Dom Quixote

Miguel de Cervantes · Capítulo 104 de 137

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Dom Quixote

Capítulo XLIII

 

dos segundos conselhos que dom quixote

deu a sancho pança

Quem ouvisse o discurso anterior de dom Quixote não o tomaria por

pessoa muito sensata e bem-intencionada? Mas, como muitas vezes no

andamento desta grande história ficou dito, somente disparatava se se

puxasse o assunto de cavalaria, no resto mostrava ter a mente clara e

desimpedida, de modo que a cada passo suas ações desacreditavam

seu juízo, e seu juízo, suas ações. Mas, nessa segunda rodada de

instruções que deu a Sancho, mostrou ter muito espírito e levou seu

bom senso e sua loucura ao ponto mais extremo.

Sancho o escutava com toda a atenção e procurava conservar na

memória seus conselhos, porque pensava segui-los para levar a

gravidez de seu governo a um bom parto. Dom Quixote, então,

prosseguiu:

— No que toca a como deves governar tua pessoa e tua casa,

Sancho, a primeira coisa que te digo é que sejas limpo e que cortes as

unhas, sem deixá-las crescer, como alguns fazem, a quem a ignorância

deu a entender que as unhas compridas embelezam as mãos,1 como se

aquela excrescência prolongada que deixam de cortar fosse unha,

quando parecem mais garras de gavião comedor de lagartixas, um

abuso extraordinário e imundo.

“Não andes, Sancho, com roupas desalinhadas e frouxas, porque é

indício de espírito desmazelado, isso se a descompostura e o desalinho

já não são motivo para zombaria, como aconteceu com Júlio César.

“Avalia com discrição o que tua nova posição pode valer e, se te

permite vestir teus criados com librés, trates de dá-las dignas e úteis

mais que vistosas e elegantes, e divide-as entre teus criados e os pobres: quero dizer que, se vais vestir seis pajens, veste três e outros

três pobres, e assim terás pajens tanto para o céu como para a terra. E,

repara, esse modo novo de dar librés não é entendido pelos vaidosos.

“Não comas alhos nem cebolas para que não percebam pelo cheiro

teu plebeísmo.

“Anda devagar e fala com calma, mas não de maneira que pareça

que escuta a ti mesmo, que toda afetação é má.

“Almoça pouco e janta menos ainda, que a saúde de todo o corpo se

forja na fábrica do estômago.

“Sê moderado ao beber, considerando que vinho demais não guarda

segredo nem cumpre a palavra.

“Cuida-te, Sancho, para não comeres esganadamente nem eructares

diante de ninguém.”

— Não entendo esse negócio de eructar — disse Sancho.

E dom Quixote disse:

— Eructar, Sancho, quer dizer arrotar, e esta é uma das palavras

mais grosseiras que há na língua castelhana, embora seja muito

expressiva. Então, as pessoas finas se ampararam no latim, e ao

arrotarem dizem eructar, e chamam os arrotos de eructações, e quando

alguns não entendem esses termos, pouco importa, porque o uso os irá

difundindo com o tempo, de modo que serão entendidos com

facilidade; e isso é enriquecer a língua, sobre quem o povo e o uso têm poder.

— Na verdade, senhor — disse Sancho —, um dos conselhos e avisos

que penso levar na memória será o de não arrotar, porque costumo

fazer isso a toda hora.

— Eructar, Sancho, não arrotar — disse dom Quixote.

— Vou dizer eructar daqui por diante — respondeu Sancho —, e

tomara que não me esqueça.

— Também não deves misturar em tuas conversas, Sancho, aquela

multidão de ditados que costumas usar, porque, apesar de os ditados

serem sentenças breves, muitas vezes tu os encaixa a ferro e fogo,

tanto que mais parecem disparates que sentenças.

— Isso só Deus pode remediar — respondeu Sancho —, porque sei

mais ditados que um livro, e me vêm tantos à boca quando falo que

até brigam uns com os outros para sair, mas a língua vai disparando

os primeiros que encontra, mesmo que não venham a calhar. Mas eu

vou me cuidar daqui por diante para dizer os que convenham à

gravidade de meu cargo, pois em casa cheia, logo se serve a ceia, e

quem reparte, se não fica com a melhor parte, é bobo ou não entende

da arte, e quem ri melhor ri por último.

