Dom Quixote

Miguel de Cervantes · Capítulo 38 de 137

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Dom Quixote

Capítulo XXX

que trata da engraçada tramoia

que combinaram para tirar nosso

cavaleiro apaixonado da penitência

duríssima em que havia se metido

Nem bem o padre tinha acabado, quando Sancho disse:

— Por Deus, senhor licenciado, quem cometeu essa façanha foi meu

amo, e não por falta de aviso, pois eu lhe disse que olhasse bem o que

fazia, que era pecado libertá-los, porque todos ali não passavam de

uns grandessíssimos velhacos.

— Linguarudo — disse então dom Quixote. — Não compete nem

diz respeito aos cavaleiros averiguar se os aflitos, acorrentados e

oprimidos que encontram pelos caminhos vão daquela maneira ou

estão naquela aflição devido a suas culpas ou por seus méritos: a eles

só toca ajudá-los como a desvalidos, pondo os olhos em suas penas e

não em suas velhacarias. Eu topei com um rosário ou enfiada de

homens miseráveis e desgraçados, e fiz o que minha religião pede, e o

resto que se dane. E a quem achou isso condenável, exceto a santa

dignidade do senhor licenciado e sua honrada pessoa, digo que sabe

pouco em matéria de cavalaria e que mente como um fiadaputa

malnascido: e isto o farei conhecer com minha espada, quando o

assunto será mais longamente debatido.

Disse isso se firmando nos estribos e ajeitando o morrião, porque

levava a bacia de barbeiro, que em sua opinião era o elmo de

Mambrino, pendurada no arção dianteiro, até consertá-la dos maus-

tratos dos galeotes.

Doroteia, que era arguta e muito brincalhona, sabendo dos miolos

moles de dom Quixote e que todos zombavam dele, menos Sancho Pança, não quis ficar atrás e, vendo-o tão irritado, lhe disse:

— Senhor cavaleiro, lembre-se vossa mercê a ajuda que me prometeu

e que, conforme o combinado, não pode se meter em outra aventura

por mais urgente que seja. Acalme vosso coração, senhor, porque, se o

licenciado soubesse que os galeotes tinham sido libertos por esse braço

invicto, ele costuraria a boca com três pontos e ainda morderia a língua três vezes antes de dizer uma palavra que redundasse em

desprezo de vossa mercê.

— Juro que sim — disse o padre —, e ainda daria um fio de bigode

como garantia.

— Eu me calarei, minha senhora — disse dom Quixote —, e

reprimirei a justa cólera que já ardia em meu peito, indo quieto e

pacífico até que vos cumpra a mercê prometida. Mas em troca dessa

boa intenção vos suplico, me digais, se não for incômodo, qual é vossa

aflição, e quantas, quem e de que tipo são as pessoas de quem tenho

de vos dar a devida, satisfatória e inteira vingança.

— Farei isso de bom grado — respondeu Doroteia —, se é que não

vos amola ouvir queixas e desgraças.

— Não me amolará, minha senhora — respondeu dom Quixote.

Então Doroteia disse:

— Se é assim, prestem-me atenção vossas mercês.

Mal falou isso, Cardênio e o barbeiro se puseram ao lado dela,

ansiosos para ver como a arguta Doroteia fingiria sua história, e a mesma coisa fez Sancho, que ia tão enganado como seu amo. E a

moça, depois de se acomodar bem na sela, de tossir preparando a

garganta e de outras coisas, tudo com muita graça, começou desta

maneira:

— Antes de mais nada, quero que vossas mercês saibam, meus

senhores, que me chamam…

E aqui se deteve um instante porque havia esquecido o nome que o

padre tinha lhe dado, mas ele veio em seu socorro, porque

compreendeu o que acontecera:

— Não admira, minha senhora, que vossa grandeza se perturbe e se

embarace contando suas desventuras, porque às vezes elas costumam

ser tantas que fazem perder a memória aos que maltratam, de tal

maneira que não se lembram nem de seus próprios nomes, como

fizeram com vossa senhoria, que se esqueceu que se chama princesa

Micomicona, herdeira legítima do grande reino Micomicão. Agora,

depois deste esclarecimento, vossa mercê pode restituir facilmente à

sua memória ferida tudo aquilo que quiser contar.

