Dom Quixote

Miguel de Cervantes · Capítulo 55 de 137

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Dom Quixote

Capítulo XLVII

do modo estranho com que

dom quixote de la mancha foi encantado,

com outros acontecimentos famosos

Quando dom Quixote se viu enjaulado daquela maneira e em cima do

carro, disse:

— Li muitas e graves histórias de cavaleiros andantes, mas jamais li,

nem vi, nem ouvi que levassem os cavaleiros encantados desta maneira

e com a demora que prometem esses animais lerdos e preguiçosos,

pois costumam sempre levá-los pelos ares com singular rapidez, presos

em alguma nuvem parda e escura ou em algum carro de fogo, ou

mesmo montados num hipogrifo ou em outro monstro semelhante.

Mas que me levem agora num carro de bois, minha nossa! Deixam-me

confuso! Quem sabe a cavalaria e os encantamentos de nossa época

sigam um caminho diferente do que seguiram os antigos. E poderia ser

ainda que, como eu sou cavaleiro novo no mundo e o primeiro que

ressuscitou o já esquecido exercício da cavalaria aventureira, também

tenham se inventado outros tipos de encantamentos e outros modos de

levar os encantados. Que achas disso, Sancho, meu filho?

— Eu não sei, não — respondeu Sancho —, por não ser tão lido

como vossa mercê nas escrituras andantes; mas, mesmo assim, ousaria

afirmar e jurar que essas assombrações que andam por aqui não são

das mais católicas.

— Católicas?! Minha nossa! — respondeu dom Quixote. — Como

vão ser católicas se são todos demônios que tomaram corpos

fantásticos para vir fazer isso e me pôr neste estado? E, se quiseres

comprovar a verdade, toca neles e apalpa-os: verás que têm corpo de

ar e consistem apenas de aparência.

— Por Deus, senhor — replicou Sancho —, já toquei neles! Este

diabo que anda aqui todo solícito é gordinho e tem outra propriedade

muito diferente da que eu ouvi que os demônios têm, porque, pelo que

se diz, todos cheiram a enxofre e a outras coisas fedorentas, mas este

cheira a âmbar de longe.

Sancho dizia isso por causa de dom Fernando, que, como nobre,

devia cheirar mesmo a âmbar.

— Não te admires disso, meu amigo Sancho — respondeu dom

Quixote —, porque, eu te garanto, os diabos sabem muito e, mesmo

que exalem alguns cheiros, eles não cheiram a nada, porque são

espíritos, e, se cheiram, não podem cheirar a coisas boas, só a coisas

ruins e hediondas. A razão é que, como eles trazem consigo o inferno

onde quer que estejam e não podem ter nenhum tipo de alívio em seus

tormentos, e como o cheiro bom é coisa que deleita e alegra, não é

possível que eles tenham bons cheiros. E se a ti parece que esse

demônio aí cheira a âmbar, ou tu te enganas ou ele quer te enganar

fazendo-te pensar que não é demônio.

Com toda essa conversa entre o amo e o criado, dom Fernando e

Cardênio temeram que Sancho se desse conta da tramoia, pois já

andava a um passo dela, e resolveram abreviar a partida. Chamando o

estalajadeiro à parte, ordenaram que encilhasse Rocinante e o jumento

de Sancho, o que ele fez com muita presteza.

Nessas alturas o padre já havia combinado com os quadrilheiros

para que os acompanhassem até sua aldeia, pagando-lhes um tanto

por dia. Cardênio pendurou a adarga num lado do arção da sela de

Rocinante e, no outro, a bacia, e por sinais mandou que Sancho

montasse no burro e pegasse as rédeas de Rocinante, e pôs dos dois

lados do carro os dois quadrilheiros com suas espingardas. Mas, antes

que o carro se movesse, a estalajadeira, sua filha e Maritornes saíram

para se despedir de dom Quixote, fingindo que choravam de dor pela

infelicidade dele. Dom Quixote disse a elas:

— Não choreis, minhas boas senhoras, pois todas essas desgraças

acompanham os que professam o que eu professo, e, se essas

calamidades não me acontecessem, eu não me consideraria um

cavaleiro andante de fama, porque aos cavaleiros de pouco renome

nunca acontecem casos semelhantes, pois não há no mundo quem se

lembre deles: aos valentes sim, que a virtude e a coragem deles causam

inveja a muitos príncipes e a muitos outros cavaleiros, que procuram

destruí-los por meios indignos. Mas mesmo assim a virtude é tão

poderosa que por si só, apesar de toda a necromancia que seu inventor

Zoroastro1 soube, sairá vencedora de toda aflição e dará de si luz ao mundo como a do sol no céu. Perdoai-me, formosas damas, se por

descuido cometi algum inconveniente, pois jamais os cometi por gosto

ou de propósito, e rogai a Deus que me tirem estas amarras com que

me prendeu algum mago mal-intencionado: porque, se delas me vir

livre, não se apagarão em minha memória as mercês que me haveis

feito neste castelo, para agradecê-las, retribuí-las e recompensá-las

como mereceis.

