Dom Quixote

Miguel de Cervantes · Capítulo 92 de 137

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Dom Quixote

Capítulo XXXI

 

que trata de muitas e grandes coisas

Era extrema a alegria que Sancho sentia ao se ver, em sua opinião, tão

íntimo da duquesa, porque imaginava que havia de encontrar em seu

castelo o que encontrara na casa de dom Diego e na de Basílio. Sempre

um aficionado pela boa vida, agarrava a oportunidade pelos cabelos

toda vez que ela se oferecia.

A história conta, portanto, que, antes de chegarem à casa de campo

ou castelo, o duque se adiantou e deu ordens a seus criados sobre

como deviam tratar dom Quixote. Quando o cavaleiro chegou com a

duquesa às portas do castelo, no mesmo instante surgiram dois lacaios

ou cavalariços vestidos até os pés com umas roupas que chamam de

roupão, de finíssimo cetim púrpura, e, tomando dom Quixote nos

braços antes que ele se desse conta, lhe disseram:

— Vá vossa grandeza apear minha senhora, a duquesa.

Dom Quixote o fez, e houve então grande troca de cortesias entre os

dois, mas na verdade a duquesa venceu a teima e não quis desmontar

do palafrém a não ser nos braços do duque, dizendo que não se

considerava digna de dar tão inútil trabalho a tão grande cavaleiro.

Por fim o duque veio apeá-la. Ao entrarem num grande pátio,

chegaram duas formosas donzelas e lançaram sobre os ombros de dom

Quixote um manto de escarlate finíssimo, e num instante todas as

varandas do pátio se encheram de criados e criadas daqueles senhores,

dizendo em grandes brados:

— Seja bem-vindo a flor e a nata dos cavaleiros andantes!

E todos ou a maioria derramaram frascos de água perfumada sobre

dom Quixote e sobre os duques, do que dom Quixote muito se

admirava. E aquele foi o primeiro dia em que realmente esteve convencido de que era um cavaleiro andante de verdade, não a

fantasia de um, ao se ver tratar do mesmo modo que tratavam os ditos

cavaleiros nos séculos passados, como havia lido.

Sancho, abandonando o burro, se colou na duquesa e entrou no

castelo; mas, remoendo a consciência por ter deixado o bicho sozinho, se aproximou de uma ama venerável, que tinha vindo receber a

duquesa com outras criadas, e lhe disse em voz baixa:

— Senhora González, ou seja lá como for a graça de vossa mercê…

— Eu me chamo dona Rodríguez de Grijalba — respondeu a ama.

— Que é que mandais, irmão?

Ao que Sancho respondeu:

— Queria que a senhora me fizesse a mercê de ir até a entrada do

castelo, onde encontrará meu burro, um ruço: pode vossa mercê levá-

lo ou mandar levá-lo à cavalariça, porque o pobrezinho é um tanto

medroso e não gostará de jeito nenhum de ficar sozinho?

— Se o amo for tão ladino como o criado — respondeu a ama —,

estamos bem arrumadas! Andai, meu irmão, que um raio vos parta ou

a pessoa que vos trouxe, e tomai conta de vosso jumento, que as amas

desta casa não estamos acostumadas a semelhantes serviços.

— Ora, ora — respondeu Sancho —, bem que ouvi meu senhor, que

é o rei das histórias, contando aquela de Lancelot,

quando veio da Bretanha,

damas tratavam dele,

e amas de seu pangaré,

mas, cá para nós, em se tratando de meu burro, de jeito nenhum eu o

trocaria pelo pangaré do senhor Lancelot.

— Meu irmão, se sois bufão — replicou a ama —, guardai vossas

graças para quem gosta delas e vos pague, que de mim só podereis

receber uma figa.

— Figa ou figo — respondeu Sancho —, estará caindo de madura,

mesmo que seja mais nova que vossa mercê.

— Filho da puta — disse a ama, pegando fogo de raiva —, se eu sou

velha ou não, a Deus prestarei contas, não a vós, velhaco

empanturrado de alho.

E disse isso em voz tão alta que a duquesa ouviu e, virando-se e

vendo a ama tão agitada e com os olhos inflamados, perguntou com

quem brigava.

— Com este bom homem aqui — respondeu a ama —, que me pediu

encarecidamente que vá levar à cavalariça um burro dele que está na

entrada do castelo, dizendo-me que assim fizeram umas damas que cuidaram de um tal de Lancelot e umas criadas do pangaré dele. Além

do mais, para coroar a coisa, chamou-me de velha.

