Dom Quixote

Miguel de Cervantes · Capítulo 94 de 137

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Dom Quixote

Capítulo XXXIII

da deliciosa conversa que a duquesa

e suas aias tiveram com sancho pança, digna

de que se leia com toda a atenção

A história conta então que Sancho não dormiu aquela sesta — para

cumprir a palavra, logo depois de comer foi ver a duquesa, que, como

gostava muito de ouvi-lo, o fez se sentar perto dela numa cadeira de

espaldar baixo, embora Sancho, por pura educação, quisesse

permanecer de pé. Mas a duquesa lhe disse que se sentasse como

governador e falasse como escudeiro, porque por ambas as coisas ele

merecia o próprio assento do Cid Ruy Díaz, o Campeador.1

Sancho encolheu os ombros, obedeceu e se sentou, e todas as aias e

amas da duquesa o rodearam atentas, em grande silêncio, para escutar

o que diria. Mas foi a duquesa que falou primeiro, dizendo:

— Agora que estamos a sós e que aqui ninguém nos ouve, gostaria

que o senhor governador me aclarasse certas dúvidas que tenho,

nascidas da história do grande dom Quixote que foi impressa. Uma

dessas dúvidas é que o bom Sancho nunca viu Dulcineia, digo, a

senhora Dulcineia del Toboso, nem levou a carta do senhor dom

Quixote, porque ficou naquele livrinho de anotações na Serra Morena.

Como se atreveu a fingir a resposta e aquilo de que a encontrou

peneirando trigo, sendo tudo mentira e zombaria, e tão prejudicial à

boa reputação da sem-par Dulcineia? São todas coisas que não casam

bem com a qualidade e a fidelidade dos bons escudeiros.

A essas palavras, sem responder com nenhuma, Sancho se levantou

da cadeira e, com passos silenciosos, o corpo curvado e um dedo

posto sobre os lábios, andou pela sala toda levantando as cortinas.

Depois, sentou de novo e disse:

— Agora, minha senhora, que vi que ninguém nos escuta às

escondidas, exceto os presentes, sem medo nem sustos responderei ao

que me perguntou e a tudo aquilo que me perguntar. A primeira coisa

que tenho a dizer é que considero meu senhor dom Quixote um louco

rematado, mesmo que às vezes diga coisas que em minha opinião e na

de todos que o escutam são tão sábias e tão bem alinhavadas que nem o próprio Satanás poderia falar melhor… Bem, apesar disso tudo,

convenci-me de que realmente, no fundo, no fundo, ele é um

mentecapto. Enfim, como eu tenho isso bem assentado na cachola,

atrevo-me a fazê-lo acreditar em coisas que não têm nem pé nem

cabeça, como foi aquela da resposta da carta ou essa que aconteceu há

seis ou oito dias, que, como ainda não consta em livro, convém saber:

o encantamento de minha senhora dona Dulcineia. Pois eu lhe dei a

entender que está encantada, não sendo isso mais verdadeiro que

qualquer história fabulosa.

A duquesa suplicou que lhe contasse o encantamento ou trapaça, e

Sancho contou tudo do mesmo jeito que havia acontecido, do que não

se divertiram pouco as ouvintes. Prosseguindo em sua conversa, a

duquesa disse:

— Depois de tudo o que o bom Sancho me contou, uma dúvida ficou

me comichando na alma, e um certo sussurro chega a meus ouvidos e

me diz: “Se dom Quixote de la Mancha é louco, tolo e mentecapto, e

seu escudeiro Sancho Pança o conhece bem, mas o serve e o segue e vai agarrado às vãs promessas que ele fez, sem dúvida alguma ele deve

ser mais louco e tolo que seu amo. Sendo isso assim, como deve ser,

não parecerá nada bom, senhora duquesa, que entregues a esse tal

Sancho Pança o governo da ilha, porque como saberá governar os

outros aquele que não sabe governar a si mesmo?”.