Enquanto isso acontecia entre as damas do castelo e dom Quixote, o

padre e o barbeiro se despediam de dom Fernando e seus

companheiros, do capitão, de seu irmão e de todas aquelas senhoras

alegres, especialmente de Doroteia e Lucinda. Todos se abraçaram e

ficaram de dar notícia, dom Fernando dizendo ao padre para onde

devia escrever para avisá-lo do fim da história de dom Quixote,

garantindo que não haveria coisa que lhe desse mais prazer que sabê-

lo, e que ele também avisaria sobre tudo aquilo que visse que poderia

contentá-lo, tanto de seu casamento como do batismo de Zoraida, do

caso de dom Luís e da volta de Lucinda para casa. O padre se comprometeu a fazer exatamente o que lhe pedia. Abraçaram-se de

novo e de novo se comprometeram a fazer o que tinham combinado.

O estalajadeiro se aproximou do padre e lhe deu uns papéis, dizendo

que os havia achado num compartimento da maleta onde estava a

História do curioso impertinente, e, como o dono dela não voltara

mais, que os levasse todos, pois ele não os queria porque não sabia ler.

O padre agradeceu e, abrindo-os logo, viu que no começo do texto

dizia: História de Rinconete e Cortadillo.2 Assim compreendeu que

era algum conto e deduziu que, como o do Curioso impertinente havia

sido bom, aquele também devia ser, pois talvez fosse do mesmo autor;

e então a guardou, pensando em lê-la quando tivesse tempo.

Montaram a cavalo, ele e seu amigo barbeiro, com suas máscaras,

para não serem reconhecidos de imediato por dom Quixote, e

seguiram atrás do carro. E a ordem do cortejo era esta: primeiro ia o

carro, guiado pelo dono; nos dois lados iam os quadrilheiros, como se

disse, com suas espingardas; depois vinha Sancho Pança em seu burro,

levando Roncinante pelas rédeas. Atrás de todos cavalgavam o padre e

o barbeiro em suas mulas possantes, os rostos cobertos como se disse,

numa atitude calma e séria, não andando mais do que permitiam os passos lerdos dos bois. Dom Quixote ia sentado na jaula, encostado às

grades, as mãos amarradas, os pés estendidos, tão silencioso e paciente

como se não fosse homem de carne e osso, mas estátua de pedra.

Assim, com aquela lentidão e silêncio andaram umas duas léguas, até

chegarem a um vale, que ao carreteiro pareceu um lugar apropriado

para descansar e com boa pastagem para os bois, como disse ao

padre. Mas o barbeiro foi de opinião que andassem um pouco ainda,

porque ele sabia que perto dali, atrás de uma encosta, havia um vale

muito melhor que aquele, com mais capim. Concordaram com o

barbeiro e, então, retomaram o caminho.

Nisso, o padre virou o rosto e viu que às suas costas vinham uns seis

ou sete homens a cavalo, bem vestidos e equipados, que logo os

alcançaram, porque não andavam com a pachorra e calma dos bois,

mas como se montassem mulas de cônego e com vontade de chegar em

seguida para sestear na estalagem que se achava a menos de duas

léguas dali. Os apressados alcançaram os vagarosos, e se

cumprimentaram com cortesia. Um dos que chegara, que realmente era cônego de Toledo e amo dos outros que o acompanhavam, vendo

a bem organizada comitiva que seguia o carro, quadrilheiros, Sancho,

Rocinante, padre e barbeiro, além de dom Quixote enjaulado e

amarrado, não pôde deixar de perguntar o que significava esse

negócio de levar um homem dessa maneira, embora já suspeitasse,

vendo as insígnias dos quadrilheiros, que devia ser algum salteador

perverso ou outro delinquente cujo castigo coubesse à Santa

Irmandade. Um dos quadrilheiros, a quem fora feita a pergunta,

respondeu assim:

— O que significa este cavaleiro ir dessa maneira? Ele que o diga,

senhor, porque nós não sabemos.

