Dom Quixote

Miguel de Cervantes · Capítulo 73 de 137

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Dom Quixote

Capítulo XII

 

da estranha aventura que aconteceu

ao valoroso dom quixote

com o bravo cavaleiro dos espelhos

A noite seguinte ao dia do encontro com a Morte, dom Quixote e seu

escudeiro passaram embaixo de umas árvores altas e frondosas, tendo

o fidalgo, por insistência de Sancho, comido das provisões que traziam

no burro. No meio do jantar, Sancho disse:

— Senhor, que tolo eu seria se tivesse escolhido para recompensa os

despojos da primeira aventura de vossa mercê em vez das crias das três

éguas! No fundo, no fundo, é o que se diz: mais vale um pássaro na

mão que dois voando.

— Mas se tu, Sancho — respondeu dom Quixote —, tivesses me

deixado atacar, como eu queria, teria te cabido em despojos pelo

menos a coroa de ouro da Imperatriz e as asas coloridas do Cupido,

que eu teria arrancado com um safanão e te poria nas mãos.

— Nunca os cetros e coroas dos imperadores comediantes foram de

ouro puro — respondeu Sancho Pança —, mas de ouropel ou de lata.

— Isso é verdade — replicou dom Quixote —, porque não seria

adequado que os adornos fossem preciosos, mas sim falsos e ilusórios

como é a própria comédia. Por falar nisso, Sancho, quero que a

aprecies, tendo-a em alto conceito, como também aqueles que as

representam e que as escrevem, pois todos são instrumentos de um

grande bem para a república: a cada passo nos põem um espelho pela

frente, onde se veem vividamente as ações humanas. Nada nem

ninguém representa de modo mais eficaz o que somos e o que

haveremos de ser do que a comédia e os comediantes, ou então me diz:

não viste representar alguma comédia em que se introduzem reis, imperadores e pontífices, cavaleiros, damas e vários outros

personagens? Um faz o rufião, outro o embusteiro, este o mercador,

aquele o soldado, outro o bobo sábio, outro o simplório apaixonado,

mas, acabada a comédia, despindo os trajes dela, todos os atores ficam

iguais.

— Já vi, sim — respondeu Sancho.

— O mesmo que acontece na comédia — disse dom Quixote —

acontece no mundo, onde uns representam os imperadores, outros os

pontífices, enfim, todas as figuras que podem se introduzir numa peça.

Mas, chegando ao fim, que é quando acaba a vida, a todos a morte

tira os trajes que os diferenciavam, e ficam iguais na sepultura.

— Bela comparação — disse Sancho —, mas não tão nova que eu

não a tenha ouvido muitas e muitas vezes, como aquela do jogo de

xadrez: enquanto dura a partida, cada peça tem sua função particular,

mas no fim se juntam todas, são misturadas e remexidas, e as metem

num saco, que é como meter o pé na cova.

— A cada dia, meu caro Sancho — disse dom Quixote —, estás

menos tolo e mais sábio.

— Bem, alguma coisa da sabedoria de vossa mercê deve pegar em

mim — respondeu Sancho —, pois as terras secas e estéreis, se

adubadas e cultivadas, acabam dando bons frutos. Quero dizer que as

conversas com vossa mercê foram o esterco que caiu sobre a terra

estéril de meu espírito seco; o cultivo, o tempo que convivemos e lhe sirvo. Com isso espero dar frutos que sejam uma bênção, de modo que

não desmintam nem se percam dos caminhos da boa educação que

vossa mercê fez em meu esturricado entendimento.

Dom Quixote riu do discurso pomposo de Sancho, mas achou que

era verdade o que dizia sobre seu aperfeiçoamento, porque de tanto

em tanto falava de modo que o pasmava, mesmo que em todas ou na

maior parte das vezes em que Sancho queria falar doutamente, ou

como um cortesão, seu discurso despencasse do topo de sua tolice no

abismo de sua ignorância. No que ele se mostrava mais elegante e com

boa memória era nos ditados que disparava a torto e a direito,

encaixassem ou não encaixassem no assunto que tratava, como se viu

e notou no decorrer desta história.

Nestas e em outras conversas passaram grande parte da noite, até

que Sancho teve vontade de fechar as comportas dos olhos, como ele

dizia quando queria dormir. Então, desencilhando o burro, deixou-o

livre no pasto abundante. Não tirou a sela de Rocinante, por ordem

expressa de seu senhor — no tempo em que andassem pelo campo ou

não dormissem sob telhado, não devia desencilhar Rocinante. Tirar o

freio e pendurá-lo no arção da sela, sim, era um antigo costume estabelecido e mantido pelos cavaleiros andantes — mas tirar a sela,

jamais! Assim fez Sancho, e deu a Rocinante a mesma liberdade que

ao burro.

