Dom Quixote

Miguel de Cervantes · Capítulo 65 de 137

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Dom Quixote

Capítulo IV

 

onde sancho pança responde ao bacharel

sansão carrasco suas dúvidas

e perguntas, com outros acontecimentos

dignos de se saber e se contar

Sancho voltou à casa de dom Quixote e, retomando a conversa

anterior, disse:

— Como o senhor Sansão disse que desejava saber quem me furtou

o jumento, ou como ou quando, digo que na mesma noite em que

entramos na Serra Morena fugindo da Santa Irmandade, depois da

aventura sem ventura dos galeotes e daquela do defunto que levavam

para Segóvia, meu senhor e eu nos metemos numa mata cerrada, onde

meu senhor escorado a sua lança e eu sobre meu burro, moídos e

cansados das refregas passadas, começamos a dormir como se fosse

sobre quatro colchões de penas. Eu, especialmente, dormi um sono tão

pesado que quem quer que tenha sido o ladrão pôde chegar e me

suspender sobre quatro estacas que pôs aos quatro lados da albarda,

de modo que me deixou a cavalo nela e tirou de baixo de mim o burro

sem que eu percebesse.

— Essas coisas acontecem, nem são novas, pois aconteceu a

Sacripante. Com esse mesmo ardil, aquele famoso ladrão chamado

Brunelo tirou o cavalo de entre as pernas dele, quando estava no cerco

de Albraca.1

— Amanheceu — prosseguiu Sancho — e, mal me mexi, quando,

falhando as estacas, fui parar no chão num grande tombo; procurei

pelo jumento e não o vi; meus olhos se encheram de lágrimas e me

lamentei tanto que, se o autor não pôs a coisa em nossa história, pode

ter certeza de que deixou o melhor de fora. Ao fim de não sei quantos dias, vindo com a senhora princesa Micomicona, reconheci meu

burro, e que Ginés de Pasamonte vinha nele, com roupa de cigano.

Sim, aquele embusteiro e bandido que meu senhor e eu livramos das

correntes.

— O erro não está nisso — replicou Sansão —, mas em que antes de

ter aparecido o jumento o autor diz que Sancho ia montado no dito-cujo.

— A isso não sei responder — disse Sancho —, exceto que o

historiador se enganou, ou que talvez tenha sido descuido do

impressor.

— Sem dúvida, deve ser isso — disse Sansão —, mas o que aconteceu

com os cem escudos? Evaporaram?

Sancho respondeu:

— Eu os gastei no bem-estar de minha pessoa, de minha mulher e de

meus filhos. Foi por causa deles que minha mulher engoliu minhas

andanças e correrias a serviço de meu senhor dom Quixote, pois se, ao

fim de tanto tempo, voltasse sem prata e sem jumento para casa, a

sorte mais negra me esperava. E, se há alguma outra coisa para se

saber de mim, aqui estou, que responderei ao próprio rei em pessoa, e

ninguém tem nada com isso, se trouxe ou não trouxe, se gastei ou não

gastei: se as cacetadas que me deram nessas viagens fossem pagas em

dinheiro, mesmo que se calculasse cada uma a quatro maravedis

apenas, com outros cem escudos não dava para me pagar a metade; e que cada um ponha a mão no coração e não julgue o branco por preto

e o preto por branco, que cada um é como Deus o fez, e muitas vezes

bem pior.

— Eu terei o cuidado de lembrar o autor da história — disse

Carrasco —, caso ela for impressa outra vez, de não esquecer isto que

o bom Sancho disse, pois assim vai melhorar o que já era bom.

— Há mais alguma coisa para se emendar nessa crônica, senhor

bacharel? — perguntou dom Quixote.

— Sim, deve haver — respondeu ele —, mas nenhuma deve ter a

importância das já referidas.

— E por acaso — disse dom Quixote — o autor promete a segunda

parte?

— Promete sim — respondeu Sansão —, mas disse que não a

encontrou nem sabe quem a tem, de modo que estamos em dúvida se

sairá ou não. Por isso, e porque alguns dizem “As segundas partes

nunca foram boas” e outros “Das coisas de dom Quixote bastam as

escritas”, não se sabe se haverá segunda parte; mas tem gente, mais

alegre que soturna, que diz: “Que venham mais quixotadas, ataque

dom Quixote e fale Sancho Pança! Seja lá o que for, vem bem!”.

— E que partido toma o autor?

— Ele diz que, quando encontrar a história — respondeu Sansão —,

que procura com extraordinárias diligências, irá publicá-la em

seguida, levado mais pelo lucro que terá com isso do que pelos elogios

que pode ganhar.

A isso, Sancho disse:

— Então o autor mira o lucro? Será um milagre que dê certo, porque

só vai se esfalfar, se esfalfar, como alfaiate em véspera de festa, e já se

sabe que a pressa é inimiga da perfeição. Veja bem o que faz esse

senhor mouro, ou seja lá o que for, porque eu e meu amo lhe daremos

facilmente tanto assunto em matéria de aventuras e de coisas

diferentes que poderá escrever não só a segunda parte, mas mais cem.

O bom homem deve pensar, sem dúvida, que ficamos aqui dormindo

nas palhas; pois segure o pé ao botar a ferradura e verá se coxeamos.

O que posso garantir é que, se meu senhor ouvisse meus conselhos, já

estaríamos nessas campanhas, desfazendo agravos e reparando

ofensas, como é uso e costume dos bons cavaleiros andantes.

