Dom Quixote

Miguel de Cervantes · Capítulo 120 de 137

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Dom Quixote

Capítulo LIX

onde se conta um caso extraordinário,

que pode se considerar aventura, que aconteceu

a dom quixote

Da poeira e do cansaço que dom Quixote e Sancho ganharam da

destemperança dos touros, socorreu-os uma fonte clara e limpa que

acharam em meio a um arvoredo agradável. Sentaram-se na margem

dela os maltratados amo e criado, deixando livres o burro e

Rocinante, sem freio ou cabresto. Sancho acudiu às provisões de seus

alforjes e pegou o que costumava chamar de boia; dom Quixote

enxaguou a boca, lavou o rosto e então, com esse refrigério, seu

espírito desalentado recobrou o ânimo. Mas dom Quixote não comia,

por simples amargura, nem Sancho ousava tocar na comida que tinha

diante de si, por simples polidez, e esperava que seu senhor desse a

largada; vendo porém que, levado por seus devaneios, não se

lembrava de levar o pão à boca, não abriu a sua e, atropelando todas

as boas maneiras, começou a forrar o estômago de pão e queijo.

— Come, amigo Sancho — disse dom Quixote —, mantém a vida,

que te importa mais que a mim, e me deixa morrer nas mãos de meus

pensamentos e pelas forças de minhas desgraças. Eu nasci para viver

morrendo, Sancho, e tu para morrer comendo. Para que vejas que te

digo a verdade, considera meu caso: impresso em livros, famoso nas

armas, cortês em minhas ações, respeitado por príncipes, cortejado

por donzelas; mas, no fim das contas, quando esperava palmas,

triunfos e coroas, conquistados e merecidos por minhas intrépidas

façanhas, nesta manhã me vi pisoteado, humilhado e moído pelas

patas de animais vis e imundos. Essa consideração me embota os

dentes, paralisa-me os molares, tolhe-me as mãos e me tira de todo a vontade de comer, de modo que penso me deixar morrer de fome, a

mais cruel de todas as mortes.

— Então — disse Sancho, sem deixar de mastigar apressado —,

vossa mercê não aprova aquele ditado que diz: “Morra Marta, mas

morra farta”. Eu pelo menos não penso em me matar. Pelo contrário,

penso fazer como o sapateiro, que estica o couro com os dentes até que o faz chegar aonde quer: vou esticar minha vida comendo até

chegar ao fim que o céu tiver determinado. E saiba, senhor, que não há

maior loucura que essa que leva a querer se suicidar como vossa

mercê, e siga meu conselho: depois de comer, durma um pouco no

colchão verde desta grama e verá, quando acordar, como vai se sentir

mais aliviado.

Assim fez dom Quixote, achando que as alegações de Sancho eram

mais de filósofo que de mentecapto, e lhe disse:

— Se tu, meu caro Sancho, quiseres fazer por mim o que vou te dizer

agora, minhas aflições não seriam tão grandes e meu alívio seria mais

certo. Olha, enquanto eu durmo, obedecendo aos teus conselhos,

quem sabe tu te afastas um pouco daqui, deixas teu lombo ao ar livre

e, com as rédeas de Rocinante, te dás uns trezentos ou quatrocentos

açoites por conta dos três mil e tantos que deves dar pelo

desencantamento de Dulcineia? Pois é um infortúnio nada pequeno

que aquela pobre senhora esteja encantada por causa de teu descuido

e negligência.

— Há muito que dizer sobre isso — disse Sancho. — Agora vamos

dormir nós dois, e depois será o que Deus quiser. Saiba vossa mercê

que isso de um homem se açoitar a sangue-frio é coisa bem

desagradável, ainda mais se os açoites caem sobre um corpo

malcuidado e pior alimentado. Tenha paciência minha senhora

Dulcineia, porque, quando menos esperar, me verá feito um farrapo de

tanto açoite. E se há vida, há esperança; quero dizer, enquanto eu

estiver vivo, tenho esperança de cumprir o que prometi.

Dom Quixote agradeceu e comeu pouco, mas Sancho comeu muito;

depois ambos trataram de dormir, deixando em total liberdade e a seu

bel-prazer os dois inseparáveis amigos e companheiros, Rocinante e o

burro, pastando a grama abundante daquele campo. Acordaram um

tanto tarde, montaram de novo e seguiram seu caminho, apressando-

se para chegar a uma estalagem que se avistava dali a talvez uma

légua. Digo que era estalagem porque dom Quixote a chamou assim,

ao contrário do costume que tinha de chamar as estalagens de

castelos.