— É verdade — respondeu a donzela. — E acho que daqui por

diante não será necessário me esclarecer nada, que eu chegarei a bom porto com minha verdadeira história: o rei meu pai, que se chamava

Tinácrio, o Sabido,1 foi muito instruído nisto que chamam de artes

mágicas e descobriu com sua ciência que minha mãe, que se chamava

rainha Jaramilla, morreria antes dele, e que em pouco tempo ele

também deixaria esta vida e eu ficaria órfã de pai e mãe. Mas ele dizia

que isso não o angustiava tanto quanto o deixava confuso saber com

toda a certeza das intenções de um gigante descomunal, senhor de

uma grande ilha que quase faz fronteira com nosso reino, chamado

Pandafilando do Olhar Medonho, porque é coisa sabida que, embora

tenha os olhos no lugar e sem defeitos, sempre olha atravessado, como

se fosse vesgo, e faz isso de maligno, para espantar e meter medo aos

que olha. Então, sabendo de minha orfandade, esse gigante haveria de

invadir meu reino com grande poderio e me roubar tudo, sem me

deixar nem uma pequena aldeia onde me abrigar, mas que eu poderia

evitar toda esta ruína e desgraça se aceitasse me casar com ele. Agora,

pelo que sabia de mim, meu pai achava que eu jamais teria vontade de

fazer um casamento tão desigual. Com isso ele disse a pura verdade, pois jamais me passou pela cabeça me casar com aquele gigante, nem

com nenhum outro, por maior e descomunal que fosse. Meu pai disse

também que, depois que ele morresse e eu visse que Pandafilando

começava a invadir meu reino, que não esperasse para me defender,

mas que livremente deixasse o reino desimpedido, se quisesse evitar a

morte e total destruição de meus bons e leais vassalos, porque não

seria possível me defender da força endiabrada do gigante. Devia, com

alguns dos meus, me pôr a caminho das Espanhas, onde acharia

remédio para meus males ao encontrar um cavaleiro andante cuja

fama, nessa época, se espalharia por todo esse reino, e que devia se

chamar dom “Chicote” ou dom “Peixote”, se me lembro bem.

— “Dom Quixote” deve ter dito, senhora — disse então Sancho

Pança —, conhecido também pela alcunha de Cavaleiro da Triste

Figura.

— É isso mesmo — disse Doroteia. — Disse mais: que devia ser alto,

com o rosto seco, e que no lado direito, embaixo do ombro esquerdo,

ou perto dali, devia ter uma pinta parda com alguns cabelos duros

como cerdas.

Ouvindo isso, dom Quixote disse a seu escudeiro:

— Vem cá, Sancho, meu filho, ajuda-me a tirar a armadura. Quero

ver se sou o cavaleiro profetizado por aquele sábio rei.

— Mas para que quer vossa mercê se despir? — disse Doroteia.

— Para ver se tenho essa pinta que vosso pai mencionou —

respondeu dom Quixote.

— Não precisa se despir — disse Sancho —, porque sei que vossa

mercê tem uma pinta assim no meio do espinhaço, sinal de ser homem

forte.

— Isso basta — disse Doroteia —, porque com os amigos não se

deve reparar em ninharias. Pouco importa que esteja no ombro ou no

espinhaço: basta que a pinta exista, esteja onde estiver, pois é tudo

uma mesma carne. Sem dúvida meu bom pai acertou, e eu acertei em

me encomendar ao senhor dom Quixote, porque é dele que meu pai

falou: os sinais do rosto vêm com os da boa fama que este cavaleiro

tem, não só na Espanha, mas em toda a Mancha, pois, mal

desembarquei em Osuna, ouvi contar tantas façanhas suas que logo

tive a sensação de que era ele mesmo que vinha procurar.

— Mas como vossa mercê desembarcou em Osuna, minha senhora

— perguntou dom Quixote —, se não é porto de mar?

Mas, antes que Doroteia respondesse, o padre se antecipou e disse:

— A senhora princesa deve querer dizer que, depois que

desembarcou em Málaga, o primeiro lugar onde ouviu notícias de

vossa mercê foi em Osuna.

— Sim, foi o que quis dizer — disse Doroteia.

— É o que parece — disse o padre. — Mas prossiga vossa majestade.

— Não há mais o que falar — respondeu Doroteia —, a não ser que

por fim minha sorte foi tão boa ao achar o senhor dom Quixote que já

me conto e me tenho por rainha e senhora de toda a minha terra, pois

ele, com sua cortesia e magnificência, prometeu ir comigo aonde quer

que eu o leve, e este lugar não será outro que aquele em que vou pô-lo

cara a cara com Pandafilando do Olhar Medonho, para que o mate e

me restitua o que tão descaradamente me foi usurpado. Tudo isso deve

acontecer conforme minha esperança, pois assim o deixou profetizado

Tinácrio, o Sabido, meu bom pai, que também disse e escreveu em

letras caldeias ou gregas, que eu não sei ler, que se este cavaleiro da

profecia, depois de degolar o gigante, quisesse se casar comigo, que eu concordasse sem contestação alguma em ser sua legítima esposa e lhe

desse posse de meu reino junto com o de minha pessoa.