— Isso sim eu tomaria por ofensa — respondeu a duquesa —, mais

que qualquer outra.

E, para Sancho, disse:

— Reparai, meu amigo Sancho, que dona Rodríguez é muito moça e

usa aquelas toucas mais por costume e devido a sua autoridade que

por velhice.

— Que a minha seja desgraçada — respondeu Sancho — se quis

ofender: só falei porque é tão grande o carinho que tenho por meu

jumento que me pareceu que não poderia encomendá-lo a pessoa mais

caritativa que à senhora dona Rodríguez.

Dom Quixote, que ouvia tudo, disse a ele:

— Que conversas são estas, Sancho, neste lugar?

— Senhor — respondeu Sancho —, cada um deve falar de suas

coisas onde quer que esteja: aqui me lembrei de meu burro e aqui falei

dele; se me lembrasse na cavalariça, lá falaria.

Então o duque interveio:

— Sancho tem toda a razão, não há motivo para culpá-lo. A ração

do burro será o que ele pediu a Deus: não se preocupe, Sancho, que

vão tratá-lo como a sua própria pessoa.

Depois dessa conversa, agradável para todos menos para dom

Quixote, chegaram ao alto da escada e levaram o cavaleiro a uma sala

adornada com brocados e sedas bordadas com ouro. Seis aias tiraram

a armadura dele e serviram de pajens, todas instruídas e avisadas pelo

duque e pela duquesa sobre o que haviam de fazer e de como deviam

tratar dom Quixote para que visse e pensasse que o tratavam como

cavaleiro andante. Dom Quixote, sem a armadura, ficou em seus

calções apertados e em seu gibão de camurça, seco, alto, teso, as

bochechas tão chupadas que se beijavam por dentro: figura que teria

feito as aias arrebentar de riso, se não tratassem de dissimular, o que

foi justamente uma das ordens que seus senhores haviam dado.

Pediram-lhe que se deixasse despir para lhe vestirem uma camisa,

mas ele não consentiu de jeito nenhum, dizendo que o recato parecia

tão bom nos cavaleiros como a valentia. Disse porém que dessem a camisa a Sancho e, trancando-se com ele num quarto onde havia um

lindo leito, se despiu e vestiu a camisa. A sós com Sancho, disse:

— Diz-me, bufão de hoje e bobo de ontem: parece-te bem insultar

uma ama tão venerável e tão digna de respeito como dona Rodríguez?

Que hora era aquela para te lembrares do burro? Que duque e

duquesa são esses para deixar maltratar os animais, quando tratam

tão elegantemente a seus donos? Pelo amor de Deus, Sancho,

comporta-te, e não te mostres muito, para que não se deem conta de

que és feito de estopa camponesa. Olha, pecador miserável, tanto mais

é considerado o senhor quanto mais honrados e bem-nascidos são seus

criados, e que uma das maiores vantagens que os príncipes levam

sobre os demais homens é que se servem de criados tão nobres quanto

eles.1 Pobre de mim, não percebes, desgraçado, que se veem que tu és

um camponês grosseiro ou um mentecapto gracejador, pensarão que

eu sou algum charlatão ou embusteiro? Não, não, meu amigo Sancho:

foge, foge desses inconvenientes, pois quem anda tagarela e gracioso

no primeiro tropeço cai feito bufão sem graça. Trava a língua, mede e rumina as palavras antes que te saiam da boca, e repara que, com a

ajuda de Deus e o valor de meu braço, chegamos aonde haveremos de

sair enriquecidos como nunca em fama e bens.

Sancho prometeu com toda sinceridade fechar a boca ou morder a

língua antes de falar uma palavra que não fosse muito apropriada e

bem pesada, como ele ordenava, e que não se preocupasse mais com

isso, que por ele nunca descobririam quem eles eram.

Dom Quixote se vestiu, pôs seu talim com a espada, jogou nas costas

o manto de escarlate e meteu um gorro de cetim verde que as aias lhe

deram. Com esses adornos, foi para a sala grande, onde encontrou as

aias em duas filas, o mesmo número de um lado como do outro, todas

com os acessórios para que ele lavasse as mãos, o que foi feito com

muitas reverências cerimoniosas.