Quando chegaram, perguntaram ao hospedeiro se havia vaga; ele

respondeu que sim, com todo o conforto e comodidade que poderia se encontrar em Zaragoza. Apearam, e Sancho guardou suas provisões

num aposento de que o hospedeiro tinha dado a chave, depois levou

os animais à estrebaria, deu a ração deles e saiu para ver o que dom

Quixote, que estava sentado num banco de pedra perto da porta, lhe

ordenava, dando graças particulares ao céu por seu amo não ter

confundido a estalagem com um castelo.

Chegando a hora do jantar, recolheram-se ao quarto; Sancho

perguntou ao hospedeiro o que havia para comer e ele respondeu que

sua boca seria a medida — assim sendo, pedisse o que quisesse,

porque a estalagem estava provida de tudo: passarinhos do ar, aves da

terra e peixes do mar.

— Não precisa tanto — respondeu Sancho —, pois com uns dois

frangos assados teremos o suficiente, porque meu senhor é delicado e

come pouco, e eu não sou esganado demais.

O hospedeiro respondeu que não tinha frangos, porque os falcões

tinham acabado com eles.

— Então, senhor hospedeiro — disse Sancho —, mande assar uma franga bem macia.

— Franga? Minha nossa! — respondeu o hospedeiro. — Para dizer a

verdade, ontem mesmo enviei mais de cinquenta à cidade para vender.

Mas, fora frangas, vossa mercê pode pedir o que quiser.

— Então — disse Sancho — deve ter vitela ou cabrito.

— Por ora estamos em falta — respondeu o hospedeiro —, porque

acabaram, mas na semana que vem haverá de sobra.

— Estamos bem arrumados! — respondeu Sancho. — Mas aposto

que todas essas faltas vão se tornar sobras de ovos e toucinho.

— Por Deus — respondeu o hospedeiro —, que senso de humor tem

meu hóspede! Pois se lhe disse que não tenho frangas nem galinhas,

como quer que tenha ovos?! Se quiser, peça qualquer outro petisco,

mas não me venha com iguarias!

— Com os diabos, acabemos com isso! — disse Sancho. — Diga-me

logo o que tem e deixe de conversa fiada, meu senhor.

O hospedeiro disse:

— O que eu tenho para valer mesmo são duas patas de vaca que

parecem mãos de vitela, ou duas mãos de vitela que parecem patas de vaca; foram cozidas com grãos-de-bico, cebola e toucinho, e agora

estão lá dizendo: “Comei-me, comei-me!”.

— Estão no papo — disse Sancho. — Ninguém toque nelas, que

pagarei mais que qualquer um, pois eu não poderia esperar nada de

que gosto mais, e para mim tanto faz que sejam mãos ou patas.

— Ninguém as tocará — disse o hospedeiro —, porque meus outros

hóspedes, de tão importantes, trazem consigo cozinheiro, despenseiro

e mantimentos.

— Importante por importante — disse Sancho —, nenhum é mais

que meu amo; mas o ofício dele não permite despensas nem adegas:

nós nos estendemos no meio do campo e nos fartamos de bolotas ou

nêsperas.

Essa foi toda a conversa que Sancho teve com o dono da estalagem,

porque Sancho não quis seguir adiante e responder a ele, que já havia

perguntado que ofício ou que profissão era o de seu amo.

Enfim chegou a hora de jantar. Dom Quixote se recolheu ao seu

quarto e — quando o hospedeiro trouxe a panela, do jeito que estava — se sentou muito compenetrado para comer. Mas então parece que

ouviu dizer no quarto ao lado, separado apenas por um tabique fino:

— Por vossa vida, senhor dom Jerônimo, enquanto não nos trazem o

jantar, vamos ler outro capítulo da segunda parte de Dom Quixote de

la Mancha.1

Apenas ouviu seu nome, dom Quixote se pôs de pé e, com os

ouvidos alertas, escutou o que diziam dele; o tal dom Jerônimo

respondeu:

— A troco de que quer vossa mercê, senhor dom Juan, que leiamos

esses disparates? Não é possível que ninguém que tenha lido a

primeira parte da história de dom Quixote de la Mancha possa ter

prazer em ler essa segunda.