— Por Deus, senhora — disse Sancho —, que essa dúvida teve parto

normal, mas diga vossa mercê a ela que pode falar mais alto, se quiser,

pois sei que diz a verdade: se eu tivesse juízo, há tempos devia ter

deixado meu amo. Mas esta foi minha sorte e meu azar: não posso

fazer outra coisa, tenho de segui-lo; somos da mesma terra, comi seu

pão, gosto dele; é agradecido, deu-me seus burrinhos; mas, acima de

tudo, sou fiel, de modo que é impossível que qualquer coisa possa nos

separar além da gadanha da Caveirosa. E, se vossa magnitude não

quiser que me deem o prometido governo, paciência: Deus nos fez

com menos, pois nos fez do nada. E poderia ser que, não me dando,

redundasse em favor de minha consciência, que, mesmo tola, entende

aquele ditado que diz que para mal dela nasceram asas na formiga, e

até pode ser que o Sancho escudeiro fosse mais fácil para o céu que o

Sancho governador. Aqui fazem pão tão bom quanto na França, e de noite todos os gatos são pardos, e desgraçada mesmo é a pessoa que

às duas da tarde não quebrou o jejum, e não há estômago que seja um

palmo maior que outro que não possa ser enchido de palha ou feno,

como se diz; e as avezinhas dos campos têm em Deus seu provedor e

despenseiro, e mais esquentam quatro metros de estopa de Cuenca que

quatro de sarja de Segóvia, e tanto o nobre como seu criado deixam

este mundo para comer grama pela raiz, e não ocupa um túmulo

maior o corpo do papa que o do sacristão, mesmo que um seja mais

alto que o outro, pois ao entrar no buraco todos nos ajustamos e

encolhemos, ou nos ajustam ou nos encolhem mesmo que a gente não

queira, e bênção e boa noite. E digo de novo: se vossa senhoria não

quiser me dar a ilha por eu ser tolo, saberei não me dar nada por

sábio, porque ouvi dizer que atrás da cruz às vezes está o diabo, e que

nem tudo que reluz é ouro, e que de entre bois, arados e jugos tiraram

o lavrador Bamba para ser rei da Espanha, e de entre os brocados,

diversões e riquezas tiraram Rodrigo para ser comido pelas cobras, se

é que os versos dos trovadores antigos não mentem.

— É claro que não mentem! — disse nessa altura dona Rodríguez,

que era uma das ouvintes. — Há um romance que diz que meteram o

rei Rodrigo vivo numa tumba cheia de sapos, cobras e lagartos, e que

dali a dois dias o rei disse lá do fundo, em voz baixa e queixosa:

Já me comem, já me comem

justo por onde mais pequei;2

então, como se vê, este senhor tem muita razão ao dizer que quer mais

ser camponês que rei, se os vermes irão comê-lo.

A duquesa não pôde controlar o riso ouvindo a simplicidade de sua

ama, nem deixou de se admirar com as palavras e os ditados de

Sancho, a quem disse:

— O bom Sancho já sabe que um cavaleiro procura cumprir aquilo

que promete, mesmo que lhe custe a vida. O duque, meu senhor e

marido, embora não seja dos andantes, nem por isso deixa de ser

cavaleiro, portanto cumprirá a palavra da ilha prometida, apesar da

inveja e da malícia do mundo. Fique, Sancho, tranquilo, que quando

menos pensar se verá sentado no trono de sua ilha, em sua nova

condição, à frente de seu governo, que mais tarde deixará por um de maior quilate. O que eu lhe recomendo é que olhe como governa seus

vassalos, notando que todos são leais e bem-nascidos.

— Isso de governá-los bem não é preciso me recomendar —

respondeu Sancho —, porque sou caridoso por natureza e tenho

compaixão pelos pobres. Quem a raposa quer enganar muito cedo tem

de madrugar, e juro pelo que há de mais sagrado que comigo não vão

tirar farinha: sou macaco velho e não meto a mão em cumbuca, se a

água me alcança a cintura aprendo a nadar, e não consinto que me

joguem fumaça nos olhos, porque sei onde me aperta o sapato; digo

isso porque não tenho dois pesos nem duas medidas: com os bons,

mão aberta; com os maus, pé alerta. E me parece que nisso de governo

é questão de começar, e poderia ser que em quinze dias como

governador eu me pelasse pelo ofício e soubesse mais dele que do

trabalho no campo, em que me criei.

