Dom Quixote

Miguel de Cervantes · Capítulo 48 de 137

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Dom Quixote

Capítulo XL

onde continua a história do cativo

soneto

Almas felizes, que do mortal véu

livres e isentas, pelo bem que fizestes,

desde a terra baixa vos elevastes

ao mais alto e ao melhor do céu,

e, ardendo em ira e honroso zelo,

dos corpos a força exercitastes,

que com sangue próprio e alheio coloristes

o mar próximo e o chão arenoso:

antes que a coragem, faltou a vida

nos braços cansados, que, morrendo,

ao ser vencidos, levam a vitória;

e esta vossa mortal, triste queda

entre o muro e o ferro, vos vai dando

no mundo a fama e no céu, glória.a

— É assim mesmo que sei — disse o cativo.

— E o do forte, se não me lembro mal — disse o cavaleiro —, diz

assim:

soneto

Do meio desta terra estéril, arrasada,

destes destroços jogados pelo chão,

as almas santas de três mil soldados

subiram vivas a melhor morada,

tendo antes em vão exercitada

a força de seus braços esforçados,

até que no fim, aos poucos e cansados,

deram a vida ao fio da espada.

E este chão sempre tem sido

repleto de mil memórias lamentáveis

desde os dias passados até os presentes.

Mas não haverão almas mais justas

subido ao claro céu de seu duro seio,

nem ele amparou corpos tão valentes.b

Não acharam maus os sonetos, e o cativo se alegrou com as notícias

que lhe deram de seu companheiro e, continuando sua história, disse:

— Então, com a Goleta e o forte rendidos, os turcos deram ordem de

desmantelar a Goleta, porque o forte ficou num estado que não havia

mais o que derrubar. Para fazer tudo rapidamente e com menos

trabalho, eles a minaram em três pontos, mas com nenhum se pôde

explodir o que parecia menos resistente, que eram as muralhas velhas,

e tudo aquilo que havia ficado de pé da fortificação nova feita pelo

Fradinho,1 com muita facilidade veio por terra. Em suma, a armada

voltou a Constantinopla exultante e vitoriosa. Dali a poucos meses

morreu meu amo Uchali, que chamavam de Uchali Fartax, que quer

dizer na língua deles Renegado Tinhoso, porque era e é costume entre

os turcos adotarem nomes de algum defeito que tenham ou de alguma

virtude, e isso porque não há entre eles mais que quatro sobrenomes

de família, que descendem da casa otomana, e os demais, como disse,

adotam nome e sobrenome ou de defeitos físicos ou das virtudes de caráter. E este Tinhoso remou por catorze anos, como escravo do

grande senhor, mas aí pelos trinta e quatro anos de idade se tornou

renegado: ressentido por levar um bofetão de um turco, estando ao

remo, abandonou sua fé para poder se vingar dele. E foi tão hábil que,

sem ascender pelos meios e caminhos indecentes dos favoritos do

grão-turco, veio a ser rei de Argel e depois almirante de esquadra, que

é o terceiro cargo que há naqueles domínios. Era de nacionalidade

calabresa, e moralmente foi homem de bem, tratava com muita

humanidade seus escravos, uns três mil, que depois de sua morte

foram divididos, como ele ordenou em seu testamento, entre o grande

senhor (que também é herdeiro de todos os que morrem e faz parte

dos demais filhos que o defunto deixa) e entre seus renegados. Eu

fiquei com um renegado veneziano, que, sendo grumete de um navio,

foi capturado por Uchali, que gostou muito dele, tanto que foi um de

seus criados favoritos, e ele veio a ser o renegado mais cruel que

jamais se viu. Chamava-se Assan Agá, e acabou muito rico e rei de

Argel. Saí com ele de Constantinopla, mais ou menos alegre porque ia

ficar perto da Espanha, não porque pensasse escrever a ninguém sobre

minha aventura miserável. Esperava que a sorte me fosse mais favorável em Argel que em Constantinopla, onde já havia tentado mil

maneiras de fugir, mas sem sucesso, e pensava buscar outros meios de

conseguir o que desejava, pois jamais me desamparou a esperança de

ficar livre, e, quando a execução dos planos que eu maquinava não

correspondia ao que sonhara, sem desanimar eu disfarçava e

procurava outra esperança que me sustentasse, mesmo que fosse

pequena e frágil.