— E aí, meu amigo Sancho? — disse dom Quixote nesse ponto. —

Não ouviste o que acontece? Eu não te disse? Veja se não temos reino

em que mandar e rainha com quem casar.

— Desgraçado seja o puto que não se casar depois de abrir a goela

do senhor Pandadesfiando! — disse Sancho. — Por Deus, que a rainha

não é de se jogar fora! Assim fossem as pulgas de minha cama!

E, dizendo isso, deu duas cabriolas, com mostras de grande

contentamento, e depois foi pegar as rédeas da mula de Doroteia,

fazendo-a se deter. Caiu de joelhos diante da moça e suplicou que lhe

desse as mãos para beijar, em sinal de que a recebia por sua rainha e

senhora. Quem entre os presentes não haveria de rir, vendo a loucura

do amo e a simplicidade do criado? Doroteia realmente as deu,

prometendo torná-lo grande senhor em seu reino, quando o céu fosse

tão benévolo que lhe permitisse reavê-lo e desfrutar dele. Sancho lhe

agradeceu com tais palavras que todos riram de novo.

— Esta, senhores — prosseguiu Doroteia —, é minha história. Só me

resta vos dizer que de todas as pessoas do séquito que vieram comigo

de meu reino não me sobrou ninguém, fora este escudeiro bem

barbudo, porque todas naufragaram numa grande tempestade que

tivemos à vista do porto, e ele e eu chegamos a terra em duas tábuas,

como que por milagre. Assim é minha vida, como tereis notado: toda

milagre e mistério. E se me excedi em alguma coisa, ou não fui tão

exata como deveria, culpai àquilo que o senhor licenciado disse antes:

os sofrimentos contínuos e extraordinários acabam com a memória

dos que os padecem.

— Com a minha não acabarão, oh, grande e corajosa senhora —

disse dom Quixote —, por maiores e incríveis que sejam quantos eu

padecer ao vos servir! E assim confirmo de novo a mercê que lhe

prometi e juro ir convosco ao fim do mundo, até me encontrar com

vosso feroz inimigo, a quem, com a ajuda de Deus e de meu braço,

penso decepar a cabeça soberba com os fios desta… não quero dizer

“boa” espada, graças a Ginés de Pasamonte, que levou a minha. —

Isso ele resmungou para si mesmo, e então prosseguiu: — E depois de

tê-lo decapitado e vos dar posse pacífica de vosso reino, ficará à vossa vontade fazer de vossa pessoa o que mais vos aprouver, porque

enquanto eu tiver a memória ocupada, a vontade cativa e a razão

perdida por aquela… Não falo mais… Não é possível que eu me

atreva a me casar, nem em pensamento, mesmo que fosse com a ave

fênix.

Sancho achou tão ruim o que seu amo disse sobre não se casar que,

com grande irritação, levantou a voz e disse:

— Juro e esconjuro, senhor dom Quixote: vossa mercê não tem um

pingo de juízo! Pois como é possível que vossa mercê tenha dúvida de

se casar com princesa tão nobre como esta? Pensa que o destino vai

lhe oferecer outra sorte dessas a cada esquina? Por acaso minha

senhora Dulcineia é mais formosa? Não, com certeza que não, nem

mesmo a metade, e vou mais longe, não chega aos pés da que está aí.

Assim, chegarei a meu condado no dia de São Nunca, se vossa mercê

andar procurando chifre em cabeça de cavalo. Case, case logo, em

nome de Satanás, e tome posse desse reino que oferecem de bandeja, e,

quando for rei, me faça marquês ou governador, e o resto que o diabo carregue.

Dom Quixote, ao ouvir essas blasfêmias contra sua senhora

Dulcineia, não pôde aguentar e, levantando o chuço, sem aviso e sem

dizer A nem B, deu duas bordoadas em Sancho que o derrubaram na

hora; e, se Doroteia não pedisse aos gritos que não lhe batesse mais,

sem dúvida o teria matado.

