Dom Quixote

Miguel de Cervantes · Capítulo 124 de 137

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Dom Quixote

Capítulo LXIII

 

de como sancho pança se deu mal

com a visita às galés, e a nova aventura

da mourisca formosa

Eram muitas as especulações que dom Quixote fazia sobre a resposta

da cabeça encantada, sem que nenhuma delas topasse com o embuste,

e todas acabavam na promessa do desencantamento de Dulcineia, que

ele teve por certa. A ela ia e vinha — e se alegrava sozinho,

acreditando que logo havia de ver sua realização. E Sancho, embora

detestasse a ideia de ser governador, como já foi dito, desejava mandar

de novo e ser obedecido, pois o poder traz essa desgraça consigo,

mesmo que ele seja de brincadeira.

Enfim, naquela tarde, seu anfitrião dom Antônio Moreno e seus dois

amigos foram com dom Quixote e Sancho ver as galés. Mal eles

chegaram à praia, o almirante, que fora avisado de sua vinda e estava

ansioso para ver os dois tão famosos Quixote e Sancho, ordenou que

todas as galeras recolhessem seus toldos e tocassem as charamelas.

Logo lançaram à água um bote coberto de ricos tapetes e de

almofadas de veludo carmesim para buscá-lo. Então, apenas dom

Quixote se viu a bordo dele, a capitânia disparou o canhão da coxia,

acompanhada em seguida pelas outras galés, e, quando ele subiu a

escada de estibordo, a turba de marinheiros o saudou como é costume

à entrada de uma pessoa importante na galé, dizendo “Hu, hu, hu!”

três vezes. O general — assim o chamaremos, pois era um distinto

cavaleiro valenciano — deu a mão a dom Quixote e o abraçou,

dizendo:

— Vou marcar este dia com destaque, porque acho que será um dos

melhores que vou viver, tendo visto o senhor dom Quixote de la Mancha: data e marco que mostram que nele se encerra e se cifra todo

o valor da cavalaria andante.

Com palavras não menos corteses, dom Quixote respondeu,

extremamente alegre por se ver tratado de modo tão senhorial.

Dirigiram-se todos para a popa, que estava muito bem adornada, e se

sentaram nos bancos da amurada; passou o oficial à coxia e deu o sinal com um apito para que a turba de marinheiros tirasse o gibão e

remasse com força, o que foi feito num instante. Sancho, ao ver tanta

gente seminua, ficou pasmo, mais ainda quando viu armarem o toldo

com tanta pressa que parecia que todos os diabos estavam

trabalhando ali. Mas isso tudo são mimos e bobagens perto do que

vou contar agora.

Sancho estava sentado no cepo em que se amarra o toldo, perto do

galeote de estibordo, que, de costas para a popa, marcava o ritmo da

navegação com seu remo. Avisado do que devia fazer, o marinheiro

agarrou Sancho e o levantou nos braços. Então, com toda a turba de

pé e alerta, começando pelo lado direito, Sancho foi passado de mão

em mão e de banco em banco de modo tão rápido que perdeu a visão

e sem dúvida pensou que os próprios demônios o carregavam. Os

galeotes não pararam enquanto Sancho não completou a volta pelo

lado esquerdo e foi depositado de novo na popa. O pobre ficou

alquebrado, ofegando e suando, sem poder imaginar o que tinha lhe

acontecido.

Dom Quixote, que viu o voo sem asas de Sancho, perguntou ao

general se era costume receber os novatos nas galés com aquelas

cerimônias, porque, se por acaso fosse, ele, que não tinha intenção de

trabalhar nelas, não queria fazer semelhantes exercícios e jurava por

Deus que, se alguém tentasse agarrá-lo para rodopiá-lo, faria o fulano

perder a alma a pontapés; e, dizendo isso, se levantou e empunhou a

espada.