A amizade desses bichos foi tão singular e tão estreita que corre a

lenda, por tradição contada de pai para filho, de que o autor desta

história verídica escreveu capítulos especiais sobre ela, mas que, para

manter a decência e o decoro que se deve a narração tão heroica, não

os incluiu nela. Algumas vezes, porém, se descuida desse propósito e

escreve que, assim que os dois animais se juntavam, corriam para

coçar um ao outro até ficarem cansados e satisfeitos. Então Rocinante

botava o pescoço sobre o pescoço do burro, ultrapassando-o mais de

meio metro, e os dois, olhando atentamente o chão, costumavam ficar

dessa maneira uns três dias, ou pelo menos todo o tempo que os

deixavam ou a fome não os levava a procurar sustento.

Digo que dizem que o autor deixou escrito que tinha comparado a

amizade deles à que tiveram Niso e Euríalo, e Pílades e Orestes;1 se foi

assim, não devia se deixar de mostrar, para admiração universal, como deve ter sido firme a amizade desses dois pacíficos animais, e para

vergonha dos homens, que tão mal sabem manter a amizade uns com

os outros. Por isso se cantou:

Não há amigo para amigo:

as canas se tornam lanças;2

ou, como disse outro:

Amigos, amigos, negócios etc.

E que ninguém pense que o autor meteu os pés pelas mãos ao

comparar a amizade desses animais à dos homens, que dos animais os

homens receberam muitos conselhos e aprenderam coisas importantes,

como o clister com a cegonha; o vomitório e a gratidão com os

cachorros; a vigilância com as gralhas a previdência com as formigas;

a honestidade com os elefantes; e a lealdade com o cavalo.

Por fim Sancho acabou adormecido ao pé de um sobreiro, e dom

Quixote cochilando sob uma robusta azinheira, mas pouco tempo

depois o despertou um ruído às suas costas. Levantou-se assustado e

se pôs a olhar ao redor, tentando ouvir de onde vinha o ruído, até que

viu dois homens a cavalo e que um deles, saltando da sela, disse ao

outro:

— Apeia, meu amigo, e tira os freios dos cavalos, pois me parece que

este lugar tem muito capim para eles, e o silêncio e a solidão que meus

pensamentos amorosos necessitam.

Ao mesmo tempo que disse isso, estendeu-se no chão, rangendo a

armadura que usava, sinal claro que levou dom Quixote a pensar que

ele devia ser cavaleiro andante; e, aproximando-se de Sancho, que

dormia a sono solto, agarrou-o pelo braço e o acordou, não sem

muito trabalho, e lhe disse em voz baixa:

— Irmão Sancho, temos aventura.

— Por Deus, meu senhor, que seja boa — respondeu Sancho. — Mas

onde está sua mercê, essa senhora aventura?

— Onde, Sancho? — replicou dom Quixote. — Vira para lá e olha,

que verás deitado um cavaleiro andante. Em minha opinião, não deve

estar muito alegre, pois o vi apear do cavalo e se estender no chão com

mostras de desgosto, e quando se abaixou a armadura rangeu.

— E por que vossa mercê acha que isso é uma aventura? — disse

Sancho.

— Não quero dizer — respondeu dom Quixote — que isso seja

realmente uma aventura, mas o começo dela, pois assim começam as

aventuras. Mas ouve: parece que está afinando um alaúde ou viola e,

como cospe e conserta o peito, deve se preparar para cantar algo.

— Diacho, é mesmo — respondeu Sancho. — Deve ser um cavaleiro

apaixonado.

— Não há um dos andantes que não o seja — disse dom Quixote. —

Mas vamos ouvi-lo, que pelo fio desenrolaremos o novelo de seus

pensamentos, se é que canta, porque a boca fala da abundância do

coração.3

Sancho queria responder a seu amo, mas o atrapalhou a voz do

Cavaleiro da Floresta, que não era muito ruim nem muito boa, e,

estando os dois perplexos, ouviram que cantou este

soneto

— Dai-me, senhora, um caminho que eu siga,

como vossa vontade traçar,

que a minha há de respeitar,

sem um desvio que a desdiga.

Se preferis que, calando minha mágoa,

morra, contai-me já por acabado;

se quereis que vos conte em desusado

modo, farei com que o próprio amor a diga.

À prova de contrários estou feito,

de cera branda e de diamante duro,

e às leis do amor a alma ajusto.

Brando como é ou forte, ofereço o peito:

entalhai ou imprimi nele o que vos der gosto,

que juro guardá-lo eternamente.a

Com um suspiro, pelo visto arrancado do íntimo de seu coração, o

Cavaleiro da Floresta deu fim a sua canção, e dali a pouco, com voz

dolente e queixosa, disse:

— Oh, mulher, a mais formosa e a mais ingrata do orbe! Como é

possível, sereníssima Cacildeia de Vandália,4 que consintas que este

teu cativo cavaleiro se consuma e pereça em contínuas peregrinações e

em rudes e duros trabalhos? Não basta que eu tenha feito com que todos os cavaleiros de Navarra, todos os leoneses, todos os andaluzes,

todos os castelhanos e por fim todos os cavaleiros da Mancha

jurassem a ti que és a mais formosa do mundo?

