Dom Quixote

Miguel de Cervantes · Capítulo 51 de 137

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Dom Quixote

Capítulo XLIII

onde se conta a agradável história

do moço das mulas, com outras coisas

estranhas acontecidas na estalagem

— Sou marinheiro de amor

e em seu mar profundo

navego sem esperança

de chegar a porto algum.

Vou seguindo uma estrela

que de longe vislumbro,

mais bela e resplandecente

do que quantas viu Polinuro.

Eu não sei aonde me guia

e, assim, navego confuso,

a alma atenta a olhá-la,

amando-a esquecida de si.

Recatos impertinentes,

honestidade fora de uso,

são nuvens que a encobrem

quando mais procuro vê-la.

Oh, clara e brilhante estrela

em cuja luz me consumo!

No instante em que te apagares,

o instante será de minha morte.a

Nesse ponto da canção, Doroteia achou que seria injusto que Clara

deixasse de ouvir voz tão bela e então, tocando-a, acordou-a e disse:

— Perdoai-me, menina, mas vos acordo para que tenhais o prazer de

ouvir a melhor voz que talvez ouvireis na vida.

Clara despertou toda sonolenta — no começo não entendeu o que

Doroteia dizia e perguntou o que se passava. Quando Doroteia falou

de novo, Clara ficou atenta, mas, mal ouviu dois dos versos que o

moço continuava cantando, foi tomada de um tremor tão estranho

como se tivesse um grave acesso de febre. Abraçando-se fortemente a

Doroteia, disse:

— Ai, senhora de minha alma e de minha vida! Por que me

acordastes? O maior bem que o destino podia me dar agora seria me

fechar os olhos e os ouvidos, para eu não ver nem ouvir esse músico

infeliz.

— Que dizeis, menina? Olhai que me falaram que o cantor é um dos

moços das mulas.

— Não é, não: é senhor de vassalos — respondeu Clara —, e meu

coração é tão vassalo dele que, se o quiser, com certeza lhe será fiel

eternamente.

Doroteia ficou admirada com as palavras emocionadas da moça,

parecendo-lhe que ultrapassavam em muito o discernimento que seus

poucos anos prometiam, e então lhe disse:

— Falais de um modo, senhora Clara, que não posso vos entender.

Vamos, explicai-me melhor o que é isso que dissestes sobre coração e

vassalos e sobre esse músico cuja voz vos aflige tanto… Mas não

digais nada por ora, porque não quero, por vos prestar atenção,

perder o prazer de ouvir o cantor, que me parece que volta a seu canto com novos versos e nova melodia.

— Assim seja, senhora — respondeu Clara.

E, para não escutar, tapou os ouvidos com ambas as mãos; isso

também surpreendeu Doroteia, mas que, atenta ao que se cantava, viu

que se prosseguia desta maneira:

— Doce esperança minha,

que rompendo impossíveis e brenhas

segues firme o caminho

que tu mesma inventas e adornas:

não esmoreças ao te ver

a cada passo mais perto da morte.

Preguiçosos não alcançam

honrados triunfos nem vitória alguma,

nem podem ser felizes

os que, não desafiando a sorte,

entregam desvalidos

ao ócio manso todos os sentidos.

Que o amor venda caro suas glórias,

tem toda razão e é trato justo,

pois não há prenda mais rica

que a medida por seu gosto,

e é coisa sabida

que não agrada o que pouco custa.

Persistências amorosas

talvez alcancem coisas impossíveis;

e, assim, com as minhas persigo

do amor as mais difíceis,

mas nem por isso receio

não ter o céu aqui da terra.b

Aqui a voz parou e aqui começaram os novos soluços de Clara;

canto tão suave e choro tão triste acendiam a curiosidade de Doroteia,

que, desejando saber a causa deles, perguntou mais uma vez o que

Clara tentara dizer antes. Então, com medo de que Lucinda a

escutasse, abraçou Doroteia fortemente, pôs a boca perto de seu

ouvido e disse, certa de que não seria ouvida por mais ninguém:

— Este que canta, minha senhora, é filho de um cavaleiro natural do reino de Aragão, senhor de dois domínios, que morava em frente à

casa de meu pai na corte. Embora meu pai mantivesse as janelas com

cortinas enceradas no inverno e gelosias no verão, não sei como esse

cavaleiro, que andava estudando, me viu; talvez tenha sido na igreja

ou em outra parte. Mas, enfim, ele se apaixonou por mim e me

comunicou isso das janelas de sua casa com tantos sinais e tantas

lágrimas que fui obrigada a acreditar e, mais ainda, a amá-lo, sem

saber o que queria de mim. Entre os sinais que me fazia, um era juntar

as mãos, dando a entender que se casaria comigo, e, embora eu me

alegrasse muito com a ideia, sozinha, sem mãe, não sabia a quem

falar; então deixei as coisas assim, sem lhe conceder favor algum, a

não ser, quando nossos pais não estavam em casa, levantar um pouco

a cortina ou a gelosia para que me visse toda, o que o entusiasmava

tanto que parecia ficar louco.