— Tendes razão, Sancho — disse a duquesa —, pois ninguém nasce

sabendo, e dos homens se fazem os bispos, não das pedras. Mas,

voltando ao assunto do encantamento da senhora Dulcineia, de que tratávamos há pouco, tenho por coisa certa e mais que sabida que

aquela ideia que Sancho teve de enganar seu senhor (dando a entender

que a camponesa era Dulcineia e que, se seu senhor não a

reconhecesse, era porque devia estar encantada) foi tudo invenção de

algum dos magos que perseguem dom Quixote. Porque eu sei com

certeza, de fonte segura, que a aldeã que deu o pulo sobre a burrinha

era e é Dulcineia del Toboso, e que o bom Sancho, pensando ser o

enganador, é o enganado. Como se diz no catecismo, não se deve

duvidar dessa verdade mais que das coisas que nunca vimos. Pois

saiba o senhor Sancho Pança que também temos por aqui magos que

nos querem bem e nos dizem o que acontece pelo mundo, pura e

simplesmente, sem enredos nem tramoias. Assim, Sancho, pode

acreditar em mim: a aldeã puladora era e é Dulcineia del Toboso, que

está tão encantada como a mãe que a pariu, e, quando menos

pensemos, haveremos de vê-la com sua própria aparência, e então

Sancho sairá do engano em que vive.

— Pode ser, pode ser — disse Sancho Pança. — Então devo acreditar

no que meu amo conta sobre o que viu na caverna de Montesinos,

onde diz que estava a senhora Dulcineia del Toboso com as mesmas roupas que eu disse que tinha visto quando a encantei por puro gosto.

Sim, tudo deve ser às avessas, como diz vossa mercê, minha senhora,

porque com a cabeça ruim que tenho não se pode esperar que

fabricasse num instante um embuste tão sagaz, nem acho que meu

amo seja tão louco que com tão fraca e magra persuasão como a

minha acreditasse numa coisa tão fora do esquadro. Mas, senhora,

nem por isso fica bem que vossa bondade me tenha por malévolo, pois

um burro como eu não tem obrigação de penetrar os pensamentos e as

malícias desses magos desgraçados: fingi aquilo para escapar das

reprimendas de meu senhor dom Quixote, não com a intenção de

ofendê-lo; e, se o tiro saiu pela culatra, lá está Deus no céu que julga

os corações.

— É verdade, Sancho — disse a duquesa —, mas me diga que

negócio é esse da caverna de Montesinos, que eu gostaria de saber.

Então Sancho Pança contou tintim por tintim o que foi dito antes

sobre essa aventura. Ao acabar de ouvir, a duquesa disse:

— Se o grande dom Quixote diz que viu ali a mesma camponesa que Sancho viu na saída de El Toboso, podemos concluir que sem dúvida é

Dulcineia, e que andam por aqui magos dos mais ladinos e diligentes.

— É o que digo — disse Sancho Pança —, se minha senhora

Dulcineia del Toboso está encantada, azar dela, pois eu não tenho de

me meter com os inimigos de meu amo, que devem ser muitos e maus.

Mas a verdade é que a moça que vi era uma camponesa, e por

camponesa a tive, e por camponesa a julguei. Agora, se aquela era

Dulcineia, não é de minha conta, nem tenho culpa nenhuma: ou terão

de se haver comigo. Não, não, senão vão andar a toda hora em cima

de mim, com disse me disse, “Sancho disse, Sancho fez, Sancho foi,

Sancho voltou”, como se Sancho fosse um qualquer, e não fosse o

próprio Sancho Pança, o que anda já em livros por este mundo de

Deus, conforme me disse Sansão Carrasco, que, pelo menos, é

bacharel por Salamanca, e esses não podem mentir, a não ser quando

lhes dá na veneta ou quando lhes cai bem. De modo que não há

motivo para que ninguém se meta comigo. Além do mais, tenho boa

reputação e, conforme ouvi meu senhor dizer, mais vale ter um bom

nome que muitas riquezas. Encaixem-me logo nesse governo e verão

maravilhas, pois quem foi bom escudeiro será bom governador.