Depois chegaram doze pajens, com o mordomo, para levá-lo para

jantar, pois os anfitriões já o aguardavam. Os pajens o rodearam e,

com pompa e majestade, o levaram à outra sala, onde estava posta

uma linda mesa para apenas quatro pessoas. A duquesa e o duque

foram até a porta da sala recebê-lo, acompanhados por um eclesiástico

muito circunspecto, desses que governam as casas dos nobres — desses que, como não nasceram nobres, não conseguem ensinar como devem

ser os que o são; desses que querem que a grandeza dos grandes seja

medida pela estreiteza de suas almas; desses que, querendo mostrar

aos que eles governam como ser comedidos, fazem-nos miseráveis.

Desses, enfim, digo que devia ser o circunspecto religioso que foi com

os duques receber dom Quixote. Fizeram mil cumprimentos corteses e,

então, ladeando dom Quixote, foram se sentar à mesa.

O duque convidou dom Quixote a ocupar a cabeceira da mesa; ele

recusou, mas a insistência do duque foi tanta que teve de ceder. O

religioso se sentou a sua frente, e o duque e a duquesa, aos lados.

Sancho assistia a tudo, pasmo de admiração com a honra que

aqueles nobres faziam a seu senhor; depois de ver todas aquelas

formalidades e súplicas entre o duque e dom Quixote, para fazê-lo

sentar à cabeceira da mesa, disse:

— Se vossas mercês me dão licença, contarei uma história que

aconteceu em meu povoado sobre esse negócio de se sentar.

Mal Sancho disse isso, dom Quixote tremeu, acreditando sem dúvida alguma que havia de dizer alguma asneira. Sancho olhou-o e,

entendendo tudo, disse:

— Não se preocupe, meu senhor, que não vou perder as estribeiras

nem dizer coisas que não caiam bem, pois não me esqueci dos

conselhos que vossa mercê me deu sobre falar muito ou pouco, bem

ou mal.

— Eu não me lembro de nada, Sancho — respondeu dom Quixote.

— Diz o que quiseres, mas diz logo.

— Bem, o que eu gostaria de dizer — disse Sancho — é tão

verdadeiro que meu senhor dom Quixote, que está presente, não me

deixará mentir.

— Por mim, Sancho — replicou dom Quixote —, podes mentir à

vontade, que eu não vou te pegar pela palavra, mas vê o que vai dizer.

— Tenho tão visto e revisto que já estou vesgo.

— Seria melhor — disse dom Quixote — que vossas grandezas

mandassem tirar daqui este tolo, que dirá mil despropósitos.

— Pela vida do duque — disse a duquesa —, não vão afastar Sancho

de mim nem um instante: gosto muito dele, porque sei que é homem

brilhante.

— Brilhantes dias viva Vossa Santidade pelo bom conceito que tem

de mim — disse Sancho —, embora eu não o mereça. E a história que

gostaria de contar é esta: um fidalgo de meu povoado, muito rico e

importante, porque vinha dos Álamos de Medina del Campo, que

casou com dona Mencía de Quiñones, que era filha de dom Alonso de

Marañon, Cavaleiro da Ordem de Santiago, que se afogou no desastre

da Herradura,2 por causa de quem houve aquela pendência há anos

em nossa aldeia, em que, pelo que sei, o senhor dom Quixote estava

envolvido, de onde saiu ferido Tomasillo, o Travesso, filho de

Balbastro, o Ferreiro… Não é verdade isso tudo, senhor nosso amo?

Diga-o por sua vida, para que estes senhores não me tenham por um

tagarela mentiroso.

— Até agora — disse o religioso — eu o tenho mais por tagarela que

por mentiroso, mas daqui por diante não sei pelo que o terei.

— Tu dás tantos testemunhos, Sancho, e tantos detalhes, que não

posso deixar de dizer que deves dizer a verdade. Vai em frente e

encurta a história, porque levas jeito de não acabar em dois dias.

— Não, não deve encurtá-la — disse a duquesa —, se quer me

agradar. Pelo contrário, deve contar da maneira que sabe, mesmo que

não acabe em seis dias, pois, se forem tantos, serão para mim os

melhores que passei em minha vida.

— Como ia dizendo, meus senhores — prosseguiu Sancho —, esse

tal fidalgo, que eu conheço como as palmas de minhas mãos, porque

minha casa fica a menos de um tiro de balestra da dele, convidou um

camponês pobre mas honrado…

— Adiante, irmão — disse o religioso nessas alturas —, pois levais

jeito de que não vais acabar até o fim do mundo.