“Nisso chegou o tempo da partida de meu pai; ele ficou sabendo,

mas não por mim, pois nunca pude lhe dizer. Caiu doente, acho que

de tristeza, e assim, no dia em que fomos embora, não pude vê-lo para

me despedir nem mesmo com os olhos; mas, depois de dois dias de

viagem, ao entrar numa pousada, numa aldeia a uma jornada daqui, eu o vi à porta, vestido de moço das mulas, tão autêntico que, se eu

não o trouxesse gravado em minha alma, seria impossível reconhecê-

lo. Eu o reconheci, surpreendi-me e me alegrei; ele me olhou às

escondidas de meu pai, de quem sempre se oculta quando cruza por

mim pelos caminhos e pousadas em que chegamos; e como sei quem é

e penso que por me amar vem a pé, com tanta dificuldade, morro de

aflição, e onde ele põe os pés, eu ponho os olhos. Não sei com que

intenção vem nem como pôde fugir de seu pai, que o ama

extraordinariamente, porque não tem outro herdeiro e porque ele o

merece, como vereis vossa mercê quando o conhecer. E vos digo mais:

tudo aquilo que canta, tira da própria cabeça, pois ouvi dizer que é

um estudante muito bom e poeta. Mais ainda: cada vez que o vejo ou

o escuto cantar, tremo toda e me assusto, medrosa de que meu pai o

reconheça e descubra nossos desejos. Nunca lhe disse uma palavra,

mas mesmo assim o amo de um modo que não poderei viver sem ele.

É tudo o que vos posso dizer desse músico, minha senhora, cuja voz

vos agradou tanto: com certeza apenas por ela podeis ver que não é um criado, como dissestes, mas senhor de corações e domínios, como

eu vos disse.

— Não digais mais nada, senhora Clara — disse Doroteia nesse

ponto, beijando-a mil vezes —, não digais mais nada, insisto, e esperai

que chegue o novo dia, pois, com a graça de Deus, espero encaminhar

vossos negócios de maneira que tenham o desfecho feliz que começo

tão virtuoso merece.

— Ai, senhora! — disse dona Clara. — Que desfecho se pode

esperar, se o pai dele é tão importante e tão rico que pensará que eu

não sirvo nem de criada para seu filho, quanto mais para esposa? E

me casar às escondidas de meu pai? Não farei isso por nada. Eu

gostaria apenas que esse moço fosse embora e me esquecesse: não o

vendo e com a grande distância que haverá entre nós, talvez se

abrande a tristeza que sinto agora. Mas sei que essa solução que

imagino não será de grande proveito. Não sei que diabos foi isso, nem

por onde penetrou o amor que sinto, nós sendo tão moços; na

verdade, acho que somos da mesma idade, e eu nem tenho dezesseis

anos: vou fazê-los no próximo dia de São Miguel, foi o que disse meu

pai.

Doroteia não pôde deixar de rir ouvindo dona Clara falar como uma

menina e disse:

— Vamos descansar, senhora, o pouco que resta da noite; com a

graça de Deus, amanhã tudo correrá bem, se eu não meter os pés pelas

mãos.

Depois disso, elas se aquietaram, e havia um grande silêncio em toda

a estalagem. Apenas a filha do estalajadeiro e Maritornes, sua criada,

não dormiam, pois, como conheciam os caprichos de que pecava dom

Quixote e como sabiam que estava lá fora montando guarda, de

armadura e a cavalo, resolveram aprontar alguma brincadeira, ou pelo

menos passar o tempo escutando seus disparates.

