Dom Quixote

Miguel de Cervantes · Capítulo 85 de 137

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Dom Quixote

Capítulo XXIV

onde se contam mil ninharias tão impertinentes como necessárias para

o verdadeiro

entendimento desta grande história

Diz o tradutor do original manuscrito desta grande história que,

chegando ao capítulo da aventura da caverna de Montesinos, estava

anotado na margem as seguintes palavras com letra do próprio autor,

Cide Hamete Benengeli:

“Não posso entender nem me convencer de que ao valoroso dom

Quixote tenha acontecido exatamente tudo o que foi descrito no

capítulo anterior. A razão é que todas as aventuras narradas até aqui

são possíveis e críveis, mas não vejo como essa da caverna pode ser

verdadeira, por estar muito longe do razoável. E pensar que dom

Quixote mentiu, sendo o fidalgo mais veraz e o cavaleiro mais nobre

de sua época, não é admissível, pois ele não mentiria nem que fosse

crivado de flechas. Por outro lado, considero que ele realmente a

contou com todas as circunstâncias mencionadas, e que não pôde

inventar em tão pouco tempo tamanha batelada de disparates; então,

se esta aventura parece apócrifa, eu não tenho culpa, e a escrevo sem

garantir que é falsa ou verdadeira. Tu, leitor, que és sábio, julga o que

achar melhor, porque eu não devo nem posso acrescentar mais nada,

embora se comente que sem dúvida dom Quixote se retratou dela na

hora da morte e disse que a tinha inventado, por lhe parecer que era

conveniente e se ajustava às aventuras que havia lido nas histórias de

cavalaria.”

Depois prosseguiu, narrando:

O primo se espantou tanto com o atrevimento de Sancho Pança

quanto com a paciência de seu amo e julgou que, por causa da alegria de ter visto sua senhora Dulcineia del Toboso, embora encantada,

nascia nele aquela brandura que mostrava então; caso contrário, teria

desancado Sancho a pau, porque era o que merecia pelas palavras que

disse. O primo realmente achava que Sancho tinha andado muito

malcriadinho com seu amo, a quem disse:

— Eu, senhor dom Quixote de la Mancha, dou por muito bem

empregada a jornada que fiz com vossa mercê, porque nela consegui

quatro coisas. A primeira: ter conhecido vossa mercê, o que considero

uma grande felicidade. A segunda: ter sabido o que se encerra na

caverna de Montesinos, com as mutações de Guadiana e das lagoas da

Ruidera, que me servirão no Ovídio espanhol que tenho entre as

mãos. A terceira: descobrir a antiguidade das cartas do baralho, que já

se usavam pelo menos na época do imperador Carlos Magno,

conforme pude deduzir das palavras que vossa mercê diz que disse

Durandarte, quando, depois daquele longo tempo em que Montesinos

esteve falando com ele, acordou dizendo: “Paciência e baralha de

novo”. Ele não poderia ter aprendido esse modo de falar enquanto

estava encantado, mas antes, na França, no tempo do referido

imperador Carlos Magno. E essa descoberta vem a calhar para o

outro livro que escrevo, que é o Suplemento de Virgílio Polidoro na

invenção das antiguidades, pois penso que não se lembrou de incluir

os baralhos em seu livro, como eu o farei agora, o que será muito importante, mais ainda alegando autoridade tão séria e tão confiável

como é o senhor Durandarte. A quarta é ter sabido com certeza o

nascimento do rio Guadiana, até agora ignorado pelas pessoas.

— Vossa mercê tem razão — disse dom Quixote —, mas eu gostaria

de saber, se com a graça de Deus lhe derem licença para imprimir esses

livros, coisa que eu duvido, a quem pensa dedicá-los.

— Há senhores e nobres na Espanha a quem se pode dedicar — disse

o primo.

— Não muitos — respondeu dom Quixote —, e não porque não o

mereçam, mas porque não querem aceitar, para não se obrigarem a

retribuir o que se deve ao trabalho e à cortesia de seus autores. Eu

conheço um príncipe que pode suprir a falta dos demais com tantas

vantagens que, se me atrevesse a dizê-las, talvez despertasse a inveja

em mais de quatro peitos nobres. Mas deixemos isso para outra

ocasião mais oportuna e vamos procurar um lugar para nos abrigar

esta noite.

— Não longe daqui fica uma ermida — respondeu o primo —, onde

vive um ermitão que dizem que foi soldado e tem fama de ser bom

cristão, e muito sábio, e caritativo ao extremo. Ao lado da ermida há uma pequena casa, que ele construiu a sua custa. Mas, apesar de

pequena, é capaz de receber hóspedes.