— Pensais, bronco desgraçado — disse-lhe depois de um instante —,

que podeis fazer e acontecer em minhas barbas e tudo será erro vosso

e perdão meu? Pois vos enganais, velhaco excomungado; sem dúvida

fostes excomungado, porque difamastes a sem-par Dulcineia. Não

sabeis, camponês grosseirão, biltre miserável, que se não fosse pela

coragem que ela infunde a meu braço eu não teria força para matar

uma pulga? Dizei-me, patife linguarudo, quem pensais que ganhou

este reino e cortou a cabeça deste gigante e vos fez marquês? Porque

para mim isso tudo é passado, são favas contadas. Dizei-me se não é a

coragem de Dulcineia, tomando meu braço por instrumento de suas

façanhas? Ela luta em mim e vence em mim, e eu vivo e respiro nela, e

tenho vida e sou. Oh, velhaco fiadaputa, como sois ingrato: saístes da sarjeta para ser grande senhor e agradeceis essa boa ação falando mal

de quem a fez!

Sancho não estava tão estropiado que não ouvisse todo o discurso

do amo; e, levantando-se sem muita demora, foi para trás do palafrém

de Doroteia e dali falou:

— Só me diga uma coisa, senhor: se vossa mercê está decidido a não

se casar com esta princesa, é claro que o reino não será seu; então, que

benefícios pode me dar? É disso que eu me queixo. Case vossa mercê

com esta rainha, case logo, que a temos aqui como quem caiu do céu,

e depois pode voltar para minha senhora Dulcineia, porque antes deve

ter havido reis amantes. Quanto à formosura, não me meto, pois, para

falar a verdade, ambas me parecem perfeitas, já que nunca vi a

senhora Dulcineia.

— Como não a viu, seu herege traidor? — disse dom Quixote. —

Pois não acabas de me trazer um recado dela?

— Digo que não a vi direito — disse Sancho —, para ter notado sua

formosura e seus traços tintim por tintim, mas de vista me pareceu perfeita.

— Então te desculpo — disse dom Quixote —, e me perdoa a sova

que te dei, que os primeiros impulsos não estão nas mãos dos homens.

— Isso eu já sabia — respondeu Sancho. — Comigo o primeiro

impulso é sempre a vontade de falar: nunca posso deixar de dizer o

que me vem à língua, uma vez que seja.

— Mesmo assim — disse dom Quixote —, olha o que falas, Sancho,

porque tantas vezes vai o cântaro à fonte… Não te digo mais nada.

— Muito bem — respondeu Sancho —, mas Deus está no céu, vê as

trapaças todas e julgará quem faz mais mal: eu por não falar bem ou

vossa mercê por não o fazer.

— Chega de conversa — disse Doroteia. — Correi, Sancho, e beijai a

mão de vosso senhor e pedi perdão a ele, e daqui por diante andai

mais atento em vossos elogios e insultos, e não falai mal dessa senhora

Tobosa, que eu não conheço a não ser para servi-la, e tende confiança

em Deus, que não há de vos privar de um lugar onde vivereis como

um príncipe.

Cabisbaixo, Sancho foi pedir a mão a seu amo, que a estendeu

calmamente; depois que Sancho a beijou, deu-lhe a bênção e disse que se aproximasse um pouco, porque tinha de perguntar e discutir com

ele coisas de muita importância. Assim fez Sancho; os dois se

afastaram um pouco, e dom Quixote disse:

— Depois que vieste, não tive tempo nem oportunidade para te pedir

os pormenores de tua missão e a resposta que trouxeste a minha carta,

mas agora, que a sorte nos concedeu os dois, não me negues a

felicidade que podes me dar com tão boas notícias.

— Pergunte vossa mercê o que quiser — respondeu Sancho —, que

vendo pelo que comprei. Mas suplico a vossa mercê, meu senhor, que

não seja tão vingativo daqui por diante.

— Por que dizes isso, Sancho? — disse dom Quixote.

— Digo — respondeu Sancho — porque essas pauladas de agora

foram mais pela contenda que o diabo travou naquela noite contra

nós, lá no moinho dos pisões, do que pelo que eu disse contra minha

senhora Dulcineia, a quem amo e reverencio como a uma relíquia,

embora minha obrigação com ela seja apenas porque é assunto de

vossa mercê.

— Por tua vida, Sancho, deixa para lá essa conversa, que me enche

de desgosto — disse dom Quixote. — Já te perdoei antes, e sabes

muito bem que se costuma dizer: “Para pecado novo, nova

penitência”.2

[Enquanto isso acontecia, viram vir pela estrada um homem a cavalo

num jumento, e quando chegou perto acharam que era um cigano.