O caso é que não havia uma janela em toda a estalagem que desse

para o campo, apenas um buraco na parede de um palheiro, por onde

jogavam a palha fora. Diante desse buraco se puseram as duas

semidonzelas, que viram que dom Quixote estava a cavalo, recostado

em seu chuço, dando de quando em quando suspiros tão profundos e

sentidos que parecia que arrancava a alma com cada um deles; e também ouviram que dizia com voz branda, delicada e amorosa:

— Oh, minha senhora Dulcineia del Toboso, perfeição de toda

formosura, apogeu e meta da inteligência, tesouro da mais fina graça,

depósito da virtude e, ainda, modelo de tudo que é benéfico, honesto e

prazeroso em todo o mundo! E o que estarás fazendo agora, minha

senhora? Por acaso pensarás em teu cativo cavaleiro, que, só para te

servir, a tantos perigos se expôs? Dá-me notícias dela, oh, astro das

três faces! Talvez, com inveja da sua, estejas agora olhando-a passear

por alguma galeria de seus palácios suntuosos ou debruçada em

alguma sacada, considerando como, ressalvada sua virtude e

grandeza, deve amansar a tormenta que por ela este meu pobre

coração padece, que glória deve proporcionar às minhas penas, que

sossego dar às minhas aflições e, finalmente, que vida a minha morte e

que prêmio aos meus serviços. E tu, sol, que já deves estar selando

teus cavalos para bem cedo ires ver minha senhora: logo que a

avistares, eu te suplico que a saúdes por mim; mas cuidado: ao vê-la e

saudá-la, não a beijes no rosto com tua luz, que terei mais ciúmes de ti

do que tu tiveste daquela ágil ingrata que te fez suar e correr pelas planícies da Tessália ou pelas margens do Peneu, pois não me lembro

bem por onde correste, ciumento e apaixonado.

Nesse ponto do queixoso discurso de dom Quixote, a filha do

estalajadeiro começou a dizer:

— Psiu, meu senhor! Venha cá vossa mercê, por favor.

A esses chamados, dom Quixote virou a cabeça e viu à luz da lua,

que então brilhava com toda intensidade, o buraco que lhe pareceu

uma janela, e com grades douradas ainda por cima, como convém às

janelas de castelos tão ricos como ele pensava que era aquela

estalagem. Como da outra vez, no mesmo instante representou o

quadro em sua imaginação desatinada: a linda donzela, filha da

senhora daquele castelo, vencida por seu amor, vinha provocá-lo de

novo, e com esse pensamento, para não se mostrar descortês e mal-

agradecido, virou as rédeas de Rocinante e se aproximou do palheiro.

Mal viu as duas moças, disse:

— Sinto muito, formosa senhora, que tenhais dirigido vossos

amorosos pensamentos a quem não pode corresponder conforme merece vosso grande mérito e graça, pelo que não deveis culpar este

miserável cavaleiro andante, a quem o amor tem impossibilitado de

poder entregar sua vontade a outra que não àquela que no instante em

que seus olhos a viram a fez senhora absoluta de sua alma. Perdoai-

me, boa senhora: recolhei-vos a vosso aposento e não queirais,

demonstrando mais vossos desejos, que eu me mostre mais mal-

agradecido; e se, com o amor que me tendes, achais em mim outra

coisa que possa vos satisfazer desde que não seja o próprio amor, pedi,

que eu vos juro por aquela ausente e doce inimiga minha que vos darei

imediatamente, mesmo que me pedísseis uma mecha dos cabelos da

Medusa, que eram todos cobras, ou até os raios do sol encerrados

numa redoma.

— Minha senhora não precisa de nada disso, senhor cavaleiro —

disse Maritornes, nesse ponto.

— Então, sábia dama, o que necessita vossa senhora? — respondeu

dom Quixote.

— Apenas uma de vossas formosas mãos — disse Maritornes —,

para poder aliviar com ela o grande desejo que a trouxe a este buraco, com tanto perigo para sua honra, que, se a ouvisse, seu pai faria tal

picadinho dela que o maior pedaço a sobrar seria a orelha.

— Essa eu gostaria de ver! — respondeu dom Quixote. — Mas ele

não fará nada disso, se não quiser encontrar o mais desastrado fim

que um pai encontrou no mundo, por ter posto as mãos nos delicados

membros de sua filha apaixonada.