Dom Quixote ouviu a conversa e disse:

— Por acaso vossas mercês, senhores cavaleiros, são versados e

peritos em matéria de cavalaria andante? Porque, se o forem, vos

comunicarei minhas desgraças; se não, não há por que me cansar em

contá-las.

Nesse meio-tempo, o padre e o barbeiro haviam se aproximado,

vendo que os caminhantes conversavam com dom Quixote de la Mancha, para responder de modo que não fosse descoberto seu

estratagema.

O cônego, ao ouvir dom Quixote, disse:

— Na verdade, meu irmão, sei mais de livros de cavalaria que das

Súmulas de Villalpando.3 De modo que, se o problema era só esse,

com certeza podeis me comunicar o que quiserdes.

— Graças a Deus — replicou dom Quixote. — Bem, meu caro

senhor, se é assim, quero que saibais que vou encantado nesta jaula

por inveja e fraude de magos perversos, pois a virtude é mais

perseguida pelos maus que amada pelos bons. Sou cavaleiro andante,

não desses de cujo nome a fama jamais se lembrou para eternizá-los

em sua memória, mas daqueles que, a despeito e apesar da própria

inveja, e de todos os magos que a Pérsia engendrou, de todos os

brâmanes da Índia e gimnosofistas da Etiópia,4 haverá de pôr seu

nome no templo da imortalidade, para que sirva de exemplo e modelo

nos séculos futuros, para que os cavaleiros andantes vejam os passos

que devem seguir, se quiserem chegar ao topo da honrosa nobreza das armas.

— O senhor dom Quixote de la Mancha diz a verdade — disse o

padre nessa altura. — Ele vai mesmo encantado nesta carreta, não por

suas culpas e pecados, mas pela má intenção daqueles a quem a

virtude incomoda e a valentia aborrece. Este, senhor, é o Cavaleiro da

Triste Figura, se por acaso já não ouvistes falar dele, cujas ousadas

proezas e grandes feitos serão escritos em bronzes duros e mármores

eternos, por mais que a inveja se canse em obscurecê-los e a malícia

em ocultá-los.

Quando o cônego ouviu o preso e o livre falar em semelhante estilo,

esteve para fazer o sinal da cruz de espanto, sem saber o que diabos

estava acontecendo, e no mesmo espanto caíram todos os que vinham

com ele. Nisso Sancho Pança, que havia se aproximado ao ouvir a

conversa, para encerrar com fecho de ouro, disse:

— Agora, senhores, queiram-me bem ou mal pelo que direi, a

verdade é que meu senhor dom Quixote vai aí tão encantado como

minha mãe: ele vai em seu perfeito juízo, ele come e bebe e faz suas

necessidades como os outros homens e como as fazia ontem, antes que

o enjaulassem. Assim sendo, como querem me fazer acreditar que está encantado? Pois ouvi muitas pessoas dizerem que os encantados não

comem, nem dormem, nem falam, e meu amo, se não lhe fecharem a

matraca, fala mais que trinta procuradores.

E, virando-se para olhar o padre, continuou falando:

— Ah, senhor padre, senhor padre! Vossa mercê achava que eu não

o reconheci? Pensava que não sondei e adivinhei aonde vão parar esses

novos encantamentos? Pois saiba que o reconheci, por mais que

esconda o rosto, e saiba que entendi tudo, por mais que dissimule seus

embustes. Enfim, onde reina a inveja não pode viver a virtude, nem

onde há escassez, a liberalidade. Que o diabo o carregue! Se não fosse

por sua reverência, nessas alturas meu senhor estaria casado com a

infanta Micomicona e eu seria conde pelo menos, pois não se podia

esperar outra coisa, tanto da bondade de meu senhor da Triste Figura

como da grandeza de meus serviços! Mas já vejo que é verdade o que

se diz por aí: que a roda da fortuna gira mais rápido que uma roda de

moinho e que os que ontem estavam por cima hoje estão por baixo.

