Dom Quixote

Miguel de Cervantes · Capítulo 19 de 137

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Dom Quixote

Capítulo XI

do que aconteceu a dom quixote

com uns pastores de cabras

Dom Quixote foi muito bem recebido pelos pastores, e Sancho, tendo

acomodado Rocinante e seu jumento o melhor que pôde, foi atrás do

cheiro que exalavam certos pedaços de carne de cabra que ferviam

num caldeirão. Embora ele quisesse naquele mesmo instante ver se

estavam no ponto para transferi-los do caldeirão para o estômago,

deixou de fazê-lo, porque os pastores os tiraram do fogo e, estendendo

no chão umas peles de ovelhas, com rapidez arrumaram sua mesa

rústica com o que tinham e convidaram os dois com mostras de muito

boa vontade. Seis deles se sentaram em volta das peles — era quantos

havia no abrigo —, tendo primeiro pedido a dom Quixote com

cortesias camponesas que se sentasse numa gamela que puseram de

boca para baixo. Dom Quixote se sentou, ficando Sancho de pé para

lhe servir o copo, que era feito de chifre. Vendo-o assim, seu amo lhe

disse:

— Para que vejas, Sancho, o bem que encerra a cavalaria andante e

quanto os que, em qualquer função nela se exercitam, estão a pique de

rapidamente vir a ser honrados e estimados pelo mundo, quero que te

sentes aqui ao meu lado, em companhia desta boa gente, e que sejas

como eu, que sou teu amo e natural senhor. Quero que comas em meu

prato e bebas do copo que eu beber, porque da cavalaria andante pode

se dizer o mesmo que se diz do amor: que iguala todas as coisas.

— Grande honra! — disse Sancho. — Mas garanto a vossa mercê

que, tendo eu de comer, comeria tão bem em pé e sozinho quanto

sentado com um imperador. Ou, para dizer a verdade, saboreio muito

melhor o que como em meu canto sem melindres nem cerimônias, mesmo que seja só pão e cebola, do que os perus de outras mesas onde

me seja obrigado mastigar devagar, beber pouco, limpar-me seguido,

não espirrar nem tossir se tiver vontade, nem fazer outras coisas que a

solidão e a liberdade trazem consigo. Então, meu senhor, peço que

essas honras que vossa mercê quer me conceder por ser adepto e

praticante da cavalaria, sendo eu escudeiro de vossa mercê, sejam substituídas por outras coisas mais cômodas e mais proveitosas para

mim. Mesmo que eu receba essas honras de bom grado, renuncio a

elas desde já até o fim do mundo.

— Sim, mas deves te sentar, pois Deus louva a quem se humilha.

E, pegando-o pelo braço, forçou-o a se sentar perto dele.

Os pastores não entendiam aquele palavrório de escudeiros e de

cavaleiros andantes e não faziam nada além de comer, calar e olhar

seus hóspedes, que, com muito desembaraço e apetite, se

empanturravam com pedaços deste tamanho de carne. Acabada a

comida, estenderam sobre os pelegos grande quantidade de bolotas

doces e meio queijo, mais duro que se fosse feito de argamassa.

Enquanto isso, o copo de chifre não estava ocioso, porque andava em

volta tão seguido — agora cheio, agora vazio, como caçamba de poço

— que com facilidade se esvaziou um odre dos dois que estavam à

vista. Depois que dom Quixote forrou bem o estômago, pegou um

punhado de bolotas e, olhando-o atentamente, tomou a palavra da

seguinte forma:

— Venturosa época e séculos venturosos aqueles a quem os antigos

chamaram de ouro, não porque neles o ouro, que em nossa época de

ferro tanto se aprecia, fosse alcançado sem fadiga alguma, mas porque

então os que nela viviam ignoravam estas duas palavras: teu e meu.

Naquela época santa todas as coisas eram comuns: a ninguém era

necessário, para conseguir seu sustento diário, ter outro trabalho que

levantar a mão e apanhá-lo nas frondosas azinheiras, que

generosamente convidavam com seus frutos doces e maduros. As

fontes límpidas e os rios caudalosos, com abundância magnífica,

ofereciam águas saborosas e transparentes. Nos desvãos das rochas e

no oco das árvores formavam sua república as habilidosas e diligentes

abelhas, oferecendo a qualquer mão, sem interesse algum, a colheita

fértil de seu trabalho dulcíssimo. Os frondosos carvalhos-corticeiros

desprendiam de si, sem outro artifício que o de sua cortesia, suas

cascas largas e leves, com que começaram a se cobrir as casas,

sustentadas sobre estacas rústicas, não mais que para a defesa das

inclemências do céu. Tudo era paz então, tudo amizade, tudo

concórdia: a lâmina pesada e curva do arado ainda não se atrevera a

abrir nem visitar as entranhas piedosas de nossa primeira mãe, porque ela, sem ser forçada, oferecia, por toda a extensão de seu seio imenso e

fértil, o que pudesse saciar, sustentar e deleitar os filhos que a

possuíam.