Maritornes achou que sem dúvida dom Quixote daria a mão que

elas pediam e, tendo na cabeça o que iria fazer, saiu do buraco e

desceu à estrebaria, onde pegou o cabresto do jumento de Sancho

Pança e voltou com rapidez, a tempo de ver que dom Quixote havia

ficado de pé sobre a sela de Rocinante para alcançar a janela de grades

douradas onde imaginava estar a donzela ferida. Ao dar a mão, ele

disse:

— Tomai esta mão, senhora, ou, digamos melhor, este carrasco dos

malfeitores do mundo. Tomai esta mão, repito, que não foi tocada por

mão de mulher nenhuma, nem mesmo pela mão daquela que tem

posse completa de todo o meu corpo. Não vos dou esta mão para que a beijeis, mas para que olheis a contextura de seus nervos, a conexão

de seus músculos, a espessura e o comprimento de suas veias: por tudo

isso deduzireis qual deve ser a força do braço que possui tal mão.

— Já veremos — disse Maritornes.

Fazendo um nó corrediço no cabresto, prendeu a munheca de dom

Quixote e, descendo de novo, amarrou muito fortemente a outra

ponta no ferrolho da porta do palheiro. Dom Quixote, que sentiu a

aspereza da corda no pulso, disse:

— Vede bem, senhora, que mais parecem sevícias que carícias: não a

trateis tão mal, pois ela não tem culpa do mal que meu coração vos

causa, nem fica bem que vingueis em parte tão pequena o todo de

vossa ira. Olhai que quem quer bem não se vinga tão mal.

Mas ninguém mais escutava essas palavras de dom Quixote, porque,

logo que Maritornes o amarrou, ela e a outra foram embora,

morrendo de rir, deixando-o preso de modo que lhe foi impossível se

soltar.

Como se disse, ele estava de pé sobre Rocinante, o braço todo

metido no buraco e amarrado pelo pulso ao ferrolho da porta, cheio

de medo que Rocinante se afastasse para lá ou para cá, pois então ficaria pendurado; assim, não ousava fazer movimento algum, mesmo

que da paciência e mansidão de Rocinante bem poderia se esperar que

ficasse sem se mexer por um século inteiro.

Enfim, vendo-se preso e abandonado pelas damas, dom Quixote

começou a imaginar que tudo aquilo eram obras de magia, como da

outra vez, quando naquele mesmo castelo fora moído a pau pelo

mouro encantado do tropeiro; e amaldiçoava entre dentes sua falta de

sensatez e compreensão, pois, tendo se saído tão mal na primeira vez

naquele castelo, havia se arriscado a entrar nele a segunda, sendo

norma de cavaleiros andantes que, quando entraram numa aventura e

não se saíram bem, é sinal de que ela não está reservada para eles, mas

para outros — assim, não têm necessidade de tentar uma segunda vez.

Enquanto isso, puxava o braço, para ver se podia se soltar, mas ele

estava bem seguro, tanto que todas as suas tentativas foram em vão. É

bem verdade que puxava com cuidado, para que Rocinante não se

mexesse; e, embora ele quisesse se sentar na sela, só podia permanecer

de pé ou arrancar a mão.

Então começou a desejar a espada de Amadis: contra ela não tinha

força encantamento algum; então começou a amaldiçoar sua sorte;

então começou a exagerar a falta que faria no mundo sua presença

durante o tempo em que estivesse encantado, pois sem dúvida

acreditava que o estava; então começou a se lembrar de novo de sua

querida Dulcineia del Toboso; então começou a chamar seu bom

escudeiro Sancho Pança, que, sepultado no sono e estendido sobre a

albarda de seu jumento, naquele instante não se lembrava nem da mãe

que o havia parido; então começou a chamar os magos Lirgandeu e

Alquife para que o ajudassem;1 então começou a invocar sua boa

amiga Urganda para que o socorresse; então, finalmente, ali a manhã

o encontrou tão desesperado e confuso que bramava como um touro,

porque não esperava que com o dia se resolvesse sua desventura, pois,

como estava encantado, a considerava eterna: prova disso era que

Rocinante não se mexia nem pouco nem muito. Pensava que daquele

jeito, sem comer nem beber nem dormir, ficariam ele e seu cavalo até

que aquela influência maligna das estrelas passasse ou até que outro

mago mais poderoso o desencantasse.

Mas se enganava redondamente, porque, mal começou a amanhecer,

chegaram à estalagem quatro homens a cavalo, bem vestidos e

equipados, com suas espingardas sobre os arções. Bateram com força

na porta da estalagem, que ainda estava fechada; sem deixar de

montar guarda mesmo onde estava, dom Quixote viu tudo e disse, em

voz alta e arrogante:

— Cavaleiros ou escudeiros, ou quem quer que sejais, não tendes por

que bater às portas deste castelo, pois é evidente que a essas horas os

que estão aí dentro dormem ou não têm o costume de abrir a fortaleza

até que o sol se estenda por todo o chão. Afastai-vos e esperai que o

dia clareie, e então veremos se será justo ou não que vos recebam.

