Dom Quixote
Capítulo LII
da briga que dom quixote teve com
o pastor, com a estranha aventura
dos penitentes, a que ele deu um desfecho
feliz à custa de seu suor
A história do pastor agradou a todos os que a ouviram, especialmente
o cônego, que notou com singular curiosidade a maneira com que ele
a tinha contado, tão longe de parecer um pastor ignorante quanto
perto de se mostrar um cortesão esclarecido, e por isso disse que o
padre havia falado muito bem ao dizer que as montanhas criavam
letrados. Todos ofereceram seus serviços a Eugênio, mas quem se
mostrou mais generoso foi dom Quixote, que lhe disse:
— Com certeza, meu caro pastor, se não me achasse impossibilitado
de começar uma nova aventura, agora mesmo eu me poria a caminho
para que a vossa acabasse bem: eu tiraria Leandra do mosteiro (onde
sem dúvida deve estar contra a vontade), apesar da abadessa e de
quantos quisessem impedi-lo, e a poria em vossas mãos, para que
fizésseis dela o que bem entendêsseis, observando, porém, as leis da
cavalaria, que ordenam que não se cause nenhum mal a donzela
alguma. Mas espero, com a graça de Deus Nosso Senhor, que a força
de um mago capcioso não possa chegar a tanto que vença a de outro
mais bem-intencionado, e aí, em melhor situação, vos prometo meu
socorro e amparo, como me obriga minha profissão, que não é outra
que defender os desvalidos e necessitados.
O pastor olhou para dom Quixote e, vendo a triste e carrancuda
figura, se surpreendeu e perguntou ao barbeiro, que estava perto dele:
— Quem é este homem, senhor, com esse jeito todo e esse modo de
falar?
— Ora, quem poderia ser além do famoso dom Quixote de la
Mancha — respondeu o barbeiro —, o reparador de agravos, o
consertador de ofensas, o protetor das donzelas, o terror dos gigantes
e o vencedor das batalhas?
— Isso — respondeu o pastor — me parece aquelas coisas que se lê
nos livros de cavaleiros andantes, que faziam tudo isso que vossa mercê diz desse homem, mas em minha opinião vossa mercê está
brincando ou este gentil-homem tem vazios os aposentos da cabeça.
— Patife miserável! — disse dom Quixote nessas alturas. — Vazio e
covarde sois vós, pois eu estou mais cheio do que jamais esteve a puta
de merda que vos pariu.
E dito e feito: agarrou um pão que estava perto e deu com ele na
cara do pastor, com tanta fúria que lhe achatou o nariz; mas o pastor,
que não estava para brincadeiras, vendo com que seriedade era
surrado, sem respeito pelo tapete, nem pela toalha, nem por todos
aqueles que estavam comendo, saltou sobre dom Quixote e,
agarrando-lhe o pescoço com ambas as mãos, não teria hesitado em
esganá-lo, se Sancho Pança não chegasse naquele instante e o pegasse
pelas costas e o derrubasse sobre a mesa, quebrando pratos,
despedaçando xícaras e derramando e espalhando tudo o que havia
nela. Mal se viu livre, dom Quixote tratou de montar no pastor, que,
cheio de sangue no rosto, moído a pontapés por Sancho, andava de
gatinhas em busca de uma faca na mesa para uma boa e sangrenta vingança, mas foi impedido pelo cônego e pelo padre. No entanto, o
barbeiro deu um jeito para que o pastor prendesse dom Quixote
embaixo de si e lhe aplicasse uma profusão de murros, que do rosto
do pobre cavaleiro chovia tanto sangue como de seu adversário.
O cônego e o padre arrebentavam de tanto rir, os quadrilheiros
pulavam de prazer e uns atiçavam os outros, como se faz com os
cachorros metidos numa briga. Apenas Sancho Pança se desesperava,
porque não conseguia se soltar de um criado do cônego, que o
impedia de ajudar seu amo.
Enfim, estavam todos na maior alegria e festança, menos os dois que
se esmurravam, quando ouviram uma trombeta tão triste que os fez
virar o rosto para onde lhes pareceu que soava. Mas quem mais se
alvoroçou ao ouvi-la foi dom Quixote, que, mesmo estando embaixo
do pastor, muito a contragosto e mais que moderadamente espancado,
lhe disse:
— Rogo-te, meu caro demônio (pois não podes deixar de sê-lo, já
que tiveste coragem e forças para submeter as minhas), façamos uma
trégua por uma hora, mais ou menos, porque acho que o som
doloroso daquela trombeta me chama para uma nova aventura.
