Dom Quixote

Miguel de Cervantes · Capítulo 17 de 137

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Dom Quixote

Capítulo IX

 

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ix

onde se conclui a estupenda batalha

que o galhardo basco

e o valente manchego travaram

Deixamos na primeira parte desta história o valente basco e o famoso

dom Quixote com as espadas nuas ao alto, prontos para descarregar

dois tremendos fendentes que, caso se acertassem em cheio, no

mínimo se dividiriam de alto a baixo e se abririam como romãs. E

justo nesse ponto tão incerto parou truncada história tão saborosa,

sem que seu autor nos desse notícia de onde poderia se achar o que

dela faltava.

Isso me deixou muito aborrecido, porque o gosto de ler esse pouco

se tornava desgosto ao pensar no mau caminho que se apresentava

para encontrar o muito que em minha opinião faltava de história tão

deliciosa. Pareceu-me coisa impossível e fora de todo bom costume

que houvesse faltado a esse excelente cavaleiro algum mago que se

encarregasse de escrever suas façanhas nunca vistas, coisa que não

faltou a nenhum dos cavaleiros andantes,

Dos que dizem as gentes

que vão às suas aventuras,1

porque cada um deles tinha, como que sob medida, um ou dois magos

que não apenas escreviam sobre seus feitos como pintavam seus

menores pensamentos e seus atos mais insignificantes, por mais

ocultos que fossem; e cavaleiro tão bom não poderia ser tão infeliz

que não tivesse o que sobrou a Platir e a outros semelhantes. Assim,

não conseguia acreditar que história tão bela houvesse ficado manca e

estropiada, e botava a culpa na malignidade do tempo, devorador e

consumidor de todas as coisas, que, ou a tinha oculta, ou consumida.

Mas, como haviam achado entre seus livros alguns tão modernos

como Desengaño de celos e Ninfas y pastores de Henares, me parecia

que sua história também devia ser recente e que, se não estivesse

escrita, estaria na memória das pessoas de sua aldeia e das aldeias

vizinhas. Essas ideias me deixavam confuso e desejoso de conhecer

real e verdadeiramente toda a vida e os milagres de nosso famoso espanhol dom Quixote de la Mancha, luz e espelho da cavalaria

manchega, e o primeiro que em nossa época, nesses tempos

calamitosos, encarou o trabalho e o exercício das armas andantes:

reparar afrontas, socorrer viúvas e amparar donzelas, daquelas que

andavam com seus chicotes e palafréns, com toda a virgindade às

costas, de montanha em montanha e de vale em vale, porque

antigamente existiu donzela que, se não fosse forçada por algum

velhaco ou algum camponês bronco ou algum gigante descomunal, ao

cabo de oitenta anos, sem dormir um único dia embaixo de telhado, se

foi tão inteira para a sepultura como a mãe que a tinha parido. Digo,

então, que por essas e muitas outras coisas, nosso garboso Quixote é

digno de louvores contínuos e memoráveis, e até a mim não devem ser

negados, pelo trabalho e diligência que empenhei na busca do fim de

história tão agradável, embora saiba muito bem que se o céu, o acaso

ou a sorte não me ajudassem, ao mundo faltaria o passatempo e o

prazer que bem poderá ter por quase duas horas quem a ler com

atenção. Enfim, achei-a desta maneira:

Estando eu um dia na Alcaná de Toledo, chegou um rapaz vendendo

uns cadernos e papéis velhos a um trapeiro,2 e, como gosto de ler até

os papéis rasgados das ruas, fui levado por essa inclinação natural a

pegar um daqueles cadernos que o rapaz vendia e vi que era escrito em

caracteres árabes. Embora eu os reconhecesse mas não soubesse lê-los,

fiquei à espera para ver se aparecia por ali algum mourisco

aljamiado,3 e não foi difícil encontrar um intérprete, pois o acharia

facilmente mesmo que procurasse de outra língua melhor e mais

antiga. Enfim, a sorte me apresentou um a quem falei de meu desejo,

pondo-lhe o livro nas mãos; ele o abriu ao meio, leu um pouco e

começou a rir.

Perguntei-lhe do que se ria, e me respondeu que de uma anotação

escrita na margem. Pedi que a lesse para mim e ele, sem deixar de rir,

disse:

— Como falei, está escrito aqui na margem: “Dizem que esta

Dulcineia del Toboso, tantas vezes mencionada nesta história, teve a

melhor mão para salgar porcos em toda a Mancha”.

Quando ouvi dizer “Dulcineia del Toboso”, fiquei pasmo e

maravilhado, porque logo imaginei que aqueles cadernos continham a história de dom Quixote. Apressei-o então para que lesse o começo e,

assim fazendo, traduziu de improviso do árabe para o castelhano:

História de dom Quixote de la Mancha, escrita por Cide Hamete

Benengeli, historiador árabe. Foi necessário muito tato para dissimular

a alegria que senti quando chegou a meus ouvidos o título do livro; e,

antecipando-me ao trapeiro, comprei do rapaz todos os papéis e

cadernos por meio real; se ele tivesse perspicácia e soubesse como eu

os desejava, bem poderia pedir e levar mais de seis reais na compra.

Afastei-me em seguida com o mourisco pelo claustro da igreja matriz e

pedi a ele que traduzisse para o castelhano todos os cadernos que

tratavam de dom Quixote, sem lhes omitir nem acrescentar nada,

oferecendo-lhe o pagamento que quisesse. Contentou-se com duas

arrobas de passas e uns cem quilos de trigo, e prometeu traduzi-los fiel

e rapidamente. Mas eu, para facilitar mais o negócio e para não

arriscar achado tão bom, trouxe-o para minha casa, onde em pouco

mais de mês e meio traduziu tudo exatamente como aqui se refere.