“Assim eu gastava meu tempo, encerrado numa prisão ou pátio

grande que os turcos chamam ‘banho’, onde botam os cativos cristãos,

tanto os que são do rei como alguns de particulares, e os que chamam

‘do armazém’, que é como dizer cativos do alcaide, que servem à

cidade nas obras públicas e em outras atividades. Para esses escravos a

liberdade é muito difícil, pois, como são propriedade pública e não

têm um dono particular, não há com quem tratar o resgate, mesmo

que o possam pagar. Alguns proprietários da aldeia costumam levar

seus cativos para esses banhos, como disse, principalmente quando

são negociáveis, porque lá ficam descansados e em segurança até que seu resgate chegue. Também os cativos do rei que podem ser

resgatados não vão para o trabalho com o resto do grupo, a não ser

quando seu resgate demora, pois então, para que escrevam pedindo-o

com mais afinco, botam-nos no trabalho, como ir cortar lenha com os

demais, coisa que não é nada fácil.

“Eu era um dos cativos para resgate; não adiantou nada falar que

não tinha posses nem renda, pois souberam que eu era capitão e me

incluíram na lista das pessoas influentes. Puseram-me um grilhão, mais

como sinal de minha condição que por segurança, e assim eu passava

a vida naquele pátio, com muitos outros cavaleiros e pessoas

importantes, considerados e marcados como de resgate. Mesmo que a

fome e a nudez pudessem nos afligir às vezes, ou quase sempre,

nenhuma coisa nos afligia tanto como ouvir e ver a todo instante as

mais incríveis crueldades que meu dono usava com os cristãos. Todo

dia enforcava um, empalava este, cortava as orelhas daquele, tudo isso

por qualquer motivo ou sem motivo nenhum, tanto que os turcos

achavam que agia assim por agir, porque era sua condição natural ser

um assassino em grande escala. O único que se deu bem com ele foi

um soldado espanhol, um tal de Saavedra; por ter feito coisas que ficarão na memória daquela gente por muitos anos, e todas para

alcançar a liberdade, ele jamais o espancou, nem mandou que

espancassem, nem lhe disse um palavrão. E pela menor coisa das

muitas que fez temíamos que fosse empalado, e ele mesmo teve medo

mais de uma vez; e, se não fosse porque o tempo é curto, eu contaria

agora um pouco do que fez esse soldado, o que iria diverti-los e

espantá-los muito mais que a narração de minha história.

“Enfim, davam para o pátio de nossa prisão as janelas da casa de um

mouro rico e importante. Como é comum entre os mouros, eram mais

buracos que janelas, e ainda se cobriam com gelosias muito grossas e

de vãos estreitos. Um dia em que todos os demais cristãos haviam

saído para trabalhar, eu estava num terraço de nossa prisão com

outros três companheiros, tentando saltar com os grilhões, para matar

o tempo, e aconteceu que por acaso levantei os olhos e vi que aparecia

uma vara com um lenço amarrado na ponta entre as gelosias de uma

das janelinhas de que falei. A vara se movia e balançava, quase como

se fizesse sinais para que nos aproximássemos para pegá-la. Reparamos nisso, e um dos que estava comigo foi ficar embaixo da

vara, para ver se a soltavam ou que fariam; mas, mal ele chegou,

levantaram a vara e a moveram para os dois lados, como se dissessem

não com a cabeça. Meu companheiro voltou, e baixaram de novo a

vara e fizeram os mesmos movimentos de antes. Foi outro

companheiro, e aconteceu a mesma coisa. Finalmente, foi o terceiro, e

repetiu-se com ele o que acontecera com o primeiro e o segundo. Ao

ver isso, não quis deixar de tentar a sorte, e, mal me posicionei

embaixo da vara, deixaram-na cair, e veio parar a meus pés. Tratei

logo de desamarrar o lenço, em que vi um nó, e dentro dele vinham

dez cianiis, que são umas moedas de ouro baixo que os mouros usam,

cada uma valendo dez reais dos nossos. Nem preciso dizer o que

aconteceu: fiquei tão feliz como espantado de pensar de onde podia vir

aquele presente, especialmente para mim, pois o fato de a pessoa não

ter querido soltar a vara para os outros dizia com clareza que eu era o

escolhido. Guardei meu bom dinheiro, quebrei a vara, voltei para o

terraço, olhei a janela e lá vi uma mão muito branca que se abria e se

fechava rapidamente. Por isso pensamos que alguma mulher que vivia

naquela casa devia ter nos dado o presente, e em sinal de agradecimento fizemos reverências ao modo dos mouros, inclinando a

cabeça, dobrando o corpo e pondo os braços sobre o peito. Dali a

pouco mostraram pela mesma janela uma pequena cruz feita de varas,

que logo recolheram. Isso nos confirmou que alguma cristã devia ser

cativa naquela casa, e era ela que havia dado as moedas; mas a

brancura das mãos e os braceletes que usava nos desmentiram, pois

imaginamos que devia ser cristã renegada, que os próprios donos

costumam tomar como esposas legítimas, e elas consideram isso uma

sorte, porque eles gostam mais delas que das de sua nação.