O pastor, que já estava cansado de surrar e de ser surrado, deixou-o
em seguida, e dom Quixote se levantou, também virando o rosto para
onde soava a trombeta, e de repente viu que desciam por uma encosta
muitos homens vestidos de branco, à maneira dos penitentes.
O caso é que naquele ano as nuvens haviam negado suas águas à
terra e por todas as aldeias daquela região se faziam procissões, preces
e penitências, pedindo a Deus que abrisse as mãos de sua misericórdia
e lhes mandasse chuva; e para isso as pessoas de uma aldeia que ficava
perto dali vinham em procissão a uma ermida devota que havia numa
encosta daquele vale.
Dom Quixote viu os trajes estranhos dos penitentes, sem que lhe
passasse pela cabeça as muitas vezes que devia tê-los visto, e imaginou
que estava no meio de uma aventura e que apenas a ele cabia acometê-
la, como cavaleiro andante, e mais lhe confirmou essa crença pensar
que uma imagem que traziam coberta de luto fosse alguma distinta
senhora que aqueles bandidos grosseiros e covardes levavam à força.
Então, mal essa ideia lhe caiu na mente, com grande rapidez correu para Rocinante, que andava pastando, pegou no arção o freio e a
adarga, num instante enfreou o cavalo e, pedindo a Sancho a espada,
montou em Rocinante, enfiou o braço na adarga e disse em voz alta a
todos os presentes:
— Agora, valorosa companhia, vereis a importância de que existam
cavaleiros que professam a ordem da cavalaria andante; agora vereis,
na liberdade daquela boa senhora que ali vai cativa, se não se deve
apreciar os cavaleiros andantes.
E, dizendo isso, cutucou Rocinante com os calcanhares, porque
estava sem as esporas, e a trote — pois jamais se menciona nesta
história verídica que Rocinante galopasse à rédea solta — foi ao
encontro dos penitentes. O padre, o cônego e o barbeiro correram
para detê-lo, mas foi impossível, e menos ainda o detiveram os gritos
de Sancho, que dizia:
— Aonde vai, senhor dom Quixote? Que demônios leva no peito que
o incitam a ir contra nossa fé católica? Ai de mim, não vê que é uma
procissão de penitentes e que aquela senhora no andor é a imagem
bendita da Virgem Imaculada?! Olhe bem o que faz, senhor, porque
desta vez tenho certeza de que não é o que o senhor está pensando.
Sancho se cansou em vão, porque dom Quixote ia tão determinado
em alcançar os encapuzados e libertar a senhora enlutada que não
ouviu uma palavra, mas, mesmo que ouvisse, não voltaria nem que o
rei lhe ordenasse. Alcançou, portanto, a procissão e parou Rocinante,
que já tinha vontade de descansar um pouco, e disse com voz rouca e
embargada:
— Vós, que talvez escondeis os rostos por não serdes bons, prestai
atenção ao que quero vos dizer.
Os primeiros que se detiveram foram os que carregavam a imagem; e
um dos quatro clérigos que cantavam as ladainhas, vendo a figura
estranha de dom Quixote, a magreza de Rocinante e outros detalhes
risíveis que percebeu no cavaleiro, lhe respondeu, dizendo:
— Caro senhor, se tem algo a nos dizer, fale logo, porque estes
irmãos penitentes vão flagelando o corpo, e não podemos nem
devemos parar para ouvir coisa alguma, se não for em duas palavras.
— Direi em uma — replicou dom Quixote —, e é esta: deixeis livre
agora mesmo essa formosa senhora, cujas lágrimas e semblante triste são sinais claros de que a levais contra a vontade e que alguma notória
ofensa fizestes a ela; e eu, que vim ao mundo para desfazer
semelhantes agravos, não consinto que deis um só passo adiante sem
lhe dar a desejada liberdade que merece.
Com essas palavras, todos se deram conta de que o homem devia ser
louco e caíram na risada, o que foi botar pólvora na cólera de dom
Quixote: sem dizer mais nada, sacando a espada, atacou o andor. Um
dos que o carregavam, deixando a carga para os companheiros,
investiu contra dom Quixote, brandindo uma forquilha ou cajado
com que sustentava o andor quando descansava, mas ela se partiu ao
meio ao aparar uma grande espadada desferida por dom Quixote;
então, com o pedaço que lhe restou na mão, acertou um belo golpe
por cima do ombro do cavaleiro, do mesmo lado da espada — como a
adarga nada pôde contra a força camponesa, o pobre dom Quixote se
esborrachou no chão.