Nesse momento arriaram o toldo e com um tremendo barulho

deixaram vir abaixo a verga da vela bastarda. Sancho pensou que o

céu tinha desencaixado dos eixos e desabava sobre sua cabeça, e,

baixando-a, botou-a entre as pernas. Dom Quixote não teve todo o

controle das suas, pois também estremeceu e encolheu os ombros e

perdeu a cor do rosto. A turba içou a verga com a mesma rapidez e

barulho com que a descera, mas sem uma palavra, como se não tivesse

voz nem respirasse. O oficial fez sinal de levantar âncora e, saltando

para o meio da coxia com o rebenque ou açoite, começou a bater de

leve nas costas dos galeotes — e pouco a pouco as galés se fizeram ao

mar. Quando Sancho viu todos aqueles pés vermelhos de uma delas se

mexer — pois isso lhe pareceram os remos —, disse a si mesmo:

— Estas sim são coisas de encantamentos, não aquelas de que meu

amo fala. Que terão feito esses desgraçados para que os açoitem

assim? E como este homem sozinho, que anda por aqui assobiando,

tem a audácia de açoitar tanta gente? Para mim isto é o inferno, ou

pelo menos o purgatório.

Dom Quixote, que viu a atenção com que Sancho olhava o que

acontecia, disse a ele:

— Ah, Sancho, meu amigo, com que rapidez e facilidade poderíeis

vós, se quisésseis, se desnudar da cintura para cima, e vos pôr entre

esses senhores e acabar com o encantamento de Dulcineia! Pois com a

miséria e o sofrimento de tantos não sentiríeis tanto os vossos, sem

falar que o sábio Merlin talvez contasse cada açoite desses, por serem

dados por boa mão, por dez dos que um dia haveis de vos dar.

O general queria perguntar que açoites eram aqueles, ou que negócio

era esse de desencantamento de Dulcineia, quando o marinheiro disse:

— O vigia de Montjuich1 fez sinal de que há um baixel de remos na

costa para as bandas do poente.

Ouvindo isso, o general saltou à coxia e disse:

— Eia, filhos, este não nos escapa! Deve ser algum bergantim de

piratas de Argel que a sentinela nos aponta.

Logo se aproximaram da capitânia as outras três galés para saber

quais eram as ordens. O general mandou que duas fossem para mar

alto, que ele e a outra iriam costeando a praia, pois assim o baixel não

escaparia. A turba apertou o ritmo dos remos, impelindo as galés com

tanta fúria que parecia que voavam. As que foram para mar alto

avistaram o baixel a umas duas milhas e a olho calcularam que tinha

uns catorze ou quinze bancos, o que era verdade. O dito baixel, ao

percebê-las, começou as manobras de fuga, com a intenção e a

esperança de escapar com sua rapidez, mas se saiu mal, porque a galé

capitânia era um dos barcos mais rápidos que navegava naqueles

mares, e assim foi se aproximando, deixando claro aos do bergantim

que não poderiam fugir; por isso o arrais gostaria que seus

marinheiros largassem os remos e se entregassem, para não incitar a

ira do capitão que comandava nossas galés. Mas a sorte tinha outros

planos: já que a capitânia chegava tão perto que a tripulação do baixel

podia ouvir os gritos que vinham dela pedindo a rendição, ordenou que dois toraquis — que é o mesmo que dizer dois turcos bêbados,

que vinham no bergantim com outros doze — disparassem duas

escopetas, matando assim dois soldados nossos que estavam nas

laterais do castelo de proa. Vendo isso, o general jurou não deixar

com vida nenhum dos homens que capturasse; mas, ao investir com

toda fúria, viram o baixel escapar por baixo de seus remos. A galé

ultrapassou-o um bom trecho; os do baixel se viram perdidos e içaram

as velas enquanto a galé voltava, e de novo manobraram para fugir

com vela e remo; mas não aproveitaram tanta diligência quanto lhes

prejudicou seu atrevimento, porque a capitânia os alcançou dali a

mais ou menos meia milha, jogou-lhes os remos em cima e os prendeu

a todos com vida.

Chegaram então as outras duas galés e todas as quatro voltaram à

costa com a presa, onde inúmeras pessoas estavam à espera, ansiosas

para ver o que traziam. O general ancorou perto da terra e descobriu

que o vice-rei da cidade estava na praia. Mandou lançar o bote n’água

para trazê-lo e arriar a verga da vela bastarda para enforcar em seguida o arrais e os outros turcos que tinha capturado no baixel, que

seriam uns trinta e seis, todos garbosos, a maior parte deles

arcabuzeiros. O general perguntou quem era o arrais do bergantim, e

um dos cativos lhe respondeu em língua castelhana (depois pensaram

que era um renegado espanhol):

— Este rapaz que vedes aqui, senhor, é nosso arrais.