“Em todas essas nossas suposições sobre o caso fomos parar longe

da verdade; enquanto isso, nosso passatempo dali por diante era olhar

a janela onde tinha aparecido a vara como a estrela guia, mas se

passaram uns bons quinze dias sem que a víssemos, nem a mão

tampouco, nem qualquer outro sinal. Nesse tempo procuramos com

todo empenho saber quem vivia naquela casa, se havia nela alguma

cristã renegada, mas jamais alguém nos disse nada fora que ali vivia

um mouro importante e rico chamado Agi Morato, que tinha sido

alcaide da fortaleza da Pata,2 ofício de grande distinção entre eles.

Então, quando menos esperávamos que chovesse mais cianiis, de

repente vimos aparecer a vara com outro lenço na ponta, com um nó

mais volumoso, e o pátio estava vazio como da outra vez. Fizemos a

prova costumeira, indo todos um por um antes de mim, pois éramos

os mesmos três. Mas a vara não se rendeu a nenhum deles, apenas a

mim: aproximei-me e a deixaram cair. Desatei o nó e achei quarenta

escudos espanhóis de ouro e um bilhete escrito em árabe, com uma

grande cruz no fim. Beijei a cruz, peguei os escudos e voltei ao terraço;

todos nós fizemos nossas reverências; de novo apareceu a mão, fiz

sinais de que ia ler o bilhete, fecharam a janela. Ficamos todos

confusos e alegres com o que acontecera, e, como nenhum de nós

entendia árabe, era grande o desejo que tínhamos de saber o que

continha o bilhete, e maior a dificuldade de encontrar quem o lesse.

“Por fim resolvi confiar num renegado, natural de Múrcia, que se

considerava grande amigo meu e me dera tantas provas de que podia

confiar nele que o obrigavam a manter o segredo que ia lhe revelar.

Alguns renegados, quando têm a intenção de voltar para terras cristãs,

costumam trazer consigo algumas cartas de prisioneiros importantes que garantem, do jeito que podem, que o sujeito é homem honesto,

que sempre tratou bem os cristãos e que tem esperança de fugir na

primeira oportunidade que aparecer. Alguns procuram esses

testemunhos com boas intenções; outros se servem deles de propósito,

na eventualidade de virem roubar em terras cristãs: se por acaso forem

presos ou escravizados, mostram suas cartas e dizem que por elas se

verá que vieram para ficar com os cristãos, por isso estavam numa

expedição pirata com outros turcos. Assim escapam da primeira

enrascada e se reconciliam com a Igreja, sem que ninguém os

machuque; agora, se têm alguma chance, voltam à Berbéria3 para ser

o que eram antes. Mas há sim os que procuram essas cartas e as usam

com boas intenções, para ficar na terra dos cristãos, como esse amigo

de que falei, que tinha cartas de todos os nossos companheiros, em

que o elogiávamos o quanto era possível. Se os mouros o

encontrassem com essas cartas, seria queimado vivo. Descobri que

sabia muito bem o árabe, não apenas falar como escrever, mas, antes

de me abrir completamente com ele, disse que me lesse aquele papel, que por acaso tinha achado num buraco em minha cabana. Ele o

abriu e levou um bom tempo olhando-o e decifrando-o, murmurando

entre os dentes. Perguntei se entendia; ele disse que muito bem e que,

se eu queria que traduzisse palavra por palavra, lhe desse uma pena e

tinta, para que o fizesse melhor. Demos logo o que pedia; ele foi

traduzindo pouco a pouco e disse, no fim: ‘Tudo o que está aqui em

espanhol, sem faltar uma letra, é o que contém este papel mouro, e

veja que onde diz Lela Marién quer dizer Nossa Senhora Virgem

Maria’.