Tenho pena de meus filhos e de minha mulher, pois quando podiam e deviam esperar ver seu pai entrar pela porta feito governador ou vice-

rei de alguma ilha ou reino, irão vê-lo entrar feito cavalariço. Tudo

isso que eu disse, senhor padre, é só para que fique bem claro para sua

paternidade: tenha consciência do tratamento miserável que dá a meu

senhor e, preste atenção, que na outra vida Deus não lhe peça contas

por esta prisão de meu amo e o responsabilize por todo bem e

socorros que meu senhor dom Quixote deixa de fazer neste tempo que

está enjaulado.

— Vamos pôr os pingos nos is — disse o barbeiro nesse ponto. —

Também vós, Sancho, sois da confraria de vosso amo? Por Deus, vejo

que ireis acompanhá-lo na jaula e que ficareis tão encantado como ele,

pelo que compartilha de seu gênio e de sua cavalaria! Em mau lugar

vos deixastes emprenhar com suas promessas e em má hora vos entrou

na cachola a ilha que tanto desejais.

— Eu não estou prenhe de ninguém — respondeu Sancho —, nem

sou homem que se deixaria emprenhar, mesmo que fosse pelo rei.

Embora pobre, sou cristão-velho e não devo nada a ninguém; e, se

desejo ilhas, outros desejam coisas piores, e cada um é filho das

próprias obras; e pelo fato de ser homem posso vir a ser papa, quanto mais governador de uma ilha, e meu senhor pode ganhar tantas que

lhe falte a quem dá-las. Olhe vossa mercê como fala, senhor barbeiro,

pois há mais na vida que fazer barbas e nem dois ovos são iguais.

Digo isso porque todos nos conhecemos, e não venham me fazer de

bobo. Quanto ao encantamento de meu amo, Deus sabe a verdade,

mas fiquemos por aqui, porque isso é como aquilo que, quanto mais

se mexe, mais fede.

O barbeiro não quis responder a Sancho, para não revelar com suas

tolices o que ele e o padre tanto procuravam ocultar. Por causa desse

mesmo temor o padre havia dito ao cônego que caminhassem um

pouco adiante, que ele lhe desvendaria o mistério do enjaulado, com

outras coisas que o divertiriam. Assim fez o cônego, adiantando-se

com seus criados, e ficou atento a tudo aquilo que o padre quis dizer

sobre a condição, vida, loucura e costumes de dom Quixote,

contando-lhe rapidamente o princípio e a causa de seu desvario e todo

o curso de suas aventuras, até tê-lo posto naquela jaula, e a intenção

que tinham de levá-lo a sua terra, para ver se de algum modo poderiam tratar de sua loucura. Os criados e o cônego se admiraram

de novo com a estranha história de dom Quixote e, quando o padre

terminou, o cônego disse:

— Em minha opinião, senhor padre, esses livros que chamam de

cavalaria realmente são prejudiciais à república. Embora eu tenha

lido, levado pela ociosidade e por um gosto duvidoso, o começo de

quase todos os que foram impressos, jamais consegui ler nenhum até o

fim, porque me parece que todos eles são mais ou menos a mesma

coisa, e este não tem mais que aquele, nem este outro que aquele

outro. Pelo que entendo, esse gênero de literatura se alinha com aquele

das fábulas que chamam milésias, que são histórias disparatadas, que

só pretendem divertir, não ensinar, ao contrário do que fazem as

fábulas apologéticas, que divertem e ensinam ao mesmo tempo.5 E,

como a intenção principal desse tipo de livros é divertir, não sei como

podem consegui-lo, estando tão cheios de absurdos colossais: pois o

prazer que nasce na alma deve vir da beleza e harmonia que ela vê ou

contempla nas coisas que a vista ou a imaginação lhe apresenta, e toda

coisa que tem em si fealdade e desarmonia não pode nos causar

contentamento algum. Dizei-me, que beleza pode haver, ou que proporção de partes com o todo e do todo com as partes, num livro

ou fábula onde um rapaz de dezesseis anos dá uma espadada num

gigante alto como uma torre e o divide em dois, como se fosse de

manteiga? E quando quer pintar uma batalha, então? Depois de dizer

que do lado dos inimigos há um milhão de combatentes, somos

forçados a acreditar, por mais que nos pese, já que o protagonista do

livro é adversário deles, que o tal cavaleiro obteve a vitória apenas

pelo valor de seu braço forte. E o que diremos da facilidade com que

uma rainha ou imperatriz herdeira cai nos braços de um cavaleiro

andante desconhecido? Que mente, se não for de todo bárbara e

inculta, poderá se alegrar lendo que uma grande torre cheia de

cavaleiros vai mar afora, como um navio com vento favorável, e

anoitece hoje na Lombardia e pela manhã está nas terras do Preste

João das Índias, ou em outras que nem Ptomoleu descreveu nem

Marco Polo viu?

