Dom Quixote

Miguel de Cervantes · Capítulo 132 de 137

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Dom Quixote

Capítulo LXXI

do que aconteceu a dom quixote com

seu escudeiro sancho

quando ia para sua aldeia

O vencido dom Quixote ia por demais pensativo, agoniado por um

lado e muito alegre por outro. Sua tristeza era causada pela derrota, e

a alegria, por refletir no dom de Sancho, dom poderoso como

demonstrava a ressurreição de Altisidora, mesmo que o cavaleiro

hesitasse em acreditar que a aia realmente houvesse morrido. Agora,

Sancho não ia nada alegre, porque lhe amargurava ver que Altisidora

não havia cumprido a palavra de lhe dar as camisas; e, dando voltas e

voltas no assunto, disse a seu amo:

— Na verdade, senhor, sou o mais desgraçado dos médicos que deve

haver no mundo, pois há muitos que, apesar de matar o doente que

tratam, querem ser pagos por seu trabalho, que nada mais é que

assinar uma receitinha que nem é ele que avia, mas o boticário, e

estamos conversados. Mas para mim, que a saúde alheia custa gotas e

gotas de sangue, puxões e beliscões, alfinetadas e açoites, não dão um

tostão. Pois juro pelo que há de mais sagrado que, se largarem em

minhas mãos algum outro doente, antes que eu o cure terão de molhá-

las, porque dar dói e chorar faz ranho, e não posso acreditar que o céu

tenha me dado o dom que tenho para que eu o use com os outros em

troca de brisa e tapinhas no ombro.

— Tens razão, meu amigo Sancho — respondeu dom Quixote —,

Altisidora fez muito mal em não te dar as camisas prometidas. Mas,

mesmo que teu dom seja gratis data,1 porque não te custou nenhum

estudo, aguentar o martírio no próprio lombo é pior que estudar. De

minha parte posso te garantir que, se quisesses pagamento pelos açoites do desencantamento de Dulcineia, eu já o teria dado e com

juros. Mas não sei se o pagamento casa bem com a cura, e não

gostaria que o prêmio atrapalhasse o remédio. Mesmo assim, parece-

me que não custa nada tentar: diz o que queres, Sancho, e açoita-te

logo e paga à vista, com tua própria mão, pois carregas meu dinheiro.

Com essa oferta, Sancho ficou de olhos arregalados e orelhas em pé,

concordando, em seu coração, em se açoitar de boa vontade, e disse a

seu amo:

— Muito bem, senhor, estou disposto a me submeter à vontade de

vossa mercê, para meu proveito, pois o amor de meus filhos e de

minha mulher me leva a ser interesseiro. Diga-me vossa mercê quanto

me dará por cada açoite que eu der.

— Se eu fosse te pagar, Sancho — respondeu dom Quixote —, o que

a magnitude e a qualidade desse remédio valem, não bastariam o

tesouro de Veneza e as minas de Potosi. Calcula o quanto de dinheiro

meu levas e estabelece o preço para cada açoite.

— São três mil, trezentos e tantos açoites — respondeu Sancho. —

Destes, me apliquei uns cinco: falta o resto; contando esses cinco pelos

tantos, para arredondar, teremos três mil e trezentos, que, a um quarto

de real cada um (pois não aceitarei menos nem que todo o mundo me

obrigue), somam três mil e trezentos quartos de real. Três mil quartos

de real são mil e quinhentos meios reais, que são setecentos e cinquenta reais. E os trezentos quartos de real fazem cento e cinquenta

meios reais, que vêm a ser setenta e cinco reais, que somando aos

setecentos e cinquenta reais são ao todo oitocentos e vinte e cinco

reais. Assim, entrarei em minha casa rico e contente, apesar de bem

sovado, porque quem sai na chuva é…, e nem digo mais nada.

— Oh, Sancho abençoado! Oh, Sancho benévolo! — respondeu dom

Quixote. — Dulcineia e eu ficaremos na obrigação de te servir todos

os dias que o céu nos der de vida! Se ela voltar a ser o ente perdido,

pois não é possível que não volte, sua má sorte terá sido boa sorte e

minha derrota, feliz triunfo. E vê lá, Sancho, quando queres começar o

castigo, pois, para que seja logo, te dou cem reais de quebra.