— Que diabo de fortaleza ou castelo é este — disse um —, para nos

obrigar a cumprir essas cerimônias? Se sois o estalajadeiro, ordenai

que nos abram, pois somos viajantes e só queremos dar cevada a

nossos animais e seguir em frente, porque temos pressa.

— Ora, cavaleiros, pareço ter cara de estalajadeiro? — respondeu

dom Quixote.

— Não sei do que tendes cara — respondeu o outro —, mas sei que

dizeis um absurdo ao chamar esta estalagem de castelo.

— É castelo — replicou dom Quixote —, e um dos melhores de toda

esta província, e aí dentro há gente que teve cetro na mão e coroa na

cabeça.

— Seria melhor se fosse o contrário: o cetro na cabeça e a coroa na

mão — disse o viajante. — E assim deve ser, se por acaso estiver aí

uma companhia de atores, que muitas vezes usam coroas e cetros

como dizeis; porque não acredito que se alojem pessoas dignas de

coroa e cetro numa estalagem tão pequena e tão silenciosa como esta.

— Sabeis pouco do mundo — replicou dom Quixote —, pois

ignorais os casos que costumam acontecer na cavalaria andante.

Cansaram-se os companheiros da conversa que o perguntador

mantinha com dom Quixote e então trataram de bater na porta com

grande fúria; foi assim que o estalajadeiro acordou — e mais todos os

que estavam ali — e se levantou para perguntar quem chamava.

Aconteceu, nesse meio-tempo, que um dos cavalos dos quatro que

batiam se aproximou para cheirar Rocinante, que, melancólico e

triste, com as orelhas caídas, sem se mexer, sustentava seu empertigado senhor; mas como enfim era de carne e osso, embora

parecesse de pau, fraquejou e se virou para cheirar aquele que chegava

para lhe fazer carícias, e assim, mal se moveu um pouco, escaparam os

pés de dom Quixote, que, resvalando na sela, dariam com ele no chão

se não ficasse pendurado pela munheca, coisa que lhe causou tanta

dor que pensou que lhe cortavam o pulso ou lhe arrancavam o braço.

Porque ele ficou tão perto do chão que com as pontas dos pés beijava

a terra, o que era pior, pois, como sentia que faltava pouco para se

firmar, se esforçava e se esticava o quanto podia, exatamente como os

que são torturados na polia, quando, pendurados, ficam pertinho do

chão, no “toca, não toca”: eles mesmos são a causa do aumento da

dor, no esforço de se esticar, enganados pela ilusão de que tocariam o

chão caso se esticassem um pouco mais.

a — Marinero soy de amor/ y en su piélago profundo/ navego sin esperanza/ de llegar a puerto alguno.// Siguiendo voy a una estrella/ que desde lejos descubro,/ más bella y resplandeciente/ que cuantas vio Palinuro.// Yo no sé adónde me guía/ e, así, navego confuso,/ el alma a mirarla atenta,/ cuidadosa y con descuido.// Recatos impertinentes,/ honestidad contra el uso,/ son nubes que me la encubren/ cuando más verla procuro.// ¡Oh clara y luciente estrella/ en cuya lumbre me apuro!/ Al punto que te me encubras,/ será de mi muerte el punto.

b — Dulce esperanza mía,/ que rompiendo imposibles y malezas/ sigues firme la vía/ que tú misma te finges y aderezas:/ no te desmaye el verte/ a cada paso junto al de tu muerte.// No alcanzan perezosos/ honrados triunfos ni victoria alguna,/ ni pueden ser dichosos/ los que, no contrastando a la fortuna,/ entregan desvalidos/ al ocio blando todos los sentidos.// Que amor sus glorias venda/ caras, es gran razón y es trato justo,/ pues no hay más rica prenda/ que la que se quilata por su gusto,/ y es cosa manifiesta/ que no es de estima lo que poco cuesta.// Amorosas porfías/ tal vez alcanzan imposibles cosas;/ y, así, aunque con las mías/ sigo de amor las más dificultosas,/ no por eso recelo/ de no alcanzar desde la tierra el cielo.

 

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