Dom Quixote

Miguel de Cervantes · Capítulo 13 de 137

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Dom Quixote

Capítulo V

onde se continua a narração

da desgraça de nosso cavaleiro

Vendo, então, que realmente não podia se mexer, resolveu apelar para

seu remédio costumeiro: pensar em alguma passagem de seus livros; e

sua loucura trouxe-lhe à memória aquela de Valdovinos e do marquês

de Mântua, quando Carloto1 o deixou ferido na mata, história sabida

pelas crianças, não ignorada pelos jovens e celebrada pelos velhos, que

até acreditavam nela, mas, apesar disso, não mais verdadeira que os

milagres de Maomé. Esta, portanto, lhe pareceu vir sob medida para a

situação em que se achava; e assim, com mostras de grande

sentimento, começou a se rolar pela terra e a dizer, com a respiração

fraca, o mesmo que afirmam que o cavaleiro ferido na mata dizia:

Onde estás, minha senhora,

que não te dói meu mal?

Ou não sabes dele, senhora,

ou és falsa e desleal.

E dessa maneira foi desfiando o romance, até aqueles versos que

dizem:

Oh, nobre marquês de Mântua,

meu tio e senhor carnal!

Quis a sorte que, quando chegou a esse verso, passasse por ali um

camponês de sua aldeia, vizinho seu, que tinha levado uma carga de

trigo ao moinho. Vendo aquele homem ali estendido, aproximou-se e

lhe perguntou quem era e de que mal sofria, que tão tristemente se

queixava. Dom Quixote sem dúvida acreditou que aquele era o

marquês de Mântua, seu tio, de modo que não lhe respondeu outra

coisa além de prosseguir recitando seu romance, onde dava conta de sua desgraça e dos amores do filho do imperador com sua esposa,

tudo da mesma maneira como os versos cantam.

O camponês estava admirado ouvindo aqueles disparates; e, tirando

a viseira que estava em pedaços pelas bordoadas, limpou o rosto

coberto de pó de dom Quixote. E, quando acabou de limpá-lo, o

reconheceu e disse:

— Senhor Quixana — que assim devia se chamar quando tinha juízo

e não havia se transformado de fidalgo sossegado em cavaleiro

andante —, quem deixou vossa mercê desse jeito?

Mas ele continuava com o romance a todas as perguntas. Vendo isso

o bom homem lhe tirou do jeito que pôde o peitilho e as costas do

corselete, para ver se tinha alguma ferida, mas não notou sangue nem

marca alguma. Procurou levantá-lo do chão e, com muito trabalho,

montou-o sobre seu jumento, por lhe parecer animal mais manso.

Recolheu as armas — até as lascas da lança — e amarrou-as sobre

Rocinante, ao qual pegou pela rédea; então, puxando o burro pelo

cabresto, encaminhou-se para seu povoado, muito pensativo com os

disparates que dom Quixote dizia. Não menos pensativo ia dom

Quixote que, de tão moído e alquebrado, mal conseguia se manter no

burrinho, de vez em quando dando uns suspiros que chegavam ao céu,

o que de novo obrigou o camponês a lhe rogar que dissesse que mal

sentia; mas parece que o diabo só o lembrava de histórias ajustadas a

sua situação, porque naquele ponto, esquecendo-se de Valdovinos, se lembrou do mouro Abindarráez, quando o alcaide de Antequera,

Rodrigo de Narváez, o prendeu e o levou a sua fortaleza. De maneira

que, quando o camponês voltou a perguntar como estava e o que

sentia, ele respondeu com as mesmas palavras e alegações que o

prisioneiro mouro respondia a Rodrigo de Narváez, do mesmo modo

como havia lido na história La Diana2 de Jorge de Montemayor, onde

vem descrita. Aproveitou-se dela tão adequadamente que o camponês

já ia se encomendando ao diabo por ouvir tal amontoado de asneiras;

mas por isso descobriu que seu vizinho estava louco e se apressou para

chegar ao povoado e escapar da amolação que dom Quixote lhe

causava com sua longa arenga, que arrematou assim:

— Saiba vossa mercê, senhor dom Rodrigo de Narváez, que esta

formosa Xarifa de que falei é agora a linda Dulcineia del Toboso, por

quem eu fiz, faço e farei as maiores proezas de cavalaria que se viram,

veem ou verão no mundo.

A isso o camponês respondeu:

— Veja vossa mercê que, por bem de meus pecados, não sou dom

Rodrigo de Narváez nem o marquês de Mântua, mas Pedro Alonso, seu vizinho. E nem vossa mercê é Valdovinos nem Abindarráez, mas o

honrado fidalgo senhor Quixana.