— Quando? — replicou Sancho. — Esta noite, sem falta. Procure

vossa mercê um bom lugar em campo aberto, que eu retalharei o

lombo a chicote.

A noite chegou — esperada por dom Quixote com a maior ânsia do

mundo, parecendo a ele que as rodas do carro de Apolo haviam se

quebrado e que o dia se espichava mais que de costume, assim como

acontece aos amantes, que jamais acertam a conta de seus desejos. Por

fim, entraram num arvoredo agradável não muito longe da estrada, onde, deixando vazias a sela de Rocinante e a albarda do burro, se

acomodaram sobre a grama verde e jantaram com os víveres de

Sancho. Então ele, fazendo um açoite forte e flexível do cabresto e da

cabeçada do burro, se afastou uns vinte passos de seu amo por entre

umas faias. Dom Quixote, que o viu ir com determinação e com brio,

lhe disse:

— Vê aí, meu amigo, não vás te fazer em pedaços: dá um tempo para

que uns açoites esperem os outros; não queiras te apressar tanto na

corrida, que te falte o fôlego na metade, quero dizer, não batas com

tanta força que te falte a vida antes de chegar ao número desejado. E,

para que não percas por apostar uma carta a mais ou a menos, eu

estarei aqui ao lado contando neste rosário os açoites que te deres.

Que o céu te ajude como tua boa intenção merece.

— A bom pagador as penhoras não doem — respondeu Sancho. —

Eu penso me açoitar de modo que me doa sem me matar, pois nisso

deve consistir a essência desse milagre.

Em seguida, com a parte de cima do corpo despida, agarrou a corda e começou a se bater, e dom Quixote começou a contar os açoites.

Sancho havia dado uns seis ou oito, quando achou que a brincadeira

era pesada demais e o preço, barato demais. Então parou um pouco e

disse a seu amo que tinha se enganado, porque cada açoite daqueles

merecia ser pago com meio real, não com um quarto.

— Prossegue, Sancho, meu amigo — disse dom Quixote —, e não

desanimes, que eu dobro a parada.

— Então, que Deus me ajude, e chovam açoites! — disse Sancho.

Mas o velhaco deixou de bater nas costas e passou a bater nas

árvores, com uns gemidos de tanto em tanto, que era como se a cada

um deles lhe arrancassem a alma. Dom Quixote, de coração mole e

com medo que se acabasse sua vida antes de alcançar seu desejo por

causa da imprudência de Sancho, disse:

— Por Deus, meu amigo, deixa este negócio por aqui, que este

remédio me parece muito duro e será melhor dar tempo ao tempo,

pois o mundo não foi feito num minuto. Se não contei mal, deste mais

de mil açoites. Bastam por ora, que o burro, como diz o vulgo,

aguenta a carga, mas não a sobrecarga.

— Não, não, senhor — respondeu Sancho —, por minha causa

nunca dirão: “dinheiro adiantado, serviço atrasado”. Afaste-se vossa

mercê mais um pouco e me deixe dar outros mil açoites pelo menos,

que em duas rodadas acabaremos a partida e ainda vão sobrar panos

para as mangas.

— Bom, se te achas com tão boa disposição — disse dom Quixote

—, que o céu te ajude, e mãos à obra, que eu me afasto.

Sancho voltou a sua tarefa com tanta intrepidez que já tinha

arrancado as cascas de muitas árvores, tamanha era a severidade com

que se açoitava; e, dando um descomunal açoite numa faia, elevou a

voz, dizendo:

— Morra, Sansão, e todos os filisteus que aqui estão!2

Dom Quixote correu, ao ouvir a voz queixosa e o golpe implacável,

e, agarrando o cabresto enrolado que servia de chicote a Sancho,

disse:

— Não permita a sorte, meu amigo Sancho, que por minha causa

percas a vida que deve sustentar tua mulher e teus filhos: que Dulcineia espere melhor ocasião, que eu me encerrarei nos limites da

esperança iminente e esperarei que recobres as forças para que esse

negócio acabe bem para todos.

