Dom Quixote

Miguel de Cervantes · Capítulo 11 de 137

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Dom Quixote

Capítulo III

 

onde se conta a maneira engraçada

como dom quixote se fez armar cavaleiro

E assim, incomodado com esse pensamento, abreviou o jantar

miserável e parco. Chamou então o estalajadeiro e, fechando-se com

ele na estrebaria, prostrou-se de joelhos a sua frente, dizendo:

— Não me levantarei jamais de onde estou, valente cavaleiro, até

que vossa cortesia me conceda uma mercê que quero vos pedir. Ela

redundará em vosso louvor e em proveito do gênero humano.

O estalajadeiro, vendo o hóspede a seus pés e ouvindo semelhante

discurso, ficou confuso, sem saber o que fazer nem dizer, e insistia

para que se levantasse, o que ele jamais aceitou, enquanto o homem

não dissesse que concedia a dita mercê.

— Eu não esperava menos de vossa grande magnificência, meu

senhor — respondeu dom Quixote. — Por isso vos digo que a mercê

que vos pedi e que vossa generosidade me concedeu é que amanhã sem

falta havereis de me armar cavaleiro. Esta noite, na capela de vosso

castelo, velarei as armas e amanhã, como disse, se cumprirá o que

tanto desejo para poder ir, como se deve, pelos quatro cantos do

mundo em busca de aventuras, em proveito dos necessitados, como é

missão da cavalaria e dos cavaleiros andantes como eu, que tenho

têmpera para semelhantes façanhas.

O estalajadeiro, que, como se disse, era meio velhaco e já tinha

algumas suspeitas da falta de juízo de seu hóspede, acabou de se

convencer quando ouviu semelhantes palavras e, para ter do que rir

naquela noite, decidiu seguir os caprichos dele. Assim, disse-lhe que

estava muito certo no que desejava e pedia e que tal intenção era

própria e natural de grandes cavaleiros como ele parecia ser e como sua garbosa presença mostrava; e que ele mesmo, nos anos de sua

juventude, havia se dado àquele honroso exercício, andando por

diversas partes do mundo em busca de aventuras, sem que houvesse

esquecido Percheles de Málaga, Islas de Riarán, Compás de Sevilha,

Azoguejo de Segóvia, Olivera de Valência, Rondilla de Granada, Playa

de Sanlúcar, Porto de Córdoba, Ventillas de Toledo1 e vários outros lugares onde havia exercido a rapidez de seus pés e a sutileza de suas

mãos, fazendo muitos desmandos, galanteando muitas viúvas,

perdendo algumas donzelas e enganando alguns órfãos, e, finalmente,

comparecendo em quantas audiências e tribunais existem em quase

toda a Espanha. E por fim tinha vindo se recolher naquele castelo,

onde vivia de seus bens e dos alheios, recolhendo nele todos os

cavaleiros andantes, de qualquer qualidade e condição que fossem,

apenas pela grande afeição que lhes tinha e para que dividissem com

ele suas posses em pagamento de seu bom desejo.

Também disse que naquele castelo não havia capela alguma em que

pudesse velar as armas, porque a tinham demolido para construí-la de

novo; mas que em caso de necessidade ele sabia que podiam ser

veladas em qualquer lugar e que, naquela noite, poderia velá-las num

pátio do castelo; e pela manhã, se Deus quisesse, fariam as devidas

cerimônias, de modo que ele fosse armado cavaleiro, e tão cavaleiro

como nenhum outro no mundo.

Perguntou-lhe se tinha dinheiro. Dom Quixote respondeu que não trazia nem um tostão, porque nunca havia lido nas histórias dos

cavaleiros andantes que algum o carregasse. O estalajadeiro disse que

se enganava: que, embora nas histórias nada se falasse, por ter

parecido aos autores que não era preciso mencionar uma coisa tão

clara e tão necessária de se levar como eram dinheiro e camisas

limpas, nem por isso haveria de se acreditar que não os trouxessem; e

assim desse por certo e sabido que todos os cavaleiros andantes, de

que tantos livros estão cheios e atulhados, levavam bem forradas as

bolsas, para o que desse e viesse; e que também levavam camisas e

uma arca pequena com unguentos para curar as feridas que recebiam,

porque nem sempre nos campos e desertos onde combatiam havia

quem os tratasse, isso se não tinham um mago por amigo que logo os

socorria, trazendo pelo ar, numa nuvem, alguma donzela ou anão com

uma garrafa de água de tamanha virtude que, provando uma gota

dela, na mesma hora ficavam sãos de suas chagas e feridas, como se

mal algum houvessem tido. Mas, sem esse amigo, os antigos cavaleiros

consideravam conveniente que seus escudeiros fossem providos de

dinheiro e de outras coisas necessárias, como ataduras e unguentos; e

quando acontecia de esses cavaleiros não terem escudeiros — em poucas e raras vezes —, eles mesmos levavam tudo nuns alforjes muito