Sancho Pança, que ia ofegante em seu encalço, ao vê-lo caído, gritou
para seu adversário que não lhe desse outra paulada, porque era um
pobre cavaleiro encantado, que nunca havia feito mal a ninguém em
todos os dias de sua vida. Agora, o que deteve o camponês não foram os gritos de Sancho, mas ver que dom Quixote não mexia nem pé nem
mão; assim, pensando que o tinha matado, com rapidez levantou a
túnica até a cintura e desatou a correr campo afora como um gamo.
Nisso se aproximaram os companheiros de dom Quixote; mas os da
procissão, que os viram chegar correndo, e com eles os quadrilheiros
com suas balestras, temeram algum desastre e se amontoaram em
torno da imagem. Os penitentes tiraram os capuzes e empunharam os
açoites, os clérigos os ciriais, decididos a se defender do ataque e até a
contra-atacar os adversários se pudessem. Mas a coisa correu melhor
que o esperado, pois Sancho não fez nada além de se atirar sobre o
corpo de seu senhor, entregue ao mais doloroso e risível pranto do
mundo, achando que estava morto.
O padre foi reconhecido por outro padre que vinha na procissão, o
que acalmou o medo criado entre os dois grupos. O primeiro padre
explicou ao segundo, em duas palavras, quem era dom Quixote, e
assim ele e toda a turba de penitentes foram ver se o pobre cavaleiro
estava morto e ouviram que Sancho Pança dizia em lágrimas:
— Oh, flor da cavalaria, que com uma só bordoada acabaste a
carreira de teus anos tão bem vividos! Oh, honra de tua linhagem,
orgulho e glória de toda a Mancha, ou do resto do mundo até, que
com tua ausência ficará cheio de facínoras sem medo de ser castigados
por suas malfeitorias! Oh, tu, mais generoso que todos os Alexandres,
pois em apenas oito meses de serviços havias me dado a melhor ilha
que o mar abraça e rodeia! Oh, humilde com os arrogantes e
arrogante com os humildes, que enfrentas perigos e sofres
humilhações! Oh, apaixonado sem causa, imitador dos bons, açoite
dos maus, inimigo dos perversos, enfim, cavaleiro andante, que é tudo
o que se pode dizer!
Com os gritos e gemidos de Sancho, dom Quixote ressuscitou e a
primeira palavra que disse foi:
— Este que vive distante de vós, oh, dulcíssima Dulcineia, a maiores
misérias que essas está sujeito. Ajuda-me, Sancho, meu amigo: leva-me
para a carreta encantada, que não estou em condições de
sobrecarregar a sela de Rocinante, pois tenho todo este ombro em
pedaços.
— Farei isso de boa vontade, meu senhor — respondeu Sancho —, e
voltemos a minha aldeia na companhia desses senhores que desejam
seu bem, e lá daremos um jeito de sair de novo em busca de aventuras
que nos deem mais fama e lucro.
— Tens toda razão, Sancho — respondeu dom Quixote —, e será
mais prudente deixar passar a influência maligna das estrelas que nos
atinge agora.
O cônego, o padre e o barbeiro disseram que seria muito bom que
agisse assim; e então, depois de se divertirem a valer com as tolices de
Sancho, meteram dom Quixote de volta na carreta, como antes. A
procissão se organizou de novo e prosseguiu seu caminho; o pastor se
despediu de todos; os quadrilheiros não quiseram continuar, e o padre
pagou o que lhes devia; o cônego pediu ao padre que lhe avisasse
sobre dom Quixote, se sua loucura sarava ou se persistia, e com isso
pediu licença para continuar sua viagem. Enfim, todos se separaram e
se foram, ficando apenas o padre e o barbeiro, dom Quixote e Sancho
Pança, e o bom Rocinante, que apesar de tudo o que tinha visto estava tão calmo como seu dono.