— Eu sei quem sou — respondeu dom Quixote — e sei que posso ser

não apenas esses que mencionei como todos os Doze Pares de França e

até os Nove da Fama,3 pois todas as façanhas que eles fizeram juntos,

ou cada um por si, serão superadas pelas minhas.

Com essa e outras conversas semelhantes, chegaram ao povoado, na

hora em que anoitecia; mas o camponês esperou que escurecesse um

pouco mais, para que não vissem o abatido fidalgo tão mal montado.

Então, no momento que lhe pareceu conveniente, entrou na aldeia e

foi até a casa de dom Quixote, que encontrou toda alvoroçada. Lá

estavam os grandes amigos de dom Quixote, o padre e o barbeiro, a

quem a criada bradava:

— O que vossa mercê, senhor licenciado Pero Pérez — que assim se

chamava o padre —, acha da desgraça de meu senhor? Faz três dias

que não há sinal nem dele, nem do pangaré, nem da adarga, nem da

lança, nem da armadura. Pobre de mim, desconfio (quer dizer, isso é tão verdadeiro como nasci para morrer) que esses malditos livros de

cavalaria que ele tem e costuma ler todo dia lhe viraram a cabeça!

Agora me lembro de tê-lo ouvido dizer muitas vezes, falando sozinho,

que queria ser cavaleiro andante e ir em busca de aventuras por esses

mundos. Que o diabo e Barrarás carreguem esses livros, que botaram

a perder a mais delicada inteligência que havia em toda a Mancha.

A sobrinha dizia a mesma coisa e mais um pouco:

— Saiba, senhor mestre Nicolás — que este era o nome do barbeiro

—, que muitas vezes aconteceu ao senhor meu tio estar lendo esses

livros desalmados de desventuras dois dias com suas noites, até que

largava o livro e empunhava a espada e saía espetando as paredes.

Quando estava muito cansado, dizia que matara quatro gigantes como

quatro torres e que o suor que escorria era sangue das feridas que

tinha recebido na batalha. Daí bebia um grande jarro de água fria e

ficava refeito e calmo de novo, dizendo que aquela água era uma

preciosíssima bebida que lhe havia trazido o sábio Esquife,4 um

grande mago e amigo seu. Mas eu tenho a culpa de tudo, porque não

avisei vossas mercês dos despropósitos do senhor meu tio, para

remediarem a coisa antes que chegasse a este ponto, e queimarem todos esses livros excomungados, pois há muitos que bem merecem ser

assados como se fossem hereges.

— A mesma coisa digo eu — disse o padre. — Por Deus, juro que de

amanhã não passam sem ser julgados e condenados ao fogo, para que

não tenham a oportunidade de levar nenhum outro leitor a fazer o que

meu bom amigo deve ter feito.

Tudo isso estavam ouvindo o camponês e dom Quixote, o que levou

o camponês a entender a doença de seu vizinho e a começar a dizer

aos gritos:

— Abram alas vossas mercês ao senhor Valdovinos e ao senhor

marquês de Mântua, que vem mortalmente ferido, e ao senhor mouro

Abindarráez, que traz prisioneiro o valente Rodrigo de Narváez,

alcaide de Antequera.

A esses gritos saíram todos, e como uns reconheciam seu amigo e

outras seu amo e tio, que ainda não havia apeado do jumento porque

não podia, correram para abraçá-lo. Ele disse:

— Detenham-se todos, que venho mortalmente ferido por culpa de meu cavalo. Levem-me a meu leito e chamem a maga Urganda, se for

possível, para que examine e trate minhas feridas.

— Com os diabos, se meu coração não me dizia de que pé coxeava

meu senhor! — disse nesse ponto a criada. — Vossa mercê não morre

tão cedo, pois saberemos curá-lo, sem que venha essa Ursanda.

Malditos sejam outra vez, digo, outras cem vezes esses livros de

cavalaria, que eles deixaram vossa mercê assim!

Levaram-no logo para a cama, e, procurando-lhe as feridas, não

encontraram nenhuma. Ele disse que se sentia moído porque tinha

levado um grande tombo com Rocinante, seu cavalo, combatendo dez

gigantes, os mais descomunais e atrevidos que se poderiam achar em

boa parte da terra.

— Ora, ora — disse o padre. — Tem gigantes na dança? Que Deus

me ajude, se não os queimar amanhã antes que chegue a noite!

Fizeram mil perguntas a dom Quixote e a nenhuma ele quis

responder, só que lhe dessem de comer e o deixassem dormir, que era

do que mais precisava. Assim se fez, e o padre se informou em

detalhes com o camponês sobre o modo como tinha achado dom

Quixote. Ele contou tudo, com as asneiras que havia dito quando o achou e o trouxe, o que mais atiçou o desejo do padre de fazer o que

fez no dia seguinte: chamar seu amigo, o barbeiro mestre Nicolás, e vir

com ele à casa de dom Quixote.

 

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