Dom Quixote

Miguel de Cervantes · Capítulo 129 de 137

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Dom Quixote

Capítulo LXVIII

da hirsuta aventura que aconteceu

a dom quixote

A noite era um tanto escura, apesar de a lua estar no céu, mas não em

lugar que pudesse ser vista — às vezes a senhora Diana vai passear nos

antípodas e deixa as montanhas negras e os vales escuros. Dom

Quixote se rendeu à natureza, dormindo o primeiro sono, sem se

entregar ao segundo, bem ao contrário de Sancho, que nunca teve o

segundo, porque o sono dele durava da noite até a manhã, no que

transparecia sua boa compleição e poucas preocupações. As de dom

Quixote o mantiveram insone, de modo que acordou Sancho e lhe

disse:

— Estou maravilhado com a liberdade de tua condição, Sancho:

imagino que és feito de mármore ou do bronze mais duro, em que não

cabe movimento nem sentimento algum. Eu velo quando tu dormes,

eu choro quando tu cantas, eu desmaio de privação quando tu ficas

inerte de preguiça de tão saciado. É próprio dos bons criados suportar

as aflições de seus senhores e compartilhar seus sentimentos, pelo

menos na aparência. Olha a serenidade desta noite, a solidão em que

estamos. Elas nos convidam a intercalar alguma vigília em meio ao

nosso sono. Por Deus, levanta, afasta-te um pouco daqui e,

reconhecido, com coragem e energia, dá-te trezentos ou quatrocentos

açoites por conta daqueles do desencantamento de Dulcineia. Eu te

peço isso suplicando, pois não quero sair aos murros contigo como da

outra vez, porque sei que tens as mãos pesadas. Depois que tenhas te

aplicado a sova, passaremos o resto da noite cantando, eu minha

ausência e tu, tua constância, começando neste instante o ofício

pastoril que seguiremos em nossa aldeia.

— Senhor — respondeu Sancho —, não sou religioso para me

levantar no meio do sono e me penitenciar, nem me parece que do

extremo da dor dos açoites possa se passar às delícias da música.

Deixe-me vossa mercê dormir e não me amole mais com esse negócio,

que me fará jurar não tocar num fiado de meu saio, imagina de meu

traseiro.

— Oh, alma empedernida! Oh, escudeiro sem piedade! Oh, pão mal-

empregado e mercês mal pensadas as que te fiz e penso fazer! Por

minha causa te viste governador e por minha causa te vês com

esperanças iminentes de ser conde ou ter outro título semelhante, e a

realização delas não vai demorar mais que este ano, pois eu post

tenebras spero lucem.1

— Isso eu não entendo — replicou Sancho. — Só entendo que,

enquanto durmo, não tenho medo nem esperança, nem trabalho nem

glória. Vida longa a quem inventou o sono, capa que cobre todos os

pensamentos humanos, manjar que tira a fome, água que afugenta a

sede, fogo que abranda o frio, frio que mitiga o calor, enfim, moeda

geral com que se compram todas as coisas, balança e medida que

iguala o pastor ao rei e o tolo ao sábio. O sono só tem uma coisa má,

pelo que ouvi dizer: é que se parece com a morte, pois entre um

adormecido e um morto há pouca diferença.

— Nunca te ouvi falar tão elegantemente como agora, Sancho —

disse dom Quixote. — Por isso penso que é verdadeiro aquele ditado que às vezes dizes: “Não importa a casta, mas com quem se pasta”.

— Raios me partam, senhor! — replicou Sancho. — Agora não sou

eu quem desfia ditados. Da boca de vossa mercê eles caem de dois em

dois, melhor que da minha, pois há uma diferença entre os meus e os

seus: os de vossa mercê caem na hora certa e os meus, fora de hora.

Mas, queira ou não, todos são ditados.

Estavam nessa discussão, quando ouviram um estrondo surdo, um

barulho desagradável, que se estendia por aqueles vales todos. Dom

Quixote se levantou e empunhou a espada, e Sancho se escondeu

debaixo do burro, ladeado pela confusão de armas, armadura e

albarda, tremendo tanto de medo como dom Quixote de alvoroçado.

Pouco a pouco, o barulho ia crescendo e se aproximando dos dois

medrosos, ou pelo menos de um, porque do outro já se conhece a

valentia.

O caso era que uns homens levavam mais de seiscentos porcos para

vender na feira, e os bichos faziam tanto barulho, grunhindo e

bufando, que ensurdeceram dom Quixote e Sancho Pança, os quais

não atinaram com o que poderia ser. A grande e grunhidora manada

chegou a toda pressa e, sem respeito pela autoridade de dom Quixote, passou por cima dos dois, desmanchando a trincheira de Sancho e

derrubando não só dom Quixote como levando Rocinante de quebra.

O tropel, os grunhidos e a rapidez com que chegaram aqueles animais

imundos deixaram a todos confusos — e por terra a albarda, as armas

e a armadura, o burro, Rocinante, Sancho e dom Quixote.

Sancho levantou como pôde e pediu a espada a seu amo, dizendo

que queria matar meia dúzia daqueles senhores descarados, pois já

tinha percebido que eram porcos. Dom Quixote disse:

— Deixa estar, meu amigo: esta afronta é punição por meus pecados.

É castigo justo do céu que a um cavaleiro andante vencido comam os

chacais, piquem as vespas e pisoteiem os porcos.

— Também deve ser castigo do céu — respondeu Sancho — que os

escudeiros dos cavaleiros vencidos sejam picados por moscas, comidos

por piolhos e atacados pela fome. Se nós, escudeiros, fôssemos filhos

dos cavaleiros a que servimos, ou parentes mais próximos, não seria

de estranhar que a punição dos pecados deles nos alcançasse até a

quarta geração. Mas o que têm que ver os Panças com os Quixotes? Bem, vamos nos acomodar de novo e dormir o pouco que resta da

noite, que amanhã será outro dia, com a graça de Deus.