— Por acaso o tal ermitão tem galinhas? — perguntou Sancho.

— Poucos ermitões vivem sem elas — respondeu dom Quixote —,

porque os de agora não são como aqueles do deserto do Egito, que se

vestiam com folhas de palmeiras e comiam raízes nos matos. E não se

entenda que por falar bem daqueles não fale destes, quero dizer

apenas que as penitências de hoje em dia não se comparam ao rigor e

à penúria de então. Mas nem por isso todos deixam de ser bons: eu

pelo menos os julgo bons; e, no pior dos casos, faz menos mal o

hipócrita que finge ser bom que o pecador público.

Estavam nisso, quando viram que se aproximava deles um homem a

pé, caminhando apressado e dando com uma vara num mulo

carregado de lanças e alabardas. Quando os encontrou,

cumprimentou-os e passou ao largo. Dom Quixote lhe disse:

— Detende-vos, bom homem, pois parece que vais com mais pressa

do que aguenta este mulo.

— Não posso parar, senhor — respondeu o homem —, porque as

armas que vedes que levo serão necessárias amanhã. Portanto, não

posso parar, e adeus. Mas, se quiserdes saber para que as levo, penso

me alojar esta noite na estalagem que fica mais acima da ermida; e, se

fizerdes este mesmo caminho, lá me encontrareis, onde vos contarei

verdadeiras maravilhas. E adeus de novo.

E de tal maneira instigou o mulo que dom Quixote não teve

oportunidade de perguntar que maravilhas pensava lhes contar; como

era um tanto curioso e sempre o acossavam desejos de saber coisas

novas, dom Quixote ordenou que partissem logo e fossem passar a

noite na estalagem, sem parar na ermida, onde o primo gostaria que

ficassem.

Assim fizeram: os três montaram a cavalo e seguiram direto para a

estalagem, onde chegaram um pouco antes de anoitecer. No caminho

o primo disse a dom Quixote que passassem na ermida, para tomar

um trago. Sancho Pança, mal ouviu isso, encaminhou o burro para lá,

seguido por dom Quixote e o primo; mas a má sorte de Sancho parece

que ordenou que o ermitão não estivesse em casa, que foi o que disse

uma ermitoa ou ermi-à-toa que encontraram. Pediram vinho, do caro; ela respondeu que seu senhor não o tinha, mas, se quisessem água

barata, de boa vontade a daria.

— Se eu tivesse sede de água — respondeu Sancho —, há poços pelo

caminho, onde teria me fartado. Oh, festança de Camacho, oh,

abundância da casa de dom Diego: quantas vezes vou sentir saudades!

Assim deixaram a ermida e tocaram para a estalagem; dali a pouco

viram um rapazinho à frente deles, caminhando sem muita pressa,

tanto que logo o alcançaram. Levava a espada sobre o ombro e,

pendurada nela, uma trouxa ou embrulho, pelo visto de suas roupas,

provavelmente calções ou bombachas, capa e alguma camisa, porque

vestia um casaco de veludo que brilhava como cetim em alguns

lugares, e camisa com as fraldas para fora; as meias eram de seda e os

sapatos, de ponta quadrada, em voga na corte; devia ter uns dezoito

ou dezenove anos; tinha o rosto alegre e o corpo ágil, pelo visto. Para

se distrair da canseira da estrada, ia cantando uma seguidilha, que

acabou quando o alcançaram, mas que o primo aprendeu de cor, que

dizem que dizia:

À guerra me leva

minha pobreza;

se tivesse dinheiro,

não iria, com certeza.

Quem primeiro falou com ele foi dom Quixote, que disse:

— Quase em pelo vai vossa mercê, meu galante rapaz. E para onde,

pode-se saber, se lhe agrada dizer?

Ao que o rapaz respondeu:

— Vou quase em pelo por causa do calor e da pobreza, e vou para a

guerra.

— Pobreza? Como assim? — perguntou dom Quixote. — Pelo calor

pode ser.

— Senhor — replicou o rapaz —, eu levo nesta trouxa umas

bombachas de veludo, companheiras deste casaco: se as gastar no

caminho, não poderei me trajar com elas na cidade, e não tenho com

que comprar outras. Então, tanto por isso como para me refrescar,

vou dessa maneira até alcançar umas companhias de infantaria que

estão a umas doze léguas daqui, onde sentarei praça, e não faltarão

mulas de carga para me levarem até o lugar do embarque, que dizem que deve ser em Cartagena. E prefiro muito mais ter o rei por amo e

senhor, e servi-lo na guerra, que a algum pobretão em Madri.

