Dom Quixote

Miguel de Cervantes · Capítulo 101 de 137

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Dom Quixote

Capítulo XL

de coisas que dizem respeito a esta aventura

e esta história memorável

Todos os que gostam de histórias como esta devem se mostrar

realmente agradecidos a Cide Hamete, seu primeiro autor, pelo

cuidado que teve em contar as minúcias dela, sem deixar de mostrar

com clareza coisa alguma, por menor que fosse. Pinta os pensamentos

dos personagens, revela suas fantasias, responde às perguntas tácitas,

tira dúvidas, desembaraça os argumentos, enfim, oferece a última

partícula que o mais curioso pode desejar. Oh, célebre autor! Oh, feliz

dom Quixote! Oh, afamada Dulcineia! Oh, divertido Sancho Pança!

Possam juntos e cada um por si viver inumeráveis séculos, para prazer

e entretenimento universais de todo mundo.

A história conta, pois, que mal Sancho viu a Ama Dolorida

desmaiada, disse:

— Pela fé de homem de bem, juro pela vida eterna de todos os meus

antepassados Panças que jamais ouvi nem vi, nem meu amo me

contou, nem em seu pensamento coube aventura parecida com esta.

Que mil satanases te ajudem, Malambruno, se não te excomungo

como mago e gigante! Não achaste nenhum outro jeito de castigar

estas pecadoras a não ser deixá-las barbudas? Como, hein? Não seria

melhor e não viria mais em conta para elas que tivesse cortado um

pedaço do nariz, da metade para cima, mesmo que ficassem fanhas,

que botar barbichas nelas? Aposto que não têm um tostão para pagar

um barbeiro.

— É verdade, senhor — respondeu uma das doze amas —, não

temos dinheiro para nos barbear, por isso, por economia, algumas de

nós resolveram usar uns grudes ou emplastros de alcatrão. Aplicando-os nas faces e puxando-os de repente, ficamos tão suaves e lisas como

sovaco de anjo; porque, apesar de em Candaia haver mulheres que

andam de casa em casa para tirar o buço, ajeitar as sobrancelhas e

aplicar pomadas, nós, as amas de minha senhora, jamais as

admitimos, pois a maioria delas cheira a alcovitice, tendo deixado há muito de pisar nas alcovas; e, se não formos salvas pelo senhor dom

Quixote, vão nos levar barbudas à sepultura.

— Eu rasparia as minhas nas terras dos mouros — disse dom

Quixote —, se não pudesse vos livrar das vossas.1

Nesse ponto, a Trifaldi se recuperou do desmaio e disse:

— O eco dessa promessa, valoroso cavaleiro, me chegou aos ouvidos

em meio ao meu desmaio e me ajudou a recuperar os sentidos. Então

vos suplico de novo, ínclito andante e indomável senhor, que vossa

amável promessa não fique apenas em palavras.

— Por mim não ficará — respondeu dom Quixote. — Dizei,

senhora, o que devo fazer, que tenho o espírito pronto para vos servir.

— Acontece que daqui ao reino de Candaia, caso se vá por terra, há

cinco mil léguas, mais ou menos — respondeu a Dolorida —, mas,

indo pelo ar e em linha reta, há três mil duzentas e vinte e sete. É

preciso saber também que Malambruno me disse que, quando a sorte

me deparasse com o cavaleiro nosso libertador, ele enviaria uma

montaria muito melhor e sem as manhas das de aluguel, pois deverá ser aquele mesmo cavalo de madeira em que o valoroso Pierres roubou