“Então, sim, as pastorinhas singelas e formosas andavam de vale em

vale e de monte em monte, de tranças ou de cabelos soltos, sem mais

vestes que aquelas que eram necessárias para cobrir honestamente o

que a honestidade quer e sempre quis que se cubra, e seus adornos não

eram os que se usam agora, enaltecidos pela púrpura de Tiro e pela

seda martirizada de tantas formas, mas feitos de algumas folhas verdes

de bardana e hera trançadas, com o que talvez iam tão alinhadas e

luxuosas como vão agora nossas damas da corte, com as estranhas e

extraordinárias invenções que a curiosidade ociosa lhes mostrou.

Então se expressavam singelamente os conceitos amorosos da alma

simples, do mesmo modo e maneira que ela os concebia, sem buscar

rodeio artificioso de palavras para exaltá-los. Não havia a fraude, o

engano nem a malícia se misturando com a verdade e a candura. A

justiça se mantinha em seus próprios termos, sem que ousassem maculá-la nem ofender o favor e o interesse, que agora tanto a

depreciam, envilecem e perseguem. A arbitrariedade ainda não tinha

se assentado na cabeça do juiz, porque então não havia o que julgar

nem quem fosse julgado. Como já disse, as donzelas e a castidade

andavam por onde queriam, sós e desimpedidas, sem medo de que o

atrevimento alheio e a intenção lasciva as desvirtuassem, e sua

perdição nascia de seu desejo e vontade própria. Mas agora, neste

nosso tempo detestável, nenhuma está segura, mesmo que a oculte e

encerre um labirinto como o de Creta, porque ali, pelas frestas ou pelo

ar, com o zelo do maldito galanteio, penetra o contágio amoroso e as

faz mandar às favas todo recato. Assim, com o passar dos tempos e

crescendo mais a malícia, se instituiu a ordem dos cavaleiros andantes,

para defender as donzelas, amparar as viúvas e socorrer os órfãos e os

necessitados.

“Eu sou desta ordem, meus irmãos pastores, a quem agradeço a

atenção e a boa acolhida que fazeis a mim e a meu escudeiro. Por lei

natural todos os que vivem estão obrigados a favorecer os cavaleiros

andantes, mas eu, por saber que vós, sem conhecer essa obrigação, me acolhestes e obsequiastes, devo vos agradecer com toda a boa vontade

possível.”

Nosso cavaleiro disse toda essa longa arenga, que poderia muito

bem dispensar, porque as bolotas que lhe ofereceram o lembraram a

idade de ouro. Os pastores, sem dizer palavra, ficaram embasbacados

e perplexos escutando aquele discurso inútil. Sancho também se

mantinha calado e comia bolotas, visitando com frequência o segundo

odre, que tinham pendurado num carvalho para que o vinho

refrescasse.

A conversa de dom Quixote durou mais que a ceia. No fim, um dos

pastores disse:

— Para que vossa mercê possa dizer com mais propriedade, senhor

cavaleiro andante, que o recebemos com pronta e boa vontade,

queremos lhe dar alegria e distração fazendo com que cante um

companheiro nosso que não demorará muito a chegar. Ele é um moço

muito habilidoso e muito apaixonado, até sabe ler e escrever, e toca

arrabil melhor do que se possa desejar.

Mal o pastor havia acabado de dizer isso, chegou a seus ouvidos o

som do arrabil e dali a pouco surgiu o que o tangia, um rapaz de uns

vinte e dois anos, muito simpático. Seus companheiros perguntaram se

havia jantado; como respondeu que sim, o que tinha feito o

oferecimento disse:

— Então, Antônio, bem podes nos dar o prazer de cantar um pouco,

para que o hóspede que temos veja que também pelas montanhas e

matas há quem entenda de música. Já falamos de tuas boas

habilidades e desejamos que as mostres e não nos deixes passar por

mentirosos. Rogo-te por tua vida que sentes e cantes o romance de

teus amores, que compôs teu tio clérigo, e que na vila tanto agradou.

— Será um prazer — respondeu o rapaz.

E, sem se fazer mais de rogado, sentou-se no toco de uma azinheira

e, afinando seu arrabil, dali a pouco começou a cantar de modo muito

agradável, desta maneira:

antônio

— Eu sei, Olália, que me adoras,

sem que me tenhas dito

nem mesmo com os olhos,

mudas línguas de amoricos.

Porque sei que sabes,

em que me amas me apoio,

pois nunca foi infeliz

amor que foi conhecido.

É bem verdade que às vezes,

Olália, me tenhas dado sinais

que tens a alma de bronze

e o branco peito de granito.

Mas lá entre tuas recusas

e recatados desvios,

talvez a esperança mostre

a barra de seu vestido.

Arrisca-se ao chamariz

minha fé, sem nunca ter podido

nem definhar por enjeitado,

nem crescer por escolhido.

Se o amor é cortesia,

da que tens concluo

que o fim de minhas esperanças

há de ser como imagino.

