Dom Quixote

Miguel de Cervantes · Capítulo 14 de 137

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Dom Quixote

Capítulo VI

do grande e divertido escrutínio que

o padre e o barbeiro fizeram

na biblioteca de nosso engenhoso fidalgo

O qual ainda dormia. O padre pediu à sobrinha as chaves do aposento

onde estavam os livros autores do estrago, e ela as deu de muito boa

vontade. Entraram todos nele, seguidos pela criada, e acharam mais de

cem volumes grandes, muito bem encadernados, e outros pequenos.

Mal a criada os viu, saiu do aposento às pressas, voltando depois com

uma tigela de água benta e um hissope.

— Tome vossa mercê, senhor padre — disse. — Benza este aposento,

não vá andar por aqui algum mago, dos muitos que moram nesses

livros, e nos enfeitice como castigo pelo que queremos infligir neles,

varrendo-os do mundo.

O padre riu-se da ingenuidade da criada e mandou que o barbeiro

fosse dando a ele os livros um por um, para ver de que tratavam, pois

poderia haver alguns que não necessitassem castigo de fogo.

— Não — disse a sobrinha —, não dá para perdoar nenhum, porque

todos foram perniciosos: será melhor jogá-los no pátio pelas janelas,

fazer um monte deles e botar fogo, ou levá-los para o quintal. Fazendo

a fogueira ali, a fumaça não vai incomodar.

A mesma coisa disse a criada — tal era a gana que as duas tinham da

morte daqueles inocentes. Mas o padre não concordou com isso sem

primeiro ler ao menos os títulos. E o primeiro que mestre Nicolás lhe

passou às mãos foi Los cuatro de Amadís de Gaula.1 O padre disse:

— Coincidência misteriosa, pois, conforme ouvi dizer, este foi o

primeiro livro de cavalaria que se imprimiu na Espanha, e dele se

originaram todos os outros. Então me parece que, como pregador de uma seita tão perniciosa, devemos condená-lo ao fogo sem clemência.

— Não, senhor — disse o barbeiro —, pois também ouvi dizer que é

o melhor de todos os livros desse gênero; por isso, como único em sua

arte, deve ser perdoado.

— Isso é verdade — disse o padre. — Por essa razão vamos deixá-lo

com vida por enquanto. Vejamos esse outro que está perto dele.

 

É

— É Las sergas de Esplandián2 — disse o barbeiro —, filho legítimo

de Amadis de Gaula.

— Mas certamente — disse o padre — a qualidade do pai não deve

salvar o filho. Tomai, minha senhora: abri essa janela e atirai-o no

pátio. Que se dê início à pilha para a fogueira.

Assim fez a criada muito contente, e o bom Esplandian foi voando

para o pátio, esperando com toda a paciência o fogo que o ameaçava.

— Vamos em frente — disse o padre.

— O que vem agora — disse o barbeiro — é Amadís de Grecia;3 e

todos os deste lado, pelo que vejo, são da mesma linhagem de Amadis.

— Todos para o pátio — disse o padre. — Só para queimar a rainha

Pintiquinestra, o pastor Darinel e suas éclogas, mais os raciocínios

endiabrados e arrevesados de seu autor, eu queimaria com eles o pai

que me gerou, se andasse fantasiado de cavaleiro andante.

— Sou da mesma opinião — disse o barbeiro.

— Eu também — acrescentou a sobrinha.

— Então, venham — disse a criada —, e ao pátio com eles.

Eles lhe alcançaram os livros e, como eram muitos, ela poupou-se da

escada, atirando-os pela janela.

— Quem é esse calhamaço? — disse o padre.

— Este é dom Olivante de Laura4 — respondeu o barbeiro.

— O autor deste livro — disse o padre — é o mesmo que escreveu

Jardín de flores. Na verdade não sei determinar qual dos dois livros é

mais verdadeiro, ou, digamos, melhor, menos mentiroso; só sei que

este irá para o pátio, por absurdo e arrogante.5

— E o próximo é Florismarte de Hircania6 — disse o barbeiro.

— Aí está o senhor Florismarte? — replicou o padre. — Pois juro

que irá parar no pátio agora mesmo, apesar de seu estranho

nascimento e aventuras famosas; mas a dureza e secura de seu estilo

não merecem outra coisa. Ao pátio com ele, e com este outro, minha

senhora.

— Será um prazer, meu senhor — respondeu a criada, que com

muita alegria executava as ordens.

— Este é El caballero Platir7 — disse o barbeiro.

— Livro antigo este — disse o padre. — Não vejo nele coisa alguma

que mereça perdão. Acompanhe os demais sem conversa.

E assim foi feito. Abriu-se outro livro e viram que tinha por título El

caballero de la Cruz.

— Por causa do nome santo podia-se perdoar sua ignorância, mas

também se costuma dizer que “atrás da cruz está o diabo”. Para o

fogo.