Nem bem Sancho havia acabado de dizer essas palavras, chegaram a

seus ouvidos relinchos de Rocinante, relinchos que dom Quixote

tomou por felicíssimo presságio, e resolveu fazer nova saída dali a três

ou quatro dias. Declarando sua intenção ao bacharel, pediu conselho

sobre por onde devia começar a jornada; ele respondeu que era de

opinião que fosse ao reino de Aragão e à cidade de Zaragoza, onde

logo se fariam umas muito solenes justas por causa da festa de São

Jorge,2 nas quais poderia ganhar fama sobre todos os cavaleiros

aragoneses, o que seria o mesmo que ganhar sobre todos os cavaleiros

do mundo. Gabou-lhe sua decisão como honradíssima e valentíssima e

advertiu-o de que fosse mais prudente ao enfrentar os perigos, porque

sua vida não lhe pertencia, mas sim a todos aqueles que necessitavam

de amparo e socorro em suas desventuras.

— É isso que não engulo, senhor Sansão — disse Sancho nesse

ponto. — Meu senhor ataca cem homens armados como um rapaz

comilão ataca meia dúzia de melões chochos. Santo Cristo, senhor

bacharel! Sim, há um tempo de atacar e um tempo de bater em

retirada; sim, nem tudo pode ser no vai ou racha. Além disso, ouvi

dizer, acho que por meu próprio amo, se não me lembro mal, que entre os extremos do covarde e do temerário está o ideal da valentia.

Se isto é assim, não quero que fuja sem motivo, nem que ataque

quando a situação pede outra coisa. Mas antes de mais nada aviso

meu senhor que, se vai me levar consigo, deve ser com a condição de

que quem combate é ele e que eu não estou obrigado a outra coisa

além de olhar por sua pessoa no que toca a sua limpeza e conforto,

que nisto vou mimá-lo como ninguém, porque pensar que vou

empunhar a espada, ainda que seja contra uns camponeses

desgraçados de capuz e machadinha, é pensar que a lua é o sol. Eu,

senhor Sansão, não penso em granjear fama de valente, mas do melhor

e mais leal escudeiro que jamais serviu cavaleiro andante. E, se meu

senhor dom Quixote, obrigado por meus muitos e bons serviços,

quiser me dar alguma ilha das muitas que sua mercê diz que vamos

topar por aí, ficarei muito grato; se não me der, bem, cada um com sua

cruz, que um homem não deve viver sob a asa de outro, mas de Deus.

Mas tem mais, pois tão bem ou talvez melhor ainda me descerá o pão

desgovernado que sendo governador, sem falar que eu não sei se nesses governos o diabo não me preparou uma rasteira para me

derrubar e me quebrar a cara. Sancho nasci e Sancho penso morrer,

mas se apesar de tudo as coisas correrem bem, sem muita preocupação

e sem muito risco, se o céu me deparar alguma ilha, ou outra coisa

parecida, não sou tão burro que a despreze, pois também se diz

“quando te derem a vaquinha, corre com a cordinha” e “quando a

sorte vem, agarre-a bem”.

— Sancho, meu irmão, falastes como um catedrático — disse

Carrasco —, mas confiai em Deus e no senhor dom Quixote, que há

de vos dar um reino, não apenas uma ilha.

— Demais é tão mau quanto de menos — respondeu Sancho —,

embora eu garanta ao senhor Carrasco que meu amo não enfiaria o

reino que me desse num saco furado, pois tomei meu pulso e sei que

me acho com saúde para administrar reinos e governar ilhas, o que já

disse outras vezes a meu senhor.

— Tenhais cuidado, Sancho — disse Sansão —, que os ofícios

mudam os costumes. Poderia acontecer que vós, vendo-se governador,

não reconhecêsseis nem a mãe que vos pariu.

— Isso — respondeu Sancho — pode ser verdade com os filhos das

macegas, não com um cristão-velho dos quatro costados, como eu.

Não, olhai bem minha condição, que vereis se sou mal-agradecido.

— Queira Deus — disse dom Quixote —, e logo veremos quando o

governo vier, pois até parece que o tenho diante dos olhos.

Dito isto, rogou ao bacharel que, se fosse poeta, fizesse a mercê de

compor uns versos para ele que tratassem da despedida que pensava

fazer a sua senhora Dulcineia del Toboso, mas que reparasse que no

princípio de cada verso devia pôr uma das letras de seu nome, de

modo que no fim do poema, juntando as primeiras letras dos versos se

lesse: “Dulcineia del Toboso”. O bacharel respondeu que, embora ele

não estivesse entre os poetas famosos da Espanha, que, pelo que se

dizia, eram apenas três e meio, não deixaria de compor o tal acróstico,

mesmo que achasse uma grande dificuldade em sua composição,

porque eram dezoito as letras que o nome continha e, se fizesse quatro

quadras, sobrariam duas letras, e se fizesse quatro redondilhas com

cinco versos, faltariam duas letras; mas, mesmo assim, procuraria embutir duas letras da melhor forma possível, de maneira que nas

quatro quadras se incluíssem o nome de Dulcineia del Toboso.

— Em todo caso, tem de ser assim — disse dom Quixote —, porque,

se o nome não estiver ali claro e evidente, não há mulher que acredite

que o acróstico foi feito para ela.

Assim ficou combinado e também que a partida seria dali a oito dias.

Dom Quixote pediu ao bacharel que a mantivesse secreta,

especialmente do padre e de mestre Nicolás, de sua sobrinha e da

criada, para que não atrapalhassem sua honrada e corajosa decisão.

Carrasco concordou com tudo e então se despediu, solicitando que

dom Quixote o avisasse de tudo o que lhe acontecesse de bom ou de

ruim, se tivesse oportunidade. Em seguida Sancho foi botar em ordem

o necessário para sua viagem.

 

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