“Lemos o papel, que dizia:

Quando eu era menina, meu pai tinha uma escrava que me ensinou

as orações cristãs e me contou muitas coisas de Lela Marién. A

escrava morreu, mas eu sei que não foi para o fogo, que está com

Alá, porque depois a vi duas vezes: ela me disse para ir embora para

a terra dos cristãos ver Lela Marién, que me queria muito. Não sei

como fazer. Vi muitos cristãos por esta janela, mas nenhum me

pareceu cavaleiro, exceto tu. Sou muito moça e formosa, e tenho

muito dinheiro para levar comigo. Vê se podes dar um jeito de

fugirmos, e lá serás meu marido, se quiseres; se não quiseres, não

haverá problema, pois Lela Marién arrumará com quem me casar.

Olhe bem a quem vais dar para ler isto que escrevo; não confies em

nenhum mouro, porque são todos traiçoeiros. Isso me aflige muito:

gostaria que não falasses com ninguém, porque se meu pai ficar

sabendo me jogará num poço e me cobrirá de pedras. Vou prender

um cordão na ponta da vara: amarra ali a resposta, mas, se não tens

quem te escreva em árabe, diz-me por sinais, que Lela Marién fará

com que te entenda. Ela e Alá te protejam, e essa cruz que eu beijo

muitas vezes, como me mandou a escrava.

“Considerai, senhores, se essas palavras não eram para nos alegrar e

espantar; assim, por uma coisa e outra, o renegado entendeu que o

papel não tinha sido achado por acaso, mas que fora escrito para um

de nós, e então ele nos implorou que, se era verdade o que suspeitava,

confiássemos nele e lhe disséssemos, pois ele arriscaria a vida por

nossa liberdade. Dizendo isso, tirou do peito um crucifixo de metal:

embora fosse mau e pecador, acreditava nele firme e fielmente, e jurou

com muitas lágrimas, pelo Deus que aquela imagem representava, ser leal e guardar o segredo de tudo o que quiséssemos lhe revelar, porque

lhe parecia e quase adivinhava que por meio da mulher que havia

escrito o bilhete todos nós alcançaríamos a liberdade e ele conseguiria

o que tanto desejava, voltar ao seio da santa madre Igreja, de quem,

como membro podre, estava separado e distante, devido a sua

ignorância e a seus pecados. Meu amigo disse isso com tantas lágrimas

e com tantas mostras de arrependimento que todos nós, de comum

acordo, resolvemos contar a verdade a ele, e assim fizemos, sem

esconder um detalhe do caso. Mostramos a janelinha por onde

aparecia a vara, e ele, marcando bem a casa, ficou de se informar com

todo o cuidado sobre quem vivia ali. Achamos também que seria bom

responder o bilhete da moura; e, como tínhamos quem poderia fazer

isso, logo depois o renegado escreveu as palavras que fui ditando. Vou

repeti-las tintim por tintim, porque nenhum dos pontos essenciais

dessa aventura que me aconteceu se perderam da memória, nem se

perderão enquanto eu viver. Na verdade, o que se respondeu à moura

foi isto:

Que o verdadeiro Alá te proteja, minha senhora, e aquela bendita

Marién, que é a verdadeira mãe de Deus e foi quem, por te amar, pôs

em teu coração o desejo de ir para a terra dos cristãos. Roga a ela

que consinta em te mostrar como poderás executar o que te ordena,

pois, como é muito boa, certamente ela o fará. Comprometo-me —

por mim e por todos esses cristãos que estão comigo — fazer por ti

tudo o que pudermos, inclusive morrer. Não deixes de me escrever e

de me avisar o que pensares fazer, que eu te responderei sempre, pois

Alá nos deu um cativo cristão que sabe falar e escrever tua língua tão

bem como verás por este bilhete. De modo que, sem ter medo, podes

nos falar tudo o que quiseres. Quanto ao que dizes sobre ser minha

mulher, se fores para a terra dos cristãos, eu te prometo como bom

cristão que assim será; e sabes que os cristãos cumprem o que

prometem melhor que os mouros. Que Alá e Marién, sua mãe, te

protejam, minha senhora.

“Escrito e fechado esse bilhete, esperei dois dias até que estivesse

sozinho no pátio como das outras vezes, e logo fui para o lugar de

sempre no terraço, para ver se a vara aparecia, o que não demorou

muito. Mal a vi, embora não pudesse ver quem a segurava, mostrei o papel, dando a entender que podiam jogar o cordão, mas, como já

vinha pendurado na vara, amarrei nele o papel. Dali a pouco apareceu

de novo nossa estrela guia, com a bandeira branca da paz do

pacotinho. Deixaram-na cair, e eu a peguei e achei no lenço, em todo

tipo de moedas de prata e de ouro, mais de cinquenta escudos, que

multiplicaram por mais de cinquenta nossa alegria e confirmaram a

esperança de alcançar a liberdade.