— Já que vossa mercê, meu senhor, assim o quer, que assim seja em

boa hora — respondeu Sancho —, e bote sua capa sobre minhas

costas, pois estou suando e não quero me resfriar, que os penitentes

novatos correm esse perigo.

Assim fez dom Quixote e, ficando apenas de camisa, agasalhou

Sancho, que dormiu até que o sol o despertou, e em seguida

retomaram seu caminho, indo parar numa aldeia que ficava a três

léguas dali. Apearam numa hospedaria, que por hospedaria a

reconheceu dom Quixote, não por castelo com fosso profundo, torres,

pontes levadiças e rastrilhos, porque, depois de ter sido vencido,

pensava com mais juízo sobre todas as coisas, como agora se dirá.

Alojaram-no numa sala do térreo, a que serviam de guadamecins umas

sarjas velhas pintadas, como se usam nas aldeias. Numa delas estava

pintada com péssima mão o rapto de Helena, quando o atrevido

hóspede a roubou de Menelau, e em outra estava a história de Dido e

de Eneias — ela, sobre uma torre alta, como que fazia sinais com um pedaço de lençol para o hóspede fugitivo, que no mar ia embora numa

fragata ou bergantim. Notou nas duas histórias que Helena não ia de

má vontade, porque ria dissimulada e maliciosamente, mas a formosa

Dido vertia lágrimas do tamanho de nozes. Vendo isso, dom Quixote

disse:

— Estas duas senhoras foram infelicíssimas por não terem nascido

nesta época, e eu, desventurado acima de todos, por não ter nascido

na delas: se eu tivesse topado com aqueles senhores, nem Troia teria

sido queimada nem Cartago destruída, pois apenas matando Páris eu

evitaria tantas desgraças.

— Aposto que logo, logo — disse Sancho — não haverá taberna,

estalagem ou barbearia onde não ande pintada a história de nossas

façanhas; mas gostaria que fossem pintadas por mãos de pintor

melhor do que era quem pintou estas.

— Tens razão, Sancho — disse dom Quixote —, porque esse pintor é

como Orbaneja, um pintor que apareceu em Úbeda. Quando lhe

perguntavam o que pintava, respondia: “O que sair”. Se por acaso pintava um galo, escrevia embaixo: “Este é um galo”, para que não

pensassem que era uma raposa. Assim, Sancho, parece-me que é o

pintor ou escritor, pois dá na mesma, que trouxe à luz a história deste

novo dom Quixote que anda por aí: pintou ou escreveu o que saiu; ou

terá sido como um poeta que andava anos atrás na corte, chamado

Mauleón, que respondia de improviso a tudo que lhe perguntavam.

Então, quando alguém perguntou o que queria dizer Deum de Deo,3

respondeu: “Dê onde der”. Mas deixando isso para lá, Sancho, diga-

me se pensas te dar outra sova esta noite e se queres que seja sob as

telhas ou sob as estrelas.

— Por Deus, senhor — respondeu Sancho —, para o que penso me

dar, tanto faz se for em casa ou no campo; mas, em todo caso, gostaria

que fosse entre árvores, pois parece que elas me acompanham e me

ajudam a enfrentar maravilhosamente meu tormento.

— Não, não vai ser assim, meu amigo Sancho — respondeu dom

Quixote. — Para que tu recuperes as forças, vamos esperar chegar a

nossa aldeia, onde estaremos depois de amanhã, o mais tardar.

Sancho respondeu que se fizesse a seu gosto, mas que ele preferia

acabar logo aquele negócio, com o sangue ainda quente, porque não se deixa para amanhã o que se pode fazer hoje e porque é na demora

que costuma morar o perigo, e a Deus rogando e com o cacete dando,

e que promessas não enchem barriga e mais vale um pássaro na mão

que dois voando.

— Basta de ditados, Sancho, pelo amor de Deus! — disse dom

Quixote. — Até parece que voltas ao sicut erat:4 fala direito, com

simplicidade, não enrolado, como já te disse mil vezes, e verás que

carne sem osso, proveito sem trabalho.

— Não sei que diabo há comigo — respondeu Sancho —, que não

sei soltar o verbo sem provérbio, nem misturar alhos com bugalhos.

Mas eu me emendarei, se puder.

E com isso encerrou por ora sua conversa.

 

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