E apontou um dos mais belos e garbosos moços que a imaginação

humana poderia pintar. Pelo visto não tinha vinte anos. O general

perguntou a ele:

— Diz-me, cão insensato, quem te levou a matar meus soldados, pois

vias que era impossível fugir? É esse o respeito que se tem pelas

capitânias? Tu não sabes que a temeridade não é valentia? As

esperanças improváveis devem tornar os homens audaciosos, mas não

temerários.

O arrais queria responder, mas por ora o general não pôde ouvi-lo,

porque correu para receber o vice-rei, que já entrava na galé,

acompanhado de alguns criados e pessoas do lugar.

— A caça esteve boa, general! — disse o vice-rei.

— Tão boa — respondeu o general — como verá Vossa Excelência

pendurada agora nesta verga.

— Como assim? — replicou o vice-rei.

— Porque — respondeu o general —, contra toda lei e contra toda

razão e costumes de guerra, mataram dois dos melhores soldados que

vinham nestas galés, e eu jurei enforcar todos os que capturasse,

principalmente este moço, que é o arrais do bergantim.

E apontou o homem que já tinha as mãos atadas e a corda no

pescoço, esperando a morte.

O vice-rei olhou para ele e, achando-o tão formoso, tão elegante e

tão humilde, pensou que tamanha beleza era como uma carta de

recomendação e sentiu o desejo de perdoar sua morte. Então lhe

perguntou:

— Diz-me, arrais, és turco de nascimento ou mouro ou renegado?

O moço respondeu, também em castelhano:

— Não sou turco de nascimento, nem mouro, nem renegado.

— Mas que és então? — replicou o vice-rei.

— Mulher cristã — respondeu o rapaz.

— Mulher e cristã, mas com esses trajes e nessa situação? Mais me

espanto que acredito.

— Por favor, senhores, suspendei a execução de minha morte —

disse o moço —, pois não se perderá muito se vossa vingança esperar

um pouco enquanto eu vos conto minha vida.

Quem teria o coração tão duro que não se abrandasse com essas

palavras, ou pelo menos até ouvir as que o triste e queixoso rapaz

queria dizer? O general disse a ele que falasse o que quisesse, mas que

não esperasse alcançar perdão para sua bem conhecida culpa. Com

essa permissão, o moço começou a contar assim:

— Fui concebida por pais mouriscos naquela nação, mais infeliz que

prudente, sobre quem choveu nesses dias um mar de desgraças. Na

torrente de sua desventura, fui levada à Berbéria por dois tios meus,

sem que me adiantasse dizer que era cristã, como realmente sou, não

das falsas e oportunistas, mas das verdadeiras e católicas. De nada me

valeu dizer essa verdade aos que estavam encarregados de nosso

miserável desterro, nem meus tios quiseram acreditar nela; pelo contrário, acharam que eu mentia e inventava para ficar na terra onde

havia nascido. Então à força, não de bom grado, me levaram com eles.

“Tive uma mãe cristã e um pai sensato e cristão, sem tirar nem pôr:

minha fé católica é de berço. Eu me criei nos bons costumes e nem

neles nem na língua jamais dei sinais de ser mourisca, em minha

opinião. Junto com essas virtudes, pois eu acho que o são, cresceu

minha formosura, se é que tenho alguma; e, ainda que meu recato e

meu recolhimento tenham sido grandes, não devem ter sido tanto que

não tivesse oportunidade de me ver um rapaz chamado dom Gaspar

Gregório, filho mais velho de um cavaleiro que tem uma aldeia perto

da nossa. Como ele me viu, como nos falamos, como se viu perdido

por mim e como não me senti tão encantada por ele seria muito

complicado contar, ainda mais agora que temo que entre minha língua

e minha garganta se aperte esta corda cruel que me ameaça. Assim

direi apenas como dom Gregório quis nos acompanhar em nosso

desterro.