“Na mesma noite, nosso renegado voltou e nos disse que soubera

que naquela casa vivia realmente o mouro de que faláramos,

conhecido como Agi Morato, rico ao extremo, que tinha apenas uma

filha, herdeira de tudo, e que era opinião corrente em toda a cidade ser

a mulher mais bela da Berbéria; e que muitos dos vice-reis que vinham

ali a tinham pedido em casamento, mas que ela nunca quis se casar, e

soube também que teve uma escrava cristã, que já havia morrido.

Tudo isso se ajustava ao que vinha no bilhete. Discutimos então com o

renegado como faríamos para pegar a moura e virmos todos à terra

dos cristãos, e por fim se combinou que esperaríamos o segundo aviso

de Zoraida, que assim se chamava a que agora quer se chamar Maria,

porque vimos muito bem que apenas ela e mais ninguém haveria de dar um jeito em todas aquelas dificuldades. Depois de concordar com

isso, o renegado disse que não nos preocupássemos, pois ele perderia a

vida ou nos poria em liberdade.

“Por quatro dias o pátio esteve cheio de gente, o que fez com que o

lenço demorasse quatro dias, mas então, na costumeira solidão, surgiu

o lenço tão prenhe que prometia um parto muito feliz. A vara e o

lenço se inclinaram para mim; achei nele outro bilhete e cem escudos

de ouro, sem nenhum outro tipo de moeda. Fomos para nossa cabana

com o renegado e lhe passamos o bilhete, que dizia:

Eu não sei, meu senhor, como arranjar as coisas para irmos à

Espanha, nem Lela Marién me disse, embora eu tenha lhe

perguntado. O que posso fazer é te dar por essa janela muitas

moedas de ouro: paga vosso resgate com elas e os de vossos amigos;

depois, que um deles vá à terra dos cristãos comprar uma barca e

venha buscar os outros; irão me encontrar na casa de campo de meu

pai, que fica na porta de Bab Azoun, perto da praia, onde tenho de

passar todo este verão com meu pai e meus criados. Dali, à noite,

poderás me tirar sem medo e me levar para a barca; e vê bem que

deves ser meu marido, porque, se não, pedirei a Marién que te

castigue. Se não confias em ninguém para ir comprar a barca, paga

teu resgate e vai, porque é mais provável que tu voltes do que

qualquer outro, pois és cavaleiro e cristão. Procura saber onde é a

casa de campo, e quando passeares por lá saberei que o pátio está

vazio e te darei muito dinheiro. Alá te proteja, meu senhor.

“Era o que dizia o segundo bilhete. Depois de ouvi-lo, cada um se

ofereceu para ser resgatado e prometeu ir e voltar sem demora,

inclusive eu, mas o renegado se opôs, dizendo que de jeito nenhum

consentiria que alguém saísse em liberdade até que fossem todos

juntos, porque a experiência havia lhe mostrado como os libertos

cumpriam mal as palavras empenhadas no cativeiro, porque muitas

vezes cativos importantes haviam usado daquele expediente:

resgatavam um homem para ir a Valência ou Maiorca com dinheiro

para equipar uma embarcação e voltar para buscá-los, mas não

voltavam nunca mais, pois o prazer da liberdade alcançada e o medo

de perdê-la de novo lhes apagava da memória todas as obrigações do

mundo. E, para confirmar a verdade do que nos dizia, contou rapidamente um caso que havia acontecido fazia pouco com uns

cavaleiros cristãos, o mais estranho que aconteceu naquelas plagas,

onde a todo momento acontecem coisas incríveis e assustadoras.

“Por fim, ele disse que o que se podia e devia fazer era dar a ele o

dinheiro do resgate de um cristão para comprar uma barca ali mesmo

em Argel, com o pretexto de se tornar mercador e comerciar em Tetuã

e ao longo da costa; sendo ele o dono da barca, facilmente daria um

jeito de nos tirar da prisão e nos embarcar todos. Mais ainda se a

moura desse dinheiro para nos resgatar, como tinha prometido, pois,

quando estivéssemos livres, seria muito fácil nos embarcar ao meio-

dia. A maior dificuldade era que os mouros não consentem que

renegado algum compre nem tenha uma barca, a não ser um batel

grande para pirataria, porque temem que o sujeito não a queira a não

ser para fugir para terra de cristãos, principalmente se for espanhol.