O barbeiro, pegando outro livro, disse:

— Este é Espejo de caballerías.8

— Já conheço sua mercê — disse o padre. — Aí anda o senhor

Reinaldos de Montalbán com seus amigos e companheiros, mais

ladrões que Caco, e os Doze Pares, com o fidedigno historiador

Turpin.9 Na verdade estou para condená-lo a nada menos que a

desterro perpétuo, mesmo que contenha parte da criação do famoso

Matteo Boiardo,10 de onde também teceu sua teia o poeta cristão

Ludovico Ariosto,11 por quem não terei respeito algum, se o achar por

aqui me falando em outra língua que não a sua. Mas, se me falar em

seu idioma, eu o porei nas nuvens.

— Eu o tenho em italiano — disse o barbeiro —, mas não o entendo.

— Nem seria bom que o entendêsseis — respondeu o padre. — E

aqui poderíamos perdoar o senhor capitão se não o tivesse trazido

para a Espanha e o feito espanhol, pois lhe tirou muito de seu valor

original; e o mesmo farão todos aqueles que quiserem transpor livros

de verso para outra língua: por mais cuidado que tenham e habilidade

que mostrem, jamais chegarão ao ponto que os versos alcançaram no

primeiro parto. Digo, enfim, que este livro e todos os que tratam

dessas coisas da França sejam atirados num poço seco até que com

mais calma se veja o que se há de fazer, excetuando um Bernardo del

Carpio que anda por aí e outro chamado Roncesvalles. Estes,

chegando às minhas mãos, estarão nas da criada e delas nas do fogo,

sem clemência alguma.

O barbeiro concordou com tudo, achando que era coisa muito certa,

por entender que o padre era tão bom cristão e tão amigo da verdade

que não faltaria com ela por nada neste mundo. E, abrindo outro

livro, viu que era Palmerín de Oliva,12 e junto a ele estava outro que se

chamava Palmeirim da Inglaterra.13 O padre olhou-os e disse:

— Dessa oliveira se faça logo lenha e se queime, e que não sobrem

nem as cinzas; e se guarde e se conserve essa palmeirinha da Inglaterra como coisa única. Para isso se faça outra arca como aquela que

Alexandre achou nos despojos de Dario e usou para guardar as obras

do poeta Homero. Este livro, meu amigo, tem autoridade por dois

motivos: um, porque é muito bom por si mesmo; outro, porque se

sabe que foi composto por um arguto rei de Portugal. Todas as

aventuras no castelo da princesa Miraguarda são excelentes e muito

engenhosas; os discursos são graciosos e claros e guardam e observam

o caráter de quem fala, com muita propriedade e inteligência. Então, a

menos que discordais, senhor mestre Nicolás, digo que este e Amadís

de Gaula fiquem livres do fogo, e que todos os outros pereçam, sem

mais pesos e medidas.

— Não, meu amigo — replicou o barbeiro —, porque este que tenho

aqui é o afamado Dom Belianis.14

— Pois esse — replicou o padre —, com a segunda, terceira e quarta

partes, bem que precisa de uma dose de purgante para aliviar sua

cólera excessiva, e é preciso cortar-lhe tudo aquilo do castelo da Fama

e outras impertinências mais sérias. Para isso se dá um prazo a perder de vista e, caso se emende, se usará com ele de misericórdia ou de

justiça. Até lá, meu amigo, tende-o em vossa casa, mas não deixeis que

ninguém o leia.

— Será um prazer — respondeu o barbeiro.

E, sem querer se cansar mais lendo livros de cavalaria, mandou que a

criada pegasse todos os grandes e os jogasse no pátio. Não falou à

boba nem à surda, mas a quem tinha mais gana de queimá-los que

pintar e bordar, fosse lá o que ou com quem; e, agarrando quase oito

de uma vez, atirou-os pela janela. Por pegar tantos juntos, um deles

caiu aos pés do barbeiro, que teve vontade de ver de quem era e

descobriu que dizia: Historia del famoso caballero Tirante el Blanco.15

— Valha-me Deus! — disse o padre, dando um grito. — Se não é

Tirante, o Branco?! Dai-me cá, meu amigo: com certeza achei nele um

tesouro de alegria e uma mina de passatempo. Aqui está dom

Quirieleisón de Montalbán, cavaleiro corajoso, e seu irmão Tomás de

Montalbán, e o cavaleiro Fonseca, com a batalha que o valente

Tirante travou com o alão, e as argúcias da donzela

Prazerdaminhavida, com os amores e embustes da viúva Repousada, e

a senhora Imperatriz, apaixonada por Hipólito, seu escudeiro. Na verdade vos digo, meu amigo, que, pelo estilo, este é o melhor livro do

mundo: aqui os cavaleiros comem, dormem e morrem em suas camas,

fazem testamento antes da morte e outras coisas de que todos os

demais livros deste gênero carecem. Por isso vos digo que aquele que o

compôs merecia ser mandado para as galés, para compô-lo por todos

os dias de sua vida, pois não fez tantas asneiras de propósito como os

outros. Levai-o para casa, lede-o e vereis que é verdade quanto dele

vos disse.16

— Com prazer — respondeu o barbeiro. — Mas o que faremos com

estes livros pequenos que sobraram?