“Ele se misturou aos mouriscos que vinham de outros lugares, pois sabia muito bem a língua, e na viagem se tornou amigo daqueles dois

tios meus que me levavam, porque meu pai, prudente e prevenido, mal

ouviu o primeiro edital de nosso desterro se foi da aldeia em busca de

outra que nos acolhesse em algum desses reinos estranhos. Num lugar

que apenas eu conheço, deixou enterradas muitas pérolas e pedras de

grande valor, com algum dinheiro, cruzados e dobrões de ouro, mas

me ordenou que não tocasse de jeito nenhum nesse tesouro, se por

acaso nos desterrassem antes que ele voltasse. Obedeci e com meus

tios, como já disse, e outros parentes e conhecidos, passamos para a

Berbéria e nos assentamos em Argel, como se o fizéssemos no próprio

inferno.

“O rei teve notícia de minha formosura e, por falatórios, de minhas

riquezas, o que em parte foi sorte minha. Mandou me chamar e me

perguntou de que parte da Espanha eu era e que dinheiro e joias

trazia. Disse-lhe de onde e que as joias e o dinheiro tinham ficado

enterrados, mas que poderiam ser recuperados com facilidade se eu

mesma voltasse para pegá-los. Disse tudo isso a ele, receosa de que

minha formosura o cegasse mais que sua cobiça. Estando comigo

nessa conversa, alguém lhe disse que me acompanhava um dos rapazes mais galhardos e formosos que se podia imaginar. Entendi logo que

falavam de dom Gaspar Gregório, cuja beleza deixa para trás as

maiores que se podem enaltecer. Fiquei preocupada, considerando o

perigo que dom Gregório corria, porque entre aqueles turcos bárbaros

se gosta muito mais de um menino ou rapaz formoso que de uma

mulher, mesmo que seja belíssima. O rei mandou buscá-lo logo, pois

queria vê-lo, e me perguntou se era verdade o que diziam daquele

rapaz. Então eu, como que inspirada pelo céu, disse que era, mas que

soubesse que não era homem e sim mulher como eu, e que lhe

suplicava que me deixasse ir vesti-la com suas roupas naturais, para

que lhe mostrasse inteiramente sua beleza e aparecesse em sua

presença com menos embaraço. Disse-me que fosse de uma vez e que

outro dia falaríamos no modo de eu voltar à Espanha para pegar o

tesouro escondido.

“Falei com dom Gaspar, contei o perigo que corria caso se

apresentasse como homem e o vesti de moura. Naquela mesma tarde,

eu o levei à presença do rei, que, vendo-o, ficou maravilhado e demonstrou a intenção de ficar com ele para dá-lo de presente ao

grão-turco. Mas, para que escapasse do perigo que podia correr no

harém de suas mulheres, e por temer sua própria reação, mandou-o

em seguida para a casa de umas mouras distintas que deviam vigiá-lo e

servi-lo. O que nós dois sentimos, pois não posso negar que o amo,

deixo à consideração dos que se amam e se separam.

“O rei logo deu um jeito para que eu voltasse à Espanha nesse

bergantim e que me acompanhassem dois turcos de nascimento, que

são os que mataram vossos soldados. Também veio comigo este

renegado espanhol — apontou o homem que tinha falado antes —

que, sei muito bem, oculta ser cristão e que veio com mais esperanças

de ficar na Espanha que de voltar à Berbéria; os outros marinheiros do

bergantim são mouros e turcos, que servem apenas para remar. Os

dois turcos, cobiçosos e insolentes, sem observar as ordens que tinham

de deixar em terra a mim e a este renegado no primeiro lugar da

Espanha que tocássemos, com as roupas cristãs que trouxemos,

quiseram antes vasculhar a costa e fazer alguma presa, se pudessem.

Eles temiam que, se primeiro nos desembarcassem e nos acontecesse

algum desastre que nos levasse a revelar que o bergantim estava no mar, poderiam cair prisioneiros, se por acaso houvesse galés nesta

costa. Ontem à noite descobrimos esta praia e, sem termos notado

essas quatro galés, fomos descobertos. Sabeis o que nos aconteceu

depois.

“Resumindo: dom Gregório está vestido de mulher entre mulheres,

com perigo evidente de se perder, e eu me vejo de mãos amarradas,

esperando ou, digamos melhor, temendo perder a vida, que já me pesa.

Este, senhores, é o fim de minha história lamentável, tão verdadeira

quanto desgraçada; apenas vos imploro que me deixeis morrer como

cristã, pois, como já disse, não tenho responsabilidade nenhuma pela

culpa em que caíram os de minha nação.”