Mas Sancho Pança, que onde quer que via burros perdia os olhos e a

alma, mal tinha divisado o homem reconheceu Ginés de Pasamonte, e

pelo fio do cigano desenrolou o novelo de seu burro, no que não

faltou com verdade, pois era sobre seu ruço que Pasamonte vinha. É

que, para não ser reconhecido e poder vender o burro, ele havia se

vestido de cigano, cuja língua sabia falar, entre muitas outras, como se

fossem suas. Sancho o viu e o reconheceu; e, mal o viu e o reconheceu,

disse aos berros:

— Ah, Ginesillo! Vamos, seu ladrão, deixa minha joia, solta minha

vida, não te fartes com meu descanso, deixa meu burro, deixa meu

deleite! Foge, seu puto! Some, ladrão! E larga o que não é teu!

Não foram necessárias tantas palavras nem ofensas, porque na

primeira delas Ginés saltou e, saindo num trote que parecia corrida, num instante se afastou de todos e desapareceu.

Sancho se aproximou de seu ruço e, abraçando-o, disse:

— Como tens andado, meu querido, rucinho do meu coração, meu

companheiro?

E o beijava e acariciava, como se fosse uma pessoa. O burro calava e

se deixava beijar e acariciar por Sancho, sem responder palavra

alguma. Chegaram todos e lhe deram os parabéns pelo achado do

ruço, especialmente dom Quixote, que disse que nem por isso anulava

a ordem dos três burrinhos. Sancho o agradeceu.]

Enquanto os dois estavam nessa conversa, o padre disse a Doroteia

que havia se desempenhado com muito tino, tanto na história como

na brevidade dela e na semelhança que tinha com as dos livros de

cavalaria. Ela disse que havia se distraído muitas horas lendo-os, mas

que não sabia onde ficavam as províncias nem os portos de mar, por

isso dissera às cegas que tinha desembarcado em Osuna.

— Eu me dei conta — disse o padre — e tratei logo de dizer o que

disse, com o que tudo se ajeitou. Mas que coisa estranha, não, ver com que facilidade este fidalgo desgraçado acredita em todas essas

invenções e mentiras, só porque têm o estilo das tolices dos livros

dele?

— É, sim — disse Cardênio. — Tão incrível e esquisita que não sei se

alguém, querendo inventá-la e vivê-la fantasiosamente, teria

imaginação tão afiada que pudesse topar com ela.

— Mas há outra coisa nisso — disse o padre. — Excetuando-se os

absurdos que esse bom fidalgo diz no que se refere a sua loucura,

argumenta muito bem se tratam com ele de outras coisas e mostra ter

uma mente clara e serena; assim, se não se falar de cavalaria, não

haverá quem o julgue sem juízo.

Enquanto eles estavam nessa conversa, dom Quixote prosseguiu com

a sua, dizendo a Sancho:

— Amigo Pança, vamos botar uma pedra sobre nossas discórdias, e

me diz de uma vez, sem levar em conta nem raiva nem rancor algum:

onde, como e quando encontraste Dulcineia? O que ela fazia? O que

lhe disseste? O que te respondeu? Que cara fez quando leu minha

carta? Quem a transcreveu para ti? E tudo mais que achares que é

digno de se saber neste caso, de se perguntar e que dê satisfação, sem acrescentar nada ou mentir para me dar prazer, e muito menos te

omitas para não me tirá-lo.

— Senhor — respondeu Sancho —, se devo dizer a verdade, ninguém

transcreveu a carta, porque não levei carta alguma.

— É verdade — disse dom Quixote —, porque dois dias depois de

tua partida achei comigo o livrinho onde a escrevi. Isso me deixou

muito preocupado, pois fiquei sem saber o que tu farias quando te

visses sem a carta, mas pensei sempre que voltarias quando desses por

falta dela.

— Assim seria — respondeu Sancho —, se eu não a tivesse guardado

na memória quando vossa mercê a leu para mim, de modo que a disse

a um sacristão, que a copiou de meus miolos tintim por tintim tão

bem que disse que nunca em sua vida, embora houvesse lido muitas

cartas de excomunhão, havia visto nem lido uma tão linda como

aquela.

— E ainda a tens na memória, Sancho? — disse dom Quixote.

— Não, senhor — respondeu Sancho —, porque, depois que a ditei, vi que não tinha mais proveito e comecei a esquecê-la, e se me lembro

de alguma coisa é daquilo de “soberbana”, digo de “soberana

senhora”, e do fim: “Vosso até a morte, o Cavaleiro da Triste Figura”.

E entre essas duas coisas meti mais de trezentas almas, vidas e olhos

meus.

 

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