Dom Quixote

Miguel de Cervantes · Capítulo 122 de 137

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Dom Quixote

Capítulo LXI

do que aconteceu a dom quixote

na entrada de barcelona, com outras coisas

que têm mais de verdade que de sensatez

Dom Quixote passou três dias e três noites com Roque, mas, se

passasse trezentos, não faltaria o que ver e admirar no modo de vida

dele: amanheciam aqui, comiam ali; umas vezes fugiam, sem saber de

quem, outras esperavam, sem saber a quem; dormiam em pé,

interrompendo o sono, mudando de um lugar para outro. Tudo era

pôr espiões, escutar sentinelas, soprar a mecha dos arcabuzes, embora

levassem poucos, porque todos se serviam de pistolas. Roque passava

as noites afastado de seus homens, em paragens e lugares que eles

desconheciam, porque os muitos bandos que o vice-rei de Barcelona

havia lançado sobre sua vida mantinham-no inquieto e amedrontado,

e não ousava confiar em ninguém, temendo que seus próprios

companheiros o matassem ou o entregassem à justiça. Vida, com

certeza, miserável e exasperante.

Enfim, por caminhos desusados, por atalhos e picadas escondidas,

Roque, dom Quixote e Sancho partiram com outros seis escudeiros

para Barcelona. Chegaram a sua praia na véspera de São João, pela

noite. E, abraçando dom Quixote e Sancho, a quem deu os dez

escudos prometidos, pois até então não os havia dado, Roque os

deixou, com mil cortesias de ambas as partes.

Roque foi embora e dom Quixote ficou esperando o dia, assim

mesmo como estava, a cavalo, e não demorou muito quando a face

branca da aurora começou a se mostrar no avarandado do oriente,

alegrando a grama e as flores, em vez de alegrar o ouvido;1 mas ao

mesmo tempo alegraram também o ouvido o som de muitas charamelas e tambores, barulho de guizos e gritos de “vamos,

afastem-se, vamos, afastem-se!” dos cavaleiros que, pelo visto, saíam

da cidade. A aurora deu lugar ao sol, que, com rosto maior que um

escudo, pouco a pouco ia se elevando do fundo do horizonte.

Dom Quixote e Sancho espicharam o olhar por todos os lados:

viram o mar, que nunca tinham visto antes, e acharam-no imenso, interminável, maior que as lagoas da Ruidera da Mancha; e viram

também as galés atracadas na praia — como os marinheiros

recolheram os toldos que as protegiam, mostraram-se repletas de

flâmulas e galhardetes que tremulavam ao vento e beijavam e varriam

a água. Nelas soavam clarins, trombetas e charamelas, que de perto e

de longe enchiam o ar de notas suaves e belicosas.

As galés começaram a se mover e ficar em posição de ataque nas

águas calmas, imitando-as quase da mesma maneira um sem-número

de cavaleiros que vinham da cidade, montados em formosos cavalos e

com librés vistosas. Os marinheiros disparavam infinita artilharia, que

os soldados que estavam nas muralhas e fortes da cidade respondiam,

e a artilharia pesada rompia os ventos com estrondos espantosos, que

os canhões nos conveses rebatiam. O mar alegre, a terra feliz, o ar

transparente — talvez turva apenas a fumaça da artilharia — pareciam

ir gerando e infundindo um prazer repentino em todas as pessoas.

Sancho não conseguia imaginar como aqueles vultos que se moviam

pelo mar podiam ter tantos pés.

Nisso os cavaleiros das librés chegaram correndo, com gritos,

alaridos e algazarra, onde estava dom Quixote, paralisado e pasmo.

Um deles, que fora avisado por Roque, disse em voz alta a ele:

— Seja bem-vindo a nossa cidade o espelho, o farol, a estrela e o

norte de toda a cavalaria andante: o próprio espírito sagrado dela!

Repito, seja bem-vindo o valoroso dom Quixote de la Mancha: não o

falso, não o fictício, não o apócrifo que em histórias falsas nos

mostraram esses dias, mas sim o verdadeiro, o legítimo, o fiel cavaleiro

que nos descreveu Cide Hamete Benengeli, flor dos historiadores.

Dom Quixote não respondeu uma palavra, nem os cavaleiros

esperaram que respondesse — mas, girando e curveteando com os

outros que os seguiam, começaram a dar voltas e voltas em torno de

dom Quixote, que, virando-se para Sancho, disse:

— Estes logo nos reconheceram. Eu aposto que leram nossa história

e até a recém-impressa do aragonês.

Voltou de novo o cavaleiro que tinha falado com dom Quixote e

disse:

— Venha vossa mercê conosco, senhor dom Quixote, pois somos

todos seus servos e grandes amigos de Roque Guinart.

Ao que dom Quixote respondeu:

— Se cortesias geram cortesias, a vossa, senhor cavaleiro, é filha ou

parente muito próxima das do grande Roque. Levai-me aonde

quiserdes, que eu não terei outra vontade que a vossa, mais ainda se

quereis ocupá-la em vosso serviço.

O cavaleiro respondeu com palavras não menos polidas que estas, e,

rodeando-o todos, ao som das charamelas e dos tambores, se

encaminharam com dom Quixote para a cidade. Na entrada, o diabo,

que está por trás de todo mal, e os meninos, que são piores que ele, ou

pelo menos dois deles, travessos e atrevidos, entraram no meio

daquela gente toda e, um levantando o rabo do burro e o outro o rabo

de Rocinante, encaixaram um maço de cardos embaixo de cada um.

Os pobres animais sentiram as novas esporas e, apertando os rabos,

aumentaram seu desgosto de modo que, dando mil pinotes, jogaram

seus amos no chão. Dom Quixote, envergonhado e ofendido, se

apressou a tirar os espinhos do rabo de seu pangaré, e Sancho, de seu

burro. Os que guiavam dom Quixote quiseram castigar o abuso dos meninos, mas não foi possível, porque eles se meteram entre outros

mil que os seguiam.

Dom Quixote e Sancho montaram de novo; e com a mesma pompa e

música chegaram à casa do guia, que era grande e imponente — em

suma, como de homem rico —, onde o deixaremos por ora, porque

assim o quer Cide Hamete.

 

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