— Mesmo assim — disse dom Juan —, vale a pena lê-la, pois não há

livro tão ruim que não tenha alguma coisa boa. O que mais me

desagrada neste é que pinta dom Quixote já desapaixonado de

Dulcineia del Toboso.

Ouvindo isso, dom Quixote, cheio de raiva e de despeito, ergueu a

voz e disse:

— Eu farei entender, com armas iguais, que anda muito longe da

verdade qualquer um que disser que dom Quixote de la Mancha

esqueceu ou pode esquecer Dulcineia del Toboso; porque a sem-par

Dulcineia del Toboso nem pode ser esquecida nem esquecimento pode

caber em dom Quixote: sua divisa é a constância e sua profissão,

mantê-la com suavidade e sem ressalvas.

— Quem é que nos responde? — responderam do outro quarto.

— Quem pode ser — respondeu Sancho — senão o próprio dom

Quixote de la Mancha? Ele sustentará tudo o que disse e também o

que disser, pois a bom pagador as penhoras não doem.

Mal Sancho disse isso, entraram pela porta do quarto dois cavaleiros

— pois é o que pareciam —, e um deles, abraçando dom Quixote pelo

pescoço, disse:

— Nem vossa aparência pode desmentir vosso nome, nem vosso

nome deixa de confirmar vossa aparência: sem dúvida, senhor, sois o

verdadeiro dom Quixote de la Mancha, norte e farol da cavalaria

andante, apesar e a despeito desse que quis usurpar vosso nome e aniquilar vossas façanhas, como o fez o autor deste livro que aqui vos

entrego.

E pôs nas mãos dele um livro que seu companheiro trazia; dom

Quixote o segurou e, sem responder uma palavra, começou a folheá-

lo, e dali a pouco se virou, dizendo:

— No pouco que vi, achei três coisas neste autor dignas de censura.

A primeira são algumas palavras que li no prólogo; outra é a

linguagem aragonesa, porque escreve sem artigos; e a terceira, a que

mais confirma sua ignorância, é que erra e se afasta da verdade numa

coisa importante da história, porque aqui diz que a mulher de Sancho

Pança, meu escudeiro, se chama Mari Gutiérrez, e ela não se chama

assim, mas Teresa Pança.2 Se ele erra em parte tão importante, pode-se

temer que erre em todas as outras da história.

A isso, Sancho disse:

— Que boa bisca esse historiador! Com certeza ele deve saber tudo

de nossas aventuras, pois chama minha mulher Teresa Pança de Mari

Gutiérrez! Pegue o livro de novo, senhor, e olhe se eu ando por aí e se

me mudaram o nome.

— Pelo que ouvi dizer, meu amigo — disse dom Jerônimo —, sem

dúvida deveis ser Sancho Pança, o escudeiro do senhor dom Quixote.

— Sou eu mesmo — respondeu Sancho —, do que muito me

orgulho.

— Para dizer a verdade — disse o cavaleiro —, esse novo autor não

vos trata com a decência que se nota em vossa pessoa: pinta-vos como

esganado, tolo e um tanto ganancioso, e muito diferente do Sancho

que se descreve na primeira parte da história de vosso amo.

— Que Deus o perdoe — disse Sancho. — Devia ter me deixado em

meu canto, sem se lembrar de mim, porque quem pode pode, quem

não pode se sacode, e cada macaco no seu galho.

Os dois cavaleiros pediram a dom Quixote que passasse a seu

quarto, para jantar com eles, porque sabiam muito bem que naquela

estalagem não havia coisas dignas de sua pessoa. Dom Quixote,

sempre cortês, aceitou o convite e jantou com eles. Com poder de vida

e morte sobre a panela, Sancho sentou-se à cabeceira da mesa, e com

ele o hospedeiro, que não menos que Sancho era um grande admirador de mãos ou patas.

Durante o jantar, dom Juan perguntou a dom Quixote que notícias

tinha da senhora Dulcineia del Toboso: se havia se casado, se tinha

parido ou se estava grávida ou se, estando ainda donzela, se lembrava

das intenções amorosas do senhor dom Quixote, sem deixar de lado

seus pudores e bom decoro. Ao que ele respondeu:

— Dulcineia ainda é donzela e minhas intenções, mais firmes que

nunca; nossa correspondência, escassa como sempre; sua formosura,

transformada numa vil camponesa.