— Isso sim, Sancho! — disse dom Quixote. — Alinha, desfia e

encaixa ditados: nisso ninguém te ganha! Contigo é o mesmo que

malhar em ferro frio! Estou te dizendo que deixes de ditados, e num

instante fizeste uma ladainha deles, e combinam com o que vamos

tratando como água com azeite. Olha, Sancho, não te digo que parece

mal um ditado referido a propósito; mas descarregar ditados um atrás

do outro, a torto e a direito, torna a conversa vulgar e aborrecida.

“Quando montares a cavalo, não vás com o corpo jogado sobre o

arção traseiro nem leves as pernas tesas e espichadas, longe da barriga

do cavalo, nem tampouco vás tão frouxo que pareça que vais em teu

burro; porque andar a cavalo torna uns cavaleiros, outros cavalariços.

“Teu sono deve ser moderado, pois aquele que não levanta com o sol

não goza do dia; e repara, Sancho, que a diligência é mãe da boa

sorte, e a preguiça, sua inimiga, jamais chegou ao fim que pedem as

boas intenções.

“Gostaria que levasses bem gravado na memória este último

conselho que quero te dar agora, mesmo que não sirva para adorno do corpo, pois acho que não será menos proveitoso que os que te dei

antes: jamais te metas em disputas de linhagens, pelo menos

comparando-as entre si, porque numa comparação, forçosamente,

uma vai parecer melhor que a outra, e serás odiado por aquela que

abateres e não serás premiado de modo algum por aquela que

exaltares.

“Teus trajes serão calça toda de um mesmo tecido, gibão comprido e

capa um pouco mais comprida; bragas, nem pensar, pois não caem

bem nem nos cavaleiros nem nos governadores.

“Por ora, Sancho, esses eram os conselhos que me ocorreram te dar;

correndo o tempo, conforme as ocasiões, darei minhas instruções,

desde que tenhas o cuidado de me avisar da situação em que te

encontrares.”

— Senhor — respondeu Sancho —, percebo muito bem que tudo o

que vossa mercê me disse são coisas boas, santas e úteis, mas de que

irão me servir, se não me lembro de nenhuma? É verdade que aquele

negócio de não deixar crescer as unhas e de me casar outra vez, se por

acaso der no jeito, não me sairá do bestunto; mas essas outras

bugigangas, mixórdias e saladas, não me lembro nem vou me lembrar mais delas que das nuvens de antigamente. Então, será preciso que me

dê por escrito; como não sei ler nem escrever, eu os darei a meu

confessor para que me meta na cabeça e o recorde quando for

necessário.

— Ai de meus pecados! — respondeu dom Quixote. — Como parece

mal nos governadores não saber ler nem escrever! Porque deves saber,

Sancho, que um homem não saber ler, ou ser canhoto, das duas, uma:

ou é filho de pais demasiado humildes e grosseiros, ou ele é tão

travesso e mau que nem os bons costumes nem a boa doutrina

puderam entrar na cabeça dele. Grande falta carregas, Sancho.

Gostaria então que aprendesses pelo menos a assinar.

— Mas sei assinar meu nome muito bem — respondeu Sancho —,

pois quando fui andador da confraria em minha terra aprendi a fazer

umas letras como aquelas que vêm nos fardos,2 que, dizem, dizia meu

nome; além do mais, fingirei que tenho a mão direita entrevada e farei

outro assinar por mim, pois para tudo há remédio, menos para a

morte, e, tendo eu o comando e o porrete, farei o que quiser, mais do que aquele que tem o pai alcaide… Venham para ver o que acontece,

eu sendo governador, que é mais que ser alcaide! Ora, que me

desprezem e me caluniem: virão por lã e voltarão tosquiados, e Deus

ajuda quem cedo madruga, e as asneiras do rico passam por pérolas, e

sendo eu rico, governador e generoso, como pretendo ser, não faz mal

que notem meus defeitos. Não, não: faça-te de mel e as moscas te

comerão; vales tanto quanto tens, já dizia minha avó, e de homem

poderoso não te verás vingado.

