Dom Quixote

Miguel de Cervantes · Capítulo 40 de 137

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Dom Quixote

Capítulo XXXII

que trata do que aconteceu na estalagem

a todo o grupo de dom quixote

Acabada a boa refeição, encilharam as montarias e no outro dia, sem

que lhes acontecesse nada digno de nota, chegaram àquela estalagem,

espanto e terror de Sancho Pança; e, embora ele não quisesse entrar

nela, não pôde fugir. O estalajadeiro, sua mulher, sua filha e

Maritornes, que viram dom Quixote e Sancho chegar, foram recebê-

los com mostras de muita alegria, e dom Quixote os recebeu com

expressão grave de aprovação e disse que lhe arranjassem outra cama

melhor que a da última vez. A estalajadeira respondeu que, se lhe

pagasse mais que na outra, ela lhe daria uma digna de príncipes. Dom

Quixote disse que pagaria, sim, e então lhe arrumaram uma razoável

no mesmo sótão de sempre, e ele se deitou logo, porque vinha muito

abatido e transtornado.

Mal havia se recolhido, quando a estalajadeira investiu contra o

barbeiro e, agarrando-o pela barba, disse:

— Por Deus, nunca mais irás te aproveitar do meu rabo para tua

barba, e trates de me devolver logo o negócio, porque o do meu

marido anda pelo chão, que é uma vergonha. Digo, o pente, que

costumava pendurar no meu rabo.

O barbeiro não queria entregá-lo, por mais que ela puxasse, até que

o licenciado disse a ele que o entregasse, que aquele disfarce não era

mais necessário, que se descobrisse e se mostrasse a dom Quixote com

sua própria cara e dissesse que tinha fugido para aquela estalagem

quando os galeotes o roubaram, e que, se ele perguntasse pelo

escudeiro da princesa, diriam que ela o havia enviado à frente para

anunciar aos seus no reino que voltava levando consigo o libertador de todos. Com isso, o barbeiro devolveu de boa vontade o rabo para a

estalajadeira, e devolveram também todos os adereços que ela havia

emprestado para a libertação de dom Quixote. Todos, na estalagem,

se admiraram com a formosura de Doroteia e com a boa aparência do

pastor Cardênio. O padre mandou que preparassem a comida com o

que houvesse na estalagem, e o estalajadeiro, na esperança de melhor pagamento, com rapidez preparou uma refeição passável. Enquanto

isso, dom Quixote dormia, e preferiram não despertá-lo, porque seria

mais proveitoso para ele dormir que comer.

Depois da refeição, diante do estalajadeiro, sua mulher, sua filha,

Maritornes e todos os viajantes, falaram da estranha loucura de dom

Quixote e de como o tinham achado. A estalajadeira contou o que

havia acontecido com ele e o tropeiro, depois, como não visse Sancho

por perto, contou toda a brincadeira da manta, que ouviram com

muito prazer. E, como o padre dissesse que os livros de cavalaria que

dom Quixote havia lido tinham virado a cabeça dele, o estalajadeiro

disse:

— Não entendo como pode ser assim, porque na verdade me parece

que não há melhor leitura no mundo: tenho dois ou três deles, com

outros papéis, que realmente me animaram a vida. Não apenas a

minha, mas a de muitos outros, porque, quando é tempo de colheita,

muitos trabalhadores se reúnem aqui nos feriados, e sempre há algum

que sabe ler e pega um desses livros. Então, mais de trinta o rodeamos e ficamos ouvindo com tanto prazer que perdemos mais de mil

aflições. Eu pelo menos, quando ouço descrever aqueles golpes

furiosos e terríveis que os cavaleiros desferem, sinto vontade de fazer a

mesma coisa, e gostaria de ficar ouvindo-os dias e noites.

— Comigo também, sem tirar nem pôr — disse a estalajadeira —,

porque só tenho sossego em minha casa quando estais ouvindo a

leitura: ficais tão embasbacado que nem vos lembrais de reclamar.

— É a pura verdade — disse Maritornes. — Palavra que eu também

gosto muito de ouvir aquelas coisas, que são muito lindas, e mais

ainda quando contam que a outra senhora está embaixo das

laranjeiras abraçada com seu cavaleiro, com uma aia de sentinela,

morta de inveja e toda assustada. Isto para mim é de dar água na

boca.

— E vós, senhora donzela, que achais? — disse o padre, falando com

a filha do estalajadeiro.

— Não sei, senhor, não sei mesmo — respondeu ela. — Eu também

ouço e, embora na verdade não os entenda, tenho prazer em ouvi-los.

Mas não gosto das lutas de que meu pai gosta e sim das queixas dos cavaleiros quando estão longe de suas damas, tanto que às vezes me

fazem chorar de compaixão.

— Então os consolaria, senhora donzela — disse Doroteia —, se

chorassem por vós?