Em seguida foi contando tintim por tintim o encantamento da

senhora Dulcineia e o que lhe acontecera na caverna de Montesinos,

com a ordem que o sábio Merlin havia lhe dado para desencantá-la,

que foi a dos açoites de Sancho.

Foi extremo o prazer com que os dois cavaleiros ouviram dom

Quixote contar as estranhas peripécias de sua história, e ficaram

pasmos tanto por seus disparates como pelo modo elegante com que

os contava. Num instante o consideravam ajuizado e noutro,

mentecapto, sem saber determinar em que ponto ficava entre a

sensatez e a loucura.

Sancho acabou de jantar e, deixando o hospedeiro encharcado de

vinho, foi para o quarto onde estava seu amo. Ao entrar, disse:

— Que me matem, senhores, se o autor desse livro que vossas mercês

têm não quer ficar mal comigo: já que me chama de comilão, como

disseram, gostaria que ao menos não me chamasse também de

beberrão.

— Chama, sim — disse dom Jerônimo —, mas não me lembro bem

de que jeito. Agora, sei que foi com palavras grosseiras, além de

mentirosas, pelo que posso ver na fisionomia do bom Sancho, aqui

presente.

— Vossas mercês podem crer — disse Sancho — que o Sancho e o

dom Quixote dessa história não devem ser os mesmos que andam

naquela escrita por Cide Hamete Benengeli, que somos nós: meu amo,

valente, sábio e apaixonado, e eu, um tolo engraçado, nem comilão

nem beberrão.

— Acredito, sim — disse dom Juan. — Olhe, se fosse possível, devia-

se mandar que ninguém tivesse a ousadia de tratar das coisas do grande dom Quixote, a não ser Cide Hamete, seu primeiro autor,

como Alexandre mandou que ninguém tivesse a audácia de retratá-lo,

exceto Apeles.

— Que me retrate quem quiser — disse dom Quixote —, mas não

me maltrate, porque muitas vezes a paciência costuma acabar quando

a sobrecarregam de injúrias.

— Nenhuma — disse dom Juan — pode ser feita ao senhor dom

Quixote de que ele não possa se vingar, se não a detiver no escudo de

sua paciência, que em minha opinião é grande e forte.

Em conversas assim se passou grande parte da noite, e, embora dom

Juan quisesse que dom Quixote lesse mais um pouco o livro, para ver

como se saía, não puderam convencê-lo. Ele disse que o dava por lido

e o confirmava como completamente estúpido, sem falar que não

queria que o autor, se por acaso lhe chegasse ao conhecimento que o

havia tido em mãos, se alegrasse pensando que o tinha lido, pois o

pensamento deve se afastar das coisas obscenas e obtusas, quanto mais

os olhos.

Perguntaram a dom Quixote qual o destino de sua viagem.

Respondeu que Zaragoza, para participar das justas do arnês, que costumam se fazer todos os anos. Dom Juan lhe disse que aquele livro

novo contava como dom Quixote, fosse ele quem fosse, havia estado

lá num torneio, num episódio sem imaginação, pobre de divisas,

pobríssimo de trajes, mas rico de tolices.

— Por isso mesmo não porei os pés em Zaragoza — respondeu dom

Quixote — e assim mostrarei ao mundo a mentira desse historiador

moderno, e as pessoas poderão ver como eu não sou o dom Quixote

de que ele fala.

— Faz muito bem — disse dom Juan. — Depois, há outras justas em

Barcelona onde o senhor dom Quixote poderá mostrar seu valor.

— É o que penso fazer — disse dom Quixote. — Mas agora me

deem licença vossas mercês, pois já é hora de ir para a cama, e me

tenham na conta de um de seus maiores amigos e servidores.

— E a mim também — disse Sancho. — Talvez eu sirva para alguma

coisa.

Com isso se despediram, e dom Quixote e Sancho se retiraram para

seu quarto, deixando dom Juan e dom Jerônimo admirados com a mistura feita de sensatez e loucura, e acreditaram realmente que eles

eram os verdadeiros dom Quixote e Sancho, e não os que o autor

aragonês descrevia.

Dom Quixote madrugou e, dando batidas no tabique que o separava

do outro quarto, se despediu de seus ocupantes. Sancho pagou

magnificamente o hospedeiro e o aconselhou a elogiar menos a

despensa de seu estabelecimento ou a mantê-la mais farta.

 

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