finos, que quase nem eram percebidos nas ancas do cavalo, como se

fossem outra coisa de mais importância, pois, se não fosse desse

modo, esse negócio de levar alforjes não era muito aceito entre os

cavaleiros andantes. Por isso o aconselhava — e até podia ordenar

como a um afilhado, porque o seria depois de armá-lo — que dali por

diante não andasse sem dinheiro e sem as referidas precauções, e veria

o quanto ficaria bem com elas, quando menos pensasse.

Dom Quixote prometeu fazer exatamente o que ele aconselhava.

Assim, em seguida, o estalajadeiro ordenou que velasse as armas num

pátio grande ao lado da estalagem. Recolhendo todas as peças da

armadura, dom Quixote as empilhou sobre um bebedouro junto a um

poço e, enfiando o braço em sua adarga, empunhou a lança. Com

postura galante, começou a andar diante dele. Nesse momento,

começava a cair a noite.

O estalajadeiro contou a todos que estavam na estalagem a loucura

de seu hóspede, a vigília das armas e a cerimônia para armá-lo cavaleiro. Admiraram-se de tão estranho gênero de loucura e, indo

espiar de longe, viram que dom Quixote andava com calma umas

vezes e outras, escorado a sua lança, punha os olhos na armadura,

sem desviá-los por um bom tempo. Já era noite fechada, mas com

tanto luar que podia competir com o dia, de modo que tudo o que o

cavaleiro estreante fazia era visto muito bem por todos. Nisso, um dos

tropeiros resolveu dar água a sua manada de mulas e, para isso, seria

necessário tirar a armadura que estava sobre o bebedouro. Dom

Quixote, vendo-o chegar, disse em voz alta:

— Oh, tu, quem quer que sejas, cavaleiro atrevido, que chegas para

tocar a armadura do mais valente andante que jamais empunhou

espada! Olha o que fazes e não a toques, se não quiseres deixar a vida

como paga por teu atrevimento.

O tropeiro não fez caso dessa conversa (mas seria melhor que tivesse

feito então, para não ter de fazer depois); pegando a armadura pelas

correias, jogou-a longe. Dom Quixote levantou os olhos para o céu e,

pelo visto, com o pensamento posto em sua senhora Dulcineia, disse:

— Socorrei-me, minha senhora, na primeira afronta que se oferece a

este vosso peito vassalo: não me faltem nesta primeira complicação vosso favor e amparo.

E, dizendo essas e outras coisas semelhantes, soltou a adarga,

levantou a lança com as duas mãos e deu com ela um golpe tão forte

na cabeça do tropeiro que o derrubou no chão tão desfeito que, se

desse outro, não haveria necessidade de cirurgião que o tratasse. Feito

isso, recolheu a armadura e voltou a andar com a mesma calma de

antes. Dali a pouco, sem saber o que tinha acontecido (porque o

tropeiro ainda estava aturdido), chegou outro com a mesma intenção

de dar água às suas mulas e tirou a armadura para desimpedir o

bebedouro. Dom Quixote, sem falar uma palavra e sem pedir favor a

ninguém, soltou outra vez a adarga e outra vez levantou a lança e, sem

fazê-la em pedaços, fez mais de três da cabeça do segundo tropeiro,

porque a abriu em quatro. Com o barulho, acudiram todas as pessoas

da estalagem, entre elas o estalajadeiro. Dom Quixote olhou para

todos, enfiou o braço em sua adarga e disse, empunhando a espada:

— Oh, senhora da formosura, coragem e vigor de meu coração

debilitado! Agora é o momento para que voltes os olhos de tua grandeza para este teu cavaleiro cativo, que tamanha aventura está

esperando.

Animou-se tanto com isso que pensou que, se o atacassem todos os

tropeiros do mundo, não daria um passo atrás. Os companheiros dos

feridos, vendo-os naquele estado, começaram de longe a chover pedras

sobre dom Quixote, que se defendia com sua adarga o melhor que

podia e não ousava se afastar do bebedouro, para não desamparar a

armadura. O estalajadeiro gritava que o deixassem, porque já tinha

dito como era louco e que por ser louco se livraria, mesmo que os

matasse a todos. Dom Quixote gritava mais alto ainda, chamando-os

de infiéis e traidores, e que o senhor do castelo era um covarde e

malnascido cavaleiro, pois consentia que os cavaleiros andantes

fossem tratados dessa maneira; e que, se houvesse recebido a ordem de

cavalaria, ele o faria entender sua perfídia.