— Tudo que disse aqui o bom Sancho — disse a duquesa — são

sentenças dignas de Catão ou, pelo menos, tiradas das próprias

entranhas do próprio Micael Verino, florentibus occidit annis.3 Enfim,

enfim, falando de seu modo, embaixo de uma má capa pode haver um

bom bebedor.

— Para dizer a verdade, senhora — respondeu Sancho —, nunca na

vida bebi por vício: por sede, bem poderia ser, porque não tenho nada

de hipócrita; bebo quando tenho vontade, quando não a tenho e

quando me oferecem bebida, para não parecer melindroso ou mal-

educado, pois, ao brinde de um amigo, que coração será de mármore

que não o retribua? Embora empine, nunca caio, sem falar que os

escudeiros dos cavaleiros andantes quase que só bebem água, porque

sempre andam pelas florestas, matas e campos, montanhas e

despenhadeiros, sem topar com uma gota de vinho nem para remédio,

mesmo que deem um olho por ela.

— Acredito — respondeu a duquesa. — Mas agora vá, Sancho,

descansar, que depois falaremos mais demoradamente e daremos as ordens para que logo o encaixem no governo, como ele disse.

De novo Sancho beijou as mãos da duquesa e suplicou que fizesse o

favor de cuidarem bem de seu ruço, porque era a luz de seus olhos.

— Que ruço é este? — perguntou a duquesa.

— Meu burro — respondeu Sancho —, pois, para não chamá-lo por

esse nome, costumo dizer “o ruço”; e a essa senhora ama roguei,

quando entrei no castelo, que cuidasse dele, e se amolou tanto como

se tivesse dito que era feia ou velha, devendo ser mais próprio e

natural que as amas cuidem de jumentos que enfeitem as salas com

sua presença. Oh, que Deus me ajude, como se dava mal com essas

senhoras um fidalgo de minha terra.

— Deve ser algum aldeão — disse dona Rodríguez, a ama —, pois,

se fosse fidalgo e bem-nascido, ele as poria nos cornos da lua.

— Muito bem — disse a duquesa —, já chega: cale-se dona

Rodríguez e acalme-se o senhor Pança, e deixem comigo os mimos ao

ruço, que, por ser joia de Sancho, cuidarei como se fossem as meninas

de meus olhos.

— Basta que esteja na estrebaria — respondeu Sancho —, porque

nem ele nem eu somos dignos de ser comparados às meninas dos olhos de vossa grandeza, e consentirei nisso tanto quanto me deixar

apunhalar, pois, embora meu senhor diga que nas cortesias deve-se

perder com carta demais que de menos, nas cortesias jumentais e

burrais deve-se falar com palavras medidas e andar com a sonda na

mão.

— Que Sancho o leve para a ilha — disse a duquesa —, e lá,

enquanto governa, poderá mimá-lo como quiser, e até aposentá-lo.

— Não pense vossa mercê, senhora duquesa, que disse grande coisa

— disse Sancho —, pois vi mais de dois burros irem para o governo, e

se eu levasse o meu não seria nenhuma novidade.

As palavras de Sancho renovaram os risos e a alegria da duquesa; e,

mandando-o descansar, ela foi contar ao duque o que havia

acontecido, e entre os dois combinaram fazer uma brincadeira com

dom Quixote, que se tornasse famosa e fosse bem ao estilo

cavaleiresco — e realmente fizeram muitas nesse estilo, tão

apropriadas e ladinas que são as melhores aventuras que se contam

nesta grande história.

 

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