas o que é da cevada e da palha?

R. Não me deixa meu amo nem um bocado.

B. Ora, senhor, que estais muito mal-educado,

pois vossa língua de asno ao amo ultraja.

R. Asno se é do berço à mortalha.

Quereis ver? Olhai o apaixonado.

B. É burrice amar?

R. Cadê a prudência?

B. Metafísico estais.

R. É que não como.

B. Queixai-vos do escudeiro.

R. Não é o bastante.

Como hei de me queixar de minha dolência,

se amo e escudeiro ou mordomo

são tão rocins como Rocinante?j

a Al libro de don Quijote de la Mancha, Urganda la desconocida — Si de llegarte a los bue-,/ libro, fueres con lectu-,/ no te dirá el boquirru-/ que no pones bien los de-/ Mas si el pan no se te cue-/ por ir a manos de idio-,/ verás de manos a bo-/ aun no dar una en el cla-,/ si bien se comen las ma-/ por mostrar que son curio-.// Y pues la experiencia ense-/ que el que a buen árbol se arri-/ buena sombra le cobi-,/ en Béjar tu buena estre-/ un árbol real te ofre-/ que da príncipes por fru-,/ en el cual floreció un du-/ que es nuevo Alejandro Ma-:/ llega a su sombra, que a osa-/ favorece la fortu-.// De un noble hidalgo manche-/ contarás las aventu-,/ a quien ociosas lectu-/ trastornaron la cabe-;/ damas, armas, caballe-,/ le provocaron de mo-/ que, cual Orlando furio-,/ templado a lo enamora-,/ alcanzó a fuerza de bra-/ a Dulcinea del Tobo-.// No indiscretos hieroglí-/ estampes en el escu-,/ que, cuando es todo figu-,/ con ruines puntos se envi-./ Si en la dirección te humi-,/ no dirá mofante algu-:/ “¡Qué don Álvaro de Lu-,/ qué Anibal el de Carta-,/ qué rey Francisco en Espa-/ se queja de la fortu-!”.// Pues al cielo no le plu-/ que salieses tan ladi-/ como el negro Juan Lati-,/ hablar latines rehú-./ No me despuntes de agu-,/ ni me alegues con filó-,/ porque, torciendo la bo-,/ dirá el que entiende la le-,/ no un palmo de las ore-:/ “¿Para qué conmigo flo-?”.// No te metas en dibu-,/ ni en saber vidas aje-,/ que en lo que no va ni vie-/ pasar de largo es cordu-,/ que suelen en caperu-/ darles a los que grace-;/ mas tú quémate las ce-/ sólo en cobrar buena fa-,/ que el que imprime neceda-/ dalas a censo perpe-.// Advierte que es desati-,/ siendo de vidrio el teja-,/ tomar piedras en las ma-/ para tirar al veci-./ Deja que el hombre de jui-/ en las obras que compo-/ se vaya con pies de plo-,/ que el que saca a luz pape-/ para entretener donce-/ escribe a tontas y a lo-.

b Amadís de Gaula a don Quijote de la Mancha — Soneto — Tú, que imitaste la llorosa vida/ que tuve, ausente y desdeñado, sobre/ el gran ribazo de la Peña Pobre,/ de alegre a penitencia reducida;// tú, a quien los ojos dieron la bebida/ de abundante licor, aunque salobre,/ y alzándote la plata, estaño y cobre,/ te dio la tierra en tierra la comida,// vive seguro de que eternamente,/ en tanto, al menos, que en la cuarta esfera/ sus caballos aguije el rubio Apolo,// tendrás claro renombre de valiente;/ tu patria será en todas la primera;/ tu sabio autor, al mundo único y solo.

c Don Belianís de Grecia a don Quijote de la Mancha — Soneto — Rompí, corté, abollé y dije y hice/ más que en el orbe caballero andante;/ fui diestro, fui valiente, fui arrogante;/ mil agravios vengué, cien mil deshice.// Hazañas di a la Fama que eternice;/ fui comedido y regalado amante;/ fue enano para mí todo gigante,/ y al duelo en cualquier punto satisfice.// Tuve a mis pies postrada la Fortuna,/ y trajo del copete mi cordura/ a la calva Ocasión al estricote.// Mas, aunque sobre el cuerno de la luna/ siempre se vio encumbrada mi ventura,/ tus proezas envidio, ¡oh gran Quijote!

d La señora Oriana a Dulcinea del Toboso — Soneto — ¡Oh, quién tuviera, hermosa Dulcinea,/ por más comodidad y más reposo,/ a Miraflores puesto en el Toboso,/ y trocara sus Londres con tu aldea!// ¡Oh, quién de tus deseos y librea/ alma y cuerpo adornara, y del famoso/ caballero que hiciste venturoso/ mirara alguna desigual pelea!// ¡Oh, quién tan castamente se escapara/ del señor Amadís como tú hiciste/ del comedido hidalgo don Quijote!// Que así envidiada fuera y no envidiara,/ y fuera alegre el tiempo que fue triste,/ y gozara los gustos sin escote.

