Dom Quixote

Miguel de Cervantes · Capítulo 126 de 137

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Dom Quixote

Capítulo LXV

onde se dá notícia de quem era o cavaleiro

da lua branca, com a libertação

de dom gregório, e outras aventuras

Dom Antônio seguiu o Cavaleiro da Lua Branca, e seguiram-no

também ou, digamos melhor, perseguiram-no muitos meninos, até que

se viu a salvo numa hospedaria, dentro das muralhas na cidade. Dom

Antônio entrou com ele, à espera de enfim conhecê-lo. Um escudeiro

veio receber o da Lua Branca e, para ajudá-lo a tirar a armadura,

entraram numa sala do térreo — e com eles dom Antônio, que morria

de impaciência. Então, vendo que aquele senhor não o largava, o da

Lua Branca disse:

— Sei muito bem, senhor, o que vos traz aqui: saber quem sou.

Como não há por que vos ocultar isso, enquanto meu criado me tira a

armadura vos contarei tudo, sem faltar um ponto com a verdade.

Sabei então, senhor, que me chamam Sansão Carrasco e que sou

bacharel. Venho da mesma aldeia de dom Quixote de la Mancha, cuja

loucura e estupidez nos leva a todos que o conhecemos a morrer de

pena, e eu estou entre os que mais se compadecem. Achando que sua

salvação está no descanso em sua terra e em sua casa, tramei esse

plano para que voltasse. Então, deve fazer uns três meses, cortei o

caminho dele como cavaleiro andante, chamando a mim mesmo de

Cavaleiro dos Espelhos, com a intenção de lutar com ele e vencê-lo

sem o machucar, estabelecendo como condição de nosso duelo que o

derrotado se submetesse à vontade do vencedor. O que eu pensava

pedir a ele, porque já o julgava vencido, era que voltasse a sua aldeia e

que não saísse dela por um ano inteiro, tempo em que poderia se

curar. Mas a sorte arranjou as coisas de outra maneira, porque ele me venceu, derrubando-me do cavalo. Assim, de nada valeu minha

intenção: ele seguiu seu caminho e eu voltei, derrotado, humilhado e

alquebrado pelo tombo, que foi dos mais perigosos; mas nem por isso

perdi a vontade de procurá-lo de novo e vencê-lo, como se viu hoje. E,

como ele é tão escrupuloso ao observar os regulamentos da cavalaria

andante, sem dúvida obedecerá ao que combinamos, para cumprir sua

 

É

palavra. É isso que acontece, senhor, sem que eu tenha de vos dizer

mais nada. Suplico-vos que não reveleis quem sou eu, muito menos a

dom Quixote, para que minhas boas intenções surtam efeito e possa

recuperar o juízo um homem que o tem muito bom desde que o

deixem as tolices da cavalaria.

— Oh, meu caro senhor — disse dom Antônio —, que Deus vos

perdoe o prejuízo que fizestes a todo o mundo ao querer tornar lúcido

o mais engraçado dos loucos! Não vede, senhor, que o proveito que

pode ter a sensatez de dom Quixote não chega aos pés do prazer que

dá seus desvarios? Mas eu imagino que toda a astúcia do senhor

bacharel não há de ser suficiente para tornar lúcido um homem tão

rematadamente louco. E, se não fosse impiedoso de minha parte, eu

diria que dom Quixote nunca deve sarar, porque com sua saúde não

só perderemos suas extravagâncias, como as graças de seu escudeiro,

Sancho Pança, pois qualquer uma delas pode alegrar a própria

melancolia. Mesmo assim, calarei: não direi nada a ele, para ver se

tenho razão em suspeitar que não terá efeito nenhum a diligência do senhor Carrasco.

O bacharel respondeu que em todo caso aquele negócio já tinha sido

despachado e que esperava um desfecho feliz. Depois de dom Antônio

ter se posto a sua disposição para tudo o que precisasse, Sansão se

despediu dele e no mesmo instante saiu da cidade e voltou para sua

pátria, montado no cavalo com que entrara na batalha e com sua

armadura e armas amarradas sobre um burro, sem que tenha lhe

acontecido coisa digna de se contar nesta história verídica.