O carreteiro atrelou os bois, acomodou dom Quixote sobre um feixe
de feno e, com sua costumeira pachorra, seguiu o caminho que o
padre indicou. Seis dias depois chegaram à aldeia de dom Quixote, ao
meio-dia; por acaso era domingo, e o povo todo estava na praça, por
onde atravessou a carreta de dom Quixote. Todos se aproximaram
para ver quem vinha nela e, quando reconheceram seu conterrâneo,
ficaram abismados, e um rapaz saiu correndo para avisar a sobrinha e
a criada que seu tio e seu amo chegava magro, amarelo e estendido
sobre um montão de feno num carro de bois. Coisa de dar pena foi
ouvir os gritos das duas boas senhoras, as bofetadas que se deram, as
pragas que rogaram aos malditos livros de cavalaria, coisa que
recomeçou quando viram dom Quixote entrar por suas portas.
Com as notícias da chegada de dom Quixote, apareceu a mulher de
Sancho Pança, que sabia que ele tinha ido como escudeiro. A primeira
coisa que perguntou, mal viu Sancho, foi se o burro estava bem.
Sancho respondeu que estava melhor que seu amo.
— Louvado seja Deus pelas graças que tem me concedido —
replicou ela. — Mas agora me contai, meu caro, o que lucrastes com vossas escuderias? Que vestido me trazeis? E que sapatinhos para
vossos filhos?
— Não trago nada disso, mulher — disse Sancho —, mas trago
outras coisas de mais importância e consideração.
— É um prazer ouvir isso — respondeu a mulher. — Mostrai-me
essas coisas de mais importância e consideração, meu caro, que as
quero ver, para alegrar este coração, que tão triste e descontente esteve
durante os séculos de vossa ausência.
— Vou mostrá-las em casa, mulher — disse Pança. — Ficai contente
por ora, pois, se Deus quiser, sairemos outra vez de viagem em busca
de aventuras, e logo me vereis conde, ou governador de uma ilha, mas
não uma dessas que andam por aí e sim a melhor que se possa
encontrar.
— Queira o céu que assim seja, meu marido, pois bem que andamos
necessitados. Mas dizei-me que negócio é esse de ilhas, que não
entendi direito.
— O mel não foi feito para a boca do burro — respondeu Sancho. — Verás, mulher, quando chegar a hora, e até ficarás admirada ao ser
chamada de senhoria por todos os teus vassalos.
— Que é isso de senhorias, ilhas e vassalos, Sancho? — respondeu
Joana Pança, que assim se chamava a mulher de Sancho, embora não
fossem parentes, mas porque na Mancha é costume as mulheres
usarem o sobrenome de seus maridos.
— Não te afobes, Joana, em saber tudo no atropelo: basta saberes
que falo a verdade, e cala a boca. Assim, de passagem, só posso dizer
que não há nada melhor no mundo que ser um homem honrado e
escudeiro de um cavaleiro andante que busca aventuras. É bem
verdade que a maioria das com que se topa não acontece do modo que
o homem esperava, porque, de cem que se vive, noventa e nove saem
pela culatra. Eu sei por experiência, pois de umas saí manteado e de
outras, moído; mas, apesar de tudo, é coisa linda esperar as aventuras
atravessando montanhas, explorando florestas, escalando rochedos,
visitando castelos e se hospedando nas estalagens à vontade, sem
pagar um puto tostão.
Toda essa conversa entre Sancho Pança e Joana Pança, sua mulher,
aconteceu enquanto a empregada e a sobrinha de dom Quixote o receberam, despiram-no e o deitaram em sua cama antiga. Ele as
olhava com olhos atravessados e não conseguia saber em que lugar
estava. O padre recomendou à sobrinha que tratasse muito bem do tio
e que ficasse alerta para que ele não escapasse outra vez, contando-lhe
o que fora necessário para trazê-lo para casa. Aqui de novo as duas
clamaram ao céu, rogaram outras pragas contra os livros de cavalaria
e imploraram a Deus que lançasse nos quintos dos infernos os autores
de tantas mentiras e disparates. No fim, elas ficaram confusas e
amedrontadas ao perceber que poderiam se ver sem seu amo e tio no
instante em que ele tivesse alguma melhora, e foi exatamente isso o
que aconteceu.