Então se calou, os olhos rasos de lágrimas ternas, logo

acompanhadas por muitas dos que estavam presentes. O vice-rei,

carinhoso e compassivo, sem dizer uma palavra, se aproximou dela e,

com as próprias mãos, desamarrou a corda que prendia as tão

formosas da moura.

Enquanto a mourisca cristã contava sua história extraordinária, um ancião peregrino, que havia entrado na galé junto com o vice-rei,

esteve com os olhos cravados nela. Então, mal a moça acabou sua

narração, ele caiu de joelhos a seus pés e disse, abraçado neles, com

palavras interrompidas por mil soluços e gemidos:

— Oh, Ana Félix! Pobre de minha filha! Eu sou Ricote, teu pai, que

voltava para te buscar, por não poder viver sem ti, pois és minha alma.

A essas palavras, Sancho abriu os olhos e levantou a cabeça, que

tinha inclinada, pensando nas desgraças de seu passeio. Olhando o

peregrino, reconheceu ser o próprio Ricote com quem tinha topado no

dia que entregara o governo, e se convenceu de que aquela moça era

sua filha, que, já desamarrada, abraçou o pai, misturando suas

lágrimas com as dele. Então Ricote disse ao general e ao vice-rei:

— Senhores, esta é minha filha, mais infeliz em suas aventuras que

em seu nome: ela se chama Ana Félix, com o sobrenome Ricote,

famosa tanto por sua formosura como por minha riqueza. Saí de

minha pátria em busca de reinos estranhos que nos acolhessem e

recolhessem, e, tendo-o encontrado na Alemanha, voltei neste traje de

peregrino, em companhia de outros alemães, para pegar minha filha e

desenterrar as muitas riquezas que deixei escondidas. Não achei minha filha, mas achei meu tesouro, que trago comigo, e agora, da forma

estranha que vistes, achei o tesouro que mais me enriquece: minha

querida filha. Se nossas poucas culpas e as lágrimas dela e as minhas,

pela integridade de vossa justiça, podem abrir portas à misericórdia,

usai-a conosco, que jamais tivemos intenção de vos ofender, nem

concordamos de forma alguma com o intuito dos nossos, que foram

desterrados justamente.

Então Sancho disse:

— Conheço Ricote muito bem e sei que é verdade quando diz que

Ana Félix é sua filha. Agora, nessas bobagens de ir e vir, ter boa ou má

intenção, não me meto.

Com todos os presentes pasmos com o estranho caso, o general

disse:

— Uma por uma vossas lágrimas não me deixarão cumprir meu

juramento: vivei, formosa Ana Félix, os anos de vida que o céu vos

determinou, e que os insolentes e atrevidos sofram a pena pelo crime

que cometeram.

E em seguida mandou enforcar na verga os dois turcos que haviam

matado seus dois soldados, mas o vice-rei pediu encarecidamente que

não os enforcasse, pois a culpa deles era mais por loucura que por

valentia. O general fez o que o vice-rei lhe pedia, porque a sangue-frio

não se executam bem as vinganças. Logo trataram de pensar um jeito

de tirar dom Gaspar Gregório do perigo em que se encontrava; para

isso, Ricote ofereceu mais de dois mil ducados que tinha em pérolas e

joias. Foram muitos os planos, mas nenhum tão bom como o

proposto pelo renegado espanhol, que se ofereceu para voltar a Argel

num barco pequeno, de uns seis bancos, armado de remadores

cristãos, porque ele sabia onde, como e quando podia e devia

desembarcar, e também não ignorava a casa onde dom Gaspar tinha

ficado. O general e o vice-rei hesitaram em se fiar no renegado, nem

em confiar a ele os cristãos que deviam remar; Ana Félix, porém, se

responsabilizou por ele, e Ricote, seu pai, disse que se comprometia a

pagar o resgate dos cristãos, se por acaso pedissem.

Todos concordaram com esse plano. Então o vice-rei desembarcou, e

dom Antônio Moreno levou consigo a mourisca e seu pai, depois que

o vice-rei lhe pediu para tratá-los com toda a bondade e consideração possíveis, porque ele, por sua vez, oferecia o que houvesse em sua casa

para o conforto deles — tamanhas foram a benevolência e a caridade

que a formosura de Ana Félix infundiu em seu coração.

 

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