Dom Antônio contou ao vice-rei tudo o que Carrasco havia contado

a ele, o que não deixou o vice-rei muito satisfeito, porque com o

afastamento de dom Quixote se perdia a diversão que podiam ter

todos aqueles que tivessem notícia de suas loucuras.

Dom Quixote esteve seis dias de cama, aflito, triste, pensativo e

aborrecido, repassando na imaginação uma vez depois da outra os

desgraçados lances de sua derrota. Sancho o consolava — entre outras

coisas, lhe disse:

— Senhor, levante a cabeça e alegre-se, se é que pode, e dê graças ao

céu que não saiu com uma costela quebrada, pois foi derrubado no

chão. Vossa mercê sabe que quem com ferro fere com ferro será ferido, e nem tudo o que reluz é ouro. Mande o médico para aquele

lugar, pois não precisa dele para se curar desta doença, e voltemos

para casa e deixemos de andar em busca de aventura por terras e

cidades que não conhecemos. Agora, se pensarmos bem, o mais

prejudicado aqui sou eu, embora seja vossa mercê o mais

escangalhado: eu, que deixei com o governo os desejos de nunca mais

ser governador, não perdi a gana de ser conde, coisa que jamais

acontecerá se vossa mercê não for rei, abandonando o ofício da

cavalaria. Assim minhas esperanças se transformam em fumaça.

— Cala-te, Sancho. Não vês que minha retirada e reclusão não

devem passar de um ano? Logo voltarei a meu honrado ofício, e não

há de me faltar reino para ganhar e algum condado para te dar.

— Que Deus o ouça e o diabo seja surdo — disse Sancho —, pois

sempre ouvi dizer que mais vale uma boa esperança que uma posse

ruim.

Estavam nisso, quando entrou dom Antônio, dizendo com mostras

de grande satisfação:

— Belas novas, senhor dom Quixote: dom Gregório e o renegado

que foi buscá-lo estão na praia! Ora, praia! O que digo? Já estão na

casa do vice-rei e estarão aqui num instante.

Dom Quixote se alegrou um pouco e disse:

— Na verdade, estou quase para dizer que gostaria que tivesse saído

tudo errado, porque me obrigaria a ir à Berbéria, onde com a força de

meu braço libertaria não só dom Gregório como todos os cristãos

prisioneiros por lá. Mas, pobre de mim, que digo? Não sou eu o

derrotado? Não sou eu o abatido? Não sou eu que não pode

empunhar uma arma por um ano? Então, que posso prometer? De que

me gabo, se antes me convém usar a roca que a espada?

— Deixe disso, senhor — disse Sancho. — Viva o sabujo, mesmo

sem faro, que um dia é da caça e o outro, do caçador, e não se deve

levar a sério essas coisas de sovas e porradas, porque quem cai hoje

pode se levantar amanhã, a menos que queira ficar na cama, quero

dizer, que se deixe levar pelo desânimo, sem criar novas forças para

novas pendências. Vamos, levante-se vossa mercê para receber dom

Gregório, que, pelo alvoroço do pessoal da casa, deve estar chegando.

Era verdade, porque, ansioso para ver Ana Félix, dom Gregório veio

com o renegado para a casa de dom Antônio depois de ter ido com ele

prestar contas ao vice-rei da viagem de resgate. Embora dom Gregório

usasse roupas de mulher quando foi tirado de Argel, no barco as

trocou pelas de um prisioneiro que veio com ele; mas qualquer uma

que usasse mostraria ser ele pessoa para ser cobiçada, servida e

estimada, porque era formoso demais, e tinha, pelo visto, uns

dezessete ou dezoito anos.