Mas o autor desta história, embora tenha procurado com
curiosidade e empenho as façanhas de dom Quixote em sua terceira
saída, não encontrou notícias delas, pelo menos em escritos
autenticados: apenas a tradição guardou, nas memórias da Mancha,
que na terceira vez que dom Quixote saiu de sua casa, foi a Zaragoza,
onde foi parar numas famosas justas que se realizaram naquela cidade, e ali lhe aconteceram coisas dignas de sua bravura e inteligência. Nem
de seu fim poderia saber coisa alguma, se a boa sorte não lhe
deparasse um velho médico que tinha em seu poder uma caixa de
chumbo que, segundo ele disse, fora achada nos alicerces de uma
antiga ermida em reformas. Havia nessa caixa uns pergaminhos
escritos com letras góticas, mas em versos castelhanos, que continham
muitas de suas façanhas e davam notícia da formosura de Dulcineia
del Toboso, da figura de Rocinante, da fidelidade de Sancho Pança e
da sepultura do próprio dom Quixote, com diferentes epitáfios e
elogios a sua vida e costumes.
E os que puderam ser lidos e tirados a limpo são os que o fidedigno
autor desta original e jamais vista história transcreve aqui. Ele só pede
aos leitores, em prêmio pelo imenso trabalho que lhe custou remexer e
inquirir todos os arquivos da Mancha para trazê-los à luz, que lhe
deem o mesmo crédito que as pessoas inteligentes costumam dar aos
livros de cavalaria, que tão festejados andam no mundo, que com isso
se dará por bem pago e satisfeito, e se animará a procurar e publicar
outras histórias, talvez não tão verdadeiras, mas pelo menos tão
engenhosas e divertidas.
As primeiras palavras que estavam escritas no pergaminho que se
achou na caixa de chumbo eram estas:
os acadêmicos da argamasilla, aldeia
da mancha, sobre a vida e a morte
de dom quixote de la mancha, hoc scripserunt1
o monicongo,2 acadêmico de argamasilla,
à sepultura de dom quixote
epitáfio
O cabeça oca que adornou a Mancha
com mais despojos que Jasão tirou de Creta;
o juízo que teve a biruta
aguda onde seria melhor rombuda;
o braço que sua força tanto abarca,
que chegou de Catai até Gaeta;
a musa mais horrenda e mais esperta
que gravou versos em brônzea prancha;
aquele que deixou os Amadises para trás
e fez pouco dos Galaores,
estribado em seu amor e fidalguia;
aquele que fez calar os Belianises,
aquele que em Rocinante andou vagando,
jaz debaixo desta lousa fria.a
do apaniguado, acadêmico
de argamasilla, in laudem
dulcineae del toboso3
soneto
Esta que vedes de rosto encaroçado,
peitos a pino e porte altivo,
é Dulcineia, rainha de El Toboso,
por quem o grande Quixote foi apaixonado.
Por ela pisou um e outro lado
da grande Serra Negra e o famoso
campo de Montiel, até a gramada
planície de Aranjuez, a pé e cansado
(por culpa de Rocinante). Oh, dura estrela!,
desta dama manchega e deste invicto
cavaleiro andante. Em verdes anos,
morrendo, ela deixou de ser bela,
e ele, embora permaneça escrito em mármores,
não escapou ao amor, iras e enganos.b
do caprichoso, argutíssimo
acadêmico de argamasilla,
em louvor a rocinante, cavalo
de dom quixote de la mancha
soneto
No soberbo trono diamantino
que com pés sangrentos pisa Marte,
frenético o Manchego seu estandarte
hasteia com brio peregrino,
descansa a armadura e o aço fino
com que destroça, assola, racha e parte…
Novas proezas!, mas inventa a arte
um novo estilo para o novo paladino.
E se Gaula se orgulha de seu Amadis,
se a Grécia, com seus bravos descendentes,
triunfou mil vezes e a fama alcança,
hoje Quixote é coroado na corte
onde Belona preside, e dele se orgulha,
mais que a Grécia ou Gaula, a nobre Mancha.
O esquecimento nunca suas glórias mancha,
pois até Rocinante, em ser galhardo,
excede a Brilhadouro e a Baiardo.c
do velhaco, acadêmico
de argamasilla, a sancho pança
soneto
Este é Sancho Pança: em corpo nanico,
mas grande em coragem (milagre estranho!),
o escudeiro mais simples e sem engano
que o mundo teve, vos juro e certifico.
Para ser conde faltou um tantico,
se não conspirassem em seu prejuízo
insolências e agravos do malvado
século, pois ainda não perdoam um burrico.
Sobre ele andou (com perdão se mente)
este manso escudeiro, atrás do manso
cavalo Rocinante e atrás de seu dono.
