Dom Quixote

Miguel de Cervantes · Capítulo 89 de 137

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Dom Quixote

Capítulo XXVIII

das coisas que benengeli diz que saberá

quem as ler, se as ler com atenção

Quando o valente foge é porque descobriu a cilada, e é de homens

prudentes se guardar para melhor ocasião. Essa verdade foi

confirmada por dom Quixote, que, cedendo à fúria das pessoas e às

más intenções daquele esquadrão indignado, botou o pé no mundo e,

sem se lembrar de Sancho nem do perigo em que o deixava, se afastou

tanto quanto lhe pareceu seguro. Sancho o seguia atravessado sobre

seu jumento, como foi dito. Por fim, chegou, já recuperado do

desmaio, e aí se deixou cair do burro aos pés de Rocinante, todo

ansioso, todo moído e todo desancado. Dom Quixote apeou para

tratar das feridas dele, mas, como o achou são dos pés à cabeça, disse

muito encolerizado:

— Não podias ter escolhido pior hora para zurrar, Sancho! E a troco

de que achaste bom falar de corda em casa de enforcado? Para música

de zurros que contraponto poderia haver além de cacetadas? E dai

graças a Deus, Sancho, que tenham te benzido com um porrete e não

te fizeram o sinal da cruz com um alfanje.

— Não me sinto bem — respondeu Sancho —, parece que falo pelas

feridas nas costas. Montemos e nos afastemos daqui. Calarei meus

zurros, mas não deixarei de dizer que os cavaleiros andantes fogem e

deixam seus bons escudeiros moídos como bagaço na mão dos

inimigos.

— Não foge quem se retira — respondeu dom Quixote. — Deves

saber, Sancho, que a valentia que não se funda sobre a base da

prudência se chama temeridade, e as façanhas do temerário são

atribuídas mais à sorte que a sua coragem. Então, confesso que me retirei, não que fugi, e nisto imitei a muitos valentes que se guardaram

para tempos melhores. As histórias estão cheias de casos como este,

mas, por não serem de proveito para ti nem me dar prazer, não te

conto nenhuma agora.

Nisso, Sancho já estava a cavalo, ajudado por dom Quixote, que

também montou em Rocinante, e passo a passo foram se abrigar num mato de álamos que a um quarto de légua se avistava dali. De quando

em quando Sancho dava uns ais profundos e uns gemidos dolorosos;

e, perguntando-lhe dom Quixote a causa de sentimentos tão amargos,

respondeu que desde a ponta do espinhaço até a nuca lhe doía tanto

que o deixava louco.

— Sem dúvida, a causa dessa dor deve ser porque, como o porrete

com que te acertaram era grosso e comprido — disse dom Quixote —,

te pegou as costas de cima a baixo, onde ficam todas essas partes que

te doem. Se te pegasse mais, mais te doeria.

— Por Deus — disse Sancho —, vossa mercê me tirou de uma dúvida

tenebrosa e me falou com lindas palavras! Minha nossa! Estava tão

oculta a causa de minha dor que foi preciso me dizer que me dói tudo

aquilo que o cacete alcançou? Se me doessem os tornozelos, ainda

valeria a pena adivinhar por que me doíam, mas adivinhar que me dói

onde me bateram não é grande coisa. Por Deus, senhor meu amo, o

mal alheio não pesa em nossa balança, e a cada dia vou descobrindo o

pouco que posso esperar do convívio que tenho com vossa mercê; porque, se dessa vez me deixou espancar, em outras cem voltaremos

aos velhos manteamentos e outras criancices, pois, se agora me

custaram as costas, depois me custarão os olhos da cara. Eu faria

muito melhor, mas, como sou um bruto e não farei nada bom em toda

a minha vida, muito melhor eu faria, repito, se voltasse para casa e

para minha mulher e meus filhos, e sustentá-la e criá-los com o que

Deus quisesse me dar, e não andar atrás de vossa mercê por caminhos

desencaminhados e por trilhas e estradas que não levam a lugar

nenhum, bebendo mal e comendo pior ainda. Pois nem falemos de

dormir! Medi, irmão escudeiro, sete palmos de terra, e se quiserdes

mais, estejais a gosto, medi outros tantos, e estenda-vos como vos der

na telha, que queimado e feito pó eu veja o primeiro que se ocupou da

cavalaria andante, ou pelo menos ao primeiro que quis ser escudeiro

de tais bobos como deveriam ser todos os passados cavaleiros

andantes. Sobre os do presente não digo nada, pois eu os respeito, por

ser vossa mercê um deles, e porque sei que vossa mercê sabe um

truque ou dois a mais que o diabo no que fala e no que pensa.

— Eu faria uma boa aposta convosco, Sancho: que agora que ides

falando sem que ninguém vos atalhe, não vos dói nada em todo o corpo — disse dom Quixote. — Falai, meu filho, tudo aquilo que vos

vier à cabeça e à boca, pois, em troca de que não vos doa nada, terei

eu por prazer o aborrecimento que me causam vossas impertinências.

E, se desejais tanto voltar para vossa casa, com vossa mulher e vossos

filhos, não permita Deus que eu vos impeça: tendes meu dinheiro, vede

quanto tempo faz que saímos de nosso povoado esta terceira vez, vede

o que podeis e deveis ganhar por mês e pagai-vos com vossa própria

mão.