E se as penas são parte

de fazer um peito benigno,

algumas das que sofri

fortalecem meu partido.

Porque, se reparaste nisso,

mais de uma vez terás visto

que vesti nas segundas

o traje de domingo.

Como o amor e o apuro

andam um mesmo caminho,

o tempo todo a teus olhos

quis me mostrar polido.

Deixo de dançar por tua causa,

nem te falo das músicas

que escutaste fora de hora

e do canto do primeiro galo.

Não falo dos elogios

que fiz de tua beleza,

que, embora verdadeiros,

me fazem ser de algumas malquisto.

Teresa do Berrocal,

eu te elogiando, me disse:

“Há quem pensa que adora um anjo

e acaba adorando um símio,

devido às muitas joias

e aos cabelos postiços,

e às hipócritas belezas,

que ao próprio Amor enganam”.

Desmenti-a e se irritou;

intercedeu por ela seu primo,

desafiou-me, e já sabes

o que nós dois fizemos.

Não te quero de qualquer jeito,

nem te desejo e te sirvo

apenas para amante,

que melhor é meu desígnio.

Amarras tem a Igreja

que são laços de seda;

põe tu o pescoço na canga:

verás como te sigo.

Como não? Desde agora juro

pelo santo mais bendito

de não sair destas serras

senão para capuchinho.a

Com isso o pastor encerrou seu canto; e, mesmo que dom Quixote

lhe pedisse que cantasse mais alguma coisa, Sancho Pança não o

consentiu, porque preferia dormir a ouvir cantorias, e assim disse a

seu amo:

— Vossa mercê bem pode se acomodar logo onde vai passar esta

noite, porque o trabalho que esses bons homens têm todo o dia não permite que passem as noites cantando.

— Já entendi, Sancho — respondeu dom Quixote —, pois me parece

que as visitas ao odre pedem mais os benefícios do sono que os da

música.

— A todos nos cai bem, louvado seja Deus — respondeu Sancho.

— Não nego — replicou dom Quixote —, mas acomoda-te onde

quiseres, que os de minha profissão ficam melhor velando que

dormindo. Em todo caso, Sancho, seria bom que me tratasses de novo

esta orelha, que está me doendo mais que o necessário.

Sancho fez o que ele mandou, mas um dos pastores, vendo a ferida,

disse-lhe que não se preocupasse, que ele poria um remédio que

facilmente a curaria. E, pegando algumas folhas de alecrim, dos

muitos pés que havia por ali, mascou-as e as misturou com um pouco

de sal, aplicando-as na orelha, que foi muito bem vendada.

Assegurou-lhe então que não havia necessidade de outro curativo — e

assim foi, realmente.

a — Yo sé, Olalla, que me adoras,/ puesto que no me lo has dicho/ ni aun con los ojos siquiera,/ mudas lenguas de amoríos.// Porque sé que eres sabida,/ en que me quieres me afirmo,/ que nunca fue desdichado/ amor que fue conocido.// Bien es verdad que tal vez,/ Olalla, me has dado indicio/ que tienes de bronce el alma/ y el blanco pecho de risco.// Más allá entre tus reproches/ y honestísimos desvíos,/ tal vez la esperanza muestra/ la orilla de su vestido.// Abalánzase al señuelo/ mi fe, que nunca ha podido/ ni menguar por no llamado/ ni crecer por escogido.// Si el amor es cortesía,/ de la que tienes colijo/ que el fin de mis esperanzas/ ha de ser cual imagino.// Y si son servicios parte/ de hacer un pecho benigno,/ algunos de los que he hecho/ fortalecen mi partido.// Porque si has mirado en ello,/ más de una vez habrás visto/ que me he vestido en los lunes/ lo que me honraba el domingo.// Como el amor y la gala/ andan un mismo camino,/ en todo tiempo a tus ojos/ quise mostrarme polido.// Dejo el bailar por tu causa,/ ni las músicas te pinto/ que has escuchado a deshoras/ y al canto del gallo primo.// No cuento las alabanzas/ que de tu belleza he dicho,/ que, aunque verdaderas, hacen/ ser yo de algunas malquisto.// Teresa del Berrocal,/ yo alabándote, me dijo:/ “Tal piensa que adora a un ángel/ y viene a adorar a un jimio,// merced a los muchos dijes/ y a los cabellos postizos,/ y a hipócritas hermosuras,/ que engañan al Amor mismo”.// Desmentila y enojose;/ volvió por ella su primo,/ desafiome, y ya sabes,/ lo que yo hice y él hizo.// No te quiero yo a montón,/ ni te pretendo y te sirvo/ por lo de barraganía,/ que más bueno es mi designio.// Coyundas tiene la Iglesia/ que son lazadas de sirgo;/ pon tú el cuello en la gamella:/ verás cómo pongo el mío.// Donde no, desde aquí juro/ por el santo más bendito/ de no salir de estas sierras/ sino para capuchino.

 

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