— Não sei o que faria — respondeu a moça. — Sei apenas que

algumas dessas senhoras são tão cruéis que seus cavaleiros as chamam

de tigres, leões e outras mil imundícies. Santo Deus, eu não sei que

gente é essa tão desalmada, tão impiedosa, que para não olhar para

um homem honrado deixam que ele morra ou que fique louco. Não

sei para que tantos melindres: se o fazem por ser honradas, casem-se

com eles, que eles não desejam outra coisa.

— Cala-te, menina — disse a estalajadeira. — Parece que sabes

muito dessas coisas, e não fica bem para as donzelas saber nem falar

tanto.

— Como perguntava este senhor — respondeu ela —, não pude

deixar de responder.

— Pois bem, senhor estalajadeiro — disse o padre —, trazei-me esses livros, que os quero ver.

— Será um prazer — respondeu ele.

Entrou em seu quarto e trouxe uma maleta velha, fechada com uma

correntinha. Abrindo-a, viram-se nela três livros grandes e uns papéis,

escritos à mão, com muito boa letra. O primeiro livro que abriu era

Don Cirongilio de Tracia,1 o segundo, Felixmarte de Hircania, e o

outro, a Historia del Gran Capitán Gonzalo Hernández de Córdoba,

con la vida de Diego García de Paredes.2 Logo que o padre leu os dois

primeiros títulos, virou o rosto para o barbeiro e disse:

— Que falta fazem a criada e a sobrinha de meu amigo.

— Não fazem — respondeu o barbeiro. — Eu também posso levá-los

para o pátio ou para o fogão, que na verdade está bem aceso.

— O quê?! Vossa mercê quer queimar mais livros? — disse o

estalajadeiro.

— Mais não — disse o padre —, só estes dois, o de dom Cirongílio e

o de Felixmarte.

— Mas por acaso meus livros são hereges ou fleumáticos — disse o

estalajadeiro —, para que sejam queimados?

— Quereis dizer “cismáticos”, meu amigo — disse o barbeiro —,

não “fleumáticos”.

— Isso — replicou o estalajadeiro. — Mas, se quiser queimar algum,

que seja o do grande capitão e desse Diego García, pois prefiro

queimar um filho que algum desses outros.

— Meu irmão — disse o padre —, estes dois livros são mentirosos,

estão cheios de disparates e fantasias. Mas este do grande capitão é

história verdadeira, conta os feitos de Gonzalo Hernández de

Córdoba, que por suas grandes e variadas façanhas mereceu ser

chamado por todo mundo de “grande capitão”, alcunha ilustre e

luminosa, merecida apenas por ele. E este Diego García de Paredes foi

um cavaleiro importante, natural da cidade de Trujillo, na

Estremadura, soldado muito valente e tão forte que parava com um

dedo uma roda de moinho rodando em plena fúria. Parado com um

montante na entrada de uma ponte, impediu que todo um exército

inumerável passasse por ela; e fez tantas outras coisas que ele mesmo

conta e escreve com a modéstia própria de cavaleiro e de cronista como se as escrevesse outro, livre e desapaixonado, que deixariam no

esquecimento as dos Heitores, Aquiles e Rolands.

— E eu com isso?! — disse o estalajadeiro. — Olhai só o que vos

espanta, parar uma roda de moinho! Por Deus, vossa mercê devia ler

o que fez Felixmarte da Hircânia, que com apenas um golpe decepou

cinco gigantes pela cintura, como se fossem feitos de favas, como os

bonequinhos com que as crianças brincam.3 E outra vez atacou um

grandíssimo e poderosíssimo exército, enfrentando mais de um milhão

e seiscentos mil soldados, todos armados até os dentes, e os

desbaratou a todos, como se fossem um rebanho de ovelhas. E que me

dirão do bom Cirongílio da Trácia? Foi tão valente e arrojado como se

verá no livro, onde conta que navegava por um rio quando saltou do

meio da água uma serpente de fogo. Mal ele a viu, atirou-se sobre ela

e, montado nas costas cheias de escamas, apertou com tanta força sua

garganta com ambas as mãos que a serpente, vendo-se sufocada, não

teve mais remédio que se deixar ir ao fundo do rio, levando junto o

cavaleiro, que não a quis soltar. E, quando chegaram lá embaixo, se

encontrou num palácio e nuns jardins tão lindos que era uma

maravilha, e então a serpente se transformou num velho ancião que lhe disse tantas coisas que só ouvindo para crer. Calai, senhor, que, se

ouvísseis isso, ficaríeis louco de prazer. Duas figas para o grande

capitão e para esse tal de Diego García!

Ouvindo isso, Doroteia disse baixinho para Cardênio:

— Falta pouco para nosso estalajadeiro seguir dom Quixote.