a linda Magalona, cavalo que se dirige por uma cravelha que tem na

testa, que lhe serve de freio, e voa pelo ar com tanta rapidez que

parece que os próprios diabos o levam. Esse cavalo, conforme a

tradição antiga, foi feito por aquele sábio Merlin; emprestou-o a

Pierres, que era seu amigo, e Pierres fez grandes viagens e roubou,

como já se disse, a linda Magalona, levando-a na garupa pelo ar,

deixando embasbacados a todos que os olhavam da terra. Merlin só o

emprestava para quem ele gostava ou para quem o pagava melhor; e

desde o grande Pierres até agora não sabemos se mais alguém o

montou.2 Mas Malambruno o tomou com suas artes e o tem desde

então em seu poder; serve-se dele para suas viagens, que faz a todo

momento a diversas partes do mundo, e hoje está aqui e amanhã na

França e outro dia em Potosi. E o melhor é que o dito cavalo não

come nem dorme nem gasta ferraduras, e é marchador, vai pelo ar sem

ter asas, num galope tão calmo e macio que o cavaleiro pode levar um

copo cheio de água na mão sem que se derrame uma gota. É por isso

que a linda Magalona adorava cavalgá-lo.

A isso, Sancho disse:

— Para andar com calma e macio, prefiro meu burro, mesmo que

não ande pelos ares; mas em terra bate quantos marchadores há no

mundo.

Todos riram, e a Dolorida prosseguiu:

— E esse cavalo, se é que Malambruno quer dar fim a nossa

desgraça, estará em nossa presença antes de meia hora depois de cair a

noite, porque ele me explicou que o sinal que me daria para eu saber

que havia encontrado o cavaleiro que buscava seria me enviar o

cavalo fosse onde fosse, de modo rápido e oportuno.

— E quantos cabem nesse cavalo? — perguntou Sancho.

A Dolorida respondeu:

— Duas pessoas, uma na sela e outra na garupa, e na maioria das

vezes essas pessoas são cavaleiro e escudeiro, quando falta alguma

donzela roubada.

— Eu gostaria de saber, senhora Dolorida — disse Sancho —, qual o

nome desse cavalo.

— O nome — respondeu a Dolorida — não é como o do cavalo de Belerofonte, que se chamava Pégaso, nem como o de Alexandre

Magno, chamado Bucéfalo, nem como o do furioso Orlando, cujo

nome foi Brilhadouro, e menos ainda Baiarte, que foi o de Reinaldos

de Montalbán, nem Frontino, como o de Rugero, nem Bootes nem

Pirítoo, como dizem que se chamam os de Apolo, nem tampouco se

chama Orélia, como o cavalo em que o desgraçado Rodrigo, último

rei dos godos, entrou na batalha onde perdeu o reino e a vida.

— Eu aposto — disse Sancho — que não lhe deram nenhum desses

nomes de cavalos famosos, nem o de meu amo, Rocinante, que, por

ser muito apropriado, é muito melhor que esses que foram nomeados.

— É verdade — respondeu a condessa barbuda —, mas mesmo

assim lhe cai muito bem, porque se chama Cravelenho, o Ligeiro,

sendo ele de madeira, tendo uma cravelha na testa e andando ligeiro;

assim, quanto ao nome, bem pode competir com o famoso Rocinante.

— O nome não me desagrada — replicou Sancho —, mas com que

freio ou com que cabresto se dirige o bicho?

— Já disse que com a cravelha — respondeu a Trifaldi. — Virando-a

para um lado ou outro, o cavaleiro o encaminha como quer, pelos ares, dando um rasante e quase varrendo a terra, ou a meia altura, que

é o melhor jeito para todas as ações bem planejadas.

— Isso eu queria ver — respondeu Sancho —, mas pensar que tenho

de montar nele, na sela ou nas ancas, é pedir uvas ao marmeleiro. Eu

mal me aguento em meu burro, e numa albarda mais macia que a

própria seda, e vão querer agora que monte numa garupa de tábua,

sem nenhuma almofada ou travesseiro! Santo Deus, não penso me

arrebentar todo pelas barbas de ninguém: cada um que se tosquie

como bem entender, que eu não penso acompanhar meu senhor em

viagem tão longa. Além do mais, não devo fazer tanta falta na

raspação dessas barbas como faço no desencantamento de minha

senhora Dulcineia.

— Fazes sim, meu amigo — respondeu a Trifaldi —, e tanta que sem

vossa presença me parece que não faremos nada.