— Acabarei bem antes disso, se Deus quiser — respondeu Sancho. —

Bem, digo que quando o camponês chegou à casa do dito fidalgo

convidador, que bom pouso tenha sua alma, pois já está morto, e pelo

que dizem morreu como um anjo, pois eu não estava presente, porque

havia ido naquele tempo para a ceifa em Tembleque…

— Por nossas vidas, meu filho, voltai logo de Tembleque, e acabai

vossa história sem enterrar o fidalgo, se não quiserdes celebrar novos

funerais aqui mesmo.

— Bem — replicou Sancho —, o caso foi que, estando os dois para

se sentar à mesa… ah, até parece que os vejo agora, melhor que

nunca…

Os duques se divertiam muito com o desgosto que causavam no bom

religioso as pausas e digressões com que Sancho contava sua história,

e dom Quixote se consumia em cólera e raiva.

— Mas, como ia dizendo — disse Sancho —, estando os dois para se

sentar à mesa, o camponês teimava com o fidalgo para que sentasse à

cabeceira, e o fidalgo teimava também para que o camponês sentasse à

cabeceira, porque em sua casa devia se fazer as coisas como ele

mandava. Mas o camponês, que se achava cortês e bem-educado,

jamais quis, até que o fidalgo, melindrado, botou ambas as mãos

sobre os ombros dele e o fez sentar a força, dizendo: “Sentai-vos, sua

besta, que onde quer que eu me sente será vossa cabeceira”. Esta é a

história, e, pensando bem, não acho que a contei fora de propósito.

Dom Quixote ficou de mil cores, que se mostravam matizando o

moreno da pele. Os duques dissimularam o riso, para que dom Quixote não acabasse de se envergonhar de vez, tendo entendido a

malícia de Sancho; e, para mudar de conversa e fazer com que Sancho

não prosseguisse com outros disparates, a duquesa perguntou a dom

Quixote que notícias tinha da senhora Dulcineia e se havia lhe

enviado por aqueles dias alguns presentes de gigantes ou vilões, pois

não podia ter deixado de vencer muitos. Ao que o cavaleiro

respondeu:

— Cara senhora, minhas desgraças, embora tenham tido princípio,

nunca terão fim. Venci gigantes e enviei velhacos e vilões a ela, mas

onde haveriam de encontrá-la, se está encantada e transformada na

mais feia camponesa que se possa imaginar?

— Não sei — disse Sancho —, a mim parece a mais formosa criatura

do mundo. Bem sei que, pelo menos na rapidez e no saltar, nem um

saltimbanco leva vantagem sobre ela. Juro, senhora duquesa, ela salta

do chão para cima da burrinha como se fosse um gato.

— Então a viste encantada, Sancho? — perguntou o duque.

— E como a vi! — respondeu Sancho. — Com os diabos, não fui eu

quem primeiro se deu conta do encantatório? Está tão encantada

como meu pai!

O religioso, que ouviu falar de gigantes, vilões e encantamentos, por

fim compreendeu que aquele devia ser dom Quixote de la Mancha,

cuja história o duque tinha o costume de ler, e ele o tinha repreendido

muitas vezes, dizendo que era absurdo ler tais absurdos; e, percebendo

ser verdade o que suspeitava, muito encolerizado, falando com o

duque, disse:

— Meu senhor, vossa excelência tem de prestar contas a Nosso

Senhor do que este bom homem faz. Este dom Quixote, ou dom

Parvo, ou sei lá como se chama, não deve ser tão mentecapto como

vossa excelência quer que seja, dando-lhe oportunidade de levar

adiante suas loucuras e imbecilidades.

E, virando-se para dom Quixote, disse:

— E a vós, alma de querubim, quem vos encasquetou no cérebro que

sois cavaleiro andante e que venceis gigantes e prendeis vilões? Para

vosso bem, ide embora, antes que vos diga: “Regressai para vossa casa

e criai vossos filhos, se os tendes, e cuidai de vossas posses, e deixai de

andar vagando pelo mundo, comendo mosca e sendo motivo de riso a quantos vos conhecem e não conhecem”. Santo Deus, em que má hora

pensastes que houve ou há cavaleiros andantes? Onde há gigantes na

Espanha, ou vilões na Mancha, ou Dulcineias encantadas, ou esse

monte todo de tolices que se comenta sobre vós?

Dom Quixote esteve atento a todas as palavras daquele venerável

senhor e, vendo que já se calava, sem manter o devido respeito pelos

duques, com expressão irritada e o rosto alterado, ficou de pé e

disse…

Mas esta resposta merece um capítulo novo.

 

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