— É o que me parece — respondeu Cardênio —, porque dá mostras

de que acredita piamente que as coisas aconteceram como estão

descritas nos livros, e nem se jurarmos sobre a Bíblia pensará o

contrário.

— Vede, meu caro: nunca houve no mundo Felixmarte da Hircânia,

nem dom Cirongílio da Trácia — disse o padre de novo —, nem

outros cavaleiros semelhantes como se conta nos livros de cavalaria.

São invenções, ficções de mentes ociosas, que os criaram, como dizeis,

para passar o tempo, como passam vossos trabalhadores quando os

leem. Porque vos juro: esses cavaleiros jamais existiram, nem essas

façanhas e disparates aconteceram.

— Jogue esse osso para outro cachorro! — respondeu o estalajadeiro. — Como se eu não soubesse que dois mais dois são

quatro e onde me aperta o sapato! Não pense vossa mercê que caio

nessa, que não tenho um pingo de tonto. Muito me admira que vossa

mercê queira me convencer de que tudo aquilo que esses bons livros

dizem são tolices e patranhas, estando impressos com a licença dos

senhores do Conselho Real, como se eles fossem gente que iria deixar

imprimir tanta mentira junta, e tantas batalhas e tantos

encantamentos que viram a cabeça!

— Já vos disse, meu amigo — replicou o padre —, que isso é feito

para entreter nossos pensamentos ociosos. Assim como se permite, nas

repúblicas bem organizadas, que haja jogos de xadrez, de pelota e de

bilhar, para divertir os que não têm, nem devem, nem podem

trabalhar, assim se permite a impressão desses livros, acreditando, com

razão, que não haverá ninguém tão ignorante que considere

verdadeira alguma história deles. E, se me fosse lícito agora e os

presentes me pedissem, eu diria algumas coisas sobre o que devem ter

os livros de cavalaria para ser bons, o que talvez para algumas pessoas

fosse de proveito e mesmo um prazer; mas tenho esperança de algum

dia poder falar com quem possa dar um jeito nisso. Por ora, crede no que vos disse, senhor estalajadeiro, e tomai vossos livros e entendei-

vos com suas verdades ou mentiras, e bom proveito, e queira Deus que

não coxeeis do pé que coxeia vosso hóspede dom Quixote.

— Isso não — respondeu o estalajadeiro. — Não sou louco a ponto

de me tornar cavaleiro andante, pois sei muito bem que agora não se

faz o que se fazia naquele tempo, quando se diz que andavam pelo

mundo esses famosos cavaleiros.

Sancho chegou no meio dessa conversa e ficou meio confuso,

pensando no que tinha ouvido, que agora não havia mais cavaleiros

andantes e que todos os livros de cavalaria eram tolices e mentiras.

Decidiu então esperar para ver no que dava aquela viagem com seu

amo — se não acontecesse a felicidade que esperava, ele o deixaria e

voltaria ao trabalho de sempre, com sua mulher e seus filhos.

O estalajadeiro levava a maleta com os livros, mas o padre lhe disse:

— Esperai. Quero ver que papéis são esses escritos com tão boa

letra.

O estalajadeiro os pegou e alcançou ao padre, que viu cerca de oito cadernos manuscritos, com um título grande no começo: História do

curioso impertinente. O padre leu para si mesmo três ou quatro linhas

e disse:

— Na verdade não me parece mau este título e fiquei com vontade

de ler a história toda.

Ao que o estalajadeiro respondeu:

— Pode lê-la, sim, sua reverência, e garanto ao senhor que agradou

muito a uns hóspedes que a leram, e muitas vezes me imploraram do

fundo do coração que a desse, mas eu não quis, pensando em devolvê-

la a quem esqueceu esta maleta, pois bem pode acontecer de que o

dono volte por aqui algum dia, e eu, embora saiba que os livros me

farão falta, juro que vou devolvê-los: sou cristão, apesar de

estalajadeiro.4

— Tendes toda razão, meu amigo — disse o padre. — Mas, se eu

gostar da história, haveis de deixar que a copie.

— De muito bom grado — respondeu o estalajadeiro.

Enquanto os dois falavam, Cardênio havia pegado os cadernos e

começado a ler; como achou a mesma coisa que o padre, pediu a ele

que lesse a história de modo que todos a ouvissem.

— Eu a leria, sim — disse o padre —, se não fosse melhor gastar esse

tempo com o sono.

— Será um belo descanso para mim passar o tempo ouvindo algum

conto — disse Doroteia —, pois ainda não tenho o espírito tão sereno

que me deixe pegar no sono como preciso.

— Assim sendo — disse o padre —, vou ler, nem que seja por

curiosidade. Talvez aqui tenha alguma coisa interessante.

Mestre Nicolás e Sancho também insistiram para que lesse. Com

isso, o padre entendeu que todos teriam prazer como ele mesmo e

disse:

— Bem, então fiquem atentos, que a história começa assim:

 

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