No primeiro caderno estava pintada com todo o realismo a batalha de dom Quixote com o basco, na mesma postura que a história conta,

as espadas no alto, um protegido pela rodela, o outro pela almofada, e

a mula do basco tão vividamente que a tiro de balestra se via que era

de aluguel. O basco tinha escrito aos pés a legenda: “Dom Sancho de

Azpeitia”, que, sem dúvida, devia ser seu nome, e aos pés de

Rocinante estava outra que dizia: “Dom Quixote”. Rocinante estava

pintado maravilhosamente, tintim por tintim, tão fraco e magro, puro

espinhaço, tísico confirmado, que mostrava muito bem com que tino e

propriedade fora chamado de Rocinante. Perto dele estava Sancho

Pança, que segurava seu burro pelo cabresto, tendo aos pés outro

rótulo: “Sancho Sanco”. Por isso, pelo que mostrava a pintura — a

barriga grande, o tronco curto, as pernas finas e compridas —, deve

ter sido chamado de Pança ou de Sanco, que por esses dois

sobrenomes é chamado algumas vezes na história. Poderiam se notar

outras miudezas, mas são todas de pouca importância, e não vêm ao

caso para o relato da história, que nenhuma é má se for verdadeira.

Se aqui se pode fazer alguma objeção sobre sua veracidade, não

poderá ser outra além de ter sido seu autor árabe, já que é muito

próprio dos daquela nação serem mentirosos; se bem que, por serem tão nossos inimigos, dá para entender que ele tenha antes se omitido

nela do que exagerado. É o que penso, pois, quando poderia e deveria

deixar correr a pena nos louvores a tão bom cavaleiro, parece que de

propósito os passa em silêncio: coisa malfeita e pior pensada, havendo

e devendo ser os historiadores minuciosos, verdadeiros e nada

apaixonados, sem que o interesse ou o medo, o rancor ou a afeição

façam-nos desviar do caminho da verdade, cuja mãe é a história,

êmula do tempo, depósito das ações, testemunha do passado, exemplo

e aviso do presente, advertência do futuro. Nesta sei que se achará

tudo o que por acaso se deseje na mais agradável das histórias; e, se

algo bom faltar nela, penso que foi por culpa do cachorro do autor,

não por falta de assunto. Enfim, sua segunda parte, seguindo a

tradução, começava desta maneira:

Com as espadas cortantes levantadas bem alto os dois valorosos e

irados combatentes não apenas pareciam como estavam ameaçando o

céu, a terra e o mar, tal a intrepidez e a aparência que tinham. O

primeiro a descarregar o golpe foi o basco colérico, e o deu com tanta força e tanta fúria que, se a espada não se desviasse no caminho,

somente com aquele poderia dar fim a sua dura contenda e a todas as

aventuras de nosso cavaleiro. Mas a boa sorte, que para maiores

coisas o tinha guardado, torceu a espada de seu adversário, de modo

que, embora o acertasse no ombro esquerdo, não lhe causou outro

dano que arrancar pedaços da armadura, levando de passagem grande

parte do elmo, com a metade da orelha. Isso tudo veio ao chão, num

estrago espantoso, deixando-o em péssimo estado.

Valha-me Deus, quem poderá contar com a destreza necessária a

raiva que possuiu o coração de nosso manchego, vendo-se tratar

daquele jeito?! Basta dizer que pela primeira vez se aprumou nos

estribos e, apertando mais a espada com as duas mãos, com tal fúria

descarregou-a sobre o basco, acertando-o em cheio na almofada e na

cabeça, que — não sendo a almofada uma boa defesa — foi como se

caísse uma montanha sobre ele: começou a botar sangue pelas ventas,

pela boca e pelos ouvidos, dando mostras de que ia cair da mula, de

onde cairia sem dúvida se não se abraçasse ao pescoço dela. Apesar

disso, perdeu os pés dos estribos e depois afrouxou os braços, e a mula, espantada com o golpe tenebroso, desatou a correr pelo campo

e deu com seu dono por terra em poucos pinotes.

Dom Quixote ficou olhando com muita calma, mas, ao vê-lo cair,

saltou do cavalo e alcançou-o rapidamente e, pondo-lhe a ponta da

espada entre os olhos, disse que se rendesse ou lhe cortaria a cabeça.

O basco estava tão aturdido que não podia responder uma palavra e

teria passado mal, tão cego estava dom Quixote, se as senhoras do

coche, que até aí haviam olhado com grande desalento a contenda,

não acorressem, pedindo-lhe encarecidamente que lhes fizesse a grande

gentileza e favor de perdoar a vida do escudeiro. Dom Quixote

respondeu com muita altivez e gravidade:

— Decerto, formosas senhoras, fico muito feliz de fazer o que me

pedis; mas há de ser com uma condição e acordo: este cavaleiro deve

me prometer ir à aldeia de El Toboso e se apresentar de minha parte à

sem-par dona Dulcineia, para que ela faça dele o que tiver vontade.

As amedrontadas e desconsoladas senhoras, sem se dar conta do que

dom Quixote pedia e sem perguntar quem era Dulcineia, prometeram-lhe que o escudeiro faria tudo o que lhe fosse mandado.

— Então, fiado na palavra das senhoras, não o machucarei mais,

ainda que bem o merecesse.

 

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