e Gandalín, escudero de Amadís de Gaula, a Sancho Panza, escudero de don Quijote — Soneto — Salve, varón famoso, a quien Fortuna,/ cuando en el trato escuderil te puso,/ tan blanda y cuerdamente lo dispuso,/ que lo pasaste sin desgracia alguna.// Ya la azada o la hoz poco repugna/ al andante ejercicio; ya está en uso/ la llaneza escudera, con que acuso/ al soberbio que intenta hollar la luna.// Envidio a tu jumento y a tu nombre,/ y a tus alforjas igualmente envidio,/ que mostraron tu cuerda providencia.// Salve otra vez, ¡oh Sancho!, tan buen hombre,/ que a solo tú nuestro español Ovidio/ con buzcorona te hace reverencia.

f Del Donoso, poeta entreverado, a Sancho Panza y Rocinante — Soy Sancho Panza, escude-/ del manchego don Quijo-;/ puse pies en polvoro-,/ por vivir a lo discre-,/ que el tácito Villadie-/ toda su razón de esta-/ cifró en una retira-,/ según siente Celesti-,/ libro, en mi opinión, divi-,/ si encubriera más lo huma-. // A Rocinante/ Soy Rocinante, el famo-,/ bisnieto del gran Babie-:/ por pecados de flaque-,/ fui a poder de un don Quijo-;/ parejas corrí a lo flo-,/ mas por uña de caba-/ no se me escapó ceba-,/ que esto saqué a Lazari-,/ cuando, para hurtar el vi-/ al ciego, le di la pa-.

g Orlando furioso a don Quijote de la Mancha — Soneto — Si no eres par, tampoco le has tenido:/ que par pudieras ser entre mil pares,/ ni puede haberle donde tú te hallares,/ invicto vencedor, jamás vencido.// Orlando soy, Quijote, que, perdido/ por Angélica, vi remotos mares,/ ofreciendo a la Fama en sus altares/ aquel valor que respetó el olvido.// No puedo ser tu igual, que este decoro/ se debe a tus proezas y a tu fama,/ puesto que, como yo, perdiste el seso;// mas serlo has mío, si al soberbio moro/ y cita fiero domas, que hoy nos llama/ iguales en amor con mal suceso.

h El Caballero del Febo a don Quijote de la Mancha — Soneto — A vuestra espada no igualó la mía,/ Febo español, curioso cortesano,/ ni a la alta gloria de valor mi mano,/ que rayo fue do nace y muere el día.// Imperios desprecié; la monarquía/ que me ofreció el Oriente rojo en vano/ dejé, por ver el rostro soberano/ de Claridiana, aurora hermosa mía.// Amela por milagro único y raro,/ y, ausente en su desgracia, el propio infierno/ temió mi brazo, que domó su rabia.// Mas vos, godo Quijote, ilustre y claro,/ por Dulcinea sois al mundo eterno,/ y ella, por vos, famosa, honesta y sabia.

i De Solisdán a don Quijote de la Mancha — Soneto — Maguer, señor Quijote, que sandeces/ vos tengan el cerbelo derrumbado,/ nunca seréis de alguno reprochado/ por home de obras viles y soeces.// Serán vuesas fazañas los joeces,/ pues tuertos desfaciendo habéis andado,/ siendo vegadas mil apaleado/ por follones cautivos y raheces.// Y si la vuesa linda Dulcinea/ desaguisado contra vos comete,/ ni a vuesas cuitas muestra buen talante,// en tal desmán vueso conhorte sea/ que Sancho Panza fue mal alcagüete,/ necio él, dura ella y vos no amante.

j Diálogo entre Babieca y Rocinante — Soneto — B. ¿Cómo estáis, Rocinante, tan delgado?/ R. Porque nunca se come, y se trabaja./ B. Pues ¿qué es de la cebada y de la paja?/ R. No me deja mi amo ni un bocado.// B. Andá, señor, que estáis muy mal criado,/ pues vuestra lengua de asno al amo ultraja./ R. Asno se es de la cuna a la mortaja./ ¿Quereislo ver? Miraldo enamorado.// B. ¿Es necedad amar?/ R. No es gran prudencia./ B. Metafísico estáis./ R. Es que no como./ B. Quejaos del escudero./ R. No es bastante.// ¿Cómo me he de quejar en mi dolencia,/ si el amo y escudero o mayordomo/ son tan rocines como Rocinante?

 

OceanofPDF.com