“E se me respondessem que os autores desses livros os escrevem

como quem conta mentiras e que, assim, não estão obrigados a se ater a escrúpulos nem verdades, eu responderia que a mentira é muito

melhor quanto mais parece verdadeira e agrada muito mais quanto

mais tem de ambíguo e possível. As histórias mentirosas devem casar

com a inteligência dos que as lerem: tem-se de escrevê-las de forma

que, tornando crível o impossível, nivelando os exageros, cativando as

almas, surpreendam, encantem, entusiasmem e divirtam, de modo que

andem juntas num mesmo passo a alegria e a admiração. E não

poderá fazer todas essas coisas quem fugir da verossimilhança e da

imitação, porque a perfeição do que se escreve reside nelas.

“Não vi nenhum livro de cavalaria com uma história de corpo

inteiro, com todos os seus membros, de maneira que o meio encaixe

com o começo, o fim com o começo e com o meio; pelo contrário, são

escritos com tantos membros que mais parece que tinham a intenção

de formar uma quimera ou um monstro do que fazer uma figura bem-

proporcionada. Além disso, no estilo são duros; nas façanhas,

inacreditáveis; nos amores, lascivos; nas cortesias, grosseiros; prolixos

nas batalhas, estúpidos na argumentação, delirantes nas viagens e, por

fim, alheios a todo artifício inteligente. Por isso, são dignos de desterro

da república cristã, como gente inútil.”

O padre esteve escutando o cônego com grande atenção, e achou que

era um homem inteligente e que tinha razão em tudo o que dizia, por

isso lhe disse que, por ser da mesma opinião e ter ojeriza aos livros de

cavalaria, havia queimado todos os de dom Quixote, que eram

muitos, e contou o escrutínio que havia feito neles: os que havia

condenado ao fogo e os que havia deixado com vida. O cônego não

riu pouco disso e afirmou que, apesar de ter falado muito mal desses

livros, achava neles uma coisa boa, que era a matéria que ofereciam

para que uma boa inteligência pudesse se manifestar neles, porque

proporcionavam um vasto campo por onde podia se correr a pena sem

restrições, descrevendo naufrágios, tempestades, confrontos e

batalhas, pintando um capitão corajoso com todas as qualidades

necessárias para isso, mostrando-o prudente ao adivinhar as astúcias

de seus inimigos e orador eloquente ao persuadir ou dissuadir seus

soldados, maduro no conselho, rápido nas decisões, tão valente na

espera como no ataque; pintando ora um acontecimento lamentável e

trágico, ora um alegre e incrível; ali uma dama lindíssima, virtuosa, inteligente e recatada; aqui um cavaleiro cristão, valente e comedido;

lá um bárbaro desaforado e fanfarrão; cá um príncipe cortês, corajoso

e educado; representando generosidade e lealdade de vassalos,

grandezas e mercês de senhores. Ora pode se mostrar astrólogo, ora

cosmógrafo excelente, ora músico, ora sagaz nos assuntos de Estado, e

talvez tenha até oportunidade de se mostrar necromante, se quiser.

Pode mostrar as astúcias de Ulisses, a piedade de Eneias, a valentia de

Aquiles, as desgraças de Heitor, as traições de Sinon, a amizade de

Euríalo, a prodigalidade de Alexandre, a determinação de César, a

clemência e verdade de Trajano, a fidelidade de Zópiro,6 a prudência

de Catão e, por fim, todas aquelas ações que podem fazer um homem

perfeito, às vezes pondo-as em um somente, às vezes dividindo-as

entre muitos.

— E se for feito com estilo agradável e com inventividade engenhosa,

ficando o mais perto possível da verdade, sem dúvida se tecerá uma

teia com fios variados e belos, que, depois de acabada, irá mostrar tal

perfeição e formosura que alcançará o grande fim que se pretende na

literatura, que é ensinar e divertir ao mesmo tempo, como eu já disse.

Porque a escrita livre e solta desses livros dá espaço para que o autor possa se mostrar épico, lírico, trágico, cômico, com todas aquelas

qualidades que encerram em si as doces e deliciosas ciências da poesia

e da oratória: pois a épica pode muito bem ser escrita tanto em prosa

como em verso.

 

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