— E por acaso vossa mercê tem alguma regalia? — perguntou o

primo.

— Se eu houvesse servido a um nobre da Espanha ou alguma pessoa

importante — respondeu o rapaz —, com certeza teria, pois isto tem

de bom servir aos grandes: da mesa dos criados se costuma sair alferes

ou capitão, ou com alguma pensão. Mas eu, pobre de mim, servi

sempre a oportunistas e estrangeiros, a troco de comida magra e

salário tão minguado que ia metade só para engomar o colarinho.

Seria um verdadeiro milagre que um pajem aventureiro como eu

pudesse ter alguma sorte.

— Santo Deus, meu amigo, diga-me — perguntou dom Quixote —, é

possível que em todos os anos que serviu não pôde arrumar uma

libré?

— Olhe, deram-me duas — respondeu o pajem —, mas, assim como

tiram da gente o hábito e devolvem as roupas velhas, quando se sai de uma ordem religiosa antes do juramento, meus amos me devolviam as

minhas, logo que terminavam os negócios que tinham na corte, pois

voltavam para suas casas e recolhiam as librés que haviam dado

apenas por ostentação.

— Que spilorceria,1 como dizem os italianos — disse dom Quixote.

— Mas, apesar de tudo, dê-se por feliz tendo saído da corte com tão

boa intenção, porque não há outra coisa na terra mais honrada nem

mais proveitosa que servir a Deus, em primeiro lugar, e depois a seu

rei e senhor natural, especialmente no exercício das armas, pelas quais

se alcançam, se não riquezas, pelo menos mais honra que pelas letras,

como eu já disse muitas vezes. Apesar de as letras terem fundado mais

morgadios que as armas, os homens de armas têm um não sei quê a

mais que os das letras, com um sei muito bem o quê de esplendor

indefinível, que a todos torna superior. E lembre sempre o que

pretendo lhe dizer agora, pois lhe será de muito proveito e alívio

durante suas provações: afaste da mente as adversidades que poderão

lhe ocorrer, pois a pior de todas é a morte, mas, se esta for boa, a

melhor de todas é morrer. Perguntaram a Júlio César, aquele valoroso

imperador romano, qual era a melhor morte. Respondeu que a impensada, repentina, imprevista. Embora tenha respondido como

pagão, alheio ao conhecimento do verdadeiro Deus, falou bem,

porque uma morte assim nos poupa do sofrimento. Digamos que vos

matem na primeira patrulha ou refrega, com um tiro de canhão, ou

voando com uma mina, que importa? Tudo é morrer, e acabou-se a

história; e, segundo Terêncio, melhor parece o soldado morto em

batalha que vivo e salvo na fuga, e tanto alcança de fama o bom

soldado quanto tem de obediência a seus capitães e aos que podem

comandá-lo. E reparai, meu filho, é melhor o soldado cheirar a

pólvora que a almíscar, e se a velhice vos colher nesse exercício

honroso, embora esteja cheio de cicatrizes e estropiado ou maneta,

pelo menos não vos colherá sem vossa honra, que a pobreza não

poderá prejudicar, tanto mais que já estão tomando medidas para

ajudar os soldados velhos e estropiados, porque não fica bem que se

faça com eles o que costumam fazer os que emancipam seus negros,

quando já estão velhos e não podem mais trabalhar: botando-os para

fora de casa com cartas de alforria os tornam escravos da fome, de quem não pensam ser alforriados a não ser pela morte. E por ora não

vos quero dizer mais nada, apenas que salte para a garupa de meu

cavalo até a estalagem, e lá jantareis comigo, e pela manhã seguireis

vosso caminho, que Deus vos dê tão bom quanto vossas intenções

merecem.

O pajem não aceitou o convite para montar na garupa, mas aceitou,

sim, jantar na estalagem. Dizem que nesse ponto Sancho disse a si

mesmo: “Valha-te Deus pela nobreza! Como é possível que um

homem que sabe falar tantas coisas sábias como as que acabou de

dizer afirme que viu aqueles disparates todos na caverna de

Montesinos? Bem, bem, vamos ver”.

Chegaram à estalagem ao anoitecer e, para alegria de Sancho, seu

senhor a julgou estalagem mesmo, não castelo, como de costume. Mal

tinham entrado, quando dom Quixote perguntou ao estalajadeiro pelo

homem das lanças e alabardas. Ele respondeu que estava acomodando

o mulo na estrebaria. O mesmo fizeram o primo e Sancho com seus

jumentos, dando a Rocinante a melhor baia.

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