— Ai, Jesus! — disse Sancho. — O que é que os escudeiros têm que

ver com as aventuras de seus senhores? Eles vão levar a fama das

façanhas realizadas e nós ficamos apenas com o trabalho? Santo Deus! Se ao menos os historiadores dissessem “O tal cavaleiro fez tal e tal

façanha, mas com a ajuda de fulano, seu escudeiro, sem o qual teria

sido impossível vencer…”. Mas não, escrevem apenas “dom

Paralipômeno3 das Três Estrelas venceu os seis monstros”, sem

mencionar a pessoa de seu escudeiro, que se encontrava presente em

tudo, como se não existisse! Agora, senhores e senhoras, repito que

meu senhor pode ir sozinho e que faça bom proveito, pois eu ficarei

aqui em companhia de minha senhora, a duquesa, e até pode ser que

na volta dom Quixote encontre a causa da senhora Dulcineia

melhorada de cima a baixo, porque penso, em meus momentos de

lazer e desocupação, me aplicar tantos açoites que as feridas vão criar

bicho.

— Mesmo assim, deveis acompanhá-lo se for necessário, meu bom

Sancho, porque boas pessoas vos suplicarão. Por causa de vossos vãos

temores, estas senhoras não vão ficar com os rostos tão povoados: isso

certamente seria um desastre.

— Ai, Jesus, acuda-me de novo! — replicou Sancho. — Se essa

caridade fosse feita por algumas donzelas reclusas ou por algumas

meninas órfãs, o homem poderia se arriscar a qualquer perigo. Mas que sofra para tirar as barbas de amas e aias, tenham dó, mesmo que

eu as visse todas com barbas, desde a mais velha até a mais nova e da

mais melindrosa até a mais metida.

— Estais de mal com as amas e aias, meu amigo Sancho — disse a

duquesa. — Ides muito atrás da opinião do boticário de Toledo, mas,

juro por Deus, não tendes razão, pois em minha casa há amas que

podem ser exemplos de amas: aqui está dona Rodríguez, que não me

deixará dizer outra coisa.

— Mas, mesmo que vossa excelência a diga — disse Rodríguez —,

Deus conhece a verdade de tudo. E sejamos boas ou más, barbadas ou

imberbes, também nos pariram nossas mães como às demais mulheres;

enfim, como Deus nos botou no mundo, Ele sabe por quê, e à sua

misericórdia me atenho, não às barbas de ninguém.

— Muito bem, senhora Rodríguez, senhora Trifaldi e companhia —

disse dom Quixote —, espero que o céu olhe com bons olhos vossas

penas e que Sancho faça o que eu lhe ordenar. Ah, estivesse aqui o

Cravelenho e eu me visse frente a frente com Malambruno: sei que não haveria navalha que raspasse as barbas de vossas mercês com

mais facilidade do que minha espada rasparia dos ombros a cabeça de

Malambruno! Que Deus suporte os maus, mas não para sempre!

— Ai! — gemeu nessas alturas a Dolorida. — Espero, valoroso

cavaleiro, que todas as estrelas das regiões celestes olhem vossa

grandeza com olhos benignos e infundam em vosso peito todo o vigor

e valentia para ser escudo e amparo do vituperado e abatido gênero

amesco, abominado por boticários, caluniado por escudeiros e

logrado por pajens. Ai da velhaca que na flor da idade não resolveu

ser monja em vez de ama! Pobres de nós, as amas: mesmo que

descendêssemos em linha direta, de pai para filho, do próprio Heitor,

o troiano, nossas senhoras não deixariam de nos tratar como ralé, se

com isso julgassem ser rainhas! Oh, gigante Malambruno! Apesar de

mago, honra tuas promessas! Envia-nos logo o inigualável

Cravelenho, para que nossa desgraça se acabe, pois, se o verão nos

alcançar com estas barbas, estaremos fritas!

A Trifaldi disse isso com tanto sentimento que arrancou lágrimas de

todos os presentes e até deixou os olhos de Sancho rasos d’água.

Então ele resolveu, no fundo de seu coração, acompanhar seu senhor até os confins da terra, se isso fosse necessário para tirar a lã daqueles

rostos veneráveis.

 

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