Dom Quixote

Miguel de Cervantes · Capítulo 137 de 137

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Dom Quixote

Notas sobre a máquina voadora

Notas sobre a máquina voadoraa

ricardo piglia

Do Dom Quixote em chinês ao Finnegans Wake em italiano, os erros,

acertos e acasos que fazem da tradução um dos capítulos essenciais da

história da literatura.

1. Sempre me chamou atenção um comentário de Virginia Woolf, a escritora inglesa, que se surpreendia porque seus amigos escritores

diziam de maneira unânime que o melhor romance que haviam lido

era Guerra e paz. Mas, dizia Virginia, todos liam traduções. Me

parece que há algo mais do que linguagem na narração. A narração

não é como a poesia em sentido pleno, parece que transmite algo que

podemos chamar de seus sentimentos, emoções, algo que cada um de

nós definirá, que lhe permite sobreviver às traduções ainda que essas

não sejam excelentes.

2. A figura do leitor e a figura do tradutor, que estão em certo sentido como fantasmas na origem do romance, são parte essencial do que

todos consideramos o primeiro romance, Dom Quixote. Um romance

rapidamente traduzido, um dos primeiros acontecimentos da literatura

clássica a chegar a lugares muito diversos. A primeira tradução para o

inglês é de 1612. A tradução em francês, de 1614. Para o italiano, de

1622. Para o alemão, de 1621. Quase imediatamente, nos cinco ou

seis anos posteriores, o livro já começou a circular em todas as

línguas. O mais extraordinário é a tradução para o chinês, de um

escritor que se chama Lin Shu e seu ajudante, Chen Jialin. Shu não

conhecia nenhuma língua estrangeira e seu ajudante todas as tardes

lhe contava um episódio de Dom Quixote, que ele traduzia a partir do

relato. O romance se chamou História de um cavaleiro louco e foi um

grande êxito. É um exemplo de como um livro consegue transmitir algo além de qualquer modificação implícita que possa ser imposta na

tradução.

3. Basicamente, o que o tradutor tem de fazer é pegar os sentidos

múltiplos que há em um texto e reduzi-los a um de seus sentidos, e

isso sempre produz possíveis equívocos. A primeira coisa que ele faz é

enviar perguntas ao escritor. Partes do texto que lhe parecem obscuras. Então o tradutor é o único que verdadeiramente lê o livro.

Lê todas as palavras e tem de entender todas e estar seguro. As

perguntas dos tradutores são sempre extraordinárias. “Escuta: no

capítulo 12 tinha a porta fechada e no capítulo 18 está aberta”. Eu sempre digo a eles: “Passou alguém pela porta”. O tradutor é, antes

de mais nada, um leitor muito cuidadoso do original.

4. Na luta contra o equívoco, o primeiro movimento do tradutor é confirmar que está entendendo bem o texto. Não porque está escrito

em outra língua, que seguramente também conhece como a língua

para a qual está traduzindo, mas porque um texto de ficção sempre

tem algum erro, um ponto onde a decisão sobre um sentido pode ser

equivocada.

5. Por outro lado, muitas vezes os tradutores estabelecem com o texto

uma relação de conflito. Para mim, o exemplo mais claro é Borges,

que fez uma tradução de Palmeiras selvagens. Borges luta contra

William Faulkner porque não gosta do estilo barroco, de uma sintaxe

muito aberta, onde os acontecimentos estão à sombra da presença do narrador que por um momento parece que está louco ou bêbado. A

primeira cena do romance é de alguém que está descendo uma escada

com uma lâmpada numa noite de tormenta, e a princípio não se sabe

bem quem está descendo, se se trata de uma lâmpada, está tudo

contado à maneira clássica de Faulkner. Borges ordena isso. Aí se vê

algo que habitualmente não se vê numa tradução: a luta do estilo do

tradutor contra o estilo do texto. Situações que o tradutor trataria de

contar de outra maneira.