Ricote e sua filha saíram para recebê-lo, o pai com lágrimas e a filha

com recato. Não se abraçaram, porque onde há muito amor não

costumam haver demasiadas efusões. Lado a lado, as belezas de dom

Gregório e de Ana Félix causaram pasmo extraordinário a todos os

presentes. Ali foi o silêncio quem falou pelos apaixonados, e os olhos

foram as línguas que revelaram suas intenções, alegres e puras.

O renegado contou os meios e as manhas que precisou empregar

para trazer dom Gregório; dom Gregório contou os perigos e apertos

que passara com as mulheres com quem tinha ficado, mas sem longas explicações, com rápidas palavras, onde mostrou que seu

discernimento ultrapassava sua idade. Por fim, Ricote pagou

generosamente tanto o renegado como os remadores. O renegado se

reconciliou com a Igreja, submetendo-se ao tribunal da Santa

Inquisição — e o membro podre voltou são e salvo com a penitência e

o arrependimento.

Dali a dois dias o vice-rei tratou com dom Antônio da forma como

resolveriam o caso de Ana Félix e seu pai, parecendo-lhes não haver

inconveniente algum em que ficassem na Espanha filha tão cristã e pai,

pelo visto, tão bem-intencionado. Dom Antônio se ofereceu para ir à

corte negociá-lo, onde tinha de ir forçosamente por outros assuntos,

dando a entender que lá, por meio de favores e presentes, se

conseguem muitas coisas difíceis.

— Não — disse Ricote, que participava dessa conversa —, não

devemos nos valer de favores nem de presentes, porque com o grande

dom Bernardino de Velasco, conde de Salazar, a quem sua majestade

encarregou nossa expulsão, não adiantam súplicas, nem promessas,

nem presentes, nem queixas, pois, embora ele misture a misericórdia

com a justiça, sabe que todo o corpo de nossa nação está contaminado e podre, e usa com ele antes o ferro em brasa que o cauteriza que o

unguento que o mitiga. Assim, com prudência, com sagacidade, com

diligência e com o medo que inspira, levou sobre seus ombros fortes o

peso dessa grande empresa e a executou devidamente, sem que nossas

artimanhas, estratagemas, solicitações e fraudes tenham conseguido

ofuscar seus olhos de Argos, que mantém alertas o tempo todo para

que não fique nem se esconda nenhum dos nossos, que, como raiz

oculta, venha a brotar com o tempo e dar frutos venenosos na

Espanha, já limpa, já desembaraçada dos temores em que nossa

multidão a mantinha. Heroica resolução essa do grande Felipe

Terceiro, e inaudita prudência tê-la encarregado a dom Bernardino de

Velasco.

— Mesmo assim, estando lá, farei uma por uma as diligências

possíveis, e que o céu faça o que achar melhor — disse dom Antônio.

— Dom Gregório irá comigo, para consolar seus pais da tristeza que

devem sentir por sua ausência; Ana Félix ficará com minha mulher, em

minha casa ou num mosteiro, e eu sei que o senhor vice-rei gostará que fique na sua o bom Ricote até ver como me saio no negócio.

O vice-rei concordou com tudo, mas dom Gregório, sabendo o que

acontecia, disse que de maneira nenhuma podia nem queria deixar

dona Ana Félix; mas, tendo intenção de ver seus pais e dar um jeito de

voltar por causa dela, acabou por aceitar a combinação. Ana Félix

ficou com a mulher de dom Antônio, e Ricote na casa do vice-rei.

Chegou o dia da partida de dom Antônio, e o de dom Quixote e

Sancho, que foi dali a dois, porque o tombo não permitiu que se

pusesse a caminho mais cedo. Houve lágrimas, houve suspiros,

desmaios e soluços quando dom Gregório se despediu de Ana Félix.

Ricote ofereceu a dom Gregório mil escudos, se os quisesse, mas ele

não aceitou nenhum, apenas cinco, emprestados por dom Antônio, a

quem prometeu pagar na corte. Assim partiram os dois, e dom

Quixote e Sancho em seguida, como se disse: dom Quixote em traje de

passeio; Sancho a pé, pois o burro carregava as armas e a armadura.

 

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