— Quando eu trabalhava para Tomé Carrasco, pai do bacharel

Sansão Carrasco, que vossa mercê conhece bem — respondeu Sancho

—, ganhava dois ducados por mês, além da comida. Com vossa mercê

não sei o que posso ganhar, porque sei que o escudeiro de cavaleiro

andante tem mais trabalho que aquele que serve a um camponês, pois

veja, os que servem aos camponeses, por mais que trabalhem de dia,

por pior que passem, à noite jantam um cozido e dormem na cama,

onde não tenho dormido desde que comecei a servir vossa mercê. Se

não fosse o breve tempo que estivemos na casa de dom Diego de Miranda, o banquete que tive com a canja que peguei nas panelas de

Camacho e o que comi e bebi e dormi na casa de Basílio, o resto do

tempo dormi na terra dura, ao relento, sujeito ao que chamam

inclemências do céu, sustentando-me com pedaços de queijo e pão

dormido, bebendo água, ora nos riachos, ora nas fontes que

encontramos por esses ermos por onde andamos.

— Confesso que é verdade tudo o que dizeis, Sancho — disse dom

Quixote. — Quanto pensais que devo dar a mais do que vos dava

Tomé Carrasco?

— Em minha opinião — disse Sancho —, eu me daria por bem pago

com dois reais a mais que vossa mercê acrescentasse todo mês. Isto

quanto ao salário por meu trabalho; quanto a cumprir com a palavra

que vossa mercê empenhou de me dar o governo de uma ilha, seria

justo que me acrescentasse outros seis reais, que daria ao todo trinta.

— Muito bem — replicou dom Quixote —, faz vinte e cinco dias que

saímos de nosso povoado. Conforme o salário que apontastes,

calculai, Sancho, a parte que vos corresponde, e vede o que vos devo,

e pagai-vos com vossa própria mão, como já disse.

— Santo Cristo! — disse Sancho. — Vossa mercê está muito errado

nessa conta, porque a promessa da ilha deve ser contada desde o dia

em que vossa mercê me prometeu até a hora presente em que estamos.

— Então, Sancho, quanto faz que vos prometi a ilha? — disse dom

Quixote.

— Se não me lembro mal — respondeu Sancho —, deve fazer uns

vinte anos, dois ou três dias a mais ou a menos.

Dom Quixote deu uma grande palmada na testa e desatou a rir com

muita vontade.

— Não gastei na Serra Morena, nem em todo o tempo de nossas

andanças, mais de dois meses, e dizes que te prometi a ilha há vinte

anos, Sancho? Pois digo que queres que se gaste em teu salário todo o

meu dinheiro que tens aí contigo; bem, se é assim, se tu gostas disso,

agora mesmo te dou, e faça bom proveito, que, em troca de me ver

sem tão mau escudeiro, tenho prazer em ficar pobre e sem um tostão.

Mas me diz, profanador dos regulamentos escudeiris da cavalaria

andante, onde viste ou leste que algum escudeiro de cavaleiro andante tenha discutido com seu senhor “quanto mais haveis de me dar por

mês para que vos sirva”? Lança-te, lança-te, velhaco, preguiçoso,

monstro (que tudo isso pareces ser), lança-te no mar profundo de tuas

histórias e, se achares que algum escudeiro tenha dito ou pensado o

que aqui disseste, quero que me jogues a verdade na cara e me dês

quatro bofetões nas bochechas, para completar. Vira as rédeas do

burro, ou o cabresto, e volta para tua casa, porque daqui por diante

não vais dar mais nenhum só passo comigo. Tu mordes a mão que te

alimenta! Oh, promessas mal-empregadas! Oh, homem que tem mais

de bicho que de gente! Agora, quando eu pensava melhorar tua

posição, tanto que, apesar de tua mulher, te chamassem de “senhoria”,

te despedes? Agora te vais, quando eu vinha com a intenção firme e

resoluta de te fazer senhor da melhor ilha do mundo? Enfim, como tu

disseste outras vezes, o mel não é para a boca do burro. Burro és,

burro serás, burro deves morrer, porque me parece que chegarás ao

último dia de tua vida antes de te dares conta de que és uma besta.

Sancho olhava dom Quixote fixamente, enquanto dizia tais

vitupérios, e se emocionou tanto que lhe vieram lágrimas aos olhos e

com voz aflita e doente disse:

— Meu senhor, confesso que para ser burro de todo não me falta

mais que o rabo: se vossa mercê quiser me pôr um, vou considerar

bem-feito, e o servirei como jumento todos os dias que restam de

minha vida. Vossa mercê me perdoe e tenha dó de minha ignorância:

repare que sei pouco e que se falo muito é mais por doença que por

malícia. Mas quem erra e se emenda a Deus se encomenda.

— Eu teria ficado pasmo, Sancho, se não enfiasses algum

ditadozinho em teu discurso. Pois muito bem, eu te perdoo, desde que

te emendes e que não te mostres daqui por diante tão amigo de teus

interesses, mas que procures abrir o coração e te encorajes e animes a

esperar o cumprimento de minhas promessas, que, mesmo que tardem,

não são impossíveis.

Sancho respondeu que assim faria, embora tirasse forças da

fraqueza.

Então se meteram no mato de álamos, e dom Quixote se acomodou

ao pé de um e Sancho ao de uma faia, que estas e outras árvores

sempre têm pés, não mãos. Sancho passou a noite penosamente, porque a porretada se fazia sentir mais com o sereno; e dom Quixote

passou-a às voltas com suas memórias incessantes. Mas, apesar de

tudo, entregaram os olhos ao sono e, ao raiar da manhã, seguiram seu

caminho em busca das margens do famoso Ebro, onde lhes aconteceu

o que se contará no próximo capítulo.

 

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