— Dorme tu, Sancho, que nasceste para dormir — respondeu dom

Quixote —, pois eu, que nasci para velar, no tempo que falta até o dia

raiar darei rédea solta a meus pensamentos e os desafogarei num

madrigalzinho que, sem que tenhas percebido, compus de cabeça.

— Parece-me que os pensamentos que levam a fazer versos não

devem ser muitos — respondeu Sancho. — Verseje vossa mercê o

quanto quiser, que eu vou dormir o quanto puder.

E então, ocupando do chão o quanto quis, se aconchegou e dormiu a

sono solto, sem que fianças, nem dívidas, nem dor alguma o

atrapalhasse. Dom Quixote, escorado no tronco de uma faia, ou de

um sobreiro (que Cide Hamete Benengeli não define que árvore era),

ao som de seus próprios suspiros cantou desta maneira:

— Amor, quando eu penso

no mal que me fazes, terrível e forte,

corro para a morte,

pensando assim acabar meu mal imenso;

mas ao chegar ao passo

que é porto neste mar de meu tormento,

tanta alegria sinto,

que a vida se rebela, e não o ultrapasso.

Assim o viver me mata,

pois a morte volta a me dar a vida.

Oh, situação nunca vista

a que comigo morte e vida trata!a

Acompanhava cada um desses versos com muitos suspiros e não

poucas lágrimas, exatamente como quem tinha o coração trespassado

pela dor da derrota e pela ausência de Dulcineia.

Nisso chegou o dia: o sol deu com seus raios nos olhos de Sancho,

que acordou e se espreguiçou, sacudindo-se e espichando os membros

entorpecidos; olhou o estrago que os porcos tinham feito em seus

mantimentos e amaldiçoou a manada — para dizer a verdade, foi mais

longe ainda. Por fim, os dois retomaram sua viagem e, quando a tarde

declinou, viram se aproximar deles uns dez homens a cavalo e quatro

ou cinco a pé. O coração de dom Quixote se sobressaltou e se atordoou o de Sancho, porque aquela gente trazia lanças e adargas,

parecendo em pé de guerra. Dom Quixote se virou para Sancho e

disse:

— Se eu pudesse usar minhas armas, Sancho, e minha promessa não

me atasse as mãos, eu consideraria este pelotão que vem sobre nós um

convite para uma festa. Mas pode ser que seja coisa diferente da que

tememos.

Nisso chegaram os homens a cavalo e, com as lanças em riste, sem

dizer uma palavra rodearam dom Quixote e o ameaçaram de morte,

apontando-as para as costas e o peito dele. Um dos homens a pé, com

um dedo na boca como pedindo que se calasse, agarrou o freio de

Rocinante e o afastou da estrada. Os outros que vinham a pé,

pegando Sancho e o burro, mantendo-se todos em silêncio

extraordinário, seguiram os passos daquele que levava dom Quixote,

que por duas ou três vezes quis perguntar aonde o levavam ou o que

queriam, mas, mal começava a mover os lábios, obrigavam-no a

fechá-los com as pontas das lanças. Acontecia a mesma coisa com

Sancho, porque, apenas dava mostras de querer falar, um dos homens

a pé o cutucava com um chuço, e nem mais nem menos isso se passava com o burro também, como se ele quisesse falar. Caiu a noite,

apressaram o passo, cresceu o medo nos prisioneiros, e mais ainda

quando ouviram que de tanto em tanto lhes diziam:

— Andai, primatas!

— Calai, bárbaros!

— Sofrei, antropófagos!

— Não vos queixeis, celerados! Nem abrais os olhos, Polifemos

assassinos, leões carniceiros!

E outros nomes semelhantes, com que atormentavam os ouvidos dos

miseráveis amo e criado. Sancho ia dizendo a si mesmo: “Nós, andar

com primas nas matas? Nós, barbados e sarcófagos? Nós, celebrados?

Bem, celebrados sim, principalmente o senhor dom Quixote. Mas não

sei, não entendo esses nomes; esse negócio todo não me cheira bem, e

a desgraça é como mosca no mel: nunca vem sozinha. Tomara que

pare nos nomes o que ameaça esta aventura tão desventurada!”.

Dom Quixote ia embasbacado, sem poder atinar por mais que

matutasse por que os chamavam com aqueles nomes ofensivos, mas era evidente que não podia esperar nenhum bem e devia temer muitos

males. Então, quase uma hora depois que anoiteceu, chegaram a um

castelo que dom Quixote viu muito bem que era o do duque, onde

haviam estado fazia pouco.

— Valha-me Deus! — disse logo que reconheceu a casa. — O que

será isso? Sim, nesta casa tudo é cortesia e amabilidade; mas para os

derrotados o bem se torna mal e o mal, coisa pior ainda.

Entraram no pátio principal do castelo e viram-no adornado de

maneira que lhes aumentou o pasmo e lhes duplicou o medo, como se

verá no capítulo seguinte.

a Cervantes adaptou um poema de Gli Asolano (1505) de Pietro Bembo: “Amor, cuando yo pienso/ en el mal que me das terrible y fuerte,/ voy corriendo a la muerte,/ pensando así acabar mi mal inmenso;// mas en llegando al paso/ que es puerto en este mar de mi tormento,/ tanta alegría siento,/ que la vida se esfuerza, y no le paso.// Así el vivir me mata,/ que la muerte me torna a dar la vida./ ¡Oh condición no oída/ la que conmigo muerte y vida trata!”.

 

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