— Mas de vós, canalha baixa e vil, não faço caso algum: apedrejai,

chegai, vinde e ofendei-me enquanto puderdes, que vereis o

pagamento que levareis por vossa loucura e insolência.

Dizia isso com tanto brio e intrepidez que infundiu um terrível temor

nos que o atacavam. Tanto por isso como pelos argumentos do estalajadeiro, deixaram de apedrejá-lo, e ele então permitiu que

retirassem os feridos, voltando à vela de armas com a mesma placidez

e pachorra do começo.

O estalajadeiro não gostou das travessuras de seu hóspede e resolveu

se apressar e lhe dar de uma vez a maldita ordem de cavalaria, antes

que acontecesse outra desgraça. E assim, aproximando-se dele, se

desculpou pela insolência daquela ralé, que agira sem que ele soubesse

coisa alguma, mas que fora bem castigada por seu atrevimento.

Repetiu-lhe que naquele castelo não havia capela, mas que para o que

restava fazer tampouco era necessária, pois o ponto principal para ser

armado cavaleiro consistia no pescoção e na espadada, conforme ele

tinha notícia do cerimonial da ordem, e que aquilo podia ser feito no

meio do campo; e, no que dizia respeito a velar as armas, estava quite,

porque duas horas eram suficientes, e ele velara mais de quatro.

Dom Quixote acreditou em tudo e disse que estava pronto para

obedecer, que concluísse tudo com a maior brevidade possível, porque

se o atacassem outra vez, e se já estivesse armado cavaleiro, não pensava deixar uma pessoa viva no castelo, exceto aquelas que ele

mandasse, que por respeito perdoaria.

Precavido e medroso, o castelão trouxe logo um livro no qual

anotava a palha e a cevada que dava aos tropeiros e, com um toco de

vela que lhe trouxe um rapaz e acompanhado pelas duas ditas

donzelas, aproximou-se de dom Quixote e o mandou ficar de joelhos.

Então começou a ler no livro da contabilidade como quem dizia uma

oração devota. Pela metade da leitura levantou a mão e deu no

pescoço do fidalgo um bom golpe e depois, com sua própria espada,

uma espadada gentil nas costas, sempre murmurando entre dentes,

como quem rezava. Feito isso, mandou que uma das damas lhe

cingisse a espada, coisa nada fácil, mas que ela fez com muita

desenvoltura e discrição, sem cair na risada a cada passo da

cerimônia; é que as proezas do novo cavaleiro que já haviam visto

mantinham todos na linha.

Ao cingir-lhe a espada, a boa senhora disse:

— Deus faça de vossa mercê um cavaleiro muito feliz e lhe dê boa

sorte nos combates.

Dom Quixote perguntou a ela como se chamava, para que soubesse

dali por diante a quem devia pelo favor recebido, porque pensava

mantê-la informada da honra que alcançasse com o valor de seu

braço. Ela respondeu com muita humildade que se chamava a Tolosa,

que era filha de um remendão natural de Toledo que vivia nas

tendinhas de Sancho Bienaya, e que lhe serviria e o teria por senhor,

onde quer que estivesse. Dom Quixote respondeu que, por amor a ele,

fizesse o obséquio de daí por diante usar o título e se chamar “dona

Tolosa”. Ela prometeu que o faria. A outra lhe calçou a espora e aí

aconteceu quase que o mesmo diálogo. Perguntou-lhe o nome e ela

disse que era a Moleira, filha de um honrado moleiro de Antequera.

Ele também lhe rogou que usasse o título, que se chamasse “dona

Moleira”, oferecendo-lhe novos serviços e favores.

Feita, pois, a toda pressa, a até ali nunca vista cerimônia, dom

Quixote não via a hora de se ver a cavalo e sair em busca de

aventuras. Encilhou Rocinante, montou e, abraçando seu hospedeiro,

disse coisas tão esquisitas em agradecimento pelo favor de tê-lo armado cavaleiro que não é possível repeti-las. O estalajadeiro, para

vê-lo logo pelas costas, com palavras não menos retóricas, embora

mais breves, respondeu às suas e, sem lhe pedir o pagamento pela

noite, deixou-o ir em paz.

 

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