— Miserável, que um raio te parta, Sancho! — disse dom Quixote

nessas alturas. — Que sessenta mil diabos te carreguem, a ti e a teus

ditados! Faz uma hora que os desfias, uma hora que estás me dando

fel para beber. Eu te garanto que um dia esses ditados te levarão à

forca, por causa deles teus vassalos irão te tomar o governo ou haverá

revoltas entre eles. Diz-me, seu ignorante, onde os encontras? E como

os aplicas, mentecapto? Pois eu, para dizer um e aplicá-lo direito, suo

e trabalho como se cavasse.

— Por Deus, senhor nosso amo — replicou Sancho —, vossa mercê

se queixa de ninharias. Por que diabos tanto azedume só por eu me

servir de minha riqueza, se não tenho nenhuma outra, nem bem algum, senão ditados e mais ditados? E agora mesmo me vieram à

ideia quatro sob medida, ou como pedidos de encomenda, mas não os

direi, porque o silêncio é de ouro.

— Então é por isso que és pobre, Sancho — disse dom Quixote —,

porque não só não calas a boca, como falas mal e teimas, ainda por

cima. Mas, mesmo assim, eu gostaria de saber que quatro ditados te

vieram agora à memória, tão a propósito, pois ando vasculhando a

minha, que é boa, e não acho nenhum.

— Há melhores que estes? — disse Sancho. — “Nunca fiques entre o

malho e a bigorna”, “Não há o que responder a ‘Cai fora de minha

casa!’ e ‘Não te metas com minha mulher!’”, e “Se o cântaro dá na

pedra ou a pedra dá no cântaro, pior para o cântaro”. Então, não vêm

todos a calhar? Que ninguém se meta nos assuntos do governador

nem com quem manda, porque sairá machucado, como aquele que

bota o dedo entre o malho e a bigorna, mesmo que não seja malho,

pode ser um martelo, não importa. E não se deve responder ao que o

governador disser, como quando se diz “cai fora de minha casa e não te metas com minha mulher”. E o da pedra no cântaro, até um cego

enxerga. Então é preciso que, aquele que vê um cisco no olho alheio,

veja uma viga no seu,3 para que não digam dele o que disseram do

roto que riu do esfarrapado. E vossa mercê sabe muito bem que um

burro em sua casa sabe mais que um sábio na alheia.

— Essa não, Sancho — respondeu dom Quixote. — Um burro em

sua casa ou na dos outros não sabe nada, porque sobre o alicerce da

burrice não se assenta nenhuma construção sábia. Mas vamos parar

por aqui, Sancho, pois, se governares mal, a culpa será tua e a

vergonha, minha. Meu consolo é ter feito o que devia ao te aconselhar

com a verdade e a sabedoria que me eram possíveis: com isso saio de

minha obrigação e de minha promessa. Deus te guie, Sancho, e te

governe em teu governo, e acabe com o medo que tenho de que vais

botar a ilha toda de pernas para cima, coisa que eu poderia evitar

revelando ao duque quem és, dizendo-lhe que esse corpo todo e essa

graxa toda não são nada mais que um saco cheio de ditados e

malícias.

— Senhor — replicou Sancho —, se vossa mercê acha que não estou

à altura desse governo, agora mesmo o abandono, pois quero mais a um só tiquinho da unha de minha alma que a todo o meu corpo, e

assim me sustentarei, Sancho apenas, a pão e cebola, do que como

governador com perdizes e leitões, sem falar que, quando se dorme,

todos são iguais, os grandes e os pequenos, os pobres e os ricos. E se

vossa mercê prestar atenção nessa coisa toda, verá que foi justamente

vossa mercê que me botou nesse negócio de governar, pois não sei

mais de governos de ilha que um urubu, e se imagina que por ser

governador o diabo me carrega, mais quero ir Sancho para o céu que

governador para o inferno.

— Por Deus, Sancho — disse dom Quixote —, apenas por estas

últimas palavras que disseste julgo que mereces ser governador de mil

ilhas: tens boa índole, sem a qual não há ciência que preste.

Encomenda-te a Deus, e procura não errar na primeira intenção:

quero dizer que sempre tenhas o firme propósito de acertar em

quantos negócios te meteres, porque o céu sempre favorece as boas

intenções. E vamos comer, que me parece que esses senhores já estão

nos aguardando.

 

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