6. Seria muito bom que na história da literatura se incluísse a história

das traduções. A primeira tradução de Poe na França produz vários

efeitos: em Mallarmé, Paul Valéry, no próprio Baudelaire que a

traduziu, na literatura policial. Essa tradução começou a gerar textos

que se incorporaram logo à tradição literária.

7. O antagônico à experiência da tradução de narrativa é a de poesia. Ela parece impossível de antemão. Alguém pode dizer que uma poesia

realmente funciona quando está escrita na língua materna em que se

lê. Tudo o que se lê fora da língua materna são versões que nem

sempre se aproximam da eficácia verbal que tem o poema. Por isso, habitualmente os tradutores de poesia são os próprios poetas. E tanto

é assim que os poetas incorporam os textos que traduzem como se

fossem suas próprias obras. É muito comum em Octavio Paz. É muito

comum em Haroldo de Campos. Em Emilio Pacheco no México.

8. Alguém pode dizer, falando ironicamente, que Quixote é o primeiro romance e Finnegans Wake, de Joyce, seria o último porque não se

pode traduzi-lo. Joyce em certo sentido tomou a decisão de escrever

um romance que não se pode traduzir, pois trabalha com a

justaposição de todas as línguas que Joyce conhecia, que eram muitas,

e portanto é um texto em que a linguagem adquiriu um caráter

noturno, estão mescladas palavras de origem alemã, italiana, inglesa

etc. A única tradução válida que existe é a que, a pedido de seu amigo

Italo Svevo, Joyce fez do capítulo Ana Livia Plurabelle. Joyce, para

traduzir seu próprio texto, em vez de trabalhar com todas as línguas

europeias que estão presentes em Finnegans, usa todas as línguas

implícitas na língua italiana. Por um lado, como numa pequena

história da língua italiana, vai vendo os momentos em que essa língua parece estrangeira e, usando os dialetos que abundam na cultura

italiana, faz uma tradução extraordinária. Consegue que distintos

registros de uma língua funcionem como uma língua estrangeira. É

uma tradução tão extraordinária que muitos a consideraram um texto

tão importante quanto os de Dante.

9. Agora me ocorrem as situações em que os escritores traduzem a si mesmos, intervêm na tradução de seus próprios textos, e também os

escritores que mudam de língua, como é o caso de Joseph Conrad,

polonês que escrevia em inglês, e de Samuel Beckett, que passa a

escrever em francês. Por que passa a escrever em francês? Beckett tem

dois argumentos: porque assim pode escrever mal, e o inglês é de

Joyce. Há muitos outros. Nabokov, extraordinário estilista em inglês

e, segundo dizem, extraordinário estilista na língua russa. Jerry

Kozinski, escritor muito interessante, que está um pouco esquecido,

mas que é muito bom, também começa a escrever em inglês. Issac

Bashevis Singer, grande escritor de origem judaico-polonesa, um dos

últimos que escrevia em ídiche e alguns escritores amigos, como Saul

Bellow, traduziam para o inglês.

10. Gostaria de falar de um escritor que nós, argentinos, admiramos muito: Witold Gombrowicz. Um autor que havia publicado um

romance que é um dos grandes livros do século passado, Ferdydurke.

Estava um dia sentado em um bar de Varsóvia e veio um amigo: “Vai

ser inaugurada uma companhia que vai ao sul, a Buenos Aires, e na

viagem inaugural há lugar para um jornalista”. Gombrowicz aceita a

possibilidade de conhecer Buenos Aires e voltar no mesmo barco.

Quando chega, três dias depois, começa a Segunda Guerra Mundial, a

Polônia havia sido invadida pelos nazistas e ele fica completamente

despossuído. De sua língua, de alguma possibilidade econômica,

completamente na intempérie. Sobrevive e trabalha muito até que

lentamente começa a reaparecer como uma figura que vive na

Argentina por anos, escreve lá parte de sua obra e, quando volta à

Europa, consegue reconhecimento internacional.

11. Os anos de Gombrowicz na Argentina são uma alegoria tão estranha quanto a alegoria dos manuscritos salvos de Kafka. Após os

primeiros meses dificílimos, dos quais não se sabe quase nada, entra aos poucos em circulação em Buenos Aires. Seu centro de operações

era a Confeitaria Rex, em cima de um cinema na calle Corrientes,

onde ganha um pouco de dinheiro jogando xadrez. Gombrowicz

anuncia que é um escritor do nível de Thomas Mann, mas todo

mundo pensa que é um farsante, ninguém o conhece. Além do mais,

afirma que é um conde, que sua família é aristocrática, ainda que

agora, pelas contingências do mundo, viva na pobreza mais estranha.

12. Em 1947, Gombrovich sai à superfície, com a tradução para o castelhano de Ferdydurke. É uma tradução extraordinária que

Gombrowiz faz no Café Rex com a ajuda de Virgilio Piñera, um

grande escritor cubano que não sabe polonês, enquanto Gombrovich

não sabe castelhano. Com os dois falando em francês, é um pouco

como a experiência chinesa, e cada um no bar intervém na discussão.

É uma tradução completamente onírica. Um dos grandes

acontecimentos da história da literatura essa tradução em um bar, que

termina quase inventando o livro.

13. Gombrowicz aprende o castelhano em Retiro, nos bares do porto,

com marinheiros e prostitutas. Seu espanhol está ligado a espaços secretos e a certas formas baixas da vida social. Numa conferência,

critica a linguagem estereotipada da literatura e a sociabilidade

implícita da linguagem falsamente cultivada. “Quando teremos uma

linguagem para nossa ignorância?”, pergunta em seu diário. “Gostaria

de mandar todos os escritores ao estrangeiro, fora de seu próprio

idioma e dos ornamentos e filigranas verbais, para ver o que

acontecerá com eles.”

14. O escritor sempre fala numa língua estrangeira, dizia Proust, e sobre essa frase Deleuze construiu sua admirável teoria da literatura

menor preferida, a alemã de Kafka, um judeu tcheco que em sua casa

fala tcheco, mas escreve em alemão. A posição de Gombrowicz é mais

complicada: um homem maduro que se vê obrigado a falar como uma

criança. Em seu primeiro conto, “Memória da maturidade”,

Gombrowicz se colocou nessa posição.

15. O castelhano é uma língua menor na circulação cultural do século

xx. Quem sabe podemos dizer o mesmo do português. São línguas na

posição Gombrowicz diante das línguas dominantes, o francês e o inglês, onde parece correr a literatura. São línguas que constroem sua

grande tradição, mas nunca estão no centro da circulação literária.

16. Os livros percorrem grandes distâncias, e a tradução é uma

máquina voadora. Há uma questão geográfica, de mapas e fronteiras,

na circulação da literatura. Do polonês ao francês, passando pelo

espanhol, a tradução é o espaço dos grandes intercâmbios e das

circulações secretas. Ao se traduzir textos para criar outro registro de

leitura que se possa botar ao lado de obras muito institucionalizadas,

a tradução intervém na própria literatura.

a Ensaio publicado na Revista 18, do Centro de Cultura Judaica de São Paulo.

 

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Copyright do posfácio de Ricardo Piglia © 2012 by Guillermo Schavelzon & Associados,

Agencia literaria www.schavelzon.com

Copyright da tradução de “Notas sobre a máquina voadora”

© 2012 by Alexandre Rodrigues Guimarães

Copyright da tradução de “Magias parciais do Quixote”

© 2007 by Davi Arrigucci Jr.

Grafia atualizada segundo o Acordo Ortográfico da Língua

Portuguesa de 1990, que entrou em vigor no Brasil em 2009.

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Penguin Group (usa) Inc. Used with permission.

Published by Companhia das Letras in association with

Penguin Group (usa) Inc.

título original

Don Quijote de la Mancha

projeto gráfico penguin-companhia

Raul Loureiro, Claudia Warrak

capa

Alceu Chiesorin Nunes

preparação

Silvia Massimini Felix

revisão

Huendel Viana

Jane Pessoa

[ 2012]

Todos os direitos desta edição reservados à

editora schwarcz s.a.

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