Oh, vãs esperanças tem a gente,
como pensais prometer descanso
se no fim vos tornais sombra, fumaça, um sonho?!d
do capeta, acadêmico de argamasilla,
na sepultura de dom quixote
epitáfio
Aqui jaz o cavaleiro
bem moído e mal-andante
a quem levou Rocinante
por um ou outro sendeiro.
Sancho Pança, o grosseiro,
também jaz perto dele,
escudeiro o mais fiel
que viu o ofício de escudeiro.e
do tique-taque, acadêmico de argamasilla,
na sepultura de dulcineia del toboso
epitáfio
Aqui repousa Dulcineia,
e, embora de corpo roliça,
tornou-a pó e cinza
a morte espantosa e feia.
Foi castiça plebeia,
e teve assomos de dama;
do grande Quixote foi chama
e foi glória de sua aldeia.f
Estes foram os versos que puderam ser lidos; os demais, como
estavam muito danificados, foram entregues a um acadêmico para que
os decifrasse por deduções. Há notícias de que o fez, à custa de muitas vigílias e muito trabalho, e que tem intenção de publicá-los, com a
promessa da terceira saída de dom Quixote.
Forse altro canterà con miglior plectro.4
a El calvatrueno que adornó a la Mancha/ de más despojos que Jasón de Creta;/ el jüicio que tuvo la veleta/ aguda donde fuera mejor ancha;// el brazo que su fuerza tanto ensancha,/ que llegó del Catay hasta Gaeta;/ la musa más horrenda y más discreta/ que grabó versos en broncínea plancha;// el que a cola dejó los Amadises/ y en muy poquito a Galaores tuvo;/ estribando en su amor y bizarría;// el que hizo callar los Belianises,/ aquel que en Rocinante errando anduvo,/ yace debajo de esta losa fría.
b Esta que veis de rostro amondongado,/ alta de pechos y ademán brioso,/ es Dulcinea, reina del Toboso,/ de quien fue el gran Quijote aficionado.// Pisó por ella el uno y otro lado/ de la gran Sierra Negra y el famoso/ campo de Montïel, hasta el herboso/ llano de Aranjüez, a pie y cansado// (culpa de Rocinante). ¡Oh dura estrella!,/ que esta manchega dama y este invito/ andante caballero, en tiernos años,// ella dejó, muriendo, de ser bella,/ y él, aunque queda en mármores escrito,/ no pudo huir de amor, iras y engaños.
c En el soberbio trono diamantino/ que con sangrientas plantas huella Marte,/ frenético el Manchego su estandarte/ tremola con esfuerzo peregrino,// cuelga las armas y el acero fino/ con que destroza, asuela, raja y parte…/ ¡Nuevas proezas!, pero inventa el arte/ un nuevo estilo al nuevo paladino.// Y si de su Amadís se precia Gaula,/ por cuyos bravos descendientes Grecia/ triunfó mil veces y su fama ensancha,// hoy a Quijote le corona el aula/ do Belona preside, y de él se precia,/ más que Grecia ni Gaula, la alta Mancha.// Nunca sus glorias el olvido mancha,/ pues hasta Rocinante, en ser gallardo,/ excede a Brilladoro y a Bayardo.
d Sancho Panza es aquéste, en cuerpo chico,/ pero grande en valor, ¡milagro extraño!,/ escudero el más simple y sin engaño/ que tuvo el mundo, os juro y certifico.// De ser conde no estuvo en un tantico,/ si no se conjuraran en su daño/ insolencias y agravios del tacaño/ siglo, que aun no perdonan a un borrico.// Sobre él anduvo (con perdón se miente)/ este manso escudero, tras el manso/ caballo Rocinante y tras su dueño.// ¡Oh vanas esperanzas de la gente,/ cómo pasáis con prometer descanso/ y al fin paráis en sombra, en humo, en sueño!
e Aquí yace el caballero/ bien molido y malandante/ a quien llevó Rocinante/ por uno y otro sendero.// Sancho Panza el majadero/ yace también junto a él,/ escudero el más fïel/ que vio el trato de escudero.
f Reposa aquí Dulcinea,/ y, aunque de carnes rolliza,/ la volvió en polvo y ceniza/ la muerte espantable y fea.// Fue de castiza ralea/ y tuvo asomos de dama;/ del gran Quijote fue llama/ y fue gloria de su aldea.
OceanofPDF.com