— Alto lá — disse dom Quixote nessa altura —, pois eu sou da

Mancha e nunca jurei isso, nem poderia nem deveria jurar uma coisa

tão ofensiva à beleza de minha senhora. Já vês, Sancho, que este

cavaleiro está delirando. Mas escutemos: talvez ele fale mais.

— Ora se não — replicou Sancho —, pois leva jeito de que vai se

queixar um mês inteiro.

Mas não, porque, tendo o Cavaleiro da Floresta ouvido que falavam

ali perto, sem seguir em sua lamentação, levantou-se e disse com voz

sonora e comedida:

— Quem vem aí? Quem é? Por acaso pertence ao número dos

contentes ou dos aflitos?

— Dos aflitos — respondeu dom Quixote.

— Então se aproxime — respondeu o Cavaleiro da Floresta — e verá

que se aproxima da tristeza e da aflição em pessoa.

Dom Quixote, ao ouvir resposta tão comovida e cortês, se

aproximou dele, e Sancho nem mais nem menos.

O cavaleiro queixoso segurou dom Quixote por um braço, dizendo:

— Sentai-vos aqui, senhor cavaleiro, pois, para compreender que

sois dos que professam a cavalaria andante, basta-me ter-vos achado

neste lugar, onde a solidão e o sereno vos fazem companhia, leitos

naturais e moradias próprias dos cavaleiros andantes.

Ao que dom Quixote respondeu:

— Cavaleiro sou, da ordem que mencionastes. Mas, embora em

minha alma tenham seu próprio assento as tristezas, as desgraças e as

desventuras, nem por isso fugiu dela a compaixão que tenho pelas

adversidades alheias. Do que cantastes há pouco deduzi que as vossas

são apaixonadas, quero dizer, são do amor que tendes por aquela

formosa ingrata que em vossas queixas nomeastes.

Quando falavam isso, já estavam sentados sobre a terra dura, em

boa paz e companhia, como se ao romper do dia não houvessem de

romper a cabeça um do outro.

— Porventura, senhor cavaleiro — perguntou o da Floresta a dom

Quixote —, sois apaixonado?

— Por desventura, sou — respondeu dom Quixote —, embora os

danos que nascem dos pensamentos bem direcionados devem ser tidos

antes por graças que desgraças.

— É verdade — replicou o da Floresta —, se os desprezos não nos

perturbassem a razão e o entendimento, pois, sendo muitos, parecem

vinganças.

— Nunca fui desprezado por minha senhora — respondeu dom

Quixote.

— Não, claro que não — disse Sancho, que estava por perto —,

porque minha senhora é como uma ovelhinha mansa: mais derretida

que manteiga.

— Este é vosso escudeiro? — perguntou o da Floresta.

— Sim — respondeu dom Quixote.

— Nunca vi escudeiro que se atrevesse a falar onde fala seu senhor

— replicou o da Floresta. — Pelo menos, aí está o meu, que é tão

velho quanto vosso pai, mas não se poderá provar que tenha aberto a

boca onde eu falo.

— Por Deus, falei sim — disse Sancho —, e posso falar até diante de

outros mais velhos ainda. Mas fiquemos por aqui, pois, quanto mais se mexe, mais fede.

O escudeiro do Cavaleiro da Floresta pegou Sancho por um braço,

dizendo:

— Vamos para onde possamos falar de escudeiro para escudeiro

sobre o que bem entendermos, e deixemos nossos amos discutindo as

histórias de seus amores, pois com certeza o dia vai achá-los metidos

nelas, sem as terem acabado.

— Em boa hora — disse Sancho —, e vou dizer a vossa mercê quem

sou, para que veja se posso me comparar aos escudeiros mais

tagarelas.

Assim se afastaram os dois escudeiros, e entre eles aconteceu uma

conversa tão engraçada quanto foi séria a que aconteceu entre seus

senhores.

a Soneto — Dadme, señora, un término que siga,/ conforme a vuestra voluntad cortado,/ que será de la mía así estimado,/ que por jamás un punto de él desdiga.// Si gustáis que callando mi fatiga/ muera, contadme ya por acabado;/ si queréis que os la cuente en desusado/ modo, haré que el mismo amor la diga.// A prueba de contrarios estoy hecho,/ de blanda cera y de diamante duro,/ y a las leyes de amor el alma ajusto.// Blando cual es o fuerte, ofrezco el pecho:/ entallad o imprimid lo que os dé gusto,/ que de guardarlo eternamente juro.

 

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