Mas ele contornaria esse problema dando sociedade a um mouro

tagarino, tanto na barca como no lucro das mercadorias, e com essa

fachada ele seria o dono da barca, com o que dava todo o negócio por encerrado.

“Mesmo que a mim e a meus companheiros parecesse melhor enviar

alguém a Maiorca em busca da barca, como a moura dizia, não

ousamos contradizê-lo, temerosos de que, se não fizéssemos como ele

queria, pusesse nossas vidas em perigo, denunciando nosso trato com

Zoraida, por cuja vida todos nós daríamos a nossa. Assim, resolvemos

nos entregar às mãos de Deus e às do renegado e no mesmo instante

respondemos a Zoraida, dizendo que faríamos tudo o que nos

aconselhava, pois pensara tudo tão bem como se a própria Lela

Marién lhe tivesse soprado, e que apenas dela dependia adiar aquele

negócio ou executá-lo em seguida, e me ofereci de novo para ser seu

esposo. Depois disso, acontecendo outro dia de o pátio estar vazio,

várias vezes, com a vara e o lenço, ela nos deu dois mil escudos de

ouro e um bilhete em que dizia que no primeiro jumá, que é sexta-

feira, dia sagrado deles, ia para a casa de campo de seu pai, mas antes

de ir nos daria mais dinheiro, e que avisássemos se não bastava, que

nos daria quanto lhe pedíssemos, pois seu pai tinha tanto que não

daria falta, quanto mais que ela tinha as chaves de tudo.

“Demos logo quinhentos escudos ao renegado para comprar a barca;

com oitocentos tratei de meu resgate, dando o dinheiro a um

mercador veneziano que se achava em Argel naqueles dias: ele me

resgatou do rei, empenhando sua palavra de que quando aportasse o

primeiro batel vindo de Veneza entregaria o dinheiro, pois, se o desse

logo, faria o rei suspeitar que havia muitos dias que meu resgate

estava em Argel e que o mercador se calara em benefício próprio.

Depois, meu dono era tão capcioso que de modo algum me atrevi a

desembolsar o dinheiro. Na quinta-feira, a bela Zoraida nos deu

outros mil escudos e nos avisou de sua partida no dia seguinte para a

casa de campo, rogando-me que, se eu fosse resgatado, me informasse

logo de onde ficava a tal casa e arranjasse um meio de ir lá vê-la. Em

poucas palavras respondi que assim faria e que tivesse o cuidado de

nos encomendar à Lela Marién com todas as orações que a escrava

havia lhe ensinado. Feito isso, tratamos do resgate dos outros três

companheiros, para facilitar a saída do pátio e para que não ficassem

preocupados, havendo dinheiro e estando eu livre e eles não: vá que o diabo os persuadisse a fazer alguma coisa que prejudicasse Zoraida.

Sendo eles quem eram, eu podia me poupar esse receio; mesmo assim

não quis arriscar e então mandei que os resgatassem do mesmo modo

usado comigo, entregando todo o dinheiro ao mercador para que com

segurança pudesse dar a garantia, mas sem jamais revelar a ele o

segredo de nosso trato, por ser perigoso demais.”

a Almas dichosas, que del mortal velo/ libres y exentas, por el bien que obrastes,/ desde la baja tierra os levantastes/ a lo más alto y lo mejor del cielo,// y, ardiendo en ira y en honroso celo,/ de los cuerpos la fuerza ejercitastes,/ que en propia y sangre ajena colorastes/ el mar vecino y arenoso suelo:// primero que el valor faltó la vida/ en los cansados brazos, que, muriendo,/ con ser vencidos, llevan la victoria;// y esta vuestra mortal, triste caída/ entre el muro y el hierro, os va adquiriendo/ fama que el mundo da, y el cielo gloria.

b De entre esta tierra estéril, derribada,/ de estos terrones por el suelo echados,/ las almas santas de tres mil soldados/ subieron vivas a mejor morada,// siendo primero en vano ejercitada/ la fuerza de sus brazos esforzados,/ hasta que al fin, de pocos y cansados,/ dieron la vida al filo de la espada.// Y éste es el suelo que continuo ha sido/ de mil memorias lamentables lleno/ en los pasados siglos y presentes.// Mas no más justas de su duro seno/ habrán al claro cielo almas subido,/ ni aun él sostuvo cuerpos tan valientes.

 

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