— Estes — disse o padre — não devem ser de cavalaria, mas de

poesia.

E, abrindo um, viu que era La Diana de Jorge de Montemayor.

Achando que todos os outros eram do mesmo gênero, disse:

— Estes não merecem ser queimados, como os demais, porque não

fazem nem farão o mal que os de cavalaria fizeram. São livros de

entretenimento que não prejudicam ninguém.

— Ai, senhor! — disse a sobrinha. — Vossa mercê bem pode mandá-

los queimar com os outros, porque não seria de estranhar que o

senhor meu tio, tendo se curado da mania dos cavaleiros, lendo esses

resolvesse se fazer pastor e andar pelos matos e campos cantando e

tocando, ou fazer-se poeta, o que seria pior, porque dizem que é

doença contagiosa e incurável.

— É verdade o que diz esta donzela — disse o padre. — Será bom

tirar da frente de nosso amigo esta oportunidade de tropeço.

Comecemos, então, por La Diana de Montemayor. Minha opinião é

que não seja queimado, mas que se tire dele tudo aquilo que trata da

maga Felícia, da água encantada e quase todos os versos maiores,

ficando em paz a prosa, e a honra de ser o primeiro entre livros

semelhantes.

— O próximo — disse o barbeiro — é La Diana chamada Segunda

do salmantino;17 e este outro, que tem o mesmo título, é de Gil

Polo.18

— Pois que a Diana do salmantino — respondeu o padre —

acompanhe e aumente o número dos condenados ao pátio; e a de Gil Polo seja guardada como se fosse do próprio Apolo. Mas vamos em

frente, meu amigo, e depressa, pois já é tarde.

— Este livro é — disse o barbeiro abrindo outro — Los diez libros

de Fortuna de amor, escrito por Antonio de Lofraso, poeta sardo.19

— Pelos sacramentos que recebi — disse o padre —, que desde que

Apolo é Apolo; as musas, musas; e os poetas, poetas, não se escreveu

um livro tão espirituoso nem extravagante como esse. Por sua forma, é

o melhor e o mais singular de quantos desse gênero saíram à luz do

mundo. Aquele que não o leu pode ter certeza de que jamais leu coisa

tão saborosa. Dai-me cá, compadre, que gosto mais de tê-lo achado do

que se me dessem uma batina da mais fina lã de Florença.

Deixou-o de lado com grande prazer, e o barbeiro prosseguiu:

— Os próximos são El pastor de Iberia, Ninfas de Henares e

Desengaños de celos.20

— Não há mais o que fazer — disse o padre — além de entregá-los

ao braço secular da criada; e não me pergunte por quê, que isso não

acabaria nunca.

— O que vem agora é El pastor de Fílida.21

— Esse não é pastor — disse o padre —, mas um cortesão muito

atilado: guarde-o como joia preciosa.

— Este grande aqui se intitula Tesoro de varias poesías22 — disse o

barbeiro.

— Se não fossem tantas — disse o padre —, seriam mais apreciadas:

é preciso que se desinfete e limpe esse livro de algumas baixezas que

há entre suas grandezas. Mas guarde, porque o autor é meu amigo, e

por respeito a outras obras mais nobres e heroicas que escreveu.

— Este — prosseguiu o barbeiro — é o Cancionero de López

Maldonado.23

— O autor desse livro também é grande amigo meu — respondeu o

padre. — Os versos dele, em sua própria boca, causam admiração a

quem os ouve; e tamanha é a suavidade da voz com que os canta, que

encanta. É um pouco longo nas églogas, mas nunca o bom foi muito.

Guarde-se com os escolhidos. Mas que livro é esse que está perto dele?

— A Galateia24 de Miguel de Cervantes — disse o barbeiro.

— Há muitos anos que esse Cervantes é grande amigo meu, e sei que

é mais versado em infortúnios que em versos. Seu livro tem alguma

É

coisa de boa invenção: propõe algo mas não conclui nada. É preciso

esperar a segunda parte que promete: talvez com a emenda alcance de

todo a misericórdia que agora lhe é negada. Enquanto isso, tende-o

recluso em vossa casa, meu amigo.

— Com prazer — respondeu o barbeiro. — E aqui vêm três, todos

juntos: La Araucana de dom Alonso de Ercilla,25 La Austríada de

Juan Rufo,26 intendente em Córdoba, e El Monserrato de Cristóbal de

Virués,27 poeta valenciano.

— Os três — disse o padre — são os melhores em verso heroico que

foram escritos em castelhano e podem competir com os mais famosos

da Itália. Guardem-se como as joias mais finas de poesia que a

Espanha possui.

O padre se cansou de ver mais livros e assim, por atacado, quis que

todos os outros fossem para o fogo; mas o barbeiro já tinha aberto

um, que se chamava Las lágrimas de Angélica.28

— Eu as teria chorado — disse o padre ao ouvir o nome — se tivesse

mandado queimar esse livro, porque seu autor foi um dos mais famosos poetas do mundo, não só da Espanha, e foi felicíssimo na

tradução de algumas fábulas de Ovídio.

 

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