Dom Quixote
Notas sobre a máquina voadora
Notas sobre a máquina voadoraa
ricardo piglia
Do Dom Quixote em chinês ao Finnegans Wake em italiano, os erros,
acertos e acasos que fazem da tradução um dos capítulos essenciais da
história da literatura.
1. Sempre me chamou atenção um comentário de Virginia Woolf, a escritora inglesa, que se surpreendia porque seus amigos escritores
diziam de maneira unânime que o melhor romance que haviam lido
era Guerra e paz. Mas, dizia Virginia, todos liam traduções. Me
parece que há algo mais do que linguagem na narração. A narração
não é como a poesia em sentido pleno, parece que transmite algo que
podemos chamar de seus sentimentos, emoções, algo que cada um de
nós definirá, que lhe permite sobreviver às traduções ainda que essas
não sejam excelentes.
2. A figura do leitor e a figura do tradutor, que estão em certo sentido como fantasmas na origem do romance, são parte essencial do que
todos consideramos o primeiro romance, Dom Quixote. Um romance
rapidamente traduzido, um dos primeiros acontecimentos da literatura
clássica a chegar a lugares muito diversos. A primeira tradução para o
inglês é de 1612. A tradução em francês, de 1614. Para o italiano, de
1622. Para o alemão, de 1621. Quase imediatamente, nos cinco ou
seis anos posteriores, o livro já começou a circular em todas as
línguas. O mais extraordinário é a tradução para o chinês, de um
escritor que se chama Lin Shu e seu ajudante, Chen Jialin. Shu não
conhecia nenhuma língua estrangeira e seu ajudante todas as tardes
lhe contava um episódio de Dom Quixote, que ele traduzia a partir do
relato. O romance se chamou História de um cavaleiro louco e foi um
grande êxito. É um exemplo de como um livro consegue transmitir algo além de qualquer modificação implícita que possa ser imposta na
tradução.
3. Basicamente, o que o tradutor tem de fazer é pegar os sentidos
múltiplos que há em um texto e reduzi-los a um de seus sentidos, e
isso sempre produz possíveis equívocos. A primeira coisa que ele faz é
enviar perguntas ao escritor. Partes do texto que lhe parecem obscuras. Então o tradutor é o único que verdadeiramente lê o livro.
Lê todas as palavras e tem de entender todas e estar seguro. As
perguntas dos tradutores são sempre extraordinárias. “Escuta: no
capítulo 12 tinha a porta fechada e no capítulo 18 está aberta”. Eu sempre digo a eles: “Passou alguém pela porta”. O tradutor é, antes
de mais nada, um leitor muito cuidadoso do original.
4. Na luta contra o equívoco, o primeiro movimento do tradutor é confirmar que está entendendo bem o texto. Não porque está escrito
em outra língua, que seguramente também conhece como a língua
para a qual está traduzindo, mas porque um texto de ficção sempre
tem algum erro, um ponto onde a decisão sobre um sentido pode ser
equivocada.
5. Por outro lado, muitas vezes os tradutores estabelecem com o texto
uma relação de conflito. Para mim, o exemplo mais claro é Borges,
que fez uma tradução de Palmeiras selvagens. Borges luta contra
William Faulkner porque não gosta do estilo barroco, de uma sintaxe
muito aberta, onde os acontecimentos estão à sombra da presença do narrador que por um momento parece que está louco ou bêbado. A
primeira cena do romance é de alguém que está descendo uma escada
com uma lâmpada numa noite de tormenta, e a princípio não se sabe
bem quem está descendo, se se trata de uma lâmpada, está tudo
contado à maneira clássica de Faulkner. Borges ordena isso. Aí se vê
algo que habitualmente não se vê numa tradução: a luta do estilo do
tradutor contra o estilo do texto. Situações que o tradutor trataria de
contar de outra maneira.
6. Seria muito bom que na história da literatura se incluísse a história
das traduções. A primeira tradução de Poe na França produz vários
efeitos: em Mallarmé, Paul Valéry, no próprio Baudelaire que a
traduziu, na literatura policial. Essa tradução começou a gerar textos
que se incorporaram logo à tradição literária.
7. O antagônico à experiência da tradução de narrativa é a de poesia. Ela parece impossível de antemão. Alguém pode dizer que uma poesia
realmente funciona quando está escrita na língua materna em que se
lê. Tudo o que se lê fora da língua materna são versões que nem
sempre se aproximam da eficácia verbal que tem o poema. Por isso, habitualmente os tradutores de poesia são os próprios poetas. E tanto
é assim que os poetas incorporam os textos que traduzem como se
fossem suas próprias obras. É muito comum em Octavio Paz. É muito
comum em Haroldo de Campos. Em Emilio Pacheco no México.
8. Alguém pode dizer, falando ironicamente, que Quixote é o primeiro romance e Finnegans Wake, de Joyce, seria o último porque não se
pode traduzi-lo. Joyce em certo sentido tomou a decisão de escrever
um romance que não se pode traduzir, pois trabalha com a
justaposição de todas as línguas que Joyce conhecia, que eram muitas,
e portanto é um texto em que a linguagem adquiriu um caráter
noturno, estão mescladas palavras de origem alemã, italiana, inglesa
etc. A única tradução válida que existe é a que, a pedido de seu amigo
Italo Svevo, Joyce fez do capítulo Ana Livia Plurabelle. Joyce, para
traduzir seu próprio texto, em vez de trabalhar com todas as línguas
europeias que estão presentes em Finnegans, usa todas as línguas
implícitas na língua italiana. Por um lado, como numa pequena
história da língua italiana, vai vendo os momentos em que essa língua parece estrangeira e, usando os dialetos que abundam na cultura
italiana, faz uma tradução extraordinária. Consegue que distintos
registros de uma língua funcionem como uma língua estrangeira. É
uma tradução tão extraordinária que muitos a consideraram um texto
tão importante quanto os de Dante.
9. Agora me ocorrem as situações em que os escritores traduzem a si mesmos, intervêm na tradução de seus próprios textos, e também os
escritores que mudam de língua, como é o caso de Joseph Conrad,
polonês que escrevia em inglês, e de Samuel Beckett, que passa a
escrever em francês. Por que passa a escrever em francês? Beckett tem
dois argumentos: porque assim pode escrever mal, e o inglês é de
Joyce. Há muitos outros. Nabokov, extraordinário estilista em inglês
e, segundo dizem, extraordinário estilista na língua russa. Jerry
Kozinski, escritor muito interessante, que está um pouco esquecido,
mas que é muito bom, também começa a escrever em inglês. Issac
Bashevis Singer, grande escritor de origem judaico-polonesa, um dos
últimos que escrevia em ídiche e alguns escritores amigos, como Saul
Bellow, traduziam para o inglês.
10. Gostaria de falar de um escritor que nós, argentinos, admiramos muito: Witold Gombrowicz. Um autor que havia publicado um
romance que é um dos grandes livros do século passado, Ferdydurke.
Estava um dia sentado em um bar de Varsóvia e veio um amigo: “Vai
ser inaugurada uma companhia que vai ao sul, a Buenos Aires, e na
viagem inaugural há lugar para um jornalista”. Gombrowicz aceita a
possibilidade de conhecer Buenos Aires e voltar no mesmo barco.
Quando chega, três dias depois, começa a Segunda Guerra Mundial, a
Polônia havia sido invadida pelos nazistas e ele fica completamente
despossuído. De sua língua, de alguma possibilidade econômica,
completamente na intempérie. Sobrevive e trabalha muito até que
lentamente começa a reaparecer como uma figura que vive na
Argentina por anos, escreve lá parte de sua obra e, quando volta à
Europa, consegue reconhecimento internacional.
11. Os anos de Gombrowicz na Argentina são uma alegoria tão estranha quanto a alegoria dos manuscritos salvos de Kafka. Após os
primeiros meses dificílimos, dos quais não se sabe quase nada, entra aos poucos em circulação em Buenos Aires. Seu centro de operações
era a Confeitaria Rex, em cima de um cinema na calle Corrientes,
onde ganha um pouco de dinheiro jogando xadrez. Gombrowicz
anuncia que é um escritor do nível de Thomas Mann, mas todo
mundo pensa que é um farsante, ninguém o conhece. Além do mais,
afirma que é um conde, que sua família é aristocrática, ainda que
agora, pelas contingências do mundo, viva na pobreza mais estranha.
12. Em 1947, Gombrovich sai à superfície, com a tradução para o castelhano de Ferdydurke. É uma tradução extraordinária que
Gombrowiz faz no Café Rex com a ajuda de Virgilio Piñera, um
grande escritor cubano que não sabe polonês, enquanto Gombrovich
não sabe castelhano. Com os dois falando em francês, é um pouco
como a experiência chinesa, e cada um no bar intervém na discussão.
É uma tradução completamente onírica. Um dos grandes
acontecimentos da história da literatura essa tradução em um bar, que
termina quase inventando o livro.
13. Gombrowicz aprende o castelhano em Retiro, nos bares do porto,
com marinheiros e prostitutas. Seu espanhol está ligado a espaços secretos e a certas formas baixas da vida social. Numa conferência,
critica a linguagem estereotipada da literatura e a sociabilidade
implícita da linguagem falsamente cultivada. “Quando teremos uma
linguagem para nossa ignorância?”, pergunta em seu diário. “Gostaria
de mandar todos os escritores ao estrangeiro, fora de seu próprio
idioma e dos ornamentos e filigranas verbais, para ver o que
acontecerá com eles.”
14. O escritor sempre fala numa língua estrangeira, dizia Proust, e sobre essa frase Deleuze construiu sua admirável teoria da literatura
menor preferida, a alemã de Kafka, um judeu tcheco que em sua casa
fala tcheco, mas escreve em alemão. A posição de Gombrowicz é mais
complicada: um homem maduro que se vê obrigado a falar como uma
criança. Em seu primeiro conto, “Memória da maturidade”,
Gombrowicz se colocou nessa posição.
15. O castelhano é uma língua menor na circulação cultural do século
xx. Quem sabe podemos dizer o mesmo do português. São línguas na
posição Gombrowicz diante das línguas dominantes, o francês e o inglês, onde parece correr a literatura. São línguas que constroem sua
grande tradição, mas nunca estão no centro da circulação literária.
16. Os livros percorrem grandes distâncias, e a tradução é uma
máquina voadora. Há uma questão geográfica, de mapas e fronteiras,
na circulação da literatura. Do polonês ao francês, passando pelo
espanhol, a tradução é o espaço dos grandes intercâmbios e das
circulações secretas. Ao se traduzir textos para criar outro registro de
leitura que se possa botar ao lado de obras muito institucionalizadas,
a tradução intervém na própria literatura.
a Ensaio publicado na Revista 18, do Centro de Cultura Judaica de São Paulo.
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Portuguesa de 1990, que entrou em vigor no Brasil em 2009.
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título original
Don Quijote de la Mancha
projeto gráfico penguin-companhia
Raul Loureiro, Claudia Warrak
capa
Alceu Chiesorin Nunes
preparação
Silvia Massimini Felix
revisão
Huendel